terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O Cristianismo como ruptura e renovação

Por Vinicius Spiger 

Lamentação sobre O Cristo Morto - Botticelli
 
Existe entre muitos conservadores e tradicionalistas ocidentais uma equação jargonofásica incorporada como uma verdade absoluta: "A civilização ocidental é fruto da cultura greco-romana e da moral judaico-cristã", ou ainda suas variantes "O Cristianismo possui uma forte herança greco-romana e judaica". Tal visão apresenta o Ocidente como a simples união do mundo grego, do mundo judeu e do mundo romano, na formação do mundo cristão, tendo como fruto aquilo que consideramos cultura, moral e cosmovisão ocidental. Tal afirmação, entretanto, não poderia ser mais equivocada. 

Embora existam diversos traços de cada uma destas culturas incorporados na formação da sociedade Ocidental através do Cristianismo, é de uma simploriedade absurda resumir a gênese cristã nesta fórmula. Trata-se apenas de um esvaziar da Tradição Cristã, retirando seu verdadeiro significado e, portanto, reduzindo-a. O Cristianismo surge não de uma mera união orgânica de heranças pagãs e judaicas, mas de uma superação destas. Os limites dos mundos pré-cristãos já não são bem-vindos. Não se trata, portanto, da mistura destes velhos mundos, mas de um verdadeiro "adeus" a eles. Amarga é a despedida de cada um destes vícios e maus hábitos, tão incorporados na essência carnal humana, em prol de uma cosmovisão voltada à Verdade. Não surpreende, portanto, a resistência e as tentativas de retorno a tais "heranças".

Isto, entretanto, não implica que não exista algo válido em cada Tradição. Como bem evidenciado pelos perenealistas, diversas são as similaridades entre as crenças tradicionais da humanidade, seja no Ocidente ou no Oriente. É devido, em parte, porque as tradições são capazes de procurar (e encontrar) a Verdade, não em sua unidade de plenitude, mas em sua forma nébula e parcial, ainda que significativa. Tais semelhanças, como bem notou o Arcebispo Fulton Sheen, não significam entretanto equivalência. Uma conclusão deste tipo seria tão absurda quanto supor que, pelos planetas serem todos esféricos, possuiriam uma mesma massa gravitacional. 

Assim, tudo aquilo que é apontando como "herança" de outras civilizações no Cristianismo nada mais é do que uma mera aproximação da Verdade. Neste sentido, todo o conhecimento pré-cristão verdadeiro age como uma preparação para a vinda de Cristo, e, por tabela, pertence à própria Verdade da Tradição Cristã, mas em forma pura e afastada de todos os erros previamente associados. Esta postura é bem definida por Santo Agostinho em sua Doutrina Cristã, e também reforçada pela Filosofia Cristã, que muito lidou da exposição e superação dos pensamentos heréticos, limpando da Verdade "herdada" a poeira do profano. 

Em suma, uma teologia cristã representa exatamente a superação desta "herança" grega, romana, judaica. É uma transcendência a todos estes erros almejando a mais pura perfeição, ao passo que abandona os erros propagados pelas demais tradições Estes problemas, entretanto, não podem deixar de existir no mundo, já que ainda habitam no espírito do homem pecador. Já não cabe mais entretanto aceitá-los como Verdade. Os críticos e opositoras da Tradição Cristã, como Julius Evola, não foram capazes de superar esta visão de mundo pagã, apegando-se à confusa mistura de erros e acertos em busca meramente do "tornar-se" Deus.

A Tradição Cristã, entretanto, responde de forma muito mais sutil e elegante, ao diferenciar-se da equivalência perenial quando Deus torna-se Filho e vem ao mundo em sacrifício, alterando a via histórica entre o divino e o terrestre. E, quando a Tradição Cristã decai, surgem suas vertentes heréticas que buscam resgar os hábitos judaicos e pagãos, afastando assim os homens da Verdade.
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