quinta-feira, 23 de março de 2017

O Discurso de Putin em Munique: Crítica ao mundo Unipolar

Transcrição do discurso de Putin em Munique[1]
Tradução e notas: Jean A. G. S. Carvalho



Muito obrigado, sra. chanceler federal[2], sr. Teltschik[3], senhoras e senhores. Sou verdadeiramente grato por ter sido convidado para tal conferência de representantes, na qual se reunem políticos, oficiais militares, empreendedores e especialistas de mais de 40 nações.

A estrutura dessa conferência me permite evitar polidez excessiva e também a necessidade de falar em termos diplomáticos políticos, que são agradáveis, mas vazios. O formato dessa conferência me permitirá dizer aquilo que eu realmente penso sobre os problemas de segurança internacional. E, se meus comentários parecerem indevidamente polêmicos, mordazes ou inexatos para meus colegas, peço-lhes que não fiquem irritados comigo. Afinal de contas, isso é só uma conferência. E eu espero que, depois dos primeiros dois ou três minutos de discurso, o sr. Teltshik não acenda a luz vermelha aqui.

Contudo, é bem sabido que a segurança internacional abrange muito mais do que problemas relacionados à estabilidade militar e política. Também envolve a estabilidade da economia global, a superação da pobreza, segurança econômica e desenvolvimento de um diálogo entre civilizações. Essa característica universal e indivisível da segurança é expressa como o princípio básico de que "a segurança de um é a segurança de todos".

Como Franklin D. Roosevelt disse durante os primeiros dias do romper da Segunda Guerra Mundial: "Quando a paz é quebrada em qualquer parte, a paz de todos os países ao redor do mundo está em perigo". Essas palavras continuam válidas ainda hoje. Acidentalmente, o tema da nossa conferência - crise global, responsabilidade global - exemplifica isso. 

Há apenas duas décadas, o mundo estava ideológica e economicamente dividido, e foi o grande potencial estratégico de dois superpoderes que assegurou a segurança global. A indiferença global empurrou os mais agudos problemas sociais e econômicos para as margens da comunidade internacional e da agenda mundial. E, como em qualquer outro conflito, a Guerra Fria nos deixou com munições ativas, falando de modo figurado.

Estou me referindo aos estereótipos ideológicos, padrões duplos e outros aspectos típicos do bloco de pensamento da Guerra Fria. O mundo unipolar que foi proposto depois da Guerra Fria também não se concretizou. A história da humanidade certamente passou por períodos unipolares, e testemunhou aspirações à supremacia mundial. Há alguma coisa que não tenha acontecido na história mundial?

Contudo, o que é um mundo unipolar? Não importando o meio pelo qual alguém deseje embelezar esse termo, no fim das contas, isso se refere a um tipo de situação, claramente um centro de autoridade, de força, de tomada de decisões. É o mundo no qual há um só mestre, um soberano. E, no fim das contas, isso é pernicioso não só para aqueles que estão dentro desse sistema, mas também para a soberania em si mesma, já que isso se destrói por dentro.

E, certamente, isso nada tem a ver com democracia. Pois, como sabem, democracia é o poder da maioria à luz dos interesses e opiniões da minoria. Acidentalmente, a Rússia - nós - está sendo continuamente ensinada sobre o que é democracia. Mas, por alguma razão, aqueles que nos ensinam sobre ela são os mesmos que não desejam aprender sobre democracia.

Considero que o modelo unipolar não é só inaceitável, mas também impraticável no mundo atual. E isso não é só porque, caso houvesse uma única liderança individual no mundo atual - e, precisamente, no mundo atual -, então os recursos militares, políticos e econômicos não seriam o bastante. O que é mais importante é que esse modelo, em si mesmo, é falho, porque em sua base não há nem podem haver fundações morais para a civilização moderna.

Além disso, o que está acontecendo no mundo atual - e nós só começamos a discutir isso - é uma tentativa de introduzir precisamente esse conceito nos assuntos internacionais, o conceito de um mundo unipolar. E no que isso resulta?

Ações unilaterais e, frequentemente, ilegítimas, não têm resolvido nenhum problema. Além disso, elas têm causado novas tragédias humanas e criado novos centros de tensão. Julguem por si mesmos: guerras, bem como conflitos locais e regionais, não diminuíram. O sr. Teltschik mencionou isso muito gentilmente. E o número de pessoas que morrem nesses conflitos não é menor - aliás, mais gente está morrendo agora do que antes. Significativamente mais, significativamente mais!

Hoje, estamos testemunhando um uso imenso e quase incontável de força - força militar - nas relações internacionais, força essa que está mergulhando o mundo num abismo de conflitos permanentes. Como resultado, não temos força suficiente para achar uma solução compreensiva para nenhum desses conflitos. Encontrar uma base política também se torna algo impossível.

Estamos vendo um desdém maior e maior em relação aos princípios básicos da lei internacional. E normas legais e independentes são, como matéria de fato, se tonando gradativamente mais próximas de um sistema legal de Estado. Um Estado e, é claro, mais do que qualquer outro os Estados Unidos, tem ultrapassado suas fronteiras nacionais em todos os aspectos. Isso é visível nas ações econômicas, culturais, políticas e educacionais, que são impostas às outras nações. Bem, quem é que gosta disso? Quem é que está contente com isso?

Nas relações internacionais, vemos gradativamente o desejo de resolver dadas questões de acordo com as chamadas políticas de expediente, baseados no clima político atual. E, é claro, isso é extremamente perigoso. Isso resulta no fato de que ninguém se sente seguro. Quero enfatizar isso: ninguém se sente seguro! Porque ninguém consegue sentir que a lei internacional é como um muro de pedra pronto a proteger. É claro, esse tipo de política estimula uma corrida armamentista.

A dominação da força inevitavelmente encoraja certo número de países a adquirir armas de destruição em massa. Além disso, ameaças significativamente novas - apesar de já serem bastante conhecidas - têm aparecido, e, hoje, ameaças como o terrorismo ganharam um caráter global. Estou convencido de que atingimos um momento decisivo no qual devemos pensar seriamente sobre a arquitetura da segurança global.

E devemos prosseguir procurando por um equilíbrio razoável entre os interesses de todos os que participam do diálogo internacional. Especialmente porque o panorama internacional é tão variado e as mudanças são muito rápidas (mudanças à luz do desenvolvimento dinâmico num número inteiro de países e regiões).

A sra. chanceler já mencionou isso. A soma do montante do PIB de nações como a Índia e a China e seu poder de compra já superam o dos Estados Unidos. E um cálculo similar do PIB dos países que compõem o BRIC - Brasil, Rússia, Índia e China[4] - ultrapassa o PIB cumulativo da União Europeia inteira. E, de acordo com especialistas, essa diferença só vai aumentar com o tempo.

Não há razão para duvidar de que o potencial econômico dos novos centros do crescimento econômico global irá inevitavelmente ser convertido em influência política, fortalecendo a multipolaridade. Aliado a isso, o papel da diplomacia multilateral está crescendo significativamente. A necessidade de princípios como abertura, transparência e revisibilidade na política é algo incontestável, e o uso da força deveria ser uma medida realmente excepcional, comparável à aplicação da pena de morte nos sistemas judiciais de certos Estados.

Contudo, hoje estamos testemunhando a tendência oposta, nomeadamente a da situação na qual países que chegam até a proibir a pena de morte até mesmo para assassinos e outros criminosos perigosos estão participando abertamente de operações militares que são difíceis de se considerar como legítimas. E, como questão de fato, esses conflitos estão matando gente - centenas e milhares de civis!

Mas, ao mesmo tempo, a questão que se levanta é: nós devemos ser indiferentes e distantes aos vários conflitos internos que ocorrem dentro dos países, aos regimes autoritários, aos tiranos e à proliferação de armas de destruição em massa? Como matéria de fato, isso também esteve no centro da questão colocada por nosso colega, o sr. Lieberman[5], dirigida à chanceler federal. Se entendi corretamente suas questões (direciono-me ao sr. Lieberman) então, é claro que essa é uma questão séria!

Podemos ser observadores indiferentes em vista do que está acontecendo? Tentarei responder suas questões também: é claro que não. 

Mas nós temos os meios para responder essas ameaças? Certamente temos. Basta olhar para a história recente. Nosso país não teve uma transição pacífica para a democracia? De fato, testemunhamos uma transformação pacífica do regime soviético - uma transformação pacífica! E que regime! E com um número imenso de armas, incluindo armas nucleares! Por que devemos começar, agora, a bombardear e disparar em cada oportunidade disponível? É o que se deve fazer quando, sem ameaça de destruição mútua, não temos cultura política suficiente, respeito aos valores democráticos e à lei? 

Estou convencido de que o único mecanismo pelo qual se pode tomar decisões sobre o uso da força militar como último recurso é a Carta Régia das Nações Unidas. E, em conexão com isso, ou eu não compreendi o que o nosso colega, o ministro da defesa italiano[5], disse, ou o que ele disse foi impreciso. De qualquer modo, eu compreendi que o uso da força só pode ser legítimo quando a decisão é tomada pela OTAN[6], pela União Europeia ou a ONU. Se ele realmente pensa assim, então temos pontos de vista diferentes. Ou eu não ouvi corretamente.

O uso da força só pode ser considerado legítimo se a decisão é sancionada pela ONU. E nós não precisamos substituir a OTAN ou a UE pela ONU. Quando a ONU vai verdadeiramente unir as forças da comunidade internacional e realmente reagir aos eventos nos vários países? Só quando deixarmos para trás esse desdém pela lei internacional, então a situação poderá mudar. De outro modo, a situação vai simplesmente resultar num beco sem saída, e o número de erros sérios será multiplicado. Junto com isso, é necessário ter certeza de que a lei internacional tem um caráter universal, tanto no conceito quanto na aplicação de suas normas.

E não devemos nos esquecer e que ações políticas democráticas necessariamente andam lado a lado com a discussão e o processo laborioso de tomada de decisões.    

Caros senhores e senhoras! O perigo potencial da desestabilização das relações internacionais está ligado à estagnação óbvia da questão do desarmamento. A Rússia apoia a renovação do diálogo sobre essa questão importante. É importante conservar o padrão internacional legal relativo à destruição de armamentos e, assim, assegurar a continuidade do processo de redução de armas nucleares. 

Juntamente com os Estados Unidos da América, concordamos em reduzir nossas capacidades de mísseis nucleares estratégicos para entre 1700 a 2000 ogivas nucleares a menos, até 31 de dezembro de 2012. A Rússia pretende cumprir estritamente as obrigações com as quais concordou. Esperamos que os nossos parceiros também atuem de forma transparente e se abstenham de deixar de lado uma duas centenas de ogivas nucleares supérfluas para um dia chuvoso.

E, se hoje o novo ministro de defesa estadunidense declara que os EUA não vão esconde essas armas supérfluas em galpões  ou, como pode-se dizer, debaixo dum travesseiro ou do cobertor, então eu sugiro que todos nós nos levantemos e saudemos essa declaração. Seria uma declaração muito importante. 

A Rússia adere estritamente e pretende aderir ainda mais ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, bem como ao regime de supervisão multilateral de tecnologias de mísseis. Os princípios incorporados nesses documentos são universais. Conectado a isso, gostaria de lembrar que nos anos 1980, a URSS e os Estados Unidos assinaram um acordo para destruir todo um arsenal de mísseis de pequeno e médio alcance, mas esses documentos não tinham um caráter universal.

Hoje, muitos outros países têm esses mísseis, incluindo a República Popular Democrática da Coreia, a República da Coreia, a Índia, o Irã, o Paquistão e Israel. Muitos países estão trabalhando nesses sistemas e planejam incorporá-los como parte de seus arsenais. E só os Estados Unidos e a Rússia têm a responsabilidade de não criar tais sistemas de armas. É óbvio que, nessas condições, devemos pensar em garantir nossa própria segurança.

Ao mesmo tempo, é impossível sancionar o surgimento de novas armas desestabilizadoras de alta tecnologia. Escusado será dizer que isso se refere a medidas para evitar uma nova área de confrontação, especialmente no espaço exterior. Star wars não é mais uma fantasia, é uma realidade. Em meados da década de 1980, nossos parceiros estadunidenses já podiam interceptar seu próprio satélite.
 

Na opinião da Rússia, a militarização do espaço externo poderia ter consequências imprevisíveis para a comunidade internacional, e provocar nada menos do que o início de uma era nuclear. E temos vindo mais de uma vez para apresentar iniciativas destinadas a impedir o uso de armas no espaço exterior.

Hoje, gostaria de lhes dizer que preparamos um projeto de acordo sobre a prevenção da utilização de armas no espaço. E, num futuro próximo, isso será enviado para os nossos parceiros como uma proposta oficial. Vamos trabalhar juntos nisso.
 
 
Os planos para expandir certos elementos do sistema de defesa antimísseis para a Europa não podem deixar de nos preocupar. Quem precisa dar o próximo passo para aquilo que seria, neste caso, uma inevitável corrida armamentista? Eu duvido profundamente que os próprios europeus o dariam.

Armas de mísseis com alcance de cerca de cinco a oito mil quilômetros, que realmente representam uma ameaça para a Europa, não existem em nenhum dos chamados "países problemáticos". E, no futuro próximo e em certas perspectivas, isso não vai acontecer e nem sequer é previsível. E qualquer lançamento hipotético de, por exemplo, um foguete norte-coreano para o território estadunidense através da Europa Ocidental, obviamente contradiz as leis da balística. Como dizemos na Rússia, seria como usar a mão direita para chegar à orelha esquerda.

E, aqui na Alemanha, não posso deixar de mencionar a lamentável condição do Tratado sobre as Forças Armadas Convencionais na Europa.
O Tratado Adaptado das Forças Armadas Convencionais na Europa foi assinado em 1999. Ele levou em consideração uma nova realidade geopolítica, nomeadamente a da eliminação do bloco de Varsóvia. Sete anos se passaram e apenas quatro Estados ratificaram este documento, incluindo a Federação Russa.

Os países da OTAN declararam abertamente que não ratificariam este tratado, incluindo as disposições sobre restrições de flanco (sobre a implantação de certo número de forças armadas nas zonas de flanco) até que a Rússia remova suas bases militares na Geórgia e na Moldávia. Nosso exército está saindo da Geórgia, mesmo de acordo com um cronograma acelerado. Resolvemos os problemas que tivemos com nossos colegas georgianos, como todos sabem.  


Ainda há 1.500 militares na Moldávia que estão realizando operações de manutenção da paz e protegendo armazéns com munições que restaram da época soviética. Estamos discutindo constantemente esta questão com o sr. Solana[7] e ele conhece a nossa posição. Estamos prontos para continuar a trabalhar nesta direção.

Mas o que está acontecendo nesse mesmo tempo? Simultaneamente, as chamadas bases estadunidenses flexíveis na linha de frente contam com até cinco mil homens cada. Acontece que a OTAN colocou suas forças de primeira linha em nossas fronteiras, mesmo que continuemos a cumprir estritamente as obrigações do tratado e não tenhamos reagido a essas ações.

Acho que é óbvio que a expansão da OTAN não tem qualquer relação com a modernização da própria Aliança, nem com a garantia da segurança na Europa. Ao contrário, ela representa uma séria provocação que reduz o nível de confiança mútua. E temos o direito de perguntar: contra quem se destina essa expansão? E o que aconteceu com as garantias que nossos parceiros ocidentais fizeram após a dissolução do Pacto de Varsóvia[8]? Onde estão essas declarações hoje? Ninguém mais se lembra delas. Mas vou me permitir relembrar a este público o que foi dito. 

Gostaria de citar o discurso do então secretário-geral da OTAN, Sr. Woerner[9], feito em Bruxelas no dia 17 de maio de 1990. Naquela época, ele havia dito que "o fato de estarmos prontos a não colocar um exército da OTAN fora do território alemão dá à União Soviética uma firme garantia de segurança ". Onde estão essas garantias?

As pedras e blocos de concreto do Muro de Berlim foram distribuídos há muito tempo como souvenirs. Mas não devemos esquecer que a queda do Muro de Berlim foi possível graças a uma escolha histórica - também feita pelo nosso povo, o povo da Rússia -, uma escolha a favor da democracia, da liberdade, da abertura e de uma parceria sincera com todos os membros da grande família europeia.

E agora eles estão tentando impor novas linhas divisórias e paredes em nós? Essas paredes podem ser virtuais, mas elas ainda dividem aqueles que atravessam o nosso continente. E é possível exigirmos mais uma vez um prazo de muitos anos e décadas, bem como até mesmo de várias gerações de políticos, para dissimular e desmantelar esses novos muros?

Senhoras e senhores!
Somos inequivocamente favoráveis ao reforço do regime de não-proliferação. Os princípios legais internacionais atuais nos permitem desenvolver tecnologias para fabricar combustível nuclear para fins pacíficos. E muitos países, com boas razões para fazê-lo, querem criar sua própria energia nuclear como base para sua independência energética. Mas também entendemos que essas tecnologias podem ser rapidamente transformadas em armas nucleares. 

Isso cria sérias tensões internacionais. A situação em torno do programa nuclear iraniano serve como um exemplo claro disso. E, se a comunidade internacional não encontrar uma solução razoável para resolver este conflito de interesses, o mundo continuará a sofrer crises semelhantes e desestabilizadoras, porque há mais países limiares do que simplesmente o Irã. Todos sabemos disso. Vamos lutar constantemente contra a ameaça da proliferação de armas de destruição em massa.

No ano passado, a Rússia apresentou a iniciativa de estabelecer centros internacionais para o enriquecimento de urânio. Estamos abertos à possibilidade de que tais centros não apenas sejam criados na Rússia, mas também em outros países onde exista uma base legítima para o uso da energia nuclear civil. Os países que querem desenvolver sua energia nuclear poderiam garantir que receberão combustível através da participação direta nesses centros. E os centros, obviamente, operariam sob rigorosa supervisão da AIEA[10].

As últimas iniciativas apresentadas pelo presidente estadunidense George W. Bush estão em conformidade com as propostas russas. Considero que a Rússia e os EUA estão objetiva e igualmente interessados no reforço do regime de não-proliferação de armas de destruição em massa e da sua implantação.

Neste contexto, falarei mais em detalhe sobre a cooperação energética internacional. A sra. chanceler também falou sobre isso brevemente - ela mencionou, tocou nesse tema. No setor da energia, a Rússia tenciona criar princípios de mercado uniformes e condições transparentes para todos. É óbvio que os preços da energia devem ser determinado pelo mercado em vez de ser objeto de especulação política, pressão econômica ou chantagem.Estamos abertos à cooperação.  

Empresas estrangeiras participam de todos os nossos principais projetos de energia. De acordo com diferentes estimativas, até 26% da extração de petróleo na Rússia - e por favor, pense sobre esse aspecto - é feito por capital estrangeiro. Experimente só: tente me mostrar um exemplo semelhante onde os negócios russos participam extensivamente em setores econômicos-chave nos países ocidentais. Esses exemplos não existem! Não existem tais exemplos.

Gostaria também de recordar sobre a paridade dos investimentos estrangeiros na Rússia e os que a Rússia realiza no estrangeiro. A paridade é de quinze para um. E aqui você tem um exemplo óbvio da abertura e estabilidade da economia russa. A segurança econômica é o setor no qual todos devem aderir a princípios uniformes. Estamos prontos para competir de forma justa.

Por essa razão, mais e mais oportunidades estão aparecendo na economia russa. Especialistas e nossos parceiros ocidentais avaliam objetivamente essas mudanças. Como tal, o rating de crédito soberano da OCDE[11] da Rússia melhorou, e a Rússia passou do quarto para o terceiro grupo em classificação. E hoje, em Munique, gostaria de aproveitar esta ocasião para agradecer aos nossos colegas alemães por sua ajuda na decisão acima.

Além disso. Como sabem, o processo de adesão da Rússia à OMC[12] chegou às suas fases finais. Gostaria de salientar que, durante longas e difíceis conversações, ouvimos palavras sobre liberdade de expressão, de comércio livre e de possibilidades iguais mais de uma vez, mas, por alguma razão, exclusivamente em relação ao mercado russo.
 

E ainda há um tema mais importante que afeta diretamente a segurança global. Hoje, muitos falam sobre a luta contra a pobreza. O que está realmente acontecendo nesta esfera? Por um lado, recursos financeiros são alocados para programas de ajuda aos países mais pobres do mundo - e, às vezes, são recursos financeiros substanciais. Mas, para ser honesto - e muitos aqui também sabem disso -, essas somas são mais ligadas ao desenvolvimento das empresas dos países doadores. 

 Por outro lado, os países desenvolvidos mantêm simultaneamente os seus subsídios agrícolas e limitam o acesso de alguns países aos produtos de alta tecnologia.Vamos falar em termos claros: uma mão distribui ajuda de caridade e por outro lado não só preserva atraso econômico, mas também colhe os lucros.  

A crescente tensão social em regiões deprimidas resulta inevitavelmente no crescimento do radicalismo, do extremismo, alimentando o terrorismo e os conflitos locais. E se tudo isso acontecer em, digamos, uma região como o Oriente Médio, onde há cada vez mais a sensação de que o mundo em geral é injusto, então há o risco de desestabilização global.É óbvio que os países líderes mundiais devem enxergar essa ameaça. E que, portanto, eles deveriam construir um sistema mais democrático e mais justo de relações econômicas globais, um sistema que daria a todos a chance e a possibilidade de se desenvolverem.

Senhoras e senhores deputados, falando na Conferência sobre Política de Segurança, é impossível não mencionar as atividades da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE)[13]. Como é bem sabido, esta organização foi criada para examinar todos - enfatizo isso -, todos os aspectos da segurança: militar, política, econômica, humanitária e, especialmente, as relações entre essas esferas.O que vemos acontecer hoje? Vemos que esse equilíbrio é claramente destruído. As pessoas estão tentando transformar a OSCE num instrumento vulgar destinado a promover os interesses de política externa de um país ou de um grupo de países.

 E esta tarefa também está sendo realizada pelo aparato burocrático da OSCE, que não está absolutamente conectado com os fundadores do Estado, de forma alguma. Os procedimentos de decisão e a participação das chamadas organizações não governamentais são adaptados para esta tarefa. Essas organizações são formalmente independentes, mas são financiadas propositadamente e, portanto, sob controle. 

De acordo com os documentos de fundação, no âmbito humanitário, a OSCE foi concebida para ajudar os países-membros a respeitar as normas internacionais de direitos humanos a seu pedido. Esta é uma tarefa importante. Apoiamos isso. Mas isso não significa interferir nos assuntos internos de outros países e, especialmente, não significa impor um regime que determine como esses Estados devem viver e se desenvolver. 

É óbvio que tal interferência não promove o desenvolvimento de Estados democráticos. Pelo contrário, torna-os dependentes e, consequentemente, política e economicamente instáveis. Esperamos que a OSCE seja guiada por suas tarefas primárias e construa relações com Estados soberanos baseadas no respeito, na confiança e na transparência.Senhoras e senhores! Para concluir, gostaria de observar o seguinte: muitas vezes - e, pessoalmente, muito frequentemente -, ouço apelos por parte dos nossos parceiros, incluindo os nossos parceiros europeus, no sentido de que a Rússia deve desempenhar um papel cada vez mais ativo nos assuntos mundiais.Junto a isso, eu me permitiria fazer uma pequena observação: não é necessário nos incitar a fazê-lo.  

A Rússia é um país com uma história que se estende por mais de mil anos e praticamente sempre usou o privilégio de realizar uma política externa independente.Não vamos mudar essa tradição hoje. Ao mesmo tempo, estamos bem conscientes do quanto o mundo mudou, e temos um sentido realista de nossas próprias oportunidades e do nosso potencial. E, claro, gostaríamos de interagir com parceiros responsáveis ​​e independentes com os quais poderíamos trabalhar juntos na construção de uma ordem mundial justa e democrática, que garanta a segurança e a prosperidade, não só para alguns poucos, mas para todos.

Obrigado por vossa atenção.





Postado originalmente em inglês no site do Washington Post.


Notas:

[1] Discurso de Putin na Conferência sobre Política de Segurança, realizada em Munique, em 12 de fevereiro de 2007. 

[2] Angela Dorothea Merkel é chanceler da Alemanha desde 2005. Nesse discurso, é a ela a quem Putin se refere quando diz "sra. chanceler" ou "sra. chanceler federal".

[3]  Horst M. Teltschik é cientista e gerente de negócios da política alemã. Ele trabalhou como oficial político na Chancelaria Federal. De 1999 a 2008, também dirigiu a Conferência de Segurança de Munique. 

[4] Em 2007, quando esse discurso havia sido realizado, a África do Sul ainda não fazia parte do grupo. O "S" em BRICS foi adicionado em 2011, quando o país foi admitido, significando, assim, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (South Africa, em inglês).

[5] Putin se refere a Arturo Parisi,um político italiano que atuou como membro da Câmara DDeputados da Itália, tendo também atuado como ministro da defesa no gabinete do então primeiro ministro Romano Prodi, de 2006 a 2008.

[6] Sigla para Organização do Tratado do Atlântico Norte, fundada em 4 de abril de 1949. Trata-se de uma Aliança Militar formada no contexto da Guerra Fria, como uma coalizão para organizar mobilizações militares dos países do Atlântico Norte (bloco capitalista) contra a então União Soviética. Atualmente, é composto por EUA, Canadá, Reino Unido, França, Holanda, Alemanha, Itália, Portugal, Espanha, Grécia, Holanda, Noruega, Islândia, Dinamarca, República Checa, Hungria, Albânia, Bélgica, Bulgária, Croácia, Estônia, Lituânia, Letônia, Luxemburgo, Polônia, Romênia, Eslováquia, Eslovênia e Turquia. Além desses membros diretos, há aliados que se dispõem a cooperar com a OTAN, direta ou indiretamente.

[7] Francisco Javier Solana de Madariaga, político e físico espanhol que atuou como secretário-geral da OTAN de 1995 a 1999, alto representante da Política Comum de Segurança Externa e também como secretário da Secretaria Geral do Conselho da União Europeia. Atuou também como secretário-geral da União Europeia Ocidental, mantendo esses três cargos de 1999 a 2009.

[8] O Pacto de Varsóvia foi uma aliança militar de defesa coletiva firmada entre os então países-membros da União Soviética, tendo sido criada no contexto da Guerra Fria no ano de 1995, como resposta à OTAN. O Pacto serviu como um complemento militar ao Conselho para Assistência Econômica Mútua (CoAEconM, CoMEcon em inglês - Council for Mutual Ecomic Assistance), uma organização econômica regional para os Estados comunistas da Europa Central e Europa Oriental. O Pacto era composto pela União Soviética, Albânia (que deixou o grupo em 1968), Hungria, Alemanha Oriental, Checoslováquia, Romênia, Polônia (que saiu em 1990) e Bulgária. O Pacto foi dissolvido em 1 de julho de 1991, pouco antes da queda da URSS, que foi formalmente dissolvida em 8 de dezembro de 1991, sendo sucedida pela CEI (Comunidade de Estados Independentes), atualmente ativa.

[9] Manfred Hermann Wörner foi um político e diplomata alemão, que trabalhou como ministro da defesa da então Alemanha Ocidental, de 1982 a 1988. Atuou também como secretário-geral da OTAN de 188 a 1994 (ano de seu falecimento, vitimado por câncer). Ele foi o último secretário-geral da OTAN a atuar ainda contexto da Guerra Fria, participando da reunificação da Alemanha.

[10] Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU e fundada em 1957. Seu objetivo principal é a manutenção de um fórum intergovernamental para cooperações técnico-científicas no campo do uso pacífico dos potenciais tecnológicos nucleares. A AIEA atua também como fiscalizadora das atividades nucleares em curso ao redor do mundo. Conta com 137 Estados-membros, realizando cinco reuniões anuais. Atualmente, é chefiada por Yukiya Amano.
[11] Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Fundada em 1948 com o nome de Organização para a Cooperação Econômica (OECE), teve como proposta inicial a concentração de esforços para gerenciar os fundos recebidos por meio do Plano Marshall para a reconstrução da Europa após a Segunda Guerra Mundial. É formada por 34 países e pautada em princípios de democracia e lógica econômica liberal, oferecendo auxílios mútuos para resolução de problemas e promoção econômica de seus membros.

[12] Organização Mundial do Comércio. Criada em 1 de janeiro de 1995, tem como objetivo supervisionar e promover a economia de mercado globalmente. É originária do Acordo de Marraquexe.

[13] Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Surgiu em 1975 como resultado da Conferência sobre a Segurança e Cooperação na Europa (CSCE), realizada no mesmo ano. É formada por 57 países-membros. Também tem como enfoque a promoção de políticas sociais e econômicas liberais no continente europeu, além de discutir e organizar estratégias de segurança doméstica.


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