domingo, 2 de outubro de 2016

O vandalismo como falso engajamento

Por: Jean A. G. S. Carvalho




Em São Paulo, no dia 30 de setembro, monumentos de simbolismo bandeirante (o Monumento às Bandeiras e a estátua de Borba Gato) amanheceram vandalizados. Há significados profundos nesse gesto, significados que escapam à compreensão daqueles mesmos que o promovem. O vandalismo enquanto gesto no campo físico é a resultante de um estado emocional, ideológico ou religioso; é a manifestação, no mundo material, de questões imateriais - a ideia que se transforma em ação. O vandalismo, enquanto gesto, esteve presente na história humana desde os primórdios, quando nossos antepassados dispunham de ferramentas menos desenvolvidas. A humanidade apenas aprimorou os meios e as ferramentas de destruição e vandalismo.

Dessa forma, os bombardeios na Síria que destroem imenso patrimônio histórico-cultural e arqueológico estão alinhados à pichação de monumentos públicos em São Paulo: dois gestos de vandalismo com proporções diferentes, mas que efetivamente se ocasionam pelo desconhecimento, desrespeito ou a tentativa de anulação do passado, do "outro". As ações, voltadas contra monumentos de bandeirantes, têm por objetivo explicitar a rejeição por um "período vergonhoso", anular a memória de "figuras que se valeram da violência" e outras pautas que estão mais correlacionadas à emotividade e ao desejo de redesenhar a narrativa histórica por vias não-intelectuais e completamente avessas à observação e ao estudo sério do que a uma suposta manifestação de "orgulho indígena".

Os bandeirantes formaram aquilo que se pode considerar como uma das primeiras forças de defesa territorial do Brasil e o instrumento pelo qual a moldagem da atual configuração territorial, cultural e étnica tornou-se um empreendimento realizável. Das bandeiras surgiram a unificação dos elementos branco, negro e indígena. Das bandeiras pudemos tomar contato com a imensa riqueza dos povos indígenas. O caboclo, o mulato e o cafuzo são resultantes originadas desse processo.

Dessa forma, como Lucas Rodrigues menciona, o gesto de vandalismo em relação aos bandeirantes representa uma forte endofobia de brasileiros que rejeitam um dos alicerces do próprio Brasil. Os bandeirantes e seus originários caboclos, mulatos e cafuzos forjaram o início da identidade BrasilI: já não eram mais portugueses (o "branco"), nem índios, nem negros; eram as três coisas e por isso não eram plenamente reconhecidos pela Coroa portuguesa e não se identificavam como tal. Qualquer gênese que posteriormente buscava uma identidade "sua" só foi possível através desse processo.

Ao rejeitar as bandeiras, esses vândalos (que geralmente não são negros nem indígenas, mas sim abranquelados cheios de um sentimento de autocomiseração e vergonha em relação às próprias raizes) rejeitam parte daquilo que são. E é interessante notar como os próprios povos indígenas, teoricamente aqueles que deveriam se "revoltar" contra o histórico das bandeiras, não se fazem presentes nestes atos de vandalismo que são uma expressão tipicamente burguesa, atos dos membros da classe média e alta frequentadora de DCE's e "coletivos". 

A revolta contra os bandeirantes é uma questão branca, daqueles que, pela retórica do politicamente correto, precisam fortemente mostrar que não sentem nenhum orgulho daquilo que são nem de seus antepassados, que rejeitam inteiramente qualquer traço cultural minimamente branco e cristão para, assim, serem aceitos nessa linha que não tem compromisso com a história, nem com indígenas ou negros, mas sim com uma agenda específica de pensamento e de estado psicológico.

Não é um gesto de valorização ao índio e ao negro (aliás, no Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera, há a representação de várias figuras indígenas), mas sim de desprezo a um dos elementos do tripé que formou a base cultural e étnica do Brasil. É o gesto de uma casta profundamente aburguesada, anti-Brasil e movida por puro ressentimento, infantilismo e ignorância.

Muitos dos bandeirantes eram índios; muitos dos chefes bandeirantes brancos eram associados aos índios pela questão do cunhadismo e do casamento com índias, por meio dos quais tornavam-se membros efetivos duma tribo. Negar o fenômeno bandeirante é sim negar a história e a ancestralidade indígena. E é sintomático que aqueles que se dizem orgulhosos de sua "miscigenação" e que propagam isso como elemento positivo do Brasil demonizem os agentes que criaram e permitiram, aqui, este processo.  

O movimento das bandeiras não foi um fenômeno de simples supressão ou genocídio de índios. Aliás, comparando-se à política adotada nos Estados Unidos, o contato entre colono e indígena, no Brasil, foi muito menos catastrófico e muito mais produtivo.  Domingos Jorge Velho, um dos mais significativos chefes de bandeira, era profundamente indigenizado e falava a chamada "língua geral", uma mescla de elementos do Tupi e do Português. No contato com os índios, os bandeirantes absorveram muito da cultura destes e, de vários modos, permitiram sua preservação. 

A retórica utilizada para a validação desses gestos de vandalismo é a do empobrecimento intelectual, aquela que se recusa a dialogar com os vários elementos do passado e do presente; é fruto da pura ignorância e do ódio a elementos fundamentais à construção do Brasil em seus Brasis. Sob uma ótica "humanitária" e politicamente correta, dispõem-se a considerar o índio como eterna vítima, como criança pura a ser tutelada. Essa, mais do que as bandeiras, é a expressão do racismo étnico e da negação da análise integral do processo histórico e do contato entre brancos, negros e índios. 

Nesse alinhamento puramente emocional e higienista ("preciso eliminar aquilo que há de ruim e de mau"), baseado num ódio infundado em relação a um passado que se desconhece, todos os monumentos deveriam ser derrubados, todas as ideologias deveriam ser anuladas (como na Esquerda que não esconde seu desejo de derrubar qualquer monumento que remeta ao militarismo ou à presença cristã e europeia no Brasil, e como a Direita que se regojiza ao ver estátuas de Lênin, Marx e Stalin sendo derrubadas). Assim, todas as figuras que estes vândalos idolatram deveriam ser banidas. Nenhuma ideia, nenhuma ação, nenhum momento histórico restariam de pé. Essa visão infantil não corresponde à realidade: a história deve ser preservada, e essencialmente aquela história de que não gostamos, pois, queiramos ou não, ela também forma aquilo que somos. Esconder dos olhos aquilo que não se gosta torna-nos apenas mais cegos. 

Não há "santos" na História. Mas demonizar aqueles que não são santos, ao invés de interpretá-los como aquilo que são (humanos), representa muito mais uma incapacidade mental e uma ausência dos princípios éticos e filosóficos mais básicos do que um sentimento puro, sincero e moral.

Aqueles que agora mesmo estão cuidando da recuperação e da limpeza do patrimônio vandalizado são, ironicamente, herdeiros das marcas negras e indígenas, heranças pelas quais os militantes de DCE mostram total ignorância, principalmente por meio de atos como esses, pelos quais tentam artificialmente exibir alguma preocupação com esses grupos étnicos. Porque não há nada mais irônico do que uma classe aburguesada abranquelada que, através do vandalismo, mostra um "engajamento político" que se direciona ao sentimentalismo para com o negro e o índio, por meio de pichações e vandalismos que, depois, são arrumados justamente por mulatos, negros, índios e caboclos.

Os bandeirantes tiveram mais contato com esses elementos do que estes vândalos jamais tiveram ou terão. E, justamente por terem moldado aquilo que somos, sua memória deve ser preservada e enaltecida (não divinizada, pois, como homens, cometeram erros dos quais não devemos nos orgulhar), tanto quanto qualquer outro elemento étnico-cultural dos mil Brasis.


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