segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Santos Dumont e a genialidade incompreensível

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Do mais primitivo objeto ao dispositivo mais avançado e moderno, o homem expressa sua capacidade criativa por meio desses objetos. Mas, antes de tomar forma material, essas coisas ganham formas no campo do inconsciente, do imaginário e da especulação. O pensar precede o fazer

Tecnologia é o reordenamento da matéria, pelo qual o homem amplia suas próprias capacidades e o poder de moldar o cenário. Esse reordenamento abrange tanto os antigos canais de irrigação da antiga civilização egípcia, a agricultura em níveis nas encostas das montanhas pelos incas, o arco e as flechas dos sumérios, a pólvora dos chineses, as caravelas dos portugueses e espanhóis, navios a vapor, motores de combustão, armas automáticas, bombas atômicas, smartphones, videogames e redes sociais - e equipamentos de ultrassom, ressonância magnética e transplantes de órgãos.

Para cada conquista civilizacional e tecnológica, o trabalho de quantidades imensas de braços foi utilizado; entretanto, homens e mulheres dotados de um intelecto que supera os padrões médios e com um grande conhecimento que não se limita pela simples racionalidade ou pela lógica simples, mas algo extremamente indecifrável, divino, são responsáveis por enxergar aquilo que não existe, aquilo que ainda será criado pelo reordenamento da matéria.

São pessoas capazes de enxergar o amanhã, de idealizar e construir algo. Alberto Santos Dumont não foi o primeiro dos mortais a se empenhar no projeto de um voo, mas - provavelmente - foi o primeiro a fazê-lo com sucesso. Os homens dominam os animais, mas se inspiram neles. Dumont tomou como exemplo as tentativas anteriores às dele, e foi capaz de criar algo que seus antecessores não conseguiram, e seu conhecimento permitiu que outros, depois dele, replicassem o invento e o aprimorassem.

As construções de Santos Dumont obedecem parâmetros rígidos (mas incrivelmente maleáveis) de uma arquitetura inspirada na estrutura das aves; asas e cauda de um pássaro; máquina que, assim como as aves, é mais pesada que o ar, mas que é capaz de alçar voo; o ato de voar é, em si mesmo, incompreensível em termos puramente aerodinâmicos. Na capacidade dos gênios reside a observação das leis físicas e suas manifestações no mundo físico, mas a capacidade de desafiar essas leias através da absurdidade.

Suas máquinas pareciam obedecer uma cosmovisão inteira, o desenho de um mundo refletido num objeto - e não um simples item, um simples dispositivo; é o que explica a monstruosidade e, ao mesmo tempo, a grandiosidade de algo como um dispositivo nuclear. Invenções são, via de regra, impressões do mundo num instante, condensadas num objeto específico - mas com significados que superam o próprio objeto.

Os inventos de Dumont precisam ser compreendidos no campo imaterial; mais do que invenções, ele criou conceitos e realidades alternativas - e superou impossibilidades temporais. Seus desenhos são conceitos que duraram além de seu tempo, e nesse aspecto futuro está o caráter de um verdadeiro gênio.

Dumont é de uma linhagem de homens que engloba figuras como Leonardo da Vinci: criadores do não-existente. Homens que, pela observação da estrutura dos inúmeros elementos e seres da Natureza, são capazes de criar coisas incríveis. O cerne do intelecto humano não pode ser compreendido por termos estritamente lógicos e racionais. Há algo de mais profundo, há algo de oculto e sublime em homens como Dumont.

Podemos compreender, por vias estritamente racionais, como é possível fazer um dispositivo voar; mas a genialidade contida num Santos Dumont, genialidade esta que permite a criação desse dispositivo, é incompreensível.

E é essa incompreensão que foi capaz de alçar voo 110 anos atrás - e ainda hoje, e em outros níveis num futuro igualmente imprevisível.

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