sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Idelmino R. Neto: A Dama do Lago, Excalibur e a conexão entre Deus e o monarca

Por Idelmino Ramos Neto



Segundo Evola e a vertente gnóstica, todas as agremiações religiosas que traduzem a realidade superna beberam de uma fonte comum, o culto primevo. É por isso que comungam de mitos semelhantes, como a existência de um paraíso e um inferno, a pureza moral e a castidade como ideais a se almejar, e o conto de uma grande inundação (Atlântida). 

Nas civilizações arcaicas, quando este ensinamento ainda não havia se perdido entre a poeira dos séculos, as fábulas e lendas acerca de heróis, guerreiros e dragões também almejavam imprimir a verdade primal. Destarte, os mitos arturianos não são exceção.

 A Dama Do Lago, que emerge e entrega Excalibur a Uther Pendragon (que posteriormente a enfia numa rocha, por ter agido contra os princípios divinos, até que o verdadeiro monarca surja), simboliza Deus em seu aspecto feminino - inocente e doce (no cristianismo representado pela virgem Maria, na religião egípcia Isis e etc). A espada sagrada é a união entre o metafísico e o mundano, Deus e homem (que no caso do rei, é a representação da vontade divina jazendo na Terra). 

Todavia, esta comunhão tem um preço. É por isso que a lâmina se parte quando Arthur, movido pela ira e pelo ego, usa os poderes sagrados de Excalibur para derrotar Lancelot num duelo. Ir contra os desígnios superiores é trair a confiança concedida (assim o reino padece, e por isso as monarquias em nossa época se encontram em profundo estado de degeneração, salvo raríssimas exceções). 

A busca ulterior pelo Santo Graal, o cálice onde o sangue de Cristo foi depositado, quando o império se deteriora (seguindo a degradação moral do monarca, vide um ser a extensão do outro), esboça a peleja hercúlea do herói (e do Estado) pela reconexão com o divino. Esta metáfora, inclusive, conversa profundamente com o mundo pós-moderno, onde a honra se esvaiu quase que por inteiro.

É por um Estado integral, conectado com a tradição e tangenciado pelos heróis altivos de outrora que o Avante luta. 




Obs.: Os mitos arturianos, assim como os eddas nórdicos e os mitos da Grécia helenística, são dotados de extrema complexidade e traduzem uma realidade que não provém deste plano de compreensão, por isso estão suscetíveis a inúmeras interpretações. 
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