quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Olavo de Carvalho e o falso distanciamento da ação

Por: Jean A. G. S. Carvalho




Neste artigo, não pretendo discutir as ideias em si do Olavo. Haverá ocasião melhor para fazer isso. O que importa, aqui, é seu comportamento enquanto ideólogo e pensador, principalmente seus recursos retóricos de escapismo, distanciamento da ação e diminuição da própria importância enquanto influenciador.


O intelectual (ou filósofo) é visto como o "homem suspenso", aquele que observa todos os acontecimentos e pessoas e analisa todas as situações, mas não toma parte ativa em nenhuma delas. É aquele que supostamente não pode ser responsabilizado, culpado ou punido por absolutamente nada, já que seu campo de atuação é a teorização, a área das ideias e do pensamento em geral. Entretanto, essa é uma visão extremamente equivocada. Sócrates, por exemplo, foi um filósofo politicamente ativo (tanto que morreu por conta disso, consciente das consequências de suas ações, por mais injustas que fossem, assumindo-as até o final).

Olavo, entretanto, não assume a posição socrática. Basicamente, ele se dissocia de qualquer consequência real e alega que suas opiniões não exercem nenhuma influência no campo das ações, colocando-se como um "observador imparcial". Imparcialidade é uma impossibilidade ontológica: todos somos imbuídos de vontades, desejos, preferências e motivações. Assim sendo, todas as nossas análises são influenciadas, em maior ou menor grau, por esses elementos, e aquilo que fazemos gera consequências em nós mesmos, nos outros e no ambiente ao nosso redor.

Mesmo nossa atividade intelectual também provoca reações. Não existe esse distanciamento total entre o "pensar" e o "agir". Aliás, toda ação é precedida de uma ideia, um pensamento. Olavo se esforça em mostrar que é um homem humilde, praticamente irrelevante, sem grandes contatos e conexões (o que, obviamente, é mentira), um modesto morador da Virgínia, um frequentador de bibliotecas. Ele prolonga o discurso de que fala apenas por si mesmo e não está conectado a nenhum grande projeto, e denuncia seus opositores por serem "politicamente ativos".


O maior dos mentores intelectuais do impeachment... criticando o impeachment.

No debate com Dugin, Olavo fez questão de frisar o quanto era "insignificante" em relação ao oponente: enquanto ele é "um senhor humilde sem aposentadoria", Dugin é um alto ideólogo com conexões com Putin, líder de movimentos e dono de grande poder de influência. É, em termos simples, a adoção da psicologia pós-moderna: "Você tem de me ouvir porque eu sou mais fraco que você", o equivalente ao "quando o oprimido fala, o opressor fica calado". 

Ele não é suficientemente honesto para admitir que defende sim um plano e uma ideologia clara: a ação geopolítica dos EUA como potência predominante e as vias do liberalismo de fato. Enquanto não assume esse posicionamento, diz falar apenas por si mesmo, enquanto trata qualquer adoção ideológica como "fanatismo" ou "distorção da realidade". A estratégia é desqualificar o outro por questões ideológicas, tratando a própria ideologia como um mal em si (enquanto, com a falsa neutralidade, ele apenas cristaliza ainda mais a própria ideologia).


Nessa posição confortável, Olavo pode incitar ações sem responsabilizar por seus efeitos colaterais. Ele motivou as manifestações pró-impeachment de 2013 a 2016, e defendeu abertamente uma intervenção militar. Depois de atingido o objetivo,  insatisfeito com os resultados, ele condenou todos aqueles que seguiram seus discursos e criticou a ideia duma intervenção militar (criticando os próprios militares). Ele pode, livremente, inflar uma ação e fingir que não a motivou, agindo como alguém que sequer exerce qualquer influência no curso dos acontecimentos.

A arte de incentivar algo...

...para criticar em seguida.


Para Olavo, interferir ou influenciar os acontecimentos e o fluxo das ações é uma ação inerentemente "revolucionária" e, portanto, na visão dele, algo totalmente negativo (já que ele rejeita o chamado "pensamento revolucionário"). Mas, enquanto adota essa retórica de "distanciamento da ação" ou de "intervenção no curso dos acontecimentos", ele mesmo influencia, direta ou indiretamente - e por meio de suas opiniões, pensamentos e cursos - os acontecimentos políticos e sociais.

 

Essa é a posição desonesta, a blindagem em torno do mito da "imparcialidade", do "racionalismo" e do distanciamento do curso das ações. E, como essa estratégia lhe permite mudar de discurso e se contradizer sem que isso seja percebido como desonestidade (já que ele "nunca comete erros intelectuais", mas simplesmente "muda" de ideia), Olavo mantém a aura de guru, mestre e profeta, sem que seus seguidores façam sequer questionamentos mínimos - os quais ele sempre rejeita violentamente.



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Um comentário:

  1. A mim Olavo de Carvalho parece um agente de desinformação extremamente sofisticado a serviço do mesmíssimo Liberalismo que finge criticar. Apesar de denunciar o financiamento dos ditos "metacapitalistas" às pautas da Nova Esquerda, ele se recusa sistematicamente a sequer sugerir qualquer coisa contra elas, pelo contrário, combate incessantemente toda e qualquer posição política, econômica e ideológica que insinue alguma resistência à liberdade irrestrita desta elite em multiplicar mais e mais seu poder.

    Alguém como ele não pode negar que o Liberalismo Econômico e o Cultural, que ele tanto combate abertamente, não sejam "braços do mesmo corpo", no entanto, joga toda a responsabilidade deste último na conta do "Comunismo"! Como se Rockefellers, Rotschilds, Soros, ou Morgans estivessem interessados em socialização dos meios de produção e revolução proletária!

    Para sustentar esse surrealismo, redefine o "Comunismo" até a exaustão, convertendo-o numa versão incompreensível de Socialismo Fabiano atrelado a sociedades secretas, KGB, Foro de São Paulo e toda uma teia de correlações praticamente impossíveis de rastrear que se perdem num caos de possibilidades que no fundo permitem infinitas interpretações.

    Alguém que fez um trabalho tão interessante em chamar atenção dos ardis neoesquerdistas, em especial suas conexões com as grandes oligarquias plutocráticas, não poderia assumir uma postura como esta a não ser que se objetivo fosse exatamente cooptar a emergente resistência contra ela desviando-a num outro caminho.

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