terça-feira, 25 de outubro de 2016

Entrevista com Alain de Benoist: A Bênção das Limitações

Por: Alain de Benoist
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho




Nessa recente entrevista com o jornal católico Le Nef, Alain de Benoist discute as origens e a evolução da "Nova Direita" francesa, bem como seu próprio pensamento, sobre o liberalismo, sobre o futuro da política e sua ideia de paganismo. 

Nós tivemos o prazer de entrevistar o maior dos intelectuais franceses, de Chantal Delsol a Pierre Manent, passando por Marcel Gauchet, Alain Finkelkraut, Jacques Juillard e alguns outros, em nossas colunas. Alain de Benoist não é cristão - então, nós divergimos em certos pontos -, mas é uma grande mente aberta ao debate e com o qual concordamos em vários pontos. Enquanto ele permanece grandemente ostracizado em relação à mídia mainstream, estamos felizes e honrados e lhe dar um pouco de espaço aqui.

Você é um dos fundadores da "Nouvelle Droite" [Nova Direita], do GRECE, e de mutos jornais desse movimento. Você poderia nos lembrar das circunstâncias desses projetos, e das principais ideias que você defende? 

Aquilo que muito mais tarde foi designado pela expressão bem simples de "Nouvelle Droite" [Nova Direita] nasceu em 1967 e 1968, pouco antes dos eventos em Paris, durante o mês de maio. Ainda adolescente, eu já tinha intensa experiência, argumentação e militância política dos quatro ou cinco anos anteriores, dentro da Direita radical (a Fédération des Étudiants Nationalistes [Federação dos Estudantes Nacionalistas], de François d'Orcival, e, depois, no jornal Europe Action, fundado por Dominique Venner.

Uma escola rude e uma experiência memorável, mas, cujos limites testei rapidamente. Aos 25 anos de idade, eu compreendi que eu era um homem de conhecimento, não um homem de poder - para falar como Raymond Abellio. Além disso, eu estava cansado de slogans e de ideias prontas. Então, rompi definitivamente tanto com a ação política e a extrema Direita, para me devotar completamente ao trabalho do pensamento. Foi quando eu criei o jornal Nouvelle École [Nova Escola], pouco antes de lançar o GRECE.

O jornal Éléments [Elementos] apareceu em 1972. Eu também lancei o jornal Krisis em 1988, que deveria ser um "jornal de ideias e debates". Esses três jornais ainda são publicados. Minha intenção, na época, era a de começar do zero, ou seja, fazer sistematicamente um inventário de todos os domínios do conhecimento, que conduzisse ao desenvolvimento de uma nova concepção de mundo, capaz de clarificar o momento histórico no qual vivemos. Eu tinha em mente o exemplo da Escola de Frankfurt, a Action Française [Ação Francesa], e o CNRS! É claro que tivemos de recuar. Ao menos posso dizer que, desde meio século atrás, eu nunca estabeleci outros objetivos.

Você colaborou com a revista Figaro no final dos anos 1970; você ganhou notoriedade nela, mas você foi expulso. Isso foi por conta de um "crime de pensamento"? Poderíamos enxergar nesse episódio o começo de um ostracismo midiático do qual você tem sido vítima?

As coisas são mais simples. Louis Pauwels, quando havia criado a revista Figaro, me pediu pra fazer isso junto com ele, o que eu aceitei. Muitos de meus amigos também participaram dessa aventura. Três naos mais tarde, traumatizado com a chegada da Esquerda ao poder, Pauwels decidiu se converter ao Cristianismo e ao liberalismo, já que ele não era nem cristão nem liberal anteriormente. O monsenhor Lustiger recebeu a confissão dele. Se eu tivesse seguido o exemplo dele, teria sido fácil pra mim manter meu emprego na revista Figaro. Eu não fiz isso.

A expulsão da qual você fala foi a consequência lógica. Mas eu não acho que essa seja a origem do ostracismo que você mencionou. Esse foi só um aspecto da evolução mais geral do cenário intelectual, que marginalizou progressivamente uma série de pensadores independentes, e que atingiu muitos outros pensadores além de mim. Essa é a pedra basilar que hoje está começando a sair de moda. O pacote de gelo intelectual está derretendo. É o aquecimento global!

Na época, eles te reprovaram por defender teorias "racistas"; o que realmente eram essas ideais? Você mudou? Não são essas velhas acusações que encarnam em você?

Os poucos promotores que querem ditar a mídia usam muitos meios hoje! Os fantasmas "racialistas" eram parte da bagagem da juventude da qual eu já havia sido alijado há muito tempo atrás. Publiquei três livros contra o racismo, nos quais eu desconstruí metodicamente as teorias racistas para demonstrar sua falsidade intrínseca. Fiz o mesmo com todas as doutrinas que pretendem derivar a especificidade sócio-histórica das sociedades humanas, sem considerar a biologia.

E, quando eu falo de identidade, me refiro a Martin Buber, não a Gobineau! Basta ler o que eu escrevo para notar isso (não falta material: 102 livros, 2000 artigos e 600 entrevistas). Mas eu não sou tão ingênuo: ao contrário, sei bem que o objetivo real é evitar que as pessoas leiam meus materiais.

Em relação ao começo da Nouvelle Droite [Nova Direita], quais são os principais pontos que você crê terem mudado, e quais são os temas persistentes, fundamentais?

Mais do que mudanças, houveram inflexões. Por exemplo: hoje, eu não aceitaria mais a rejeição completa do pensamento de Freud ou de Marx, aos quais eu havia aderido nos anos 1970. Além dos grandes pólos de influência que me impressionaram desde o início, como o pensamento socialista no começo do movimento trabalhista (Sorel, Proudhon, Leroux, Malon) e os não-conformistas dos anos 1930 (Mounier, Robert Aron, Alexandre Marc), ou dos conservadores revolucionários alemães (Schmitt, Spengler, Jünger, Moeller van den Bruck), meu interesse estava se voltando gradativamente para as ciências sociais, de Max Weber a Jean-Claude Michéa, passando por Simmel, Sombart, Baudrillard e Louis Dumont. Mas eu também prossegui em meus trabalhos sobre tradições populares e a história das religiões.

Como você analisa a emergência do "politicamente correto", com seu principal vetor no anti-racismo e na pouca resistência que isso encontra?

Isso é uma moda que veio originalmente dos Estados Unidos. Na França, ela floresceu por conta da Esquerda, mas também marcou o fim de uma Esquerda fervorosa em suas aspirações iniciais. Ao privilegiar o "anti-racismo" e a "luta contra todas as discriminações", a Esquerda buscou uma substituição histórica de sujeito já que, deliberadamente, rompeu com o povo. 

Ao recitar os mantras dos direitos humanos e conclamar o encorajamento de todas as formas de desejo, inclusive a nível institucional, a Esquerda deseja ocultar sua aderência vergonhosa ao monoteísmo de mercado. Essa virada dificilmente encontrou qualquer resistência, pois o terreno já havia sido preparado pra isso, durante, no mínimo, dois séculos; mas eu convoquei a ideologia do "Igual", essa ideologia multifacetada que diz que os homens são fundamentalmente os mesmos em todo lugar, e que as diferenças que notamos entre eles são secundárias, se não perigosas. Igualdade, nessa perspectiva, se tornou sintoma de uniformidade.

Você escreveu muito sobre o liberalismo*. Enquanto que nosso país sofre com um Estado de socialismo sufocante, enquanto a violência islâmica desencadeia a si mesma por meio a imigração em massa, enquanto eles "desconstroem" o homem passo a passo por meio da teoria de gênero e do trans-humanismo, em suma, enquanto muitas ameaças concretas nos oprimem, por qual razão o liberalismo também é um perigo em tal contexto?

As ameaças mais barulhentas e visíveis não são necessariamente as mais importantes. Algumas são tão formidáveis quanto silenciosas, como o crescimento de poder de uma inteligência artificial na convergência das NBIC (Nanotecnologias, Biotecnologias, Informações e Ciências Cognitivas) na fabricação e transformação da vida. 

Se eu privilegio a crítica ao liberalismo, é porque ele representa, hoje, a ideologia dominante da maioria dos países no planeta, mas também porque ele é a origem da maioria dos problemas que você menciona. O trans-humanismo e a ideologia de gênero residem na ideia de que o homem pode criar a si mesmo do nada, o que se encaixa perfeitamente com a antropologia liberal, que não enxerga o homem como herdeiro, mas sim como um ser capaz de perseguir seu melhor interesse de modo egoísta, e cujas escolhas nunca estão enraizadas em algo que precede o indivíduo.

Desde o início, a imigração representa o "exército de reserva" de mão-de-obra: os liberais sempre foram partidários da livre circulação de pessoas, bens e capital. Diante das patologias sociais resultantes, eles não oferecem nada além da criação de um "mercado de imigração" (como também desejam criar um mercado baseado no "direito" de poluir). Em relação à violência islâmica, isso é só o resultado convulsivo das guerras "humanitárias" lançadas no Oriente Próximo pelas potências ocidentais, dominadas pelo universalismo dos direitos humanos e obcecadas com o mercado.


De acordo com você, os problemas que eu mencionei desenham novas divisões políticas? Se sim, quais?

Nascidas da modernidade, a dualidade de Esquerda e Direita divide fraquezas com a modernidade. Só aqueles que ainda se apegam a isso não compreenderam que o mundo mudou, e que os instrumentos conceituais obsoletos não permitem análise. A única divisão real atualmente é aquela que contrasta com a França periférica e a França uranizada, as pessoas das elites globalizadas, as pessoas comuns e a classe dominante, as classes populares e as classes da burguesia globalista, os perdedores e os que lucram com a globalização, os proponentes das fronteiras e os partidários da "abertura", os "invisíveis" e os super-representados; em resumo, aqueles que estão na base e aqueles que estão no topo.

Nesse aspecto, eu me refiro aos trabalhos de Christopher Lasch e Christophe Guilluy. Só nessa perspectiva podemos compreender um fenômeno como o do despertar do populismo, que constitui a única novela política verdadeira dos últimos trinta anos.

Você acha que esses problemas podem ser solucionados dentro dos padrões do debate eleitoral? E essa abordagem seria aproximada pela resolução de uma "boa eleição"? 
Não acredito muito em "boas eleições", nem em partidos políticos como forma que possua muito futuro. Sob as atuais circunstâncias, eleições permitem alternação, mas não alternativas: elas permanecem no mesmo paradigma social. Toda a questão reside em saber como nós podemos mudar isso. Mesmo se nós vivemos numa época que é mais de implosões do que explosões, meu sentimento é de que nós só vamos mudar a sociedade quando se tornar impossível não fazer nenhuma mudança nela.
O que eu desejo é outra maneira de considerar o fim do capitalismo. Eu escrevi isso mutas vezes: o sistema monetário deve perecer pelo próprio dinheiro. 
O que o combate cultural significa pra você? Como você o situa em relação à ação política?
A cultura, em geral, desapareceu das escolas; a classe política, hoje, consiste principalmente de gente educada, mas ainda assim inculta, como Alain Finkelkraut disse. Além isso, os partidos políticos sempre foram desconfiados em relação às ideias, que dividem inutilmente as pessoas diante dos olhos deles. A Direita nunca gostou muito de intelectuais. O trabalho cultural, que objetiva mudar o espírito dos tempos, deve seguir outros canais então.
Os Estados Unidos terão um novo presidente no outono. Você acha que isso vai mudar concretamente alguma coisa, em termos de equilíbrio mundial? 
Os Estados Unidos entraram numa fase de declínio relativo, mas ainda permanecem como uma potência que seria errado subestimar. Com Hillary Clinton, que é representante dos meios sociais do business e do establishment, o principal risco é o de lançar novamente uma Guerra Fria - guerra mesmo. O capital sempre clama por guerra quando não há mais nenhum meio de lançar novamente uma corrida por lucro!
Donald Trump representa o desconhecido. Ao menos ele poderia manter o princípio da precaução para recordar que, se a Europa sempre teve tantos governos pró-EUA, nunca houve um governo pró-Europa nos Estados Unidos.
Você se define como pagão; pra você, o que é ser pagão? E o que sua antropologia estabelece?
Como resumir em poucas frases - e, além disso, num jornal católico - uma posição sobre a qual já escrevi muitos milhares de páginas? A oposição entre cristãos e pagãos claramente não se reduz à quantidade de divindades. O paganismo é, primeiramente, a religião da cidade (os gregos adoram os deuses gregos). É, então, a religião do cosmo e da vida, onde a ética e a estética nunca entra em oposição.
O paganismo é a ética da honra, não a moralidade do pecado. É a condenação do excesso (híbridos), um senso de limites, a negação da primazia de todas as coisas que são apenas materiais. Historicamente, o Cristianismo é um fenômeno híbrido que teve de contender com formas de paganismo sem deixar de lutar em sua essência. Essa é a complexidade que eu tentei trazer à luz no livro "Comment Peut-on Être Païen?" [Como Podemos ser Pagãos?] (1981) e, talvez, mais ainda no meu diálogo com o filósofo cristão Thomas Molnar no "L'éclipse du Sacré" [O Eclipse do Sagrado], em 1986.
Não gosto daqueles que não acreditam em nada. Eu creio que, para que alguém dê o melhor de si, para que alguém atinja seu telos, deve-se apelar para algo que o ultrapasse. Mas eu não acredito em nenhum "mundo vindouro", em nenhum mundo além. Não acredito na distinção teológica entre o ser e o ser não-criado. Essa é a razão de eu me sentir mais em casa imergindo nos épicos de Homero ou na Canção dos Nibelungos, praticando Heráclito, Aristóteles, Sêneca ou Marco Aurélio do que lendo São Paulo ou Santo Agostinho.
Estudei as origens do Cristianismo por mais de quarenta anos. Não vejo nada de verossímil ou atrativo. Eu reprovo o universalismo cristão (o "povo de Deus" não corresponde a povo algum) que evita que, quando deixado por si mesmo, não assume uma dimensão identitária. Eu o reprovo por ter introduzido o universalismo individualista no espaço mental europeu, por ter esvaziado o mundo de toda sua sacralidade intrínseca, por ter propagado um conceito vetorial e linear da história, do qual todo o historicismo moderno emergiu, e por ter disseminado essas "verdades cristãs que se tornaram loucura" (Chesterton) que, uma vez secularizada, se tornaram o pedestal do mundo desencantado, esvaziado de sentido, no qual vivemos hoje.
Ao mesmo tempo, se ler minhas memórias (Mémoire Vive [Memória Viva]), que foram publicadas quatro anos atrás, você vai saber que eu tenho um débito com autores como Charles Péguy e George Bernanos (autores católicos). Também devo lembrar de pessoas como Gustave Thibon e Jean-Marie Paupert, com os quais mantive relações muito afetuosas, com as quais eles correspondiam - ao que parece (como em La Nef [A Nave], em outubro de 2003, onde Paupert teve a gentileza de me definir como seu "alter ego").
Devo adicionar que não sou um daqueles que não gosta da encíclica Laudato, nem do "ecosocialismo" do Papa Francisco - que se encaixa muito bem comigo. Sobre a condenação do dinheiro, essa "manobra do diabo"; a rejeição da cobiça e a crematística; a proteção dos ecossistemas e a condenação da "comercialização" da vida (que os católicos muitas vezes esquecem quando o assunto é a venda da força de trabalho) - com certeza, pode haver uma concordância.
Discussões religiosas são discussões intermináveis. Mesmo os que acreditam são ateus para a religião de outros! A simples experiência humana me mostrou, por muito tempo, que, entre cristãos, pagãos, ateus ou agnósticos, há as mesmas proporções de homens bons e de espíritos livres, bem como de sectaristas doentios e de canalhas francos. Ideias são uma coisa, homens são outra. 
Eu julgo um homem primeiramente por aquilo que ele valoriza (ou demonstra valorizar para mim), não naquilo que dizem. É isso que me distingue tanto das víboras "santas" (os propositores do politicamente correto) quanto dos inquisidores do momento.
Hoje, quais são os principais temas de seu pensamento filosófico ou político? E quais são os principais perigos que nos ameaçam diante de nossos olhos?
Os perigos são de todos os tipos, já que nunca vivemos num mundo tão incerto. Dentre eles, encontro o mais preocupante: a falta de limites globais para a ideologia do comércio, o desaparecimento das culturas populares e dos modos de vida enraizados, a possível substituição do homem pela máquina, a exaustão de grandes projetos coletivos, a ascensão do tecnomorfismo**. Esses são alguns dos temas nos quais eu reflito. Mas eu também trabalho em temas como a importância das realizações políticas da exegese contemporânea - importância esta que está afunando. É difícil fazer todas as coisas duma só vez.
Essa entrevista com Alain de Benoist foi postada em francês em setembro de 2016, no site do La Nef [A Nave]. Christophe Geffroy foi o entrevistador. A tradução para o inglês foi feita por Eugene Montsalvat, e a tradução para o português foi feita por Jean Augusto Guimarães Sampaio Carvalho.

Disponível originalmente em: Katehon

*Nota do tradutor: liberalismo, aqui, é compreendido no sentido europeu da palavra, referindo-se à ideologia de livre mercado e de individualismo.
**Nota do tradutor: tecnomorfismo se refere às influências crescentes da tecnologia na vida das pessoas, ao ponto de que a tecnologia começa a dominar.
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