segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Há muitos Brasis pra se fazer um Grande Brasil

Por: Jean A. G. S. Carvalho


Café,  de Cândido Portinari; 1935.


Quando surge a questão sobre qual é a identidade brasileira ou qual é o "verdadeiro Brasil", como se essas questões impossibilitassem a construção de uma Pátria, a melhor resposta é afirmar que temos muitos Brasis para construir um Grande Brasil. Grande parte desses Brasis são imensamente desconhecidos e ignorados, especialmente por movimentos que se arrogam "nacionalistas" (mas que não são outra coisa senão o reforço do sentimento de vira-lata). 

Para esse projeto, é necessário ao mesmo tempo sintetizar as várias identidades, criando uma Grande Pátria Brasileira, e respeitar as especificidades étnico-culturais de cada uma das várias identidades brasileiras. É necessária uma grande dose de patriotismo para empreender esse projeto: não um patriotismo acachapante, anti-identitário e chauvinista, mas sim abrangente, completo. Se um desses Brasis morrer, todos os outros morrem.

Parece bastante lógico que um nacionalismo deva ser patriótico. Mas, no caso do Brasil, esse fator óbvio não é observado pela maioria daquilo que se chama "nacionalismo". Há arremedos fantasiosos de exaltação de cores e repulsa pelo comunismo - e nada além disso. Não há, hoje, nenhuma proposta substancial e verdadeiramente patriótica (e as que existem ainda são muito marginais). Na Esquerda ou na Direita, há a vontade de transformar o Brasil naquilo que ele não é: os primeiros querem construir aqui uma cópia dos modelos escandinavos; os segundos querem um Estados Unidos dos Trópicos. Em essência, dois projetos anti-Brasil, que enxergam o "brasilismo" como uma doença a ser curada.

Nossa missão histórica é a de construir um Nacionalismo Patriótico: ou este, ou nenhum outro. Nada menos do que um nacionalismo contrário ao latifúndio e promotor da reforma agrária; uma proposta patriótica que preserve as principais riquezas estratégicas do país e lute efetivamente pela concretização de seus potenciais. Um projeto-nação Meridionalista, que projete o Brasil como potência continental/regional e Coluna no eixo Sul (não se limitando a ele, alçando projeções também ao "Norte").

Nosso nacionalismo é o do reconhecimento das limitações atuais e, ao mesmo tempo, dos meios de que dispomos, perfeitamente capazes de oferecer soluções para esses desafios. Não um patriotismo pelas metades, não um falso nacionalismo de cores sucedido por pessimismo e rejeição ao próprio país: um projeto integral, efetivo e contínuo. Não um falso patriotismo seguido de um espírito de submissão.


O país-celeiro, produtor de inúmeras variedades com várias safras por ano; fecundo, produtivo, abastado - abastança que precisa chegar à mesa e ao bolso do brasileiro. Um Brasil com fortes raízes no passado, mas com grandes projeções rumo ao futuro.

Integridade territorial, soberania financeira e aprimoramento do poder dissuasório e defensivo: um sistema econômico onde não sejamos meros exportadores de commodities, mas criadores de tecnologia e inovações. Temos as fontes energéticas e material humano para isso, a concretização desses pontos é uma mera questão de organização e estratégia.

O Brasil que queremos construir não deve ser nada menos do que um país inteiramente soberano, livre e forte. Um país potência, capaz de traçar o próprio destino, superar seus desafios e crescer. Não um crescimento para uma elite, mas sim para todo o povo, o povo multifacetado que compõe esse imenso país-continente chamado Brasil. Um crescimento para uma gente que, com suor e sangue, sustenta este país. 

Reconhecemos o Brasil pulsante, artístico, de culinária internacionalmente reconhecida e de musicalidade além-fronteiras; o país de intelectuais mortos e vivos que, a despeito de todas as probabilidades, marcaram o mundo um Brasil gigante que ainda não se deu conta de seu tamanho. O país parceiro dos BRICS, o país com imenso potencial econômico.

O Brasil bombacha, capoeira, caipira; barroco, clássico, moderno; Brasil vaquejada, bumba meu boi, roda de viola, chimarrão; Brasil queijo Minas, pão de queijo, tucunaré; Brasil bossa nova, samba, Villa-Lobos; Brasil café, carne, guaraná; quantos Brasis para construir um Grande Brasil!  

Não um "patriotismo" de "desbrazileirização": queremos o Brasil como ele é, com suas múltiplas culturas, regionalismos e identidades; o Brasil do sertão, do pantanal, da Amazônia, do cerrado, da caatinga, da mata atlântica; o Brasil gaúcho, indígena, negro, mulato, cafuzo, pardo, caboclo, branco e de tantos outros mais; o Brasil do vigor e da produtividade do campo e da pujança das grandes metrópoles. O Brasil efetivamente brasileiro - não reduzido a estereótipos, mas ampliado em sua significância múltipla.

Qualquer coisa inferior a isso não é nacionalismo, não é patriotismo, é fetichismo burguês. Um fetichismo que temos de abandonar desde agora e que não nos levará a lugar algum. Uma proposta patriótica inteiramente dissociada das distopias de Direita e Esquerda. Patriotismo com vigor, com sangue - a se concretizar aqui, nos trópicos.

Sem ufanismos, sem saudosismo, sem exaltações fantasiosas: um patriotismo que reconheça as realidades, as dificuldades, os potenciais, os entraves e a capacidade de superá-los. Um patriotismo para a pátria. Um Brasil mãe.


 
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