quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A arte de exigir que os outros gostem daquilo que você não gosta

Por Jean A. G. S. Carvalho



Olhe bem para a imagem acima. No caso de você ser uma mulher, responda sinceramente (pra si mesma - não se preocupe, não há coletivos te monitorando): você sente uma vontade instintiva de se reproduzir com a figura da foto? Se você não é adepta do politicamente correto, sua resposta (muito previsível, provavelmente) é indiferente. Caso contrário, há pontos bem importantes a se considerar.

O sujeito da imagem é vítima de alguma "gordofobia" presente numa estrutura social, ou simplesmente não corresponde às características mais presentes nos instintos humanos? Quer aceitemos ou não, somos incrivelmente movidos por instintos (mas também não somos totalmente condicionados a eles). Sim, definitivamente há estruturas estéticas consideradas como "padrão", e há pessoas com gostos que escapam a esses padrões. 

A questão é: o que você assume como ponto crucial? Reconhecer que há instintos básicos e pessoas que não são atraentes à maioria (mas que sim, podem receber atenção em certa medida, e até se tornar preferência de algumas pessoas), e que, independente disso, podem ser atraentes pra quem quer que seja, assumindo assim que preferências são sim subjetivas, mas que há certos padrões que atraem mais um número maior de pessoas - ou você parte do ponto de que o minoritário deve ser majoritário e o padrão deve ser invertido?

Você aponta os dedos para os outros usando alguns dos milhares de neologismos - tão especiais a uma pseudo-Esquerda politicamente correta e emotiva. Qualquer um é uma vítima em potencial (ou melhor, um culpado): alguém que não namore uma gordinha, o rapaz que não quis namorar uma mulher negra, o gay que não namorou uma "mulher trans" (alguém com pênis que se vê como mulher), o porteiro do prédio que não gosta de Jean Wylls (afinal, ele só pode ser um "homofóbico" - e não alguém com um mínimo de bom senso). Até seus pais (se é que você os tem) são fascistas em potencial.

Pessoas são diluídas e transformadas em troféus: medalhas que devem ser conquistadas, colecionadas e exibidas no "mural da inclusão", o hall da "tolerância". Mas os adeptos do politicamente correto têm seus troféus favoritos. Sim, porque, no final do dia, não há ninguém de ferro e as pessoas podem jogar seus véus de falso moralismo, demagogia e hipocrisia e descansar com os verdadeiros gostos.

Há um aspecto forçado, artificial, engessado nessa militância: há quase que uma obsessão em forçar que os outros gostem daquilo que nem você mesmo parece gostar. É claro que o homem cis-hétero-branco-patriarcal deveria namorar uma mulher negra, um gay ou uma "mulher trans" (alguém com pênis que pensa ser mulher) -  ou, é claro, alguém acima do peso ou "fora dos padrões'. 

Mas, no fim do dia, depois da militância em algum coletivo "feminista" ou inclusivo, com todxs xs manxs, você prefere aquele cara com 3 anos de academia do que o "gordinho desconstruíde - ou seu amigo magrelo que é a favor da legalização da maconha e se intitula como "feministo". Porque, é claro, nem mesmo sua ideologia e nem décadas de militância são capazes de superar sua biologia. Seu útero diz: "preciso gerar um bebê", e você sabe que os homens que seu coletivo colocam como o modelo ideal não são, nem nos seus instintos mais profundos, os pares ideais.

É claro que você acha muito mais agradável namorar algum playboy (que tem pênis, é claro) que possa te levar para um bom shopping (pra fazer ótimas compras) do que pegar três ônibus e dois metrôs pra chegar numa favela de periferia. A recriminação é para os outros: é tarefa do outro ser moralmente incólume, puro, inclusivo e "desconstruído", não sua.

Ou, quando há alguma relação com algum dos mascotes do politicamente correto, ela acontece de forma totalmente artificial, forçada, quase que propagandista. E sua contribuição contra os males que diz-se abaterem sobre a sociedade é exatamente zero. Exatamente: tratar pessoas como aleijadas que precisam de um pouco de atenção para não se sentirem sozinhas, criando toda uma retórica em volta elas para forçar algum tipo e atratividade (já que, é claro, elas são incapazes de se tornarem atraentes sem isso, certo?) é exatamente marginalizar essas pessoas e colocá-las num patamar ainda mais inferior.

Não há problema algum em ter preferências; o erro está em obrigar outras pessoas a gostarem daquilo que você essencialmente não gosta, daquilo que você essencialmente rejeita. Porque, no fim das contas, acima de todo esse politicamente correto e essa verborragia doce, aveludada e cor-de-rosa, temos instintos e nem mil anos desse discurso resistem a dois segundos de lógica básica. E seria muito mais efetivo considerar isso do que forçar gostos que não são seus em pessoas distantes da sua própria realidade.

E, nesse aspecto, a Esquerda pós-moderna adota a demagogia como bandeira política, a hipocrisia como mantra, adotando bandeiras totalmente alheias, totalmente superficiais e, além de apontar questões irrelevantes, renega a lógica mais elementar e se torna incapaz de oferecer soluções reais para as questões às quais propõe-se resolver.

Deve haver um sonho bastante fetichista nesse meio: uma paleta de cores (da mais clara à mais escura) para verificar tom de pele, uma classificação de peso (ou seja, a "gordofobia" seria mais elevada tanto maior o peso na escala) e de genitália (você ganha um bônus ao se relacionar com quem se identifica com um gênero diferente de sua estrutura biológica) - além de classe social (+500 pontos no seu score se namorar alguém que ganhe menos de 1 salário mínimo).

Há sempre mais espaço para demagogia.

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Um comentário:

  1. Meu deus, que texto ruim... Qual o fim político, de crítica, questionador disso tudo? A que isso leva? Vamos discutir e trabalhar naquilo que o todo precisa...

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