sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Os erros do puritanismo ideológico e a crítica à Quarta Teoria

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Quadro de Alexei Guintovit


Muitos desafios se impõe no presente momento, no século presente. Mas as origens desses desafios estão em tempos anteriores ao que vivemos. São, sobretudo, produtos e frutos da modernidade, do pensamento liberal, cosmopolita, global e especulativo. Como resposta a esses desafios, várias ideologias e estruturas revolucionárias foram formuladas; entretanto, a evolução do liberalismo pós-histórico exigiu novas ferramentas, das quais as propostas anteriores não dispunham. Nesse cenário surge a Quarta Teoria Política, uma resposta para os desafios presentes com leituras e estratégias próprias, sem, entretanto, um dogmatismo acachapante que limite seu raio de ação.


A Quarta Teoria Política, em suma, é uma estrutura analítico-ideológica fortemente crítica ao liberalismo. Enquanto prega pela superação das três ideologias/teorias anteriores (o liberalismo, o comunismo e o nazi-fascismo), ela também aceita conceitos e aspectos positivos das mais diferentes correntes, variantes, nichos, estruturas ideológicas e pensadores das mais variadas escolas de pensamento, numa síntese comumente anti-liberal.


Este aspecto, que é um dos pontos mais interessantes e enriquecedores da Quarta Teoria, é considerado como uma incoerência, uma hipocrisia ou uma inviabilidade teórica. Muitos dos críticos da Quarta Teoria Política acusam essa estrutura de ser uma "mistura de ideologias", um emaranhado de conceitos diametralmente opostos. Entretanto, os mesmos críticos se esquecem de que não há "purismo ideológico'. Todas as ideologias, em essência, são interconectadas com aspectos de outras ideias, até mesmo de estruturas ideológicas opostas, em maior ou menor grau.

Entretanto, o cerne desse tipo de criticismo é puramente semântico, vocabular, e não analítico ou profundamente filosófico. A confusão entre termos, nomes, designações e rótulos é a base da negação da Quarta Teoria Política enquanto projeto viável e maduro. Essa confusão pode ser desfeita com análises históricas consistentes e facilmente assimiláveis, que demonstram que o ponto central desse criticismo é tanto falso quanto frágil.

Comecemos pelo dualismo político básico entre Esquerda e Direita. Esses dois prismas, que abarcam uma série de ideias e correntes, são originários essencialmente da mesma fonte: a Revolução Francesa. Os ideais de  "liberdade", "igualdade", "fraternidade" são a base da Esquerda, de onde o marxismo retirou muitos de seus aspectos. A Direita, por outro lado, toma o conceito de enfrentamento do Estamento (o Estado) em benefício da burguesia e da sociedade construída aos moldes burgueses (a Revolução Francesa e o Iluminismo foram processos essencialmente burgueses). Direita e Esquerda fazem interpretações diferentes desses lemas, mas consideram-nos como valores essenciais.

Mesmo uma ideologia possui inúmeras variantes. A Direita considera como algo monolítico o socialismo. Mas é mais correto utilizar o plural, já que há vários socialismos: o "utópico", o socialismo nacionalista, o nacional-socialismo, socialismo conservador, socialismo revolucionário, socialismo primitivo e o socialismo marxista (científico). Marxismo não é uma condicionante para socialismo: há socialismos marxistas. O próprio distributivismo, elaborado em grande parte pelo filósofo conservador Gilbert K. Chesterton, é em grande medida uma proposta socialista conservadora.

Quando comunistas denunciam o fascismo como "militarista", denunciam um dos aspectos básicos da revolução proletária, que é a organização armada. Vladimir Ilitch Lenin advogava um modelo de organização partidária com uma disciplina e uma hierarquia essencialmente militares. Obviamente, esse militarismo sofre alterações entre uma ideologia em outra, mas é apenas um dos inúmeros aspectos em comum entre ideologias tidas como opostas.

Da mesma forma, quando fascistas denunciam aspectos que consideram como puramente socialistas ou comunistas, se esquecem de que as maiores figuras do fascismo emigraram do meio socialista. Benito Mussolini foi um militante do Partido Socialista italiano, o que está longe de ser uma simples "fase" superada pelo ícone do fascismo. De seu pai Alessandro Mussolini, ele herdou muito de suas influências, que iam de pensadores socialistas-revolucionários e nacionalistas como Giuseppe Mazzini, Carlo Pisacane e Giuseppe Garibaldi - e até mesmo pensadores anarquistas, como M. Bakunin e Carlo Cafiero. A organização sindicalista e muitos dos aspectos do Estado formulados mais tardiamente por Mussolini possuem, em maior ou menor grau, influências desses pensadores. E ele não se tornou menos fascista por isso - como Lenin não foi menos comunista por defender a estrutura partidária rigidamente disciplinada como núcleo da Revolução.

O liberalismo é, provavelmente, a ideologia com mais arremedos: parte de uma leitura linear da História, preconiza uma comunidade global (a hegemonia liberal por todo o mundo), toma preceitos de democracia representativa, um Estado policial forte e mínimo no setor econômico, um darwinismo econômico-social, elementos da Escola de Salamanca[1] e do contratualismo[2], entre outras coisas. E é exatamente por muitos desses aspectos que há uma virulenta discordância entre liberais, ordoliberais, minarquistas, libertários e "anarco"-capitalistas (sendo esta última uma junção de conceitos anarquistas, liberalismo de mercado e capitalismo radical).

Esse darwinismo é forte tanto no liberalismo quanto no fascismo. E o fascismo, mesmo sendo anti-liberal, adota um "liberalismo nacional" evidente (principalmente como forma de antítese econômica ao comunismo), num grau mais elevado do que o encontrado no comunismo e no socialismo soviético. 

Em essência, todas as ideologias principais possuem pontos de outras ideologias, não apenas "irmãs", mas pertencentes a prismas diferentes, inclusive antagônicos. Esse aspecto não significa que é preciso aceitar a inteireza das ideologias opostas, mas ter em mente de que uma "pureza ideológica" é não só impossível, mas inviável e surreal. Dessa forma, os mesmos que criticam a QTP por ser um "emaranhado de ideologias" negam o fato de que suas próprias ideias, ideologias e concepções são resultantes de inúmeros pensadores, de diversas correntes, de escolas de pensamento diferentes.

Com o passar do tempo, as estruturas ideológicas se alteram e se aprimoram, na tentativa de sobreviver aos novos desafios. Foi o que aconteceu, essencialmente, com o marxismo: antes, uma resposta mais material, física e combativa ao capitalismo, por meio da revolução armada, da organização partidária disciplinada e da tomada dos meios de produção e da expropriação da burguesia. O pensamento de Gramsci renovou essa luta para uma esfera mais psicológica, cultural e "subliminar", sem a necessidade de um partido ou uma organização disciplinada, adotando mais a subversão do que a revolução propriamente dita.

Em resumo, todas as ideologias, sem exceção, possuem não apenas elementos de outras ideologias (inclusive opostas), mas também sofrem inúmeras variações internamente, com abertura de vertentes e correntes distintas no interior da própria estrutura.

Utilizar esse aspecto como tentativa de demonizar a QTP, inferiorizar seu valor ou anular suas leituras e propostas é negar um aspecto intrínseco à atividade ideológica, intelectual e filosófica, que é a da multidisciplinaridade das mais vertentes facetas do pensamento humano, seja ele político, social, econômico, partidário, semântico e estrutural. É esse aspecto que a Quarta Teoria, ao invés de negar, aceita e expande; é justamente por essa aceitação que, na atual conjuntura, trata-se da melhor plataforma alternativa ao liberalismo e à hegemonia global.


Notas:

[1] Pensamento desenvolvido e fruto da Escolástica, especialmente nos séculos XVI e XVII, com grande desenvolvimento intelectual no medievo. O movimento da Escola de Salamanca foi fundado essencialmente por Francisco de Vitória (1483-1564), tendo ramificações em vários centros universitários da Europa e das Américas.

[2] Com origens que remontam à Grécia, o contratualismo adquiriu relevância econômico-social com o liberalismo. Em suma, o contratualismo reconhece a sociedade como um aparato regido por um acordo (ou contrato, de onde vem o nome) entre o Estado e os cidadãos autônomos (indivíduos), reconhecendo a autonomia destes em relação ao governo e valorizando a liberdade do indivíduo diante da gerência estatal.

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