quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O Arqueofuturismo de Guillaume Faye

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Quadro futurista de Moebius (Jean Giraud)

Resultados da pesquisa



Um dos maiores elementos de encantamento da modernidade é o fetichismo tecnológico - geralmente, o simples desenvolvimento da técnica e dos mecanismos desarraigados de qualquer valor ou mesmo significado metafísico. É por isso que as pessoas amam a modernidade: touchscreen, redes sociais, aplicativos e gadgets, filmes e programação em streamming, múltiplos consoles de videogames - dentre outras facilidades que não se encontravam na antiguidade (nem mesmo num passado recente).

Um dos fatores mais significativos para a rejeição ao tradicionalismo é uma simples desinformação: o tradicionalismo é visto como essencialmente imobilista, contrário a qualquer avanço tecnológico, como o simples saudosismo de outras eras e o desejo de retorno ao passado. Em suma, o tradicionalismo é visto como a negação do presente e a ausência de vontade para com o futuro. Mas isso não é verdade.

O tradicionalismo, em essência, é a corrente de pensamento que aceita a existência de valores atemporais, da importância de um senso moral coletivo e da manutenção de aspectos identitários para a própria sobrevivência do homem. Grande parte do stress e das demais doenças modernas são ocasionados pelo esvaziamento espiritual, existencial e identitário provocado pelo processo catalítico do capitalismo/liberalismo. Nesse sentido, o tradicionalismo rejeita essa quebra de conexões orgânicas e advoga pela manutenção dessas noções coletivas, identitárias, religiosas, espirituais e éticas.

No processo capitalista/liberal, o "avanço" tecnológico é a simples ampliação e aprimoramento de técnicas; mas esse falso progresso torna-se vazio, pois o próprio homem (que aprimora essas técnicas) perde seu sentido existencial, deixando-se dominar pelos aparatos que cria, ao invés de dominá-los. Nesse sentido, o tradicionalismo não significa a negação das inovações tecnológicas e do progresso científico, mas sim a negação da involução humana decorrente dessa nulificação existencial.

É plenamente possível avançar tecnológica e cientificamente sem abandonar noções coletivas de moralidade, espiritualidade e valores tradicionais. Civilizações antigas atestam isso: os antigos astecas e sua engenharia avançadíssima, construindo cidades inteiras sobre lagos e rios; os incas com sua agricultura incrível nas encostas de montanhas; as descobertas astronômicas dos babilônios; a matemática egípcia; a filosofia grega (que pode ser considerada como a mãe de todas as ciências); a incrível medicina oriental chinesa; os instrumentos árabes de navegação; os avanços de arquitetura na Europa medieval; a complexidade da forjaria japonesa medieval - e podemos citar mesmo os avançados processos de agricultura dos povos ameríndios.

Esses e tantos outros exemplos atestam que sociedades primitivas produziam tecnologias avançadíssimas para suas épocas (algumas incrivelmente atuais), mesmo inseridas em contextos tradicionais e sem aderir a um processo de niilismo liberal. 

Tecnologia, num conceito mais amplo, é todo o processo de reordenamento da matéria. Esse reordenamento inclui tanto os instrumentos mais primitivos quanto os dispositivos mais modernos. Lanças, arcos e machados são tecnologia assim como foguetes, estações espaciais e satélites. E o aprimoramento desse processo é, em grande parte, um fenômeno inevitável - e nem por isso incompatível com o tradicionalismo.

O pensador francês Guillaume Faye estruturou essas ideias em seu livro intitulado  "Archeofuturism: European Visions of the Post-Catastrophic Age" [Arqueofuturismo: Visões Europeias da Era Pós-Catastrófica]. Nele, Faye faz uma junção entre o passado (o tradicionalismo) e uma visão futurista (o desenvolvimento técnico-científico). Ele consegue romper com o saudosismo do conservadorismo imobilista e com a negação liberal pós-moderna do passado e dos valores dos nossos ancestrais.

Faye advoga por um mundo onde noções religiosas, espirituais e morais milenares convivem com avançados aparatos tecnológicos; o homem telúrico, ligado à terra e aos valores de sua comunidade, e o homem do amanhã, que faz viagens espaciais e conhece outras dimensões. Embora Faye possa cometer exageros e defender pontos que podem ser criticados sob certas éticas (como sua defesa de que o homem poderia aprimorar o próprio corpo tornando-se uma "quimera", adaptando partes biônicas e manipulando genes animais para melhorar suas capacidades) , sua visão transmite bem a mensagem de que o tradicionalismo, longe de ser uma trave que nos torna imóveis ou que nos tenta projetar ao passado, é uma fogueira incessante que ilumina a escuridão e nos conduz ao futuro.

O Arqueofuturismo de Guillaume está inserido na Nouvelle Droite [Nova Direita] francesa. Longe de ser uma solução para o futuro, essa proposta de Faye é também um projeto para o presente. Ele advoga que a salvação existencial para o Ocidente é fazer a junção entre a restauração das tradições e a capacidade de empreender os mais significativos avanços científicos. 

Guillaume "prevê" uma série de catástrofes (principalmente políticas) causadas pela instabilidade da Ordem Mundial, o que geraria um cenário onde a única forma de sobrevivência da Direita seria através da superação da dicotomia entre aqueles que desejam uma restauração das tradições ocidentais e aqueles que desejam novas formas sociais e tecnológicas. O Arqueofuturismo, assim, é uma resposta para um paradigma.

Para ele, análises atuais devem ser oferecidas aos problemas contemporâneos - algo que o saudosismo puro e simples não é capaz de fazer. A inércia política, o dano causado pelo liberalismo, a imigração descontrolada e o ódio étnico são apenas alguns desses problemas que fazem parte do cenário global atual. Não há, aqui, o aspecto do retorno ao passado, mas sim a manutenção das noções atemporais construídas no passado como instrumentos úteis para a condução ao futuro.

Sobre a obra de Guillaume, há análises interessantes:
"Essas são as linhas da catástrofe que Faye espera para a segunda década desse século. Sua profecia é uma reminiscência do ensaio de Andrei Amalrik, publicado em 1969 com o título de 'A União Soviética Sobreviverá até 1984?' - que, é claro, provou ser assustadoramente preciso. Ainda assim, o leitor sábio não irá se estressar exageradamente com o prazo estabelecido por Faye; muita coisa já está clara sobre a crise que estamos enfrentando, mas nem mesmo os anjos do Céu sabem o dia nem a hora. O autor enfatiza que o colapso iminente nos apresenta oportunidades: 'Quando as pessoas estão de costas para as paredes, sofrendo dores terríveis, facilmente mudam de opinião'. O século tempestuoso do ferro e fogo que nos aguarda fará com que as pessoas aceitem aquilo que, atualmente, é inaceitável. A Direita, hoje, deve se posicionar de modo a ser percebida como 'a alternativa' quando a crise inevitável chegar. Isso significa desacreditar os pseudo-dissidentes esquerdistas, que são meramente uma demanda para a intensificação da ideologia e da práxis oficiais. Isso também significa adquirir o monopólio do pensamento alternativo: não através da imposição de uma linha partidária, mas sim pela união de todas as forças saudáveis num nível europeu e o abandono de disputas provincianas e doutrinas estreitas"                                                                                                                 - F. Roger Devlin, Counter Currents [1]

É perceptível que a proposta de Guillaume foi criada pensando-se na Europa e nos problemas europeus. Guillaume pensa naquilo que considera como "Civilização Ocidental", um conceito discutível - mas compreensível dentro daquilo que ele se propõe a analisar. Entretanto, as ideias de Faye podem ser aplicadas mesmo a civilizações árabes, asiáticas, africanas, e, de igual modo, ao contexto brasileiro (que, apesar de mostrar desafios diferentes dos europeus, passa pelo mesmo processo de aniquilação liberal e e desenraizamento). 

Como consequência da globalização, as identidades, regionalismos e conceitos identitários tipicamente brasileiros são também ameaçados pela superposição da técnica acima da tradição. Ideologias saudosistas tentaram conter esse processo, mas, obviamente, falharam nesse intento. Conseguir uma junção entre a manutenção dessas tradições e os progressos tecnológicos é um aspecto do Arqueofuturismo essencial ao Brasil.

Entretanto, foram feitas duras críticas ao conceito do Arqueofuturismo, principalmente por grupos supremacistas e nacionalistas brancos da Europa. Uma das críticas (e que cabe não só à raça branca, mas a todas as outras raças e etnias) é o conceito de transhumanismo (bastante criticado por Alexander Dugin) exposto por Faye (a capacidade de superação das limitações biológicas humanas), ou o quimerismo - a transposição das barreiras da estrutura humana e a junção com estruturas de outros seres. 

Uma dessas críticas se estende ao conceito de que, na prátia, o Arqueofuturismo significaria o fim das diferenciações entre as raças e etnias humanas:
"Há algum nacionalista verdadeiro ou agora todos são cosmoteístas anti-brancos? Se você transcende a raça branca [...] então você é um inimigo da raça branca. Não adianta garantir provisões que de nada vão servir para um novo ser; chineses, judeus, nórdicos - isso não importaria mais. Biotecnologia não é o futuro. É o fim."                                                                                          - Artigo do "Native American" para o Original Dissent [2]


Enquanto que Faye pode ser considerado como autor de grande parte dos conceitos contidos no projeto do Arqueofuturismo, a ideia não é totalmente dele e o conceito é mais antigo. Monnerot abordou vários desses conceitos em seu trabalho "Les Lois du Tragique" [As Leis da Tragédia]. Inclusive, a própria criação do termo Archéofuturisme [Arqueofuturismo] é creditada a ele. Mallock, em seu livro "Aristocracy and Evolution" [Aristocracia e Evolução] dedica-se a criticar as consequências indesejadas da superação do homem, ou seja, a criação do "grande homem".

James O'Meara aponta para o fato de que, em substituição à hereditariedade sanguínea, Faye advoga uma sucessão concedida por ritos de iniciação. A elite seria mais próxima do conceito de Männerbund [3] do que propriamente de hereditariedade (o que também causa discordância com muitos nacionalistas brancos).

Há uma questão importante a ser colocada: como definir o limiar entre o progresso e a manutenção das tradições? Até onde o Arqueofuturismo é um elemento de combate ao liberalismo e em que ponto ele passa a ser justamente um acelerador do processo de promoção do transumanismo, um fenômeno essencialmente liberal?

Seja por meio do Arqueofuturismo ou de outras formas de pensamento, o denominador comum permanece: nosso tradicionalismo não deve ser um mero culto de sombras do passado, um saudosismo clubista e sectário, mas sim algo vivo, enérgico, abrasador e pulsante - algo capaz de dar respostas aos principais desafios da atualidade e que possa se projetar para o futuro.

Como uma árvore que só é capaz de se expandir seus ramos aos céus por ter fortes raízes 
firmadas no solo, as tradições e a própria existência dos povos só podem sobreviver na modernidade (e depois de seu fim) por terem bases firmadas. Se mantemos as noções de onde saímos, de nossas origens e nossa ancestralidade, somos mais capazes de avançar, de aprimorar aquilo que somos.

Nessa perspectiva, pesquisas espaciais e sacralidades religiosas estão interconectados, e a matéria não supera a essência, mas serve como manifestação dela.



Notas:

[1] A Serious Case [Um Caso Sério], disponível em Counter Currents.

[2] More Anti-White Transhumanism [Mais Transhumanismo Anti-Branco], disponível em Original Dissent.

[3] Männerbund é um termo em alemão que significa "grupo de homens" - um grupo de camaradas com ideais em comum.

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