quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O pensamento religioso e a crítica de Corbin ao pensamento marxista




Por: Marcos Vinicios P. Almeida 

Henry Corbin


O pensamento do Marx sobre a religião não pode ser reduzido simplesmente a seguinte proposição: "A religião é o ópio do povo"[1]. Mas deve ser levado a cabo por uma análise fenomenológica do pensamento marxista aos olhos das categorias corbinianas, ou mesmo, uma hermenêutica comparada e uma interpretação metahistórica do mesmo. No livro A Lógica dos Orientais: Henry Corbin e a Ciência das Formas, Christian Jambet (que foi aluno de Henry Corbin) faz uma contribuição importante para esse tema à luz das categorias corbinianas. 

Em uma investigação minuciosa sobre as bases do que Corbin chama de metahistória, Jambet herda a crítica de seu mestre ao historicismo hegeliano, que trouxe contribuições importantes acerca da junção do discurso e da coisa-em-si; a multiplicidade do Ser subjugada ao Logos, no olhar do Absoluto. Ou seja, é o passado adquirindo seu ser em um presente, o passando ganhando sua existência a partir de um discurso presente. Para Jambet, essa junção da interpretação histórica hegeliana gera uma antinomia: a) nominalismo histórico, b) realismo histórico. 

O nominalismo histórico é a interpretação de que a história é uma comitiva de nomes, o passado vive na interminável nomeação; enquanto que o realismo histórico, é as coisas na ordem do real, a conciliação do particular com o universal, a conservação da história e a volta para si e para o Absoluto em seu movimento. A “nadificação” do passado na ordem do mundo empírico e etc. Nessa antinomia, o contínuo é uma paixão pela eternidade, tudo é eterno, tanto no nominalismo histórico quando no realismo histórico:

“Lembramos acima como Hegel introduziria um tal ponto de eternidade, que permite tomar, em conjunto, uma perspectiva nominalista e uma ontologia realista. Apenas, se se tem razão em insistir frequentemente nessa perspectiva da Aufhebung, a negação conservação do passado no presente, e do futuro no absoluto, segundo a qual a negação não opera senão conservando o que nega, é necessário insistir no seguinte: a filosofia dialética eterniza, por certo, o passado no presente, reconcilia essas duas dimensões do ser-histórico; ela cria, assim, um continuum carregado de sentido. Mas sob a condição, capita, de que a história seja o lugar do desaparecimento, da morte sem resto de existência empírica dos seres. Não pode haver conservação do passado sem negação senão havendo negação radical, “nadificação”, da particularidade. [...] A experiência em que nós nos certificamos de não estarmos sonhando, de que o tempo histórico é, efetivamente, ultrapassagem radical do que passa, é a morte” (JAMBET, p. 253, 2006). 

Nessa dialética histórica o particular, o singular, é sempre ultrapassado. Essa “nadificação” do passado (particular) é sempre uma perspectiva do eterno movimento, do que está posto, do que é negado e da reconciliação. Portanto, o particular da história, o singular, está sempre no plano da negação-conservação, e o abismo com o universal (história) é o espaço para reconciliação na eternidade. Do mesmo modo, é o passado “morto” do nominalismo histórico; o passado se afirmar na ordem do presente, na eternidade dos nomes – é o conceito de repetição tão forte na tradição alemão, uma herança da hermenêutica luterana. 

Isto posto, Jambet afirma que existe um pensamento que acabaria com essas antinomias expostas por Henry Corbin, [...] tudo apostando no princípio que apenas o semelhante conhece o semelhante – tenha a ambição de produzir leis universais em história [..] (JAMBET, p. 264, 2006), é o pensamento de Marx. Esse princípio de conhecimento do semelhante, é a luta de classes, ou melhor, a consciência de classe: 
 

“Que ele siga o princípio platônico, verifica-se em que o conhecimento do real da história não é, de acordo com Marx, a tarefada simples da análise científica, mas funda-se em um ponto de partida (uma “conversão” da alma), em uma “posição de classe”, em uma atitude histórica que recebesse facilmente o conteúdo ordinariamente atribuído ao que se designa como escolha existencial. Apenas o revoltado compreende e conhece seu semelhante. Mais ainda: apenas ele pressente seu futuro, apenas ele não escreve “cinza sobre cinzas”. É por que, escreve Marx, com o proletariado moderno, que é a classe pela qual a revolta toma de modo absoluto, consciência de si, que a ciência da história aparece (o materialismo histórico). A história não é, pois, a série de Nomes metahistóricos da rebelião do mundo, mas ela é um ser no mundo histórico em que o ser confundirá com a posição, em que a conservação metahistórica tornar-se-á o próprio ser histórico. E é ele que Marx chama de ‘proletariado’” (JAMBET, P. 265, 2006).


É uma forma de “teologia laicizada”, onde os nomes se unem. Não são novas às análises dos aspectos religiosos do marxismo. Muitos gnósticos comparam os movimentos marxistas com as revoltas protestantes do começo da modernidade, com o cristianismo primitivo, com os anabatistas radicais da velha Alemanha e etc. Sem mencionar o marxista heterodoxo Georges Sorel do começo do século XX, que via no marxismo um “conjunto de imagens mobilizadoras”, que ele chamava de mito político, e que esse mito pode ser representado tanto pela “revolução catastrófica” de Marx, quanto pelos mazzinianos, isto é, o marxismo tem uma escatologia, uma teleologia (“A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes”, e o fim da luta de classes é o fim da história, o telosda práxis revolucionária).  Ademais, é nessa “teologia laicizada” do marxismo que se dá uma reconciliação dos nomes, ou mesmo das duas potências históricas: o passado e o presente: 


“O princípio metahistórico (segundo o qual o acontecimento espiritual exige uma compreensão que corresponda a seu grau concreto de ser) funda-se com o princípio histórico, segundo o qual a racionalidade de interior da história conduz à aparição objetiva de um sujeito capaz de recapitular nele todas as formas passadas da revolta e compreender, de parte a parte, todas as formas passadas da opressão” (JAMBET, p. 265, 2006).


Essa hermenêutica da metahistória em Marx não é uma filosofia da religião, mas apenas o fato religioso por si mesmo, diferente de uma ciência econômica que Marx desenvolve. Não obstante, Jambet ressalta o luteranismo no pensamento de Marx na análise do dinheiro, desde os Manuscritos Econômicos Filosóficos de 1944, “... a atividade mediadora [...] o ato humano, social, pelo qual os produtos dos homens se complementam reciprocamente”, uma relação que ocorre na subjetividade, como representação: “de Deus para os homens”, “de homem para homem”: “[...] Admirável percepção do face a face com o “Senhor” e do crente, da relação em espelho entre a divindade revelada e o sujeito que recebe a revelação. “Análise de origem patentemente luterana” (JAMBET, nota 257, 2006). E essa análise é semelhante a que Marx faz sobre o fetichismo da moeda no livro I d’O Capital, segundo Jambet, a do dinheiro como representação


“Da propriedade privada para a propriedade privada”, e da “da sociedade para a propriedade privada” e etc.[2]. A essência livre do homem nesse processo de representação se projeta no Outro, na “face a face”. De acordo com Christian Jambet, neste sentido o evento não é metahistórico, mas transhistórico: “[...] uma forma que transpassa os momentos da história da opressão, em que essa opressão se funda e se reflete nos espelhos diversos da economia, do Estado, da Religião” (JAMBET, nota 257, 2006).


Uma crítica que Jambet faz aos marxistas, é que esse fato religioso em Marx consiste em uma “representação da representação” histórica da alienação, e não uma simples análise de “relações sociais”. 

Jambet faz uma distinção entre o jovem Marx, e o Marx d’O Capital, no que consiste o olhar sobre o fato religioso. Enquanto que no jovem Marx a religião se torna uma “esfera autônoma”, assim como a ciência moderna, para transforma o homem em objeto e tirar sua liberdade enquanto sujeito (“Da mesma maneira que na religião a atividade própria da imaginação humana, do cérebro humano e do coração humano age no indivíduo independentemente dele, isto é, como uma atividade estranha divina ou diabólica, igualmente a atividade do operário não é sua própria atividade. 

Ela pertence a outro, ela é a perda de si próprio”[3]); enquanto que no O Capita,o fato religioso é estudado no campo das representações, a religião como instância econômica: “O mundo religioso não é se não o reflexo do mundo real” (MARX, p. 90-1), uma produção de representação que continua sendo “às avessa”, porém, é uma efetividade (Jambet). Na Ideologia Alemã, Marx tem uma visão da religião ligada a questão da imaginação e das representações, só que com um olhar da religião como aquilo que torna possível o real, que dá sentido à vida etc. É uma interpretação, por sinal, muito comum nos meios seculares do século XX/XXI, a saber, de que a religião é algo que transforma sentidos para fugir do niilismo e coisas do tipo. É um reducionismo. 

E isso que Jambet crítica em Marx: a operação de dupla redução: a) reduzir a religião ao que ela não é, uma etapa de afirmação do indivíduo para o capitalismo, no luteranismo mais precisamente, b) e resumir a religião as relações sociais, em instâncias econômica etc. Ou seja, ao mesmo tempo “colocando por de baixo do tapete” o papel da singularidade na história, dos Profetas messiânicos e os aspectos visionários. Em suma: as relações múltiplas da história. Marx, assim como outros autores, ainda interpreta a história no plano do todo, individualizando a história.  




Referências e notas:
 
- JAMBET, Christian. A Lógica dos Orientais: Henry Corbin e a Ciência das Formas. Editora Globo, 2006.
- MARX, Karl. Manuscritos Econômicos Filosóficos. Editora Boitempo.
- MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Marxists Internet Archive.
- MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. Editora Boitempo.
- MARX, Karl. O Capital. Editora Boitempo. 


[1] MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Marxists Internet Archive.

[2] JAMBET, Christian. A Lógica dos Orientais: Henry Corbin e a Ciência das Formas. Editora Globo, 2006. 

[3] MARX, Karl. Manuscritos Econômicos Filosóficos. Editora Boitempo.
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