quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O liberalismo como morte civilizacional

Por: Jean A. G. S. Carvalho



O que movimenta os povos? O que promoveu a glória das civilizações da antiguidade, o poder de exércitos imensos? Alexandre, o Grande, redesenhou mapas com que ímpeto? O que motivou o homem das estepes, Gengis Khan, a conquistar imensidões? Cleópatra, a senhora do Nilo, conseguiu interferir no maior império da época: mas com que pretensões? Montezuma governava milhões; mas, como fazia isso?

Todos os grandes nomes da História, todos os grandes povos e civilizações foram também organismos: saudáveis em seu início, firmes em sua maturidade e enfraquecidos nos seus tempos tardios. Nasceram, cresceram, se expandiram, estagnaram, encolheram e morreram, sendo suplantados por outros povos com mais vigor. Alguns duraram poucos séculos; outros, milênios - e outros sequer deixaram seus nomes na História.

Não foi a simples busca pelo lucro. Havia, para esses grandes vultos, algo além da matéria. A própria noção de grandiosidade era construída para além da própria vida: ela deveria ser uma marca percebida após a morte, por inúmeras gerações em diversas Eras. Não foi a noção do "eu", já que o essencial era o "nós", a noção de povo, de civilização. Mesmo imperadores, estabelecendo um culto para si mesmos, sentiam que sua glória pessoal era a glória do Império, de toda uma civilização que havia sido iniciada antes deles e que deveria perdurar depois que se fossem.

Toda civilização passa por um processo essencialmente cíclico: começo, meio e fim. O ímpeto enquanto grupo, a força coletiva de um povo e sua missão histórica são elementos que funcionam como o "sangue" de um povo. As noções de pertencimento étnico, de religião, cultura e missão são os aportes de uma sociedade saudável e vigorosa. Nenhum grande povo, nenhum reino ou império com relevância histórica significativa teve como motor propulsor a mera busca pelo lucro ou o individualismo: uma noção atemporal e uma identidade coletiva sempre foram elementos essenciais para a superação e o apogeu de qualquer povo, em qualquer raça, qualquer etnia, qualquer religião - em qualquer lugar do mundo.

Dessa forma, o Império Romano, o Egito antigo, a China Imperial, as civilizações dos maias e dos astecas, os zulu na África, as civilizações da Índia, o Japão feudal, enfim, todas as culturas relevantes ao mundo tinham algo em comum: um forte senso coletivo, a noção de organismo social e a visão de seus membros como parte desse todo. Não o centralismo no indivíduo, mas sim no corpo, no todo, na civilização, no Império.

O liberalismo esteve ausente em todos os estágios de apogeu desses povos. Ele surge, no máximo, como resultante de um processo de enriquecimento material e como indício de uma licenciosidade que precede o fim. Tomemos como exemplo o antigo Império Romano. Em seus estágios finais, o liberalismo (tanto político quanto econômico) tornou-se forte em Roma - e não nos referimos aqui essencialmente à doutrina liberal, que obviamente não havia sido formulada na época, mas sim aos sinais e fenômenos observáveis à época e que são defendidos dentro da praxe liberal.

A aceitação dos "bárbaros" como um elemento essencial para o "enriquecimento" de Roma, seja como mercantes ou como mercenários, foi um desses sinais políticos; a nobreza passou a ser uma questão de disponibilidade de ouro; as noções de honra e de disciplina marcial foram substituídas por relações contratuais. Lentamente, os romanos perderam sua força enquanto corpo, enquanto identidade coletiva; seu ímpeto civilizacional cessou: a questão era manter ou salvar a riqueza acumulada por alguns nobres, refugiados em suas montanhas enquanto a civilização milenar era espoliada pelos invasores.

O que motivava os bárbaros e porque eles sobrepujaram os romanos? Essa é uma lição que serve ao mundo atual: povos que perdem seu ímpeto e sua identidade coletiva, mesmo que sejam tecnológica, econômica e militarmente mais desenvolvidos, são suplantados por outros povos mais primitivos, mas portadores de um vigor e de um ímpeto, de uma força de ignição, uma vontade e um aspecto bélico ausente nessas sociedades mais "desenvolvidas", que são, então, espoliados. Foi isso o que aconteceu com Roma, espoliada pelos visigodos; e foi isso também o que ocorreu com o Império da China que, durante a dominação mongol, havia se tornado materialista, mercantilista e acomodado.

Civilizações sedentárias são suplantadas pelos povos de incursão. Povos vazios são preenchidos por alguma outra substância, ou seja, povos vigorosos e com ímpeto - elementos que faltam ao Ocidente atual. É o que acontece, hoje, com a Europa Ocidental em relação à onda islâmica: os países liberais da Europa, já esvaziados, imersos no individualismo e no niilismo, nos ideais cosmopolitas. O continente europeu, tendo renunciado aos próprios ideais de identidade coletiva e de ímpeto civilizacional, tem cedido terreno para a cultura islâmica que, em oposição ao sentimento europeu, está em franca expansão.

O liberalismo não estava presente na aurora das civilizações. Não moveu reis, imperadores, conquistadores, revolucionários; não construiu as pirâmides de Gizé, nem a Muralha da China e seus guerreiros de terracota, não criou a cultura marcial dos samurais, não moveu os cruzados; não construiu Tenochtitlán. Onde estava o liberalismo quando os gregos fizeram suas estátuas, quando construíram o Colosso de Rodes? Onde estavam as doutrinas liberais quando Carlos Martelo enfrentou a batalha decisiva para a história da Europa?

O liberalismo não pode ser encontrado em momentos de glória. Não está no alvorecer, está no crepúsculo - na noite. É lunar, não solar. Ele não é verificado quando os povos encontram seu ápice, seu apogeu. Mas está sempre presente nos momentos que antecedem a ruína. Como os nobres em Roma que, mesmo diante da invasão bárbara, se deliciavam em suas saunas e em suas orgias, negando o destino óbvio que se abatia sobre eles. Como o Ocidente, que nega sua situação e se recusa a compreender o momento no qual se encontra.

O liberalismo é um vírus cujo crescimento só é possível em organismos doentes, em corpos enfraquecidos - em povos decadentes. A riqueza material não foi capaz de salvar Roma, não foi capaz de evitar a dominação mongol na China e não será a solução para a crise cultural na Europa e nos Estados Unidos. Tampouco produzirá efeitos positivos no Brasil. Ela corrói o organismo; seu ideal máximo de individualismo é a semente para destruir qualquer noção de comunitarismo, de pertencimento, de identidade. Promove afeminação e negação de aspectos masculinos essenciais à sobrevivência de qualquer povo.

Em países, culturas e tradições saudáveis, o liberalismo é inexistente ou insignificante. Ele não germina onde há força e vigor, onde há orgulho e patriotismo; mas povos desiludidos com seus governos, nações esgotadas pelo vazio são alvos fáceis para essa doutrina que, em toda a parte, significa a morte, o suicídio civilizacional que se abate sobre o homem no entardecer, que retira dele qualquer sentido de heroísmo, de glória, e o preenche com a mais vil paixão pelo ouro.



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