segunda-feira, 3 de abril de 2017

Russell Means: "O Marxismo é tão estranho à minha cultura quanto o Capitalismo"

Tradução da transcrição do Discurso de Russell Means
Traduzido por: Jean A. G. S. Carvalho




O discurso a seguir foi feito por Russell Means em julho de 1980, antes de várias milhares de pessoas vindas do mundo inteiro se reunirem para o Black Hills International Survival Gathering [Encontro Internacional de Sobrevivência das Black Hills]. Esse é o discurso mais famoso de Russell Means.

Membro da tribo Oglala Lakota, ele é talvez a personalidade mais proeminente no Movimento Indígena Estadunidense, começando com a ocupação do Wounded Knee em 1973. Ele também teve uma carreira como ator começando com seu papel como Chingachgook no filme "O Último dos Moicanos" [Last of the Mohicans]. Ele faleceu em 22 de outubro de 2012, aos 72 anos.


A única abertura possível para um discurso desse tipo é que eu detesto escrever. O processo de escrever, por si só, sintetiza o conceito do pensamento "legítimo"; o que é escrito recebe uma importância que é negada àquilo que é dito. Minha cultura, a cultura Lakota, tem uma tradição oral; logo, eu rejeito ordinariamente a escrita. Ela é um dos meios dos quais o mundo branco dispõe para destruir as culturas dos povos não-europeus, a imposição duma abstração acima do relacionamento verbal dos povos.

Então, o que você lê aqui não é o que eu escrevi. É aquilo que eu disse, e que outra pessoa transcreveu. Vou permitir isso porque parece que o único modo de se comunicar com o mundo branco é por meio das páginas mortas e secas dum livro. Eu realmente não me importo se minhas palavras vão atingir os brancos ou não. Eles já demonstraram através de sua história que não podem ouvir, não podem ver; eles só podem ler (é claro, há exceções, mas as exceções apenas provam a regra).

Estou mais preocupado com o povo indígena estadunidense, com estudantes e outros que começaram a ser absorvidos pelo mundo branco por meio das universidades e outras instituições. 

Mas, ainda assim, há um tipo marginal de preocupação. É bastante possível crescer como um pele vermelha tendo uma mentalidade de branco; e se essa for uma escolha pessoal, que seja, então; mas eu não tenho utilidade pra essas pessoas. Isso é parte do processo de genocídio cultural sendo lançado pelos europeus contra os povos indígenas estadunidenses atuais Minha preocupação é para com aqueles índios americanos que escolhem resistir ao genocídio, mas que podem estar confusos sobre como proceder.

Você deve perceber que eu uso mais o termo índios estadunidenses do que os termos nativo-americanos, índios nativos ou povos ameríndios quando me refiro ao meu povo. Há certa controvérsia sobre tais termos, e, francamente, nesse ponto, eu acho isso absurdo. Primeiiro porque parece que o índio estadunidense tem sido rejeitado enquanto europeu em sua origem - o que é verdade. Mas todos os termos acima são europeus em origem; o único modo não-europeu para se referir a esses povos é chamando-os pelo nome: Lakota - ou, mais precisamente, Oglala, Brule, etc. -, Dineh, Miccousukee e todas as demais várias centenas de nomes tribais corretos.

Também há certa confusão sobre a palavra índio, uma crença errada de que isso se refere de algum modo a um país, a Índia. Quando Colombo aportou na costa caribenha, ele não estava procurando pelo país chamado Índia. Em 1492, os europeus chamavam aquele país de Hindustão. Dê uma olhada nos velhos mapas. Colombo chamou os povos tribais que ele havia encontrado de "índio", do termo italiano in Dio, significando "em Deus". 

É preciso um grande esforço por parte de cada índio-estadunidense/índio americano para não ser europeizado. A energia para esse esforço só pode vir de meios tradicionais, dos valores tradicionais retidos por nossos ancestrais. Ela deve vir do aro, das quatro direções, das relações; não pode vir das páginas de um livro ou de mil livros. Nenhum europeu pode jamais ensinar a um lakota a como ser um lakota, ou um hopi a sobre como ser u hopi. Um mestrado em "Estudos Indígenas", em "Educação" ou em qualquer outra coisa não pode tornar uma pessoa num ser humano ou fornecer conhecimento sobre os caminhos tradicionais. Essas coisas só podem te fornecer uma mentalidade e um exterior europeus.

Eu devo ser bem claro sobre uma coisa aqui, porque parece haver muita confusão sobre isso. Quando eu falo sobre europeus ou sobre mentalidade europeia, não estou permitindo falsas distinções. Não digo que de um lado há os subprodutos de alguns milhares de anos de desenvolvimento intelectual europeu genocida e reacionário, que é mau; e que do outro lado há algum desenvolvimento intelectual revolucionário que é bom. Estou me referindo, aqui, às chamadas teorias do Marxismo e Anarquismo e do "esquerdismo" em geral. Não acredito que essas teorias possam ser separadas do resto da tradição intelectual europeia. Realmente, é a mesma velha música.

O processo começou muito antes. Newton, por exemplo, "revolucionou" a Física e as chamadas Ciências Naturais, ao reduzir o universo físico a uma equação matemática linear. Descartes fez a mesma coisa com a cultura. John Locke fez o mesmo com a política, Adam Smith fez o mesmo com a economia. Cada um desses "pensadores" tomou uma peça da espiritualidade da existência humana e a converteu num código, numa abstração. 

Eles continuaram de onde o Cristianismo havia parado: eles "secularizaram" a religião cristã, como os escolásticos gostam de dizer - e, ao fazer isso, tornaram a Europa mais apta e pronta para agir como uma cultura expansionista. Cada uma dessas revoluções intelectuais serviu para abstrair ainda mais a mentalidade europeia, para remover a complexidade maravilhosa e a espiritualidade do universo, e substituir tudo isso por sequências lógicas; um, dois, três... Resposta!

Isso é o que se tornou aquilo que se chama de "eficiência" na mente europeia. Tudo o que é mecânico é perfeito; qualquer coisa que pareça funcionar no momento - ou seja, provar que o modelo mecânico é o certo - é considerada correta, mesmo quando é claramente falsa. Essa é a razão de a "verdade" mudar tão rápido na mentalidade europeia; as respostas que resultam desse tipo de processo são apenas paradas que apoiam os modelos mecânicos e os mantêm (os modelos) vivos.

Hegel e Marx eram herdeiros do pensamento de Newton, Descartes, Locke e Smith. Hegel finalizou o processo de secularização da teologia - e isso posto nos termos dele mesmo -, ele secularizou o pensamento religioso por meio do qual a Europa compreendia o Universo. Então, Marx colocou a filosofia de Hegel em termos de "materialismo", que é o mesmo que declarar que Marx "desespiritualizou" o trabalho de Hegel. Novamente: isso é dito nos termos do próprio Marx. 

E isso agora é visto como o potencial revolucionário futuro da Europa. Os europeus podem enxergar isso como algo revolucionário, mas os índios americanos veem isso simplesmente como mais do mesmo velho conflito europeu entre o ser e o ganhar. As raízes intelectuais de uma nova forma marxista de imperialismo europeu residem nas conexões de Marx - e de seus seguidores - com a tradição de Newton, Hegel e outros.

O ser é uma proposição espiritual. O ganhar é um ato material. Tradicionalmente, índios americanos sempre tentaram ser o melhor povo possível. Parte daquele processo espiritual foi (e é) abrir mão da riqueza, descartá-la para não ganhar. Ganho material é um indicador de falso status entre povos tradicionais, enquanto que, para os europeus, ele é a "prova de que o sistema funciona". Claramente, temos aqui duas visões completamente opostas sobre essa questão, e o Marxismo está no extremo oposto da visão indígena americana. Mas vamos olhar para a implicação maior disso; esse não é um mero debate intelectual.

A tradição europeia materialista de "desespiritualizar" o universo é muito semelhante ao processo mental que desumaniza outra pessoa. E quem parece ser melhor em desumanizar outros povos? E por quê? Soldados que presenciaram muitos combates aprendem a fazer isso ao inimigo antes de voltar ao combate. Assassinos fazem isso antes de cometer homicídio. Guardas nazistas das SS faziam isso para lidar com prisioneiros de campos de concentração. Policiais fazem isso. Líderes corporativos fazem isso com os trabalhadores que eles enviam para as minas de urânio e siderúrgicas. 

Políticos fazem isso com todo mundo à vista. E o que esse processo tem em comum com cada grupo que pratica essa desumanização é que ele torna justificável matar e destruir outros povos. Um dos mandamentos cristãos diz: "Não matarás", ao menos não os humanos; então, o truque é converter mentalmente as vítimas em não-humanos. Então, você pode proclamar a violação do seu próprio mandamento como uma virtude.

Em termos de desespiritualização do universo, o processo mental atua para que o ato de destruir o planeta se torne virtuoso. Termos como progresso e desenvolvimento são usados como disfarces, do mesmo modo como os termos vitória e liberdade são usados para justificar a carnificina no processo de desumanização. Por exemplo: um especulador de imóveis pode se referir a "desenvolvimento" de um pedaço de terreno como a abertura de uma pedreira de cascalho; desenvolvimento, aqui, significa destruição total e permanente, com a remoção da própria terra. Mas a lógica europeia ganhou algumas toneladas de cascalho com as quais mais terra pode ser "desenvolvida" por meio da construção de leitos de estrada. No final das contas, o universo inteiro é aberto - na visão europeia - a esse tipo de insanidade.

Mais importante aqui, talvez, é o fato de que os europeus não tem um sentimento de perda em tudo isso. No final das contas, seus filósofos desespiritualizaram a realidade; então, não há satisfação (para eles) a ser obtida por meio da observação da maravilha de uma montanha ou de um lago, ou da existência de um povo. Não: satisfação é medida em termos de ganho material. Ento, a montanha se torna mero cascalho, e o lago se torna mera fonte pra uma fábrica de refrigerante, e o povo ao redor é arregimentado aos centros de doutrinação que os europeus gostam de chamar de escolas.

Mas, cada nova peça daquele "progresso" só afasta mais o mundo real. Tome o combustível para as máquinas industriais como exemplo. Há pouco mais de dois séculos, quase todos usavam madeira - um item renovável, natural - como combustível para as necessidades humanas mais essenciais, para cozinhar e se aquecer. Depois, veio a Revolução Industrial e o carvão se tornou o combustível dominante, conforme a produção se tornou o imperativo social para a Europa. A poluição começou a se tornar um problema nas cidades, e a terra foi rasgada, aberta para fornecer carvão, enquanto que a madeira havia sempre sido simplesmente tomada ou cortada sem grandes custos ao ambiente.

Mais tarde, o petróleo se tornou o principal combustível, conforme a tecnologia de produção foi aperfeiçoada por uma série de "revoluções" científicas. A poluição aumentou drasticamente, e ninguém sequer sabia que custos ambientas bombear todo aquele petróleo pra fora do solo seriam causados a longo prazo. Agora, há uma "crise energética", e o urânio está se transformando no combustível dominante.

Ao menos os capitalistas podem se apoiar no desenvolvimento do urânio como combustível só até o nível no qual isso mostre um bom lucro. É a ética deles, e talvez eles comprem algum tempo. Os marxistas, por outro lado, só podem se escorar no desenvolvimento do urânio como combustível fazendo-o o mais rápido possível, simplesmente porque é o combustível mais "eficiente" disponível para a produção. Essa é a ética deles, e não consigo enxergar onde isso é preferível. Como eu disse, O marxismo está bem no meio da tradição europeia. É a mesma velha canção. 

Existe uma regra que pode ser aplicada aqui. Não se pode julgar a verdadeira natureza de uma doutrina revolucionária europeia com base nas mudanças que se propõe fazer dentro da estrutura de poder e da sociedade europeias. Você só pode julgá-la pelos efeitos que ela terá sobre os povos não-europeus. Isto porque todas as revoluções na história europeia têm servido para reforçar as tendências e as capacidades da Europa de exportar a destruição para outros povos, para outras culturas e para o próprio meio ambiente. Eu desafio alguém a apontar um exemplo onde isso não seja verdade.

Então, nós, como índios americanos, somos convidados a acreditar que uma "nova" doutrina revolucionária europeia como o marxismo vai reverter os efeitos negativos da história europeia sentidos nós. As relações de poder europeias devem ser ajustadas mais uma vez, e se supõe que isso vai tornar as coisas melhores para todos nós. Mas o que isto significa realmente? 

Agora mesmo, nós, que moramos na Reserva Pine Ridge, vivemos naquilo que a sociedade branca designou como "Área de Sacrifício Nacional". O que isto significa é que nós temos muitos depósitos de urânio por aqui, e a cultura branca (não nós) precisa deste urânio como material para a produção de energia. A maneira mais barata e mais eficaz para a indústria extrair e lidar com o processamento deste urânio é despejando os resíduos de subprodutos aqui, nos locais de escavação. Aqui mesmo onde nós vivemos.  

Este resíduo é radioativo e tornará a região inteira inabitável para sempre. Isso é considerado, pelo setor e pela sociedade branca que criou essa indústria, como um preço "aceitável" a se pagar pelo desenvolvimento dos recursos energéticos. Ao longo desse trajeto, eles também planejam drenar o lençol freático sob esta parte de Dakota do Sul, como parte do processo industrial, de modo que a região se torne duplamente inabitável. O mesmo tipo de coisa está acontecendo na terra dos Navajo e dos Hopi, na terra do Norte dos Cheyenne e dos Crow, e em outros lugares também. Cerca de 30% do carvão no Ocidente e metade dos depósitos de urânio nos Estados Unidos estão concentrados nessa reserva; então, não há nenhuma maneira pela qual isso possa ser considerado como uma questão menor. 

Nós estamos nos opondo à ideia de sermos transformados numa Área Nacional de Sacrifício. Etamos resistindo ao ato de sermos transformados num povo de sacrifício nacional. Os custos desse processo industrial, para nós, não são aceitáveis. É genocídio escavar urânio aqui e drenar o lençol freático - nem mais, nem menos. 

Agora, vamos supor que, em nossa resistência ao extermínio, comecemos a procurar por aliados (e nós os temos). Suponhamos, além disso, que tomássemos o marxismo revolucionário confiando em sua palavra: aquilo que pretende nada menos do que derrubar totalmente a ordem capitalista europeia que apresenta essa ameaça à nossa própria existência. Isso parece ser uma aliança natural para a qual os índios americanos devem entrar. Afinal, como dizem os marxistas, são os capitalistas que nos colocam como sacrifício nacional. Até aí, é verdade.

Mas, como eu tentei mostrar, esta "verdade" é muito ilusória. O marxismo revolucionário está comprometido com a perpetuação e o aperfeiçoamento do processo industrial que nos está destruindo. Ele só dá como alternativa "redistribuir" os resultados - o dinheiro, talvez - dessa industrialização para uma parte mais ampla da população. Ele se oferece para tirar riqueza dos capitalistas e distribuí-la ao redor; mas para isso, o marxismo deve manter o sistema industrial.  

Mais uma vez, as relações de poder na sociedade europeia terão de ser alteradas; mas, novamente, os efeitos sobre os povos indígenas americanos aqui (e os povos não-europeus em outros lugares) permanecerá o mesmo. Isto é muito parecido com o momento no qual o poder foi redistribuído da Igreja para o negócio privado, durante a chamada Revolução Burguesa. A sociedade europeia mudou um pouco, pelo menos superficialmente, mas a sua conduta em relação aos não-europeus continuou a mesma. Você pode ver o que a Revolução Americana de 1776 fez para os índios americanos. É a mesma velha história.

O marxismo revolucionário, assim como a sociedade industrial em outras formas, procura "racionalizar" todas as pessoas em relação à indústria - indústria máxima, produção máxima. É uma doutrina que despreza a tradição espiritual indígena americana, nossas culturas, nossas vidas. O próprio Marx nos chamou de "pré-capitalistas" e "primitivos". Pré-capitalista simplesmente significa que, em sua opinião, acabaríamos descobrindo o capitalismo e nos tornando capitalistas; temos sido sempre tratados como "economicamente retardados" em termos marxistas.  

A única maneira pela qual os índios americanos poderiam participar de uma revolução marxista seria juntar-se ao sistema industrial, tornar-se operários de fábrica ou "proletários", como Marx os chamava. Marx era bastante claro sobre o fato de que sua revolução só poderia ocorrer através da luta do proletariado, e que a existência de um sistema industrial maciço é uma pré-condição para uma sociedade marxista bem-sucedida.

Acho que há um problema com a linguagem aqui. Cristãos, capitalistas, marxistas, todos eles foram revolucionários em suas próprias mentes, mas nenhum deles realmente significa revolução. O que eles realmente querem dizer é continuação. Fazem o que fazem para que a cultura europeia possa continuar a existir e desenvolver-se de acordo com as suas necessidades.

Então, para que possamos realmente unir forças com o marxismo, nós, índios americanos, teríamos que aceitar o sacrifício nacional de nossa pátria; teríamos de cometer suicídio cultural e tornar-nos industrializados e europeizados.

Nesse ponto, eu tenho que parar e me perguntar se estou sendo duro demais. O marxismo tem algo de histórico. Essa história confirma minhas observações? Eu olho para o processo de industrialização na União Soviética, construído desde 1920, e vejo que esses marxistas fizeram o que a Revolução Industrial Inglesa levou 300 anos para fazer: os marxistas fizeram tudo isso em 60 anos. 

Vejo que o território da URSS costumava conter um número de povos tribais, povos que foram esmagados para dar lugar às fábricas. 

Os soviéticos referem-se a isto como a "Questão Nacional", a questão de se os povos tribais tinham o direito de existir como povos; E decidiram que os povos tribais eram um sacrifício aceitável para as necessidades industriais. Olho para a China e vejo a mesma coisa. Olho para o Vietnã e vejo marxistas impondo uma ordem industrial e erradicando as tribos indígenas da montanha.

Eu escuto o principal cientista soviético dizendo que, quando o urânio acabar, então outras alternativas serão encontradas. Vejo os vietnamitas assumindo uma usina nuclear abandonada pelos militares dos EUA. Eles a desmantelaram e destruíram? Não, eles a estão usando. Vejo a China explodindo bombas nucleares, desenvolvendo reatores de urânio e preparando um programa espacial para colonizar e explorar os planetas da mesma forma que os europeus colonizaram e exploraram este hemisfério. É a mesma velha música, mas talvez com um ritmo mais rápido desta vez. 

A declaração do cientista soviético é muito interessante. Ele sabe qual será esta fonte de energia alternativa? Não, ele simplesmente tem fé. A ciência encontrará um caminho. Ouço marxistas revolucionários dizendo que a destruição do meio ambiente, a poluição e a radiação serão controladas. E vejo-os agir de acordo com suas palavras. Eles sabem como essas coisas serão controladas? Não, eles simplesmente têm fé. A ciência encontrará um caminho. A industrialização é ótima e necessária. Como eles sabem disso? Fé.  

A ciência encontrará um caminho. A fé desse tipo sempre foi conhecida na Europa como religião. A ciência tornou-se a nova religião europeia para os capitalistas e marxistas; eles são verdadeiramente inseparáveis; eles são parte integrante da mesma cultura. Assim, tanto na teoria quanto na prática, o marxismo exige que os povos não-europeus abandonem completamente seus valores, suas tradições e sua existência cultural. Todos nós seremos viciados em ciência industrial numa sociedade marxista. 

Não creio que o próprio capitalismo seja realmente responsável pela situação na qual os índios americanos foram declarados como um "sacrifício nacional". Não, é a tradição europeia: a própria cultura europeia é a responsável por isso. O marxismo é apenas a mais recente continuação dessa tradição, não uma solução para ela. Aliar-se com o marxismo é aliar-se às mesmas forças que nos declaram como sendo um "custo aceitável".

Existe outra maneira. Há a maneira tradicional dos lakota e as maneiras dos povos indígenas americanos. É a maneira com a qual se sabe que os seres humanos não têm o direito de degradar a Mãe Terra; que existem forças além de tudo o que a mente europeia concebeu, que os seres humanos devem estar em harmonia com todas as relações ou as relações acabarão por eliminar a desarmonia.  

A ênfase desequilibrada dos seres humanos pelos seres humanos - a arrogância dos europeus de agir como se estivessem além da natureza de todas as coisas relacionadas - só pode resultar numa desarmonia total e um reajuste que reduz o tamanho dos seres humanos arrogantes, dá-lhes uma prova daquela realidade que está além de seu alcance (ou controle) e restaura a harmonia. Não há necessidade de uma teoria revolucionária para trazer isso à tona: é algo que está além do controle humano. Os povos da natureza deste planeta sabem sobre isso, mas não teorizam a esse respeito. A teoria é um resumo; nosso conhecimento é real.

Destilada em seus termos básicos, a fé europeia - incluindo a nova fé na ciência - é igual à crença de que o homem é Deus. A Europa sempre procurou um Messias, seja esse o homem Jesus Cristo, Karl Marx ou Albert Einstein. Os índios americanos sabem que isso é totalmente absurdo. Os seres humanos são as mais fracas de todas as criaturas, tão fracas que outras criaturas estão dispostas a desistir de sua carne para que possamos viver. Os seres humanos são capazes de sobreviver apenas através do exercício da racionalidade, uma vez que não têm as habilidades de outras criaturas para ganhar comida através do uso de presas e garras.

Mas a racionalidade é uma maldição, pois pode levar os seres humanos a esquecer a ordem natural das coisas, dum modo que as outras criaturas não fazem. Um lobo nunca esquece seu lugar na ordem natural. Os índios americanos podem esquecer. Os europeus quase sempre o fazem. Rezamos nosso agradecimento aos veados, às nossas relações, por nos permitirem comer a sua carne; os europeus simplesmente tomam a carne como certa e consideram os cervos como inferiores. Afinal, os europeus se consideram divinos em seu racionalismo e ciência. Deus é o Ser Supremo; todo o resto deve ser inferior.

Toda a tradição europeia, incluindo o marxismo, conspirou para desafiar a ordem natural de todas as coisas. A Mãe Terra tem sido abusada, os poderes foram abusados, e isso não pode durar para sempre. Nenhuma teoria pode alterar esse fato simples. A Mãe Terra vai retaliar, todo o ambiente vai retaliar, e os abusadores serão eliminados. As coisas fazem um círculo completo, de volta para onde eles começaram. Isso é revolução. E isso é uma profecia do meu povo, do povo Hopi e de outros povos corretos.

Índios americanos têm tentado explicar isso aos europeus há séculos. Mas, como eu disse anteriormente, os europeus se provaram incapazes de ouvir. A ordem natural ganhará, e os infratores morrerão, da mesma maneira que os cervos morrem quando ofendem a harmonia ao sobrepujar uma dada região. É apenas uma questão de tempo até que aquilo que os europeus chamam de "uma grande catástrofe de proporções globais" aconteça.  

É papel dos povos indígenas americanos, o papel de todos os seres naturais, sobreviver. Uma parte de nossa sobrevivência é resistir. Nós resistimos não para derrubar um governo ou para tomar o poder político, mas porque é natural resistir ao extermínio, para conseguir sobreviver. Nós não queremos dominar o poder sobre as instituições brancas; queremos que as instituições brancas desapareçam. Isso é revolução. 

Os índios americanos ainda estão em contato com essas realidades - as profecias, as tradições de nossos ancestrais. Aprendemos com os anciãos, com a natureza, com os poderes. E, quando a catástrofe acabar, nós, os povos indígenas americanos, ainda estaremos aqui para habitar o hemisfério. Eu não me importo se for apenas um punhado vivendo no alto dos Andes. Os índios americanos sobreviverão; a harmonia será restabelecida. Isso é revolução.

Neste ponto, talvez eu deva ser muito claro sobre outro assunto, que já deve estar esclarecido - como resultado do que eu disse. Mas na atualidade; então, eu quero martelar esse ponto. Quando eu uso o termo europeu, não estou me referindo a uma cor de pele ou a uma estrutura genética particular. O que estou a me referir é uma mentalidade, uma cosmovisão que é um produto do desenvolvimento da cultura europeia. As pessoas não são geneticamente codificadas para manter essa visão; elas são aculturadas a fim de mantê-la. O mesmo também é verdade para os índios americanos ou para os membros de qualquer cultura.

É possível para um índio americano compartilhar dos valores europeus, duma cosmovisão europeia. Temos um termo para designar essas pessoas; nós chamamos-lhes de "maçãs" - vermelhas na parte externa (genética) e brancas no interior (seus valores). Outros grupos têm termos semelhantes: os negros têm seus "oreos"; os hispânicos têm seus "cocos", e assim por diante. E, como eu disse antes, há exceções à norma branca: pessoas que são brancas no exterior, mas que não são brancas no interior. Não sei ao certo qual termo deve ser aplicado a elas, a não ser o de "seres humanos".

O que estou expondo aqui não é uma proposição racial, mas sim uma proposição cultural. Aqueles que, em última instância, defendem constantemente as realidades da cultura europeia e seu industrialismo são meus inimigos. Aqueles que resistem, que lutam contra essas coisas, são meus aliados, os aliados dos índios americanos. E eu não dou a mínima para como se chama a cor da sua pele. Caucasiano é o termo branco para a raça branca: europeu é um termo que eu oponho a esse.

Os comunistas vietnamitas não são exatamente o que você pode considerar como caucasianos em termos genéticos, mas, agora, eles estão agindo mentalmente como europeus. O mesmo vale para ps comunistas chineses, para os capitalistas japoneses ou os católicos bantu, ou para Peter "MacDollar na Reserva Navajo, ou para Dickie Wilson aqui em Pine Ridge. Não há racismo envolvido nisso, apenas um reconhecimento da mente e do espírito que compõem a cultura.

Em termos marxistas, suponho que sou um "nacionalista cultural". Eu trabalho primeiro com o meu povo, o povo tradicional lakota, porque temos uma visão de mundo comum e compartilhamos duma luta imediata. Além disso, eu trabalho com outros povos indígenas americanos tradicionais e novamente, por causa de uma certa uniformidade na cosmovisão e na forma de luta entre esses povos. Além disso, eu trabalho com qualquer um que tenha experimentado a opressão colonial da Europa e que resista à sua totalidade cultural e industrial. Obviamente, isso inclui os caucasianos genéticos que lutam para resistir às normas dominantes da cultura europeia. Os irlandeses e os bascos vêm imediatamente à mente, mas há muitos outros.

Eu trabalho principalmente com o meu próprio povo, com a minha própria comunidade. Outras pessoas que têm perspectivas não-européias devem fazer o mesmo. Eu acredito no slogan "confie na visão de seu irmão", embora eu goste de acrescentar as "irmãs" no negócio. Eu confio na comunidade e na visão culturalmente baseada em todas as raças que, naturalmente, resistem à industrialização e à extinção humana. Claramente, indivíduos brancos podem participar disso, apenas levando em consideração que eles têm consciência de que a continuação dos imperativos industriais da Europa não é uma visão, mas sim o suicídio das espécies. 

O branco é uma das cores sagradas dos povos de Lakota - vermelho, amarelo, branco e preto. As quatro direções. As quatro estações. Os quatro períodos de vida e envelhecimento. As quatro raças da humanidade. Misture o vermelho, amarelo, branco e preto juntos e você fica marrom, a cor da quinta corrida. Este é um ordenamento natural das coisas. Parece natural, portanto, trabalhar com todas as raças, cada uma com seu próprio significado, identidade e mensagem.Mas há um comportamento peculiar entre a maioria dos caucasianos. Assim que me torno crítico da Europa e de seu impacto sobre outras culturas, eles tomam a defensiva. Começam a se defender.  

Mas eu não estou atacando-os pessoalmente; estou atacando a Europa. Ao personalizar as minhas observações sobre a Europa, elas personalizam a cultura europeia, identificando-se com ela. Defendendo-se neste contexto, eles estão finalmente defendendo a cultura da morte. Esta é uma confusão que deve ser superada, e deve ser superada rapidamente. Nenhum de nós tem energia para desperdiçar com essas lutas falsas.

Os caucasianos têm uma visão muito mais positiva para oferecer à humanidade do que a da cultura europeia. Eu acredito nisso. Mas, para alcançar essa visão, é preciso que os caucasianos saiam da cultura europeia - ao lado do resto da humanidade - para ver a Europa pelo que ela é e por aquilo que ela faz.

Apegar-se ao capitalismo e ao marxismo e todos os outros "ismos" é simplesmente permanecer dentro da cultura europeia. Não há como evitar esse fato básico. Como fato, isso constitui uma escolha. Entenda que a escolha é baseada na cultura, não na raça. Entenda que escolher a cultura de industrialismo europeu é escolher ser meu inimigo. E entenda que a escolha é sua, não minha.

Isso me leva de volta à abordagem dos índios americanos que estão à deriva nas universidades, nas favelas das cidades e em outras instituições europeias. Se você está lá para resistir ao opressor de acordo com seus caminhos tradicionais, assim seja. Eu não sei como você consegue combinar as duas coisas, mas talvez você tenha sucesso. Mas mantenha seu senso de realidade. Cuidado para não acreditar que o mundo branco agora oferece soluções para os problemas com os quais nos confronta.  

Cuidado, também, para não permitir que as palavras dos povos nativos sejam retorcidas de acordo com as vantagens dos nossos inimigos. A Europa inventou a prática de transformar as palavras em si mesmas. Basta olhar para os tratados entre os povos indígenas americanos e os vários governos europeus para saber que isso é verdade. Tire sua força de quem você é.Uma cultura que confunde regularmente revolta com resistência não tem nada de útil para ensiná-lo e nada a oferecer-lhe como um modo de vida. Os europeus há muito perderam o contato com a realidade, se é que alguma vez estiveram em contato com quem vocês são enquanto indígenas americanos.

Então, suponho, para concluir isso, que devo declarar claramente que conduzir alguém ao marxismo é a última coisa que me vem à cabeça. O marxismo é tão estranho à minha cultura quanto o capitalismo e o cristianismo o são. De fato, posso dizer que não penso estar levando ninguém para lugar nenhum. Até certo ponto, tentei ser um "líder", no sentido com o qual a mídia branca gosta de usar esse termo, quando o Movimento Indígena Americano ainda era uma organização jovem. 

Isso resultou duma confusão que eu não tenho mais. Você não pode ser tudo para todos. Eu não proponho ser visto nesse estilo pelos olhos dos meus inimigos. Eu não sou um líder. Sou um patriota oglaga lakota. Isso é tudo o que eu quero e que eu preciso ser. E estou bastante confortável com quem eu sou.



Disponível originalmente em: Films For Action


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