quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O Canibalismo político autofágico

Por Jean Augusto G. S. Carvalho




Há significados maiores por trás do gesto de "derrubada" de Eduardo Cunha, grande oligarca e magnata político que atua nos meandros da estrutura nacional desde a década de 1990. Este "mafioso" que tem sido fortemente acusado (e com provas muito concretas) de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção (além de conduta imprópria), é apenas uma das cabeças que devem ser servidas no processo de canibalismo político autofágico.

O que é esse processo de canibalismo político? Trata-se de um termo muito expressivo e que utilizo para descrever o processo político atual, especificamente o de "democracia" representativa presidencialista. Em toda a história política do Brasil, nunca houve a confrontação direta ao outro;  nunca "devoramos" nossos verdadeiros inimigos: as castas parasitárias do financialismo e da especulação mundial, as dívidas que subtraem nossos recursos (e que nunca são auditadas) e o aparato globalista de dominação cultural-econômica, nem as forças de ocupação (Quinta Coluna, traidores internos, desinformantes da mídia, magnatas e oligarcas vendidos, etc.); ao contrário, toda a luta interna é uma luta de um agente contra si mesmo: a classe política.


Ela se debate, ataca a si mesma, "devora" membros e os repõe. E, nesse processo, finge estar lutando contra o "outro". Não há diferença substancial entre o PT e o PMDB (não em termos de ações, embora seu ritmo e certos aspectos superficiais possam diferenciar), nem entre qualquer outro partido atual em essência. Podemos considerar toda a política brasileira como um todo, um todo com partes que lutam entre si. Isso inclui os governistas, a "oposição" e mesmo os grupos menores de discurso mais radical que orbitam entre eles. Não há componente ideológico, não há divergência real: há apenas a disputa pelo poder.

O Partido dos Trabalhadores, de 2003 a 31 de agosto de 2016, serviu como aparato estrutural às mesmas oligarquias que sempre dominaram a política e a economia nacionais (as mesmas oligarquias que depuseram Dom Pedro II, Getúlio Vargas e seu herdeiro político, João Goulart, além de várias outras figuras que fizeram o mínimo gesto de desafio ao sistema vigente). Em esquemas de corrupção, compras de votos, tráfico de influência e desvio de recursos públicos, o PT esteve ao lado dos grandes oligarcas, especialmente atuando como intermediário subserviente ao PMDB.

Quando o referido partido deixou de ser necessário à estrutura de dominação dos oligarcas, desfizeram-se dele. Os mesmos que atuaram como cúmplices e beneficiários de esquemas como o Mensalão e os famosos Caixa-2, agora são retratados como "guerreiros" da luta pela democracia, homens e mulheres muito solícitos em "atender os clamores do povo". E é interessante como, nos processos oficiais, a acusação central contra Dilma tenha sido a de irresponsabilidade fiscal, e não dos tão aclamados esquemas estruturais de corrupção e aparelhamento do poder.

Essa questão é simples: toda essa casta que hoje julga processos de corrupção é igualmente responsável pela situação deplorável da política nacional. São cúmplices e beneficiários desse processo. A retirada de Dilma é um dos processos de expurgo que estão acontecendo e que continuarão a acontecer. Não é uma "cruzada moral" nem uma onda de moralidade e ética na política. Nem a derrubada de Dilma pode ser comemorada dessa forma, muito menos a de Eduardo Cunha.

As oligarquias precisam de um adversário. Na ausência de inimigos reais, precisam criar seus próprios. Agora que o Partido dos Trabalhadores está devidamente alijado do cenário político e não representa mais um desafio significativo, os oligarcas começam a cortar as próprias cabeças. É irônico que a mesma casta parasitária que, no ano passado, fez uso de Eduardo Cunha como ponta-de-lança para a derrubada de Dilma e que acobertou e o defendeu em todos os casos de corrupção, mantendo-o na presidência da Câmara, agora tenha derrubado este mesmo senhor numa votação de 450 contra 10, aprovando sua cassação.

Há uma forte característica de autofagismo na política nacional. Ela precisa de expurgos temporários (como aquele que havia sido iniciado por Collor) e esporádicos, encenações de moralismo e gestos públicos de recepção das vozes e clamores das massas para articular seus propósitos. A casta política é uma massa que luta contra si mesma, se devora, decepa alguns membros e instala outros em seu lugar. O canibalismo político é a dieta da moda.

Novos processos surgirão, e novas cabeças serão cortadas. Os oligarcas precisam de inimigos e, mesmo aqueles que não sejam efetivamente opositores, serão derrubados num processo teatral que, no momento, não pode parar. Cunha tem servido a esse propósito de pseudo-moralização política.

Se não é possível devorar o outro, devora-se a si mesmo. Cunha serviu como os braços para a derrubada de Dilma, da qual os abutres se alimentaram; agora, o mesmo corpo corta esses braços e os devora, e logo colocará outros membros em seu lugar e, no tempo certo, repetirá o processo.



Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Visitas

Participe do nosso Fórum Online

Siga-nos no Facebook