terça-feira, 11 de abril de 2017

A Direita critica a mídia de massas - mas forma suas opiniões por meio dela

Por: Jean A. G. S. Carvalho





Há um paradoxo inerente à Direita: os direitistas consideram todo o aparato de mídia de massas (mais especificamente, os grandes canais e emissoras de jornalismo televisivo) como fruto daquilo que chamam de "marxismo cultural". Independente dos nomes pelos quais designam esses aparatos, acreditam que são essencialmente propagadores de mentira, desinformação, manipulação e adulteração consistente dos fatos.

Nesse ponto, estão certos, e partilhamos dessa compreensão. Mas é preciso observar que o direitista médio é essencialmente o acéfalo manipulado pela mesma mídia de massas que tanto critica. Especialmente em assuntos de geopolítica e política internacional, o direitista forma suas opiniões bebendo da mesma fonte que tanto condena: os grandes canais da mídia ocidental - e da própria mídia brasileira, que apenas traduz as informações de canais como CNN, Fox News e BBC.

Basta verificar a opinião da massa da Direita brasileira sobre a guerra na  Síria: é a reprodução daquilo que é divulgado por esses canais. Não só em relação à Síria, mas basicamente em relação a todos os fenômenos internacionais, a opinião do direitista é formada por esse antro de desinformação.

A rejeição do direitista à mídia "marxista cultural" é seletiva: enquanto essa mídia reforça todos os ideais dessa Direita, essencialmente em sua ânsia pela hegemonia cultural, econômica e política dos Estados Unidos e daquilo que se compreende por "Ocidente", o direitista médio não só acredita cegamente nessa mídia, mas  repete como mantra suas declarações, sem o "espírito crítico" e "cético" que tanto faz questão de endossar.

Esse criticismo só é presente quando as afirmações dessa estrutura de mídia contradizem as concepções e ideias do direitista. Esse não é um fenômeno essencialmente de Direita ou restrito a ela: o esquerdista médio também critica a estrutura de mídia enquanto adula essa mesma estrutura quando ela reforça seus ideais (principalmente no campo moral, cultural). Reforçamos aqui a crítica especificamente à Direita porque é exatamente ela que se dispõe a "lutar contra o establishment" e o "sistema esquerdista"; ou seja, a Direita não critica a mídia de massas por um viés especialmente econômico, classista ou materialista (como a Esquerda o faz), mas cultural, espiritual, religioso, moral e ético.

Essa "espiritualidade", essa ética e essa moral são elementos ignorados, esquecidos quando a questão é justamente duvidar desses modelos de mídia. Além disso, o direitista não propõe métodos e canais alternativos de mídia e difusão do conhecimento, limitando-se a criar think tanks e canais que apenas servem como repetidores, caixas de ressonância dos canais mais poderosos em relação à geopolítica e à economia.

O discurso pró-EUA é especialmente reforçado, repetido e glorificado pela Direita, sem qualquer critério, crítica ou ceticismo. Inclusive, a atividade crítica em relação a essas informações, tão elogiada pela Direita, é demonizada quando a questão se trata de adotar outros posicionamentos e análises alternativas à retórica dessa mídia pró-EUA.

O direitista é, em essência, o repetidor de um discurso, de uma narrativa essencialmente criada para defender o mesmo establishment que ele diz odiar, as ferramentas de perpetuação da destruição dos valores que supostamente lhe são tão "sagrados".



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