sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A História da Honra - Parte III

por Brett Mckay




A honra vitoriana

No início da Era Vitoriana (1830-1900), a sociedade inglesa era estratificada e hierárquica, e a população foi classificada em três classes principais. A ideia de classes é difícil para nós compreendermos plenamente perante nosso ponto de vista moderno. Pensamos nessa separação de classes avaliando o nível de renda, no entanto, apesar disso também ser um fator, há também a questão de valores, educação, ocupação, conexões familiares e história, nascimento, bem como seus modos, oratória e vestuário.

No topo do monte estava a aristocracia rural (ou seja, a propriedade de terra fazia parte de seu nobre privilégio). Essa aristocracia mantinha títulos de nobreza e em grande parte descendência da nobreza guerreira da Idade Média que batalharam com sucesso por feudos e defenderam esses território de pretensos usurpadores. Eles possuíam terras, mas alugavam para outros para trabalho. Devido ao sistema de primogenitura, apenas os filhos primogênitos herdariam o título. Os filhos mais jovens pertenciam à nobreza, embora não tinham títulos, eles ainda eram considerados nobres, e verdadeiros "cavaleiros". Com o título ou não, umas das qualidades que definem a classe alta, era que eles não tinham de trabalhar ou se manchar com a vulgaridade do comércio para ganhar a vida; sua renda provinda inteiramente de possuir e alugar uma terra.

A classe média era consistida por aqueles que realizavam de forma "limpa", o trabalho assalariado. O que mais distinguia a classe média eram os clérigos, oficiais militares, advogados, médicos e professores e diretores de escolas prestigiosas. Agricultores que alugavam uma grande parte de sua propriedade, mas outros que tinham de fazer a maior parte do trabalho físico para eles, eram considerados da classe média também. Trabalhadores de escritórios também era incluídos, mas considerados menores no totem da classe média. Fabricantes, comerciantes e banqueiros eram alguns dos membros mais novos da classe média (mais sobre isso posteriormente), e com o trabalho do colarinho branco expandido, os novos jornalistas, policiais e agentes de segurança também foram classificados assim.

A classe operária era constituída de quem fazia qualquer um dos trabalhos "sujos" físicos que restava.

Durante séculos, as pessoas geralmente tinham que aceitar o sistema de classes e seu lugar na hierarquia. Cada classe tinha suas próprias regras, normas, culturas e até mesmo terminologia. Era impensável imitar outra classes, uma acima ou abaixo da sua - você tinha que seguir as regras de suas própria classes.

A classe média somente emergiu recentemente. A priori, havia tido geralmente duas classes: 1) os que possuíam terras, os nobres 2) os demais, a plebe trabalhadora. Como iremos discutir nos próximos posts, existem diferentes tipos de honra em todas as classes, mas a aristocracia rural monopolizou o termo. Plebeus estavam definitivamente fora do seu grupo e ao contrário do conceito de honra que existia nas antigas civilizações, eles não podiam conquistar a honra através da adesão ao código de honra do grupo. Invés disso, a honra se tornou hereditária - transmitido para a família da aristocracia. Um aristocrata que exibia más maneiras ou mau comportamento para com seus membros de sua própria classe poderia teoricamente perder seu título de cavaleiro, mas essa distinção foi em grande parte produto de hereditariedade.

A ascensão da classe média durante o período vitoriano criou uma fluidez social que iria desafiar esse sistema, e necessariamente criação duma nova cultura de honra que transcendeu todas as classes.

A ascensão da classe média e a expansão da honra

No início do século XIX, a Revolução Industrial estava em pleno vigor. A ascensão da indústria alimentou mudanças radicais na tecnologia, sociologia e a economia no Ocidente.

Quando Vitória morreu, o ritmo e a textura da vida havia se transformado dramaticamente. A maioria da população inglesa agora vivia em vilas e cidades, e algumas de suas casas foram equipadas com luzes elétricas, armários abastecidos com alimentos enlatados. Telégrafos realizavam mensagens rapidamente, trilhos de trem atravessavam o mundo e navios luxuosos a vapor levavam passageiros da Inglaterra para a América em pouco tempo. Um homem poderia agora escrever uma carta em sua máquina de escrever, pegar sua fotografia tirado pelo fotografo no mesmo instante, fazer um raio-x, vacinação ou clorofórmio administrado pelo seu médico, fazer a barba com uma navalha segura em casa invés de ir na barbearia. A educação dum jovem havia se tornado obrigatória e a alfabetização subiu muito.

No entanto, a mudança mais importante do século XIX, foi a ascensão da classe média. A Revolução Industrial não apenas criou trabalho manufaturado, mas um boom de expansão do comércio e serviços bancários, justamente com todo um novo estrato de empregos do colarinho branco.

Enquanto o centro econômico da Inglaterra estava abandonando a agricultura e indo em direção ao capitalismo industrial, e enquanto muitos da classe média nascente ganhavam rendimentos maiores que aqueles que possuíam uma propriedade de terra cultivada, o status e o poder político dos novos ricos das fabricas, comércio e finanças (os mercadores) não mantiveram o ritmo com a sua crescente contribuição para a riqueza da nação. A aristocracia, um grupo de honra de séculos de idade nunca tinha sido hostil às incursões de fora, com veemência lutou contra o abandono de sua posição. Mas, a classe média iria forçá-los a ceder e não simplesmente por alcançar riqueza e lutando por uma voz no governo, mas pela criação dum novo código de honra - um que estava aberto a todos, independente da classe - um código baseado na ética e virtudes que viriam a suplantar a honra baseada na hereditariedade.

Quais foram os princípios do código estoico-cristão de honra?

O código de honra que se desenvolveu provindo da classe média da Era Vitoriana era verdadeiramente um amálgama de várias influências:

A rebelião contra os valores da aristocracia. Muitos sentiram que durante a Regência Britânica, as classes superiores cresceram de forma decadente, revelando exuberância e dandismo, centrando-se muito na atenção da aparência e vestuário. Para, para alguns vitorianos, ter sido um período donde o materialismo solapou a espiritualidade da sociedade - os ricos desfilavam com belos trajes, no entanto, estavam pobres em seu núcleo. Vitorianos reagiram contra isso com um movimento em direção à sobriedade e retidão.

A classe média também tinha desprezo pela forma como a aristocracia vangloriava a ociosidade como uma virtude, e viam com ojeriza aqueles que trabalhavam para ganhar a vida. A crescente classe empresarial transformou essa ideia. Passaram a partilhar a ideia de que a ociosidade era um vício, enquanto o trabalho era uma virtude quase sagrada.

Renascimento do cristianismo evangélico. O cristianismo evangélico se afastou das crenças calvinistas tradicionais em depravação total (os seres humanos são pecadores, essencialmente ruins por natureza); ao invés disso, enfatizou o livre arbítrio duma pessoa, e a salvação estava aberta para aquele que escolhesse acreditar e cultivar uma fé interior. Ao mesmo tempo, os protestantes evangélicos pregavam um relacionamento contínuo com Deus que era baseado em viver retamente, e que os crentes devem se esforçar para uma perfeição moral individual, ao mesmo tempo, trabalhar para purificar a sociedade, reformar as práticas de corrupção e elevar os oprimidos.

Nostalgia. Os vitorianos, assim como os renascentistas, eram, ao mesmo tempo progressistas e voltados ao futuro e nostalgia - eles olhavam para as sociedades do passado em busca de inspiração sobre forma de melhorar seu próprio. A partir do período medieval, eles resgataram ideias da cavalaria (ou, pelos menos, o folclore que a cavalaria havia deixado). E também adotaram partes da filosofia grega estoica.

Expansão da democracia. Por séculos, a nobreza era constituída por oligarquia - controlando o Parlamento e a cultura também. Mas durante a Era Vitoriana, a classe média atacou a ideia de que o direito de votar e a ocupação de cargos no governo fossem reservadas somente para proprietários de terra. Projetos de reforma durante esse período expandiram a franquia para outros milhões de homens, criando um maior sentido de igualdade e promovendo a ideia de que gentiliza e o título de "cavaleiro" poderia transcender a classe.

A ascensão do self-made man. Como vimos anteriormente, durante séculos as pessoas amplamente aceitaram ser membros duma classe que eles nasceram, e não havia quase nenhuma chance de subir para outra classe mais elevada - um plebeu não poderia ser um aristocrata não importa o quanto ele se esforçasse. A mudança da agricultura para a indústria abriu a possibilidade (não importa quanto as chances eram na realidade) da mobilidade social, ou, a chamada "desigualdade removível". Um status elevado na sociedade poderia ser algo conquistado, mas somente se um homem cultivou as habilidades e traços de caráter necessários para subir numa economia industrial.

Se você colocasse todas essas influências numa panela e misturasse, isso resultaria nos princípios do código de honra vitoriano ou o que muitas vezes os vitorianos usavam como sinônimo de "respeitabilidade". A expansão do espírito democrático havia inspirado um código baseado no mérito (não no nascimento), e cada uma das outras influências transmitia várias qualidades para os padrões que constituem esse novo código de honra.

A reação contra o excesso de percepção da aristocracia resultou num impulso para a "reforma de costumes", e novas regras para o comportamento adequado e decoro.

Sinceridade e seriedade eram apreciados; vaidade, frivolidade e exibicionismo eram rejeitados. O movimento evangélico realçou a importância da moralidade, particularmente da castidade, piedade e caridade para com os outros. Nostalgia para ideal de cavalaria dos cavaleiros medievais inspirado no respeito pela mulher, e também a adesão a antiga filosofia estoica pôs um prêmio sobre a autossuficiência, autocontrole e reserva imperturbável.

Acima de tudo, o código vitoriano de honra enfatizou as virtudes relacionadas com o sucesso econômico - Aqueles que queriam trabalhar e ascender na vida, necessitavam ter iniciativa, engenho, independência e responsabilidade pessoal (entrar numa dívida era algo vergonhoso), ambição, parcimônia, pontualidade, regularidade, limpeza, paciência, confiabilidade e acima de tudo trabalho duro.

Quais foram as funções práticas do código de honra estoico-cristão?

Logo iremos dissertar ao objetivo maior por trás da criação dum código de honra estoico-cristão, mas primeiro, iremos explanar sobre algumas de suas funções práticas:

O código de honra vitoriano ajudou a criar estrutura numa sociedade em rápida mudança

Com a ascensão da indústria, a população passou de áreas rurais para a cidade. Cidades com pessoas atomizadas e anônimas - As relações face-a-face entre pares iguais e familiares que eram essenciais para a o código de honra tradicional se esvaíram da sociedade. Como estranhos poderiam interagir e como as pessoas iriam avaliar mutuamente sua reputação de forma pública numa sociedade repleta de relacionamento impessoais?

O código de honra vitoriano respondeu as estas preocupações, tornando a aderências às regras de boas maneiras e etiqueta parte do padrão de respeitabilidade. Boas maneiras foram concebidas para promover o decoro, mas também facilitou a interação entre estanhos. Cada uma das partes sabia como se comportar e o que era esperado deles em diversas situações. E a adesão ao código de conduta foi uma maneira de construir sua reputação pública de honra; boas maneiras eram marcadores observáveis pelo qual poderiam julgá-lo, e isso era visto como manifestações externas das virtudes interior de autocontrole, cortesia e respeito. Você não poderia permanecer totalmente anônimo, mesmo nas grandes cidades. A reputação por maus modos, imoralidade ou caráter negligente, ou uma ética de trabalho desconfiável iria fechar as oportunidades para você em questão de trabalho. Antes de fechar um contrato social ou de negócios, você tinha de apresentar cartas de recomendação e ser apresentado por outras pessoas que poderiam atestar sua respeitabilidade. A reputação que você ganhou num lugar poderia segui-lo onde que que fosse.

O código de honra vitoriano criou novos padrões para profissões emergentes

Parte do raciocínio que antes era comumente aceito, era que a aristocracia tinha o controle exclusivo da política e cultura, dado que eles não trabalhavam para viver, logo, eles seriam capazes de servir a sociedade com um valor altamente valorizado nesse período: desinteresse. Uma vez que eles não se preocupavam com dinheiro, o aristocracia poderia ser moralmente e intelectualmente independente e iria fazer a coisa certa, independente das circunstâncias - sempre colocando as necessidades da comunidade sobre o auto interesse.

No entanto, novas profissões surgiram, profissionais tradicionais foram expandidas e a classe média ganhou poder político e influência social, surgiu a questão de como garantir que esses profissionais continuem agindo com esse mesmo ideal de desinteresse. Em resposta, foram desenvolvidos códigos de ética profissional, moldada pelos princípios código de honra vitoriano; ou seja, colegas de trabalho deveriam colocar virtudes como honestidade, responsabilidade e respeito acima do interesse pessoal. Embora possa ser difícil de acreditar, na ausência de muitas restrições legais, o padrão de moralidade nos meios de negócio foi bastante elevado, e apesar das falcatruas inevitáveis de alguns canalhas e vigaristas, o sistema de honra manteve a corrupção em grande parte sob controle.

O código de honra vitoriano criou um código universal que ajudou a unificar as classes

Antes do século XIX, as viagens e comunicações eram bastante limitadas, assim como o comércio... e também, as comunidades foram em grande parte independentes e autossuficiente. A vinda das estradas de ferro quebrou a distância e tornou as viagens baratas, e jornais nacionais e entretenimento popular corroeram costumes de regiões distintas. Mas, enquanto as fronteiras físicas e culturais foram diminuindo, as distinções de classe permaneceram. Assim, um código mais amplo de honra ajudou a unir o país e criar a coesão nacional. 

Como Richard D. Altick argumenta, "numa nação dividida por disparidades econômicas e sociais, os princípios amplamente aceitos da moral evangélica tiveram um efeito reconciliador, unificando as classes no que poderia ser chamado duma democracia ética. Suas relações muitas vezes abrasivas foram aliviadas pela posse duma moralidade comum.”

O código de honra vitoriano promoveu o uso de juramentos e a criação de pequenos grupos masculinos

Enquanto o código de honra vitoriano forneceu um conjunto universal de padrões que poderiam cruzar fronteiras geográficas e linhas de classe, e também ajudou os homens a navegar relações impessoais, o crescimento das multidões sem raízes e anonimato solitários estimulou os homens a criar grupos menores que poderiam replicar a camaradagem e fraternidade que antes existia no passado. 

Os juramentos cresceram em popularidade como uma chance de colocar o ideal estoico-cristão de fazer uma palavra da sua ligação para o testo de adentrar no grupo e para criar promessas de lealdade entre homens que não eram parentes, mas tinham decido propositalmente se tornarem "irmãos". O melhor exemplo em que essas tendências ressoaram na sociedade, são as fraternidades na faculdade que foram criadas durante esse tempo. Iniciados tinham (e ainda tem) de fazer um juramento, que normalmente contém promessas de lealdade para com os camaradas da fraternidade e uma promessa de se portar como uma cavaleiro. (atualmente as faculdades contém ritos de passagem de humilhação para adentrar no grupo)

Qual era o propósito sociológico e filosófico por trás do código de honra estoico-cristão?

Todos os códigos de honra são criados para motivar os membros da sociedade em relação ao seu comportamento que o grupo acredita que irá cumprir as suas necessidades e garantir sua saúde, felicidade e segurança. Isso funciona como ver de ver como desonrosos os indivíduos que não cumprem os padrões do código e recompensar aqueles que o cumprem, dando-lhes estima e privilégios para aqueles que mantém o código, mas também, o exercem.

Na sociedade vitoriana, ao contrário das culturas primitivas que entendiam a honra doutra forma (como discutimos anteriormente), a sobrevivência pura não era mais uma necessidade premente. E a justiça - realizada nos tempos primitivos numa reflexiva olho-por-olho - era aplicada cada vez mais pelo sistema jurídico.

Assim, com essas necessidades básicas atendidas, a sociedade vitoriana se voltou para uma aspiração mais elevada para o seu código de honra: o progresso - tanto moral quanto material.

Para os vitorianos, os dois tipos de progressos eram essenciais. Eles acreditavam que, assim como eles tinham usado a inteligência humana para canalizar e utilizar a tecnologia a seu favor, e por conseguinte, dominar o seu ambiente de forma engenhosa, eles poderiam também dominar a latência do indivíduo, afim de superar a si próprio. Desenvolvimento pessoal e material eram correlacionados como um loop. Assim como Altick diz, "o bem-estar da sociedade foi derivado da saúde espiritual de seus membros individuais". Noutras palavras, os vitorianos acreditavam que quanto mais pessoas viviam as virtudes delineadas, melhor e mais forte a sociedade se tornaria. 

Por outro lado, todo homem que caia no quesito de moralidade na sociedade desempenhada um papel de formação de força de toda a nação. Os homens estava motivos a seguir o código de atingir o status dum cavaleiro respeitável, para evitar ser humilhado e manter as oportunidades abertas apenas para aqueles com uma reputação respeitável (honrosa). 

Quanto mais destacado você era em exercer o código, quanto mais ele cultivava ambição de crescer, de trabalhar, de ter disciplina, na forma de se portar, mais ele ganhava prestígio na sociedade. E quanto mais os homens se esforçavam por prestígio na sociedade, mais a sociedade cresce como um todo. Assim como nas tribos primitivas, no entanto, com um novo conceito, o que era bom para um homem (seu desenvolvimento pessoal), isso por conseguinte, era bom para o grupo como um todo.

O conceito de honra estoico-cristão era público ou privado?

Nos posts anteriores dessa série, dissertamos sobre como o declínio da honra tradicional estava enraizada em sua mudança de público e externo para privado e interno. A honra tradicional era baseada unicamente em ter uma reputação digna de respeito a admiração num grupo de pares iguais (independente da moral), enquanto o conceito de honra interior era julgado apenas por si próprio (e talvez por sua religião). Apesar disso, a honra estoica-cristã adicionou traços de caráter e virtudes morais, além dos padrões primitivos de força, coragem e maestria (eles complementaram a isso, não substituíram - coragem ainda era parte do código de honra vitoriano), o código de honra vitoriano permaneceu em grande parte de natureza pública. Lembre-se da definição de Julian Pitt-Rivers que partilhei no primeiro post: "A honra é valor duma pessoa aos seus próprios olhos, mas também aos olhos da sociedade. É sua estimativa de seus próprio valor, sua afirmação de orgulho, mas também é o reconhecimento de que a reivindicação, sua excelência será reconhecida pela sociedade como seu direito ao orgulho." 

Enquanto a pretensão de orgulho para um cavalheiro vitoriano repousava sobre as virtudes morais, invés da aptidão física, o processo foi o mesmo para ele como era para um homem primitivo - ele começou com uma reivindicação de seu interior para atingir primazia na sociedade, mais do que isso, isso teria de ser reconhecido pelos seus pares de iguais. Você não pode agir como um malandro e dizer que era um cavalheiro - ninguém mais iria conhecer sua reivindicação para esse título. Seu comportamento era observado e julgado. Um deslizamento na moralidade ou a quebra de decoro poderia trazer vergonha pública (desonra) e ostracismo dos círculos sociais e profissionais.

Meninos em escolas públicas e privadas foram ensinando a ser cavalheiros, e os meninos mais velhos ficavam encarregados de supervisionar e verificar o comportamento dos meninos jovens. De acordo com Sally Mitchell, esses mentores aprenderam a "dar ordens duma forma que não despertaria ressentimento e internalizaria um senso de responsabilidade." Na área desportista, os jovens se dedicavam aos conceitos de trabalho em equipa e "jogo justo", e repreendiam aqueles que violavam o código de esportividade.

No entanto, houve uma mudança para uma maior ênfase na consciência pessoal durante o período vitoriano. Os vitorianos simplesmente pegaram o que os pensadores renascentistas haviam esboçado, sobre defender a importância da sinceridade - não era suficientemente agir como um bom homem, você tinha que de fato ser um bom homem em seu íntimo. 

Um homem que conseguia essa congruência do comportamento externo (cavalheirismo) e virtude interior, aderentes ao código de honra estoico-cristão, não apenas ganhava a aprovação dos outros, mas a satisfação duma consciência livre e esclarecida. Um homem vitoriano precisava entrar em contato com sua consciência mais que seus antepassados, porque o aumento da mobilidade geográfica significava que ao contrário de seus camaradas primais, ele tinha boa chances de se encontrar fora de seu grupo e estar entre estranhos. Para um cavaleiro vitoriano, isso era um verdadeiro teste de honra - você mantinha sua palavra mesmo quando ninguém estivesse olhando? Parafraseando Thomas Jefferson:

Sempre que você fizer algo, mesmo que ninguém venha a saber, faça como se o mundo estivesse olhando para você

A adoção popular de códigos de honras na universidade durante esse período sintetiza perfeitamente a tensão entre honra pública e privada para os vitorianos. Eles celebravam o ideal simplesmente confiando sua palavra de honra, um aluno poderia ser confiável para fazer a coisa certa - academicamente ou não - mesmo quando alguém não estava lhe observando. No entanto, ao mesmo tempo, alguns desses códigos implicavam necessariamente de que se você visse um camarada enganando alguém ou fazendo algo desonestos, você era obriga a entregá-lo.

Conclusão

Muitas vezes, quando um homem moderno pensa sobre honra, sua mente se volta para os ideias de honestidade e integridade, duelos (iremos dissertar sobre isso noutros posts), códigos de conduta na universidade, "mulheres e crianças primeiro", educação, retidão estoica, etc. O que eles estão pensando, noutras palavras, é o código de honra da Era Vitoriana. A honra estoico-cristã ainda está indelevelmente gravada em nossa consciência cultural por n fatores. Em primeiro lugar, a era vitoriana representou o nascimento da mentalidade moderna, e seu código de honra foi desenvolvido em resposta a fatores tecnológicos, sociológicos e econômicos que ainda estão perante a sociedade; o esforço para lidar com ritmo aparentemente rápido e constante mudança de vida, as consequências do anonimato e a busca do progresso pessoal e objetivos profissionais ainda ressoa em nossas sensibilidades. Em segundo lugar, a era vitoriana representou a última manifestação de honra como uma cultura social, não simplesmente como um conceito particular. Em terceiro lugar, muitos dos ideias do código de honra estoico-cristão continuam a ter um apelo profundo e isso você entenderá nos próximos posts dessa série.

Além disso, apesar do (pelo menos marginalmente) quadro coerente que tentei descrever aqui, o código de honra estoico-cristão nunca foi universalmente adotado por todos os homens. Embora tenha sido bastante influente sobre a classe média e pelas sociedades ocidentais que se estenderam, para a classe trabalhadora urbana, a honra ainda se assemelhava a variedade primal, com combates resolvido através da força e estima com base na aptidão física, coragem e destreza. E mesmo aqueles que estavam entre as classes média e alta, lutavam para conciliar o que parecia ser um desejo muito viril de ser agressivo e turbulento, com o ideal de ser um cavaleiro refinado e contido.

Essa luta entre ideias concorrentes sobre como a honra é entendida é vividamente iluminada sobre como os homens latinos entendiam a masculinidade.


Postado originalmente em: Art of Manliness

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