quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Enquanto soviéticos mandavam homens ao espaço, estadunidenses espancavam negros

Por Jean Augusto G. S. Carvalho

Yuri Gagarin, primeiro homem a ir ao espaço. Enquanto isso, negros eram espancados nos Estados Unidos.

Há um profundo pseudo-humanismo por parte da Direita: eles detestam genocídios, massacres, campos de concentração e "crimes contra a humanidade". Entretanto, esse sentido humanitarista e "ético" está mais relacionado a questões estéticas e cores. O ódio ao "vermelho". Essa "ética" conservadora está totalmente associada a questões terminológicas e ideológicas, e não a um conjunto de valores universais, valores sólidos e gerais.

Sempre haverão declarações de repúdio às monstruosas ações genocidas (com números sempre inflados oriundos de análises históricas superficiais) das "bestas vermelhas", repúdio aos campos de trabalho forçado (mesmo que muitos de seus detentos fossem realmente criminosos cumprindo pena, e mesmo que esse exato modelo de aprisionamento seja utilizado nos presídios dos Estados Unidos - onde eles o veem como louvável).

Mas esse engajamento humanitário não existe em relação às vítimas das ações imperialistas, aos bombardeios no Oriente Médio, nem em relação ao racismo explícito por parte do expansionismo colonialista europeu e, até mais recentemente, ao regime de segregação racial que vigorou nos Estados Unidos em plena Era da Corrida Espacial. Genocídios são inaceitáveis, a menos que ocorram contra palestinos, algum lugarejo árabe ou contra comunistas (ou qualquer oponente ideológico).

Tensão racial e étnica e segregação social são coisas que o direitista médio rejeita profundamente, mas, ao mesmo tempo, são solenemente ignoradas quando adotadas como política oficial (ou não-oficial) em países que, por eles, são considerados bastiões do livre-mercado e do "desenvolvimento capitalista". Enquanto, na União Soviética, mandavam homens e mulheres ao espaço, nos Estados Unidos havia uma severa política de segregação racial, vigorando até os anos 1960 e com fortes traços nas décadas seguintes.

O racismo e a política de segregação racial, enquanto considerados normais no hemisfério Ocidental pelas potências capitalistas, era política fortemente rechaçada pela legislação soviética, tanto nas esferas jurídicas e legais quanto culturais. A noção de integração e de união entre povos e etnias (que não deve ser confundida com multiculturalismo) sempre foi mais forte no extinto mundo soviético do que nas nações ocidentais (e, hoje, toda a política "anti-racismo" desse mesmo bloco de países, especialmente na União Europeia, nada mais é do que retórica pseudo-humanitarista e gerenciamento de massas de mão de obra barata).

Yuri Gagarin foi o primeiro homem a viajar ao espaço, em 12 de abril de 1961. Valentina Tereshkova, a primeira mulher a ir ao espaço em 16 de junho de 1963. Obras das "bestas vermelhas", da "primitiva" civilização soviética, produtos de um regime "inferior". Nos Estados Unidos, no mesmo ano (quatro meses depois) em que Yuri Gagarin foi enviado ao espaço, Herbert Lee, ativista pelos direitos negros, foi morto em Liberty, no Mississippi, assassinado por um legislador; em 1963, mesmo ano em que Valentina ia ao espaço, Medgar Evers, outro ativista negro, havia sido assassinado em sua casa, na cidade de Jackson, também no Mississippi. 

Em 1962, o oficial militar negro Roman Ducksworth Jr. foi assassinado por ser confundido com um ativista político, logo depois de ser ordenado a sair do ônibus onde estava. Seu crime foi o de ir visitar sua esposa doente. Esses três casos são exemplos dos frutos do "desenvolvido" mundo capitalista, do sistema "superior" e "moralmente mais são". Eles não despertam o interesse do público de Direita, nem ocupam suas mentes nem geram qualquer indignação.

Há um conceito higienista na Direita: certos crimes são justificáveis. Essa visão subjetiva da moralidade, que eles consideram como algo tipicamente da Esquerda e "da mentalidade revolucionária", está firmemente enraizada neles mesmos. O problema não são os genocídios, mas quem os pratica e que ideologia os move. Milhões de indianos morrendo de fome por conta das políticas de Churchill não é um crime "tão grave" quanto gente em campos soviéticos.

Direitistas sentem um imenso prazer em associar nazismo ao comunismo/socialismo, como se fossem idênticos. Conseguem, ao mesmo tempo, mostrar o quanto odeiam o Holocausto e o quanto recriminam crimes contra a humanidade, "independente de quem os pratique". Mas apoiam com louvor os neonazistas na Ucrânia pois, apesar de estuprar e matar, eles derrubam estátuas de Lênin e tornam o comunismo ilegal, e isso é o suficiente.

Sem campos de concentração e sem ideologias vermelhas, é venerável bombardear comunidades, enviar tropas para estuprar mulheres  e esmagar qualquer tipo de identitarismo e autonomia. A ausência da cor vermelha, para os direitistas, é a melhor das validações para qualquer crime e é um fato que, por si só, conquista a leniência moral do mais ético conservador.
É um fato histórico verificável e notório que o racismo e a segregação racial sempre foram elementos muito mais fortes no mundo capitalista do que no mundo soviético, e esse é um mérito venerável para aqueles que hoje são demonizados como a epítome da selvageria e do atraso - por aqueles mesmos que hostilizavam e espancavam mulheres, crianças e homens por simplesmente se integrarem em espaços sociais públicos, como cidadãos que contribuem com suas sociedades e sua economia e são parte integrante dela.

Esses fatos serão desconsiderados para uma Direita que, apesar de se arrogar uma titularidade ultra-ética e hiper-humanista, se orgulha de produtos em prateleiras de supermercado, mesmo que o próprio homem não possua dignidade alguma.

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