quarta-feira, 5 de abril de 2017

Quem dita os rumos da Indústria da Moda e por que é um tabu criticá-los?

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Se há beleza no mundo, dentre várias manifestações, o corpo feminino certamente é uma delas. Mas é possível "alterar" essas manifestações naturais da beleza. Afinal, elas precisam ser "aprimoradas". A mulher é, por isso mesmo, o principal alvo de toda uma indústria da moda, que vai muito além dos ateliês e desfiles de moda, se alocando essencialmente no campo subjetivo, o campo das ideias e suas modulações.

A lógica capitalista abrange mesmo as formas de beleza e os conceitos de belo, criando padrões artificiais e "necessidades". Há uma forte propaganda industrial e midiática para que a mulher sinta-se desconfortável com seu próprio corpo e "deslocada" dum eixo estético, um padrão considerado como normal, "saudável" e recomendado (embora o marketing já englobe outras formas para lucrar em cima da representatividade, sem, contudo, abrir mão da padronização, seja ela como for).

Em toda indústria, há uma elite. A moda não é exceção: quem dita as tendências, roupas, estilos, padrões e principais produtos e lógicas de mercado é uma pequena elite, formada desde industriários que exploram mão de obra semi-escrava, donos de redes de lojas de grife, magnatas das comunicações, donos de salões e estilistas

Ideais de beleza mudam com o tempo. Basta observar qual era o modelo feminino essencialmente cultuado pelos povos ameríndios, pelo medievo europeu e pela Renascença (figuras femininas que eram consideradas como o suprassumo do belo e, hoje, estão "fora dos padrões" e medidas).

O ponto negativo não é a criação dum padrão estético, como criticam a maioria dos esquerdistas, já que isso se fez e se faz presente em todas as sociedades (basta observar o exemplo das gueixas, no Japão antigo). O problema principal é: que padrão tem sido fomentado? Este padrão é saudável, ou ao menos alcançável por vias positivas, ou exige uma série de medidas até mesmo letais? A segunda alternativa parece a mais condizente com a atualidade. 

Hidrogel, silicone, lipoaspiração, botox, dietas "milagrosas" - e inúmeros outros procedimentos e substâncias. São facilidades que permitem uma superação dos ciclos e processos naturais de envelhecimento do corpo. Beleza, nesse conceito industrial, nada mais é do que retardamento dos sinais visíveis da velhice. Tomemos o silicone como exemplo: há poucas décadas, seu uso estético era praticamente inexistente. As próteses em silicone criaram uma necessidade antes inexistente. 

Depois de sua popularização é que sua "necessidade" foi percebida pela maioria das mulheres, que passaram a "precisar" desse recurso (que é usado de forma brilhante para recuperar a autoestima de mulheres que sofrem com câncer de mama ou acidentes, mas que é largamente usado para fins meramente narcisistas).

Agora, a nova tendência é o oposto: seios naturais. Essa lógica mercantilista consiste em primeiro adulterar o natural e depois lançar novamente o natural como "tendência". É um joguete de estímulo e desestímulo, algo pavloviano[1]. O importante não são os procedimentos em si, mas sim o quanto se está disposto a gastar para seguir as "tendências" (ditames da elite da moda). Esses ditames, inclusive, pouco têm a ver com os gostos reais dos homens heterossexuais; são produtos de uma indústria da moda essencialmente homossexual. 

Quando se critica a "indústria da moda" e a "padronização", esse é um fator que permanece intocável, um tabu protegido pelo mantra da "homofobia". Mas a verdade não deixa de ser válida por conta do politicamente correto. Não se trata de criar uma "culpa aos gays", mas de dizer que o meio é essencialmente esse - e não está limitado a eles, já que industriários lucram com todo esse sistema de criação de demandas totalmente artificiais e nocivas à saúde feminina.

Thierry Mugler, Isaac Mizrahi, Michael Kors,  Patrick Kelly, Karl Lagerfeld, Roy Halston, Calvin Klein (aqui, mais direcionado à moda masculina), Valentino Garavani, Riccardo Tisci, Gianni Versace, John Galliano, Tom Ford, Marc Jacobs, Alexander McQueen, Rick Owens e Yves Saint Laurent, dentre vários outros, são a prova dessa regra. Ralph Lauren, Giorgio Armani e Oscar de la Renta são exceções (estilistas heterossexuais - ao menos é o que se supõe).

Não é exagero constatar que há uma predominância gay na elite da moda e que, salvo raras exceções, esse é um dos setores de propagação do liberalismo moral/cultural, servindo de anexo à tática de diluição dos próprios conceitos de beleza e arte. É a "quebra de padrões" (para criar novos padrões, obviamente). Pode não ser correto afirmar que toda a elite da indústria da moda seja essencialmente homossexual, mas a elite responsável por implantar essas tendências e ditar o rumo aos consumidores o é.

Há um custo alto decorrente dessa indústria estética. E esse custo não é medido apenas em vidas de mulheres que se perdem por distúrbios alimentares, suicídio e erros cirúrgicos, mas também na exploração de mão de obra (inclusive infantil). H&M, Nike, Walmart, GAP, La Senza, Victoria's Secret (aclamada por seus desfiles anuais), Disney, Sears, Joe Fresh, Marks and Spencer[2] são apenas alguns dos exemplos de indústrias da moda (ou que possuem algo no ramo) que exploram trabalho escravo. Por trás de todo o luxo dessa indústria, há miséria e profunda exploração (algo escondido pelas cortinas).


A indústria da moda se insere em todo o restante da lógica de capital, da hegemonia global (inclusive servindo como lobby para advogar todas as causas globalistas, servindo também como uma ferramenta de imperialismo cultural) e dos novos módulos de conquista cultural, mas, provavelmente pelo caráter de sua própria elite, é pouco criticada, ou criticada de maneira superficial (críticas que se limitam a denunciar a "padronização da beleza", mas que não citam suas origens nem vão muito além disso). Esse fator é simples de entender: os maiores críticos desses padrões (os esquerdistas) também são os maiores militantes do politicamente correto, que blinda os membros dessas elites por questões de cunho sexual estritamente subjetivas.

Essa também é uma área para todo o tipo de experimento social e comportamental, com total abertura ao bizarro. Toda a degradação ganha terreno de testes no mundo dos estilistas, como Rick Owens, que adota desfiles bizarros (como ordenar que suas modelos desfilem em posição 69[3]). O objetivo não é ditar apenas como a mulher deve se vestir, mas como ela deve se comportar - e isso é feito por meios explícitos e subliminares.

O Brasil flutua entre a 1ª e 2 posições no ranking mundial de números absolutos de procedimentos estéticos. Em média, uma mulher morre a cada mês no país em decorrência de procedimentos estéticos (e o número pode ser maior, já que há inúmeras clínicas clandestinas). As consequências de se promover padrões absurdamente doentios nunca são boas. Depressão, anorexia, bulimia, crises de identidade e outros problemas emocionais, psicológicos e psicossomáticos são recorrentes em modelos e profissionais da "beleza" em geral[4].


Basta observar: a massa das models parece algo amorfo, homogêneo. Mulheres com expressões geralmente mortas, frias; a quase que completa ausência de sinais de personalidade. A mesma indústria que mostra o quanto a mulher é "individual e única" é aquela que as transforma numa massa igualada. É essa a mágica do liberalismo moral e econômico: exaltar a individualidade e, ao mesmo tempo, promover a homogeneização. "Você é especial: como todas as outras".

Garotas que cada vez mais cedo (e inclusive na infância) são estimuladas por padrões midiáticos de uma beleza disforme, cada vez menos supridas por referenciais saudáveis (a nível familiar, escolar, religioso, social e psicológico) e cada vez mais insatisfeitas com o próprio corpo são conduzidas por uma indústria preocupada objetivamente com o lucro a qualquer custo - inclusive o da própria vida.

Fomentar uma estética de beleza pautada essencialmente na saúde (inclusive mental, cultural e espiritual), para além da própria aparência superficial, é tarefa essencial de qualquer sociedade que queira conservar não só a beleza, mas a essência humana que a motiva. Criticar a indústria da moda e da beleza sem a coragem de apontar quais são os maiores incentivadores dessa mesma indústria, por simples temor do politicamente correto, é mostrar falta de vontade de corrigir o problema exposto.

Há estilistas (e, como os citados, muitos deles também gays em sua maioria) que criam algo essencialmente saudável, mas que não têm espaço numa indústria elitizada. Esses mesmos que são marginalizados, estranhamente não recebem a bênção e o beneplácito da militância politicamente correta - e, quando críticos dessa mesma indústria, são igualmente demonizados, ou simplesmente passam despercebidos (como o caso de
James Scully[5]). 

É preciso redefinir a indústria da moda e sua lógica (o que não exige simples reformas, mas uma demolição completa dessa indústria). Isso não será possível enquanto a elite que domina esse setor não for denunciada.




Notas:

[1] Termo que se refere ao cientista Pavlov e seus estudos de condicionamento comportamental conduzidos com cães. Para Pavlov, os mesmos métodos aplicados aos cães poderiam ser usados para condicionar o comportamento humano. "Comportamento pavloviano" é o comportamento condicionado por estímulos (incitação e recompensa). 

[2] Os casos estão listados na seguinte lista: 10 Major Clothing Brands Caught in Shocking Sweatshop Scandals.

[3] A bizarrice pode ser vista aqui: Paris Fashion Week: Rick Owens Sends Models Down The Catwalk In 69 Position.

[4] A título de exemplo, tomamos o caso de Daul Kim, modelo sul-coreana que cometeu suicídio aos 20 anos de idade, quando trabalhava para uma agência na França. O caso dela não é um fato isolado, e é fácil encontrar eventos semelhantes no mundo da moda. A notícia pode ser encontrada no site da Independent: Depressed and lonely, model is found hanged.

[5] Apesar de não criar essencialmente uma "nova moda", James Scully denunciou tratamentos desumanos e racistas dados a várias modelos. Isso pode ser conferido nesta matéria: Casting Director Criticizes Fashion Industry For 'Cruel,' Racist Treatment Of Models.

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