quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Miss Helsinki 2017: Não há senso estético no pós-modernismo

Candidatas ao Miss Helsinki 2017. Sephora (a única mulher negra na foto) foi a vencedora.


Por: Jean A. G. S. Carvalho

 

Escolhi falar um pouco tarde sobre esse assunto, porque o calor dos acontecimentos sempre deturpa a capacidade de julgamento e só nos faz emitir opiniões precipitadas. Mas a eleição da Miss Helsinki 2017 é um exemplo nítido da ausência (ou melhor, do completo vazio) de noção estética da pós-modernidade, especialmente na Esquerda pós-moderna (que consegue considerar tudo como belo e, por isso mesmo, não sabe o que é belo). O problema não está necessariamente em assumir que a beleza pode assumir traços de subjetividade, afinal, não podemos restringir o que é belo a uma etnia ou raça exclusivamente, já que todos os grupos humanos possuem sua estética, sua beleza.

Sephora Ikalaba (ao centro)

O problema está justamente em negar que há sim fealdade e beleza. E, num concurso onde a beleza física é o principal (ou ao menos um dos principais) critério, parece não haver qualquer razão para eleger Sephora Ikalaba (na foto acima) como a mulher mais bonita de Helsinki além do politicamente correto. 

Lizelle Esterhuizen (Miss Namíbia 2016)

O foto central da maioria das críticas foi o fato de que uma mulher negra venceu um concurso de beleza num país de maioria branca. Esse não é, entretanto, o ponto central da questão. Afinal, também já houveram misses brancas em países majoritariamente negros, como na Namíbia em 2016 (Lizelle Esterhuizen). A diferença é que, ao contrário da miss Helsinki 2017, Lizelle realmente mereceu, em termos estéticos, o título - o que justificou sua escolha num público majoritariamente negro.

Raissa Santa (Miss Brasil 2016)

Sim, existe certo discurso "eurocêntrico" em termos de beleza, mas o politicamente correto não sabe lidar com a questão, muito menos promover outros tipos de beleza. Por exemplo, preferem eleger ícones visivelmente feios ao invés de promover aquilo que é essencialmente belo.

Hiwot Bekele (Miss Etiópia 2014)

Basta comparar Sephora com outras misses negras. Vaumara Rebelo foi miss Angola em 2013 e é exemplo de uma mulher negra belíssima; Hiwot Bekele (miss Etiópia 2014), Madusha Mayadunne (miss Sri Lanka 2012), Raissa Santana (miss Brasil 2016) e Debbie Collins (representante da Nigéria no Miss Universo de 2015) são exemplos de beleza negra/mulata. 

Debbie Collins (Miss Nigéria 2015)

O erro não é afirmar que há diversidade de beleza multiétnica, o que é verdade (asiáticas, caucasianas, nórdicas, latinas, negras, indígenas: todas as etnias possuem sua beleza) - o erro é escolher, num concurso estético, alguém esteticamente inferior. E, sim, há níveis hierárquicos de beleza. Embora não possamos definir um só limite e um só conjunto de atributos que condensem o significado máximo de beleza, podemos falar em graus estéticos. Há o feio e há o belo, e dentro desses dois há graus e níveis de variação; a escolha da pós-modernidade é negar esse fator natural e destruir essas distinções.


Vaumara Rebelo (Miss Angola 2013)


Há a promoção da dismorfia e de padrões estéticos mesmo nocivos à própria saúde, num misto de demagogia e senso hipócrita. Não só o politicamente correto tenta promover o feio como belo como policia os gostos pessoais, impondo a atração por aquilo que nem mesmo os militantes da polícia politicamente correta se atraem. Não há quem aprecie mais os padrões de beleza do que um adepto do politicamente correto. Enquanto a feminista burguesa fala contra a "gordofobia", o "racismo", o "elitismo" e a "hetero-cis normatividade", seus parceiros são invariavelmente homens magros ou fortes, brancos, de classe alta, cis e héteros.

O politicamente correto promove padrões "exóticos", mas apenas para os outros. É o outro quem deve aceitar qualquer opção sexual, gênero, raça, etnia ou forma física, sob a pena de receber um dos milhares de neologismos marginalizantes. Mas a realidade supera qualquer discurso - especialmente discursos desconectados da realidade.
 
Madusha Mayadunne (MissSri Lanka 2012)
  
A verdadeira questão não é debater se Sephora é ou não bonita (o que, para algumas pessoas, pode receber uma resposta positiva), mas admitir que dentre as candidatas ela não se destaca fisicamente. E sequer estamos nos atendo ao ponto de que um concurso de beleza é uma maneira de demonstrar esteticamente o valor de determinado povo. Não faz muito sentido eleger uma caucasiana como miss África, como não faz sentido eleger um africana como Miss Europa - e outros mil exemplos poderiam ser oferecidos.

No Brasil, tanto pela questão da miscigenação quanto pela multiplicidade étnica, o quadro é singular: aqui, tanto uma negra, uma indígena, uma asiática, uma branca, uma cabocla, uma mulata ou uma parda representariam bem o Brasil. E, mesmo aqui, ao invés de promover a multiplicidade de belezas que temos, os movimentos politicamente corretos preferem exaltar o disforme, o feio - tentando substituir padrões de beleza por outros, impondo seus próprios gostos enquanto falam em "diversidade" - uma diversidade vazia que significa a homogeneidade pós-moderna.

Concursos de beleza são isso: concursos de beleza. Fealdade é injustificável nesses casos, e não se trata de um "padrão": trata-se daquilo que os próprios olhos enxergam como belo em qualquer etnia. Sephora certamente não é a mulher mais horrível do mundo (e muitos europeus, apegados ao gosto pelo exótico ou já moldados pelo politicamente correto, realmente concordam com sua eleição). O belo sempre será belo: amarelo, marrom, preto ou branco. O feio também será feio - mesmo que multicor, e mesmo que promovido pelo politicamente correto como "belo".
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