sábado, 1 de outubro de 2016

Por um novo rumo político

Por: Jean A. G. S. Carvalho





Todo sistema político tem, por princípio básico, o objetivo de organizar a vida sócio-econômica de uma determinada civilização. Essa questão está para além da própria política: abrange as artes e as diversas formas culturais, as condutas individuais e coletivas e o próprio estado de espírito de um povo.

Assim, quando um povo se identifica com o sistema político que o governa, que organiza o espaço territorial no qual ele vive e do qual participa, esse povo vive de forma mais saudável, coopera melhor com seu próprio governo e promove o crescimento material, espiritual e cultural da nação, em termos que estão muito acima dos próprios índices verificáveis. Tal povo sente-se parte de um todo, possuidor de uma missão histórica e um significado existencial (elementos extremamente enfraquecidos na modernidade e pela diluição individualista e liberal do homem).

No cenário oposto, um povo que não se vê refletido no sistema político que o governa tende a construir um estado espiritual, mental e psicológico extremamente doentio, pessimista e desanimador. Não há qualquer sentimento de pertencimento a um todo, um grupo com uma missão histórica comum, e sequer o reconhecimento de si como parte de uma civilização. Este é o quadro atual no país que chamamos de Brasil (com seus mil Brasis): o sistema político não está em contato pleno com as massas e não reflete seus anseios, aspirações e vontades.

Um governo está acima da mera servitude aos anseios do povo que, moldado às circunstâncias mais emergenciais, tende a cometer equívocos. O governo pode, inclusive, moldar essas vontades e direcionar o povo para um rumo que leve em conta questões que vão além do momento imediato (a questão do planejamento torna-se essencial). Entretanto, um governo que não atenda as necessidades mais elementares de um povo perde credibilidade diante deste, e torna-se incapaz de conduzir qualquer coisa para além do curto-prazo.

O atual sistema político, baseado num republicanismo liberal pluripartidarista representativo, não reflete os anseios do povo e não possui mais contato com suas necessidades, com suas realidades; é incapaz de atender seus anseios imediatos mais básicos (saúde, segurança, educação, cultura, lazer, e outros elementos fundamentais ao pleno exercício da cidadania) e não produz nenhum projeto-nação, nada que leve em conta gerações vindouras. A maioria de seus membros são velhos barões e baronesas pertencentes a um sistema político negativamente arcaico em suas bases essencialmente burguesas, latifundiárias e coronelistas, que se elegem às custas da exploração dos anseios e das necessidades elementares de seus eleitorados.

Em resposta ao sistema atual, temos uma Direita que clama pela manutenção desses fósseis políticos, sob o pretexto de manter uma linha de "moralização" pseudo-conservadora, liberal e "nacionalista", cujo enfoque é impedir a "instalação do comunismo" no país; e, do outro lado, uma Esquerda que não deseja derrubar o sistema vigente, mas sim tomar parte dele, e que elege a "representatividade" (principalmente a eleição de figuras que representem setores ínfimos da sociedade) como a melhor arma de "alterar as estruturas" desse sistema. As duas medidas, além de ineficazes na construção de uma nova política, apenas reforçam os elementos negativos citados anteriormente: distanciamento das massas e ineficácia da máquina pública.

Nós defendemos uma linha realista e essencialmente viável: a política pautada no trabalhismo, num novo nacionalismo consciente, onde o municipalismo seja o vórtice da organização política (a participação política nas ruas, nos bairros, na cidade - a eleição da cidade como o principal organismo administrativo e de contato mais imediato com o cidadão), centralizando aquilo que deve ser centralizado (decisões estratégicas, questões geopolíticas, defesa espacial, inteligência e administração dos recursos naturais) e descentralizando aquilo que deve ser descentralizado (maior autonomia aos estados e municípios e maior diálogo com os diversos regionalismos e identidades).

O fim da imunidade parlamentar e dos privilégios injustificáveis da elite política e econômica são passos essenciais para essa concretização. Nem o parasitismo do centralismo político, nem as oligarquias mafiosas dos estados.

Lutamos por uma política que vá além do voto bienal, lutamos por uma participação cidadã efetiva onde o voto e as eleições sejam meios, mas não fins em si mesmos. Uma política que não é compatível com o atual sistema decaído e decadente, baseado no impressionismo e na emotividade: para que a nova política nasça, esta deve morrer.


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Um comentário:

  1. Esta política que estás defendendo é baseada na democracia, no voto direto? Para que isto realmente seja efetivo, a morte da politica atual deve acontecer de forma contundente, portanto, revolucionária.

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