quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Yukio Mishima: A Filosofia da Ação



Tradução: Jonas Ferreira de Souza



A ação possui uma lógica peculiar. Quando uma ação começa, sua lógica procede num ritmo implacável, até o final. Em certo sentido, assemelha-se a um brinquedo de corda, cujo movimento não cessa até que se esgote. Para um intelectual, esta lógica de ação é temível. Na realidade, falta astúcia para se manter longe do perigo e se corre o risco de ficar envolvido em algo que, uma vez iniciada a carreira, não se é possível deter. Recentemente, Akiyuki Nosaka[1], que havia declarado seu apoio moral as três facções do movimento estudantil, logo mudou de opinião, abandonando sua postura de simpatizante. 

Na realidade, ele se afastou da ação não porque ignorara em que direção era capaz de arrastar um ser humano, mas sim por ter se dado conta do destino que lhe aguardava. Deste ponto de vista, ele se comportou de uma forma muito prudente, embora eu pense que, quando ele conseguiu escapar a esse mecanismo, ele reconsiderou que, em realidade, não se tratava de uma verdadeira e própria ação, porque quando uma ação deste tipo começa, ela não permite a menor possibilidade de fuga.


A espada japonesa, uma vez tirada da bainha, inicia um movimento característico, exatamente como acontece com uma bala em movimento preciso quando se dispara: percorre uma trajetória inexorável, uma vez projetada contra o inimigo. Sem dúvida, por alguma estranha intervenção do destino, pode dar-se o caso de que ela golpeie no capacete colocado na testa, que penetre em seu interior, que se deslize e saia sem provocar dano algum. Em muitos casos, a ação pode terminar sem haver conquistado o objetivo para o qual estava destinada; porém, ela sempre deve obedecer à lei e à lógica que a obriga a dirigir-se em linha reta por esse mesmo objetivo. Imaginemos que lhe falamos sobre a bala em vôo e que a perguntamos: “Aonde você vai?”. A bala responderia: “Vou matar o inimigo”. E, para isso, ela nem sequer teria parado por um único instante durante sua trajetória. Seria impossível para ela dirigir-se para uma atividade secundária. Também cabe dizer isso em relação à espada japonesa. 

Embora não sejam tão rápidas como as balas, uma vez desembainhada, elas não podem ser guardadas sem que tenham cortado ou matado. Quando não se puxa a bainha com essa finalidade, a espada japonesa é derrotada e humilhada. Isto é perfeitamente demonstrado no que aconteceu na Universidade de Tóquio quando um grupo de estudantes do clube de ginástica irrompeu brandindo espadas japonesas para, logo em seguida, serem desarmados e reduzidos. 

Parece incrível que estes jovens tenham entregado suas espadas sem dar sequer um único arranhão em seus adversários. É provável que não tenham desembainhado com a intenção de matar, apenas para ameaçar. Sem dúvida, este é um objetivo alheio à natureza das espadas japonesas, e quando uma arma se utiliza pra um fim diferente daquele para o qual foi forjada, ela perde instintivamente sua força. O exemplo da espada japonesa nos permite compreender como uma operação em grande escala pode resultar ineficaz se levada a cabo só com fins de intimidação. Parece-me que em tudo se revela a natureza das armas.


A ação nem sempre coincide com o uso das armas. Não obstante, desde os tempos antigos, “ação” é sinônimo de “atividade bélica”, e seu principio é a identidade entre o homem e sua arma, em seu avanço em linha reta até um objetivo definido. Com efeito, é inconcebível que exista uma ação quando não há um objetivo e é impossível que a ação dum homem esteja centrada em algo que não seja a luta. Por suposto, jogar-se num rio para salvar um menino também é realizar uma ação; é o mesmo que intervir, como faz o Exército de Defesa Nacional, em caso de catástrofes naturais. Porém, inclusive nesses exemplos, a ação consiste em lutar contra a natureza pra salvar vidas humanas e, portanto, se encontra completamente focalizada num fim bem definido.


Dado que não pode existir uma ação sem um fim, as pessoas que vivem sem um objetivo em particular, escravas das circunstâncias, detestam e temem a palavra “ação”. Quando um pensamento ou uma teoria começa a estruturar-se em torno de um objetivo, eles naturalmente terminam por converter-se em ação. Porém, nem todas as ações são perigosas e temíveis. É inato em nosso corpo um prazer característico pelo movimento, que se expressa na dança e nos esportes. Se o movimento não tem um objetivo, se está inspirado por impulsos estéticos, ele progressivamente se diferencia da ação e se aproxima da arte. Como já indiquei em outro lugar, a ginástica é a forma mais próxima do limite entre a arte e a ação.


Uma característica da ação é a mínima inversão de tempo que ela exige. Um exemplo: quando fui convidado a participar de um debate, que terminou sendo um choque verbal, durante o período das manifestações estudantis na Universidade de Tóquio, a discussão durou só duas horas e meia. Eu não havia me preparado em absoluto, e a única coisa que fiz foi ir à universidade de táxi, participar do encontro e voltar para casa (de táxi também). Tudo isso não me tomou nem quatro horas. 

E, sem dúvida, essa ação minha foi de domínio público, deu muito que falar e despertou interesse e atenção durante certo tempo. Durante um tempo, as pessoas que me encontravam não deixavam de fazer-me perguntas sobre esse episódio.  Quatro horas me bastaram: um breve período comparado, por exemplo, com um total de um mês; também se necessitam quatro horas para assistir a uma representação teatral, e, às vezes, a um filme no cinema. Porém, o interesse geral se concentrou em um lapso insignificante durante o qual se realizou essa ação, e todas as pessoas que encontrei mostraram uma indiferença quase total pelo modo como haviam transcorrido minhas outras setecentas e dezesseis horas nesse mês. 

Eu havia dedicado metade desse tempo à humilde e desgastante tarefa de escrever, o que, como não é uma ação autêntica, requer um tempo ilimitado: e eu sacrifiquei os primeiros quatro anos pra escrever os primeiros três livros de uma obra e não sei quando poderei terminar o quarto e último volume. A ação é rápida, enquanto que o trabalho intelectual e artístico impõe tempos extremamente longos. Também a vida exige uma longa paciência, enquanto a morte pode acontecer num instante; a qual dos dois se atribui maior importância aos seres humanos?


O nome de Saigo Takamori[2] será recordado eternamente por conta de seu seppuku[3] em Shiroyama, e o Corpo de Ataque Especial (Kamikaze) sempre o será por seus fulgurantes atos de heroísmo. As demais horas de sua vida, as centenas de horas de treinamento, permanecerão no anonimato (ou esquecidas). A ação tem o misterioso poder de resumir uma larga vida na explosão de fogos de artifícios. Tem de se honrar quem dedicou toda a sua vida a um único objetivo, o qual é justo; porém, quem queimar toda sua existência em fogos de artifício, que duram só um instante, testemunha com maior precisão e pureza os valores autênticos da vida humana. 

A ação mais pura e essencial consegue retratar os valores da vida e as questões eternas da humanidade, com uma profundidade muito maior e com um esforço humilde e constante. Sempre temos o costume de meditar sobre a ação e o pensamento, sobre os problemas do corpo e do espírito, e é por isso que desejo apresentar aqui algumas conclusões a respeito deste assunto.



Fonte: Lições Espirituais para Jovens Samurais; Yukio Mishima.




Notas

[1] Akiyuki Nosaka (nascido em 10 de outubro de 1930 e falecido em 9 de dezembro de 2015) foi um escritor, novelista e compositor japonês. 
[2] Samurai de Satsuma, nascido em 1827 que apoiou o golpe de estado que culminou com a restauração do poder imperial. Nomeado ministro, preferiu retirar-se da política quando foi rejeitada sua proposta de invadir a Coreia e regressou a sua distante província onde organizou academias de artes militares. Em 1877, encabeçou uma rebelião de centenas de jovens samurais opostos a política de modernização e ocidentalização do governo; foi derrotado em combate e fez o seppuku, pedindo-lhe a um dos seus companheiros que lhe cortasse a cabeça. Alguns membros de seu exército seguiram o exemplo do chefe e abriram o ventre, cometendo suicídio.

[3] Seppuku (切腹), cujo significado é "cortar o ventre" (também conhecido como haraquiri ou haraquíri (腹切 ou 腹切り) é o ritual japonês de suicídio praticado pela classe guerreira, principalmente pelos samurais (foi também praticado como tática de guerra pelo Exército Imperial Japonês, durante a Segunda Guerra Mundial). Basicamente, consistia na morte por esventramento e decapitação. Esse ato era praticado tanto para demonstrar coragem e honra quanto como autopunição por alguma infração ao código de honra do Bushido.
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