quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Heróis esquecidos

Por: Jean A. G. S. Carvalho
Fotografia integrante da exposição em homenagem ao 70º Aniversário da Vitória dos Aliados na 2ª GM, com veteranos brasileiros da Grande Guerra

Grande parte da construção patriótica e um dos sinais mais evidentes para se medir a saúde de uma civilização é o modo como os heróis de guerra são tratados. Os veteranos, aqueles que em alguma missão ou combate defenderam o país, são parte viva de um passado que não deve ser esquecido.

Há rupturas dos elos entre juventude e anciãos: aquela resigna as heranças deixadas por esta. Por falhas de comunicação (essencialmente advindas do individualismo e da atomização do homem), as novas gerações simplesmente não tomam as chamas entregues por seus ancestrais e não aceitam a missão de mantê-las acesas. O ontem deve morrer, o que vale é o hoje. Nesse raciocínio está o suicídio de uma civilização.

O que muitos consideram como saudosismo é, em termos bem simples, dignidade e reconhecimento do esforço prestado por pessoas a um senso coletivo, um país, um povo, uma nação. É dignificar aqueles que sobreviveram para repassar suas impressões, suas histórias, suas próprias expectativas. Esse senso de dívida (no sentido positivo do termo) não é imobilismo, nem nostalgia: é prestar honras a homens e mulheres que de fato merecem ser tratados como heróis, pois são figuras de significação do espírito heroico cada vez mais escasso. Significa mover-se para o futuro usando a sabedoria dos ancestrais como bússola.
Um dos impactos traumáticos (e didáticos) para o Brasil foi a participação dos pracinhas na Segunda Guerra Mundial. Não escolhemos o conflito, fomos arrastados para ele. A Europa passava pela convulsão do nazi-fascismo; os soviéticos avançavam pelo Leste numa onda vermelha e do lado Ocidental, as potências liberais ensaiavam aquilo que seria seu triunfo global - concretizado, essencialmente, com os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki.

Nos trópicos, vivíamos a construção do Getulismo, a consolidação do regime patriótico-trabalhista de Vargas que, com todas suas contradições e limitantes, alçava o país a um patamar superior àquele anteriormente ocupado. Duas coisas justificaram a entrada do Brasil no conflito "mundial" (mais especificamente, transcontinental): a pressão dos Estados Unidos sobre o país e o torpedeamento dos navios em costa brasileira. 

Nossos soldados foram enfileirados. Pracinhas atarracados nos navios, atravessando o Atlântico - com todos os riscos e perigos, principalmente em relação aos submarinos do Eixo - para lutar com os pés atolados em neve, com jornal forrando as botas para suportar o frio, trocando tiros com tropas nazi-fascistas já desgastadas.

Documento militar de Agenor Katagi

O heroísmo desses homens foi o de ter sobrevivido à catástrofe. Homens como Agenor Katagi[1], nascidos de famílias unidas pelos povos que vieram ao Brasil procurando um refúgio para as catástrofes que viviam em suas próprias terras, e que foram atirados ao calor de um combate crepuscular. Há biografias muito interessantes e que não chegam ao nosso conhecimento. Quantas histórias e quantos pensamentos foram perdidos não só no campo de batalha, mas nos próprios veteranos sobreviventes que, retornando à pátria, foram esquecidos.

Esquecemos da guerra e dos guerreiros porque esquecemos de quem nós mesmos somos. Tentamos apagar o passado para dar significado a um presente conturbado. A memória da guerra é a memória da própria vida, da construção da pátria. Nos falta, agora esse vigor militar, esse vigor patriótico tristemente transformado em "culto à ditadura. A própria construção de uma pátria é a construção pela luta: luta física, luta espiritual, luta intelectual. Nada de bom surge do marasmo, do pacifismo. Pacifismo é barbárie.

Seria tempo de dar novos significados aos nossos heróis para estimular o espírito patriótico no momento presente. Não o pseudo-patriotismo de uma Direita já inerte, mas sim o despertar do inconsciente coletivo, o despertar das massas. Se houve heroísmo numa guerra com a qual tivemos pouca identificação, deve haver uma nova profusão dele agora, quando mais precisamos.

Aqueles que lutaram ontem, envelhecidos pelo tempo, possuem esse vigor: um vigor que deve ser repassado à juventude, o vigor do combate, do heroísmo, da disposição. Relembrar a memória de nossos heróis é manter viva a história da nossa pátria, daquilo que somos e nos tornamos, mal ou bem - aceitar esse legado e utilizá-lo para construir um futuro melhor agora, no presente.

Esquecer a memória desses veteranos é negar parte importante de nossa história, e denuncia um vício que a sociedade global nutre: o desprezo pelos seus e o descarte dos velhos como peças obsoletas - peças que devem ser repostas por gerações cada vez menos vigorosas e cada vez mais esvaziadas.




Notas:
[1] Agenor Katagi, filho da brasileira Rosa Katagi e do imigrante japonês Schichizo Katagi (desembarcado no Porto de Santos). Nasceu em 1920. Serviu a Marinha em missões de patrulhamento na costa brasileira, principalmente em missões de reconhecimento e vigilância. Em 1947, recebeu, em 3 de agosto de 1946, uma Medalha de Serviços de Guerra por parte do então presidente Eurico Gaspar Dutra. Morreu em 2002, deixando cinco filhos. As informações nos foram gentilmente cedidas por seu bisneto, Breno Cassano.
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