quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Dale Vree: As origens trotskistas do neoconservadorismo

O que é um neoconservador? Será que isso importa ?

Por Dale Vree

Tradução: Jean Augusto G. S. Carvalho e Lucas Oliveira





Recebemos uma carta de Christian Crampton de Newport Beach (Califórnia) dizendo: “Respeito seu editorial de setembro (a sua voz do catolicismo ortodoxo, porém sem fibra), mas nele apareceu uma palavra que eu gostaria que definisse para mim. Tenho visto ocasionalmente em New Oxford Review, mas você a usou mais de 10 vezes no editorial. A palavra é 'neoconservador (neocon)'. Antes do editorial de setembro e especialmente desde então, muita gente nos perguntou o que é um neocon.

Sua editora seguiu os neocons por mais de 35 anos, e eu tive relações com a maioria deles (mas eu não deveria ter admitido que todos sabiam o que é um neocon). Dado o meu passado, poderia ter sido um autêntico neocon se quisesse. Mas não queria. Aqui está um breve resumo; poderia dizer mais, mas esta é a essência dele. 

Os neocons autênticos descendem dos movimentos comunistas e socialistas, tendo sido os líderes mais proeminentes trotskystas (isto é, comunistas de extrema-esquerda). Quando Stalin tomou o poder da União Soviética, os trotskystas foram perseguidos com rigor, e finalmente o mesmo Trotsky foi assassinado no México. Stalin era um cavalheiro (de fato, um ex-seminarista) e Trotsky era um judeu, e a linha divisória entre stalinistas e trotskistas passava em grande parte pela mesma divisória (com exceções significativas, especialmente nos primeiros anos dos estados satélites soviéticos, na Europa Oriental, antes que muitos judeus desses estados satélites fossem expulsos do partido, inclusive executados).

Stalin se fez cada vez mais antissemita, e os trotskystas judeus teriam outra razão para odiar Stalin. Depois da Segunda Guerra Mundial quando se estabeleceu Israel, a União Soviética se alinhou com os árabes contra Israel, e a União Soviética basicamente não permitiu os judeus de imigrarem para Israel. Outra razão para odiarem Stalin e a União Soviética.

Muitos trotskistas judeus - e outros judeus esquerdistas (mas não a maioria deles) - se fizeram cada vez mais anticomunistas veementes. Muitos apoiaram a Guerra do Vietnã e foram extremamente hostis às políticas de contenção de Nixon, Ford e Carter. Esses ex-esquerdistas judeus evoluíram para aquilo que chamamos de "neoconservadores". Como Benjamin Ginsberg disse em seu livro "O Abraço Fatal: os Judeus e o Estado" (publicado pela University of Chicago Press), "um fator importante que os conduziu [aos neocons judeus e esquerdistas] inexoravelmente à Direita foi seu apego à Israel".

A meta principal dos neocons judeus (e não-judeus) - ainda que não seja sua meta exclusiva - tem sido a de proteger Israel (o que, supomos, seja direito deles), e vêem no Império Americano a melhor maneira de fazer isso. Sim, sabemos que não se supõe que se deva dizer esse tipo de coisa, mas temos o mau hábito de dizer a verdade nua.

Assim, os neocons querem um Império Americano, e o neocon judeu Johan Goldberg expôs seu ideal da maneira mais clara quando disse que: "A cada dez anos, mais ou menos, os Estados Unidos necessitam tomar algum pequeno país desperdiçado e jogá-lo contra a parede, só para mostrar o que queremos".

É interessante que o juiz John Roberts foi questionado pelo Comitê Judicial do Senado sobre sua lealdade à fé católica (fé que ele negou resolutamente), mas ninguém pode questionar os judeus neocons sobre sua lealdade a Israel. Isso é discriminação, simples assim. Logo se pensa que isso é antissemita, e isso é equivocado. Os católicos devem ser fiéis à sua fé católica, muito mais do que a seu país (pense em São Tomás e tantos outros mártires), e não é anticatólico dizer isso.

Sobre se os neocons judeus deveriam ser fiéis a Israel não é algo sobre o qual estamos qualificados a comentar. Sem dúvida, queremos notar que Murray Polner e Adam Simms, ambos judeus, disseram que: "Os interesses de Israel conduzem a política dos EUA no Oriente Médio? Essa é uma pergunta justa, apesar que qualquer que faça essa pergunta seja acusado injustamente de antissemita" ("Commonweal", 18 de julho de 2003).

Sem dúvida, o neocon Richard John Neuhaus fez justamente isso. Disse que: "O lobby judaico tem os Estados Unidos no bolso. Philip Weiss disse isso, e ele é um colunista esquerdista do 'New York Observer'... Philip Weiss tem algo, ainda que nada original, sobre a influência dos judeus no nosso país e sua política no Oriente Médio. Mas, por qual razão Philip Weiss está bebendo de ideais antissemitas fora de moda?" (First Things, dezembro de 2002, páginas 90-91).

Weiss "têm algo, ainda que nada original", mas Neuhaus o repreende por "beber do antissemitismo". Se aquilo que Weiss disse é verdade, então atacar seu nome por "beber do antissemitismo" é o último refúgio de um sem-vergonha. Por outro lado, correndo o risco de soar filossemita, os neocons judeus eram e são extremamente enérgicos e muito brilhantes, e conseguiram grandes avanços no movimento conservador, frequentemente junto a gentis voluntários.

São enormemente influentes e poderosos no governo de George W. Bush - poderíamos chamá-los de um "apparatchiki" neocon. Não, esta não é uma conspiração judaica, pois ocorre à plena luz do dia, e a maioria dos judeus não são neocons (provavelmente porque pensam que as políticas imperialistas dos EUA não são boas para Israel ou para os judeus). E existem neocons que não são judeus - a maioria deles sendo recém chegados, que consideram "estar na moda" ser neocon.

Alguns neocons gentis (goyim) não sabem que estão sendo usados, ainda que outros o saibam bem disso, mas não lhes importa, pois veem isso como uma passagem para a influência e para o poder. Outros conservadores e neocons gentis pensam que estão usando os judeus neocons porque acreditam que proteger Israel é um avanço para o estabelecimento de um Império Americano e garantir o controle da maioria das reservas petrolíferas do mundo.

Uma das divisórias entre os stalinistas e os trotskistas era que os stalinistas diziam que se pode ter o "socialismo em um só país", ainda que os trotskistas exigissem uma "revolução mundial socialista" (o que era fiel ao pensamento de Marx). Mas, dado que os trotskistas amargaram a revolução socialista, transferiram sua aliança para a "revolução democrática mundial", daí a ambição deles em exportar a revolução democrática para todos os cantos e fazer com que os EUA invertenham militarmente nos assuntos de nações soberanas, o que transformaria os Estados Unidos numa nação "matrona" (que é justamente o modo como muitos europeus enxergam os EUA).

No segundo discurso inaugural de Bush, ele disse que: "A sobrevivência da liberdade em nossa terra depende cada vez mais do êxito da liberdade em outras terras". Isso soa como vindo diretamente da boca de Trótsky, que disse que: "A sobrevivência da União Soviética depende cada vez mais do êxito do socialismo em outras terras". O neocon Stephen Schwartz disse que "aqueles que estão lutando pela democracia global deveriam enxergar Leon Trótsky como um percursor. Schwartz, que, sem vergonha de proclamar suas raízes trotskistas, preferia que os "neocons" fossem chamados de "trotskicons".

O neocon Christopher Hitchens, também discípulo de Trótsky, quer que os EUA sejam "uma força revolucionária" para lutar contra o fascismo e a religião, especialmente o islamofascismo. "A religião" - disse ele - "é o mais tóxico dos inimigos... a forma mais básica e desprezível daquelas que são assumidas pelo egoísmo e pela estupidez humana.

O ódio frio e constante a ela, especialmente em sua forma rara de jihad, tem sido tão sustentador para mim quanto qualquer amor". Ele também disse que "George Bush pode ser subjetivamente cristão, mas ele - e as forças armadas estadunidenses - fizeram objetivamente mais pelo secularismo do que toda a comunidade agnóstica estadunidense combinada ou duplicada". Destruir o Islã pavimenta o caminho da "democracia", do aborto, da homossexualidade, da pornografia, etc.

O neocon judeu Michael Ledeen disse que: "Depusemos a antiga ordem. Nossos inimigos sempre odiaram esse turbilhão de energia e criatividade, que ameaça suas tradições (quaisquer que sejam [e isso incluiria a tradição católica])... devemos destruí-las por nossa conta e por nossa missão histórica", adicionando que "é tempo, mais uma vez, de exportar a revolução democrática".

"Nossa missão histórica"? O deus de Tróstsky era a História. Em 1921, Trótsky escreveu um livro chamado "A defesa do Terrorismo". Em 2002 (antes da invasão do Iraque), Ledeen convocou a "destruição criativa" do Iraque, da Síria, da Arábia Saudita e do Irã. Qual é exatamente a diferença entre "terrorismo" e "destruição criativa"?

Numa guerra justa, matar soldados e matar civis que se intrometem nos objetivos militares (dano colateral) não é assassinato, ainda que matar civis de propósito seja assassinato.Numa guerra injusta - que é o que a Igreja Católica disse sobre a Guerra do Iraque - matar soldados, matar civis em meio a objetivos militares e matar civis propositalmente são, todas essas coisas, assassinatos (e qual é justamente a diferença entre o terrorismo e o assassinato na guerra?).

Mas, incluindo que alguém considere a guerra no Iraque como justa, o coração desse alguém deveria estar pesaroso. Depois de um ano e meio de guerra no Iraque, o "The Lancet" (o diário médico britânico) estimava a cifra de mortos civis no iraquiano em 100.000. Sem dúvida, uma recontagem mais recente nesses anos de guerra, produzida pelo Iraqi Body Count, com sede em Londres (que não contava mortes civis não reportadas nas notícias midiáticas) fixava a cifra de mortos civis em 24.865 (com aproximadamente 42.500 feridos).

Isso soa como uma cifra mais confiável. Desses 24.865 mortos civis, 37.3% eram vítimas de militares estadunidenses, 35.9% haviam sido mortos por crimes que assolaram o Iraque após a queda de Saddam, e 20.5% se deviam aos insurgentes ou terroristas. Inclusive, se alguém considera a guerra no Iraque como sendo justa, deve alarmar-se que os militares estadunidenses mataram quase o dobro dos civis que os insurgentes ou terroristas. Se alguém considera as mortes civis causadas por militares estadunidenses (9.270 crianças, inclusive) como sendo assassinato ou não, Trótsky estaria orgulhoso, já que ele mesmo disse que: "Devemos nos livrar de uma vez por todas da farsa papista sobre a santidade da vida humana".

Os neocons, principalmente por meio do Projeto para o Novo Século Estadunidense (Project for the New American Century), planejavam uma guerra contra o Iraque muito antes do 11 de setembro (uma grande razão disso foi o fato de Saddam ter apoiado o terrorismo contra Israel). O governo de Bush está cheio de gente do PNAC, como Dick Cheney, Lewis "Scooter" Libby (processado por cinco delitos, incluindo obstrução da justiça e perjúrio), Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz, John Bolton e Richard Perle. Essa gente conduziu (sejamos honestos) o ignorante presidente Bush, que não tem experiência em assuntos externos, a lançar esse projeto.



Como dissemos em nosso editorial de setembro: "Antes que 'Crisis' e 'First Things' fossem fundadas, a 'New Oxford Review' foi contactada por uma fundação neocon - assim, do nada. A fundação queria nos dar dinheiro - dinheiro "grátis". Um tipo veio deste a Costa Oeste e me perguntou (ao editor) se eu poderia tomar uns tragos com ele num restaurante em São Francisco - tudo por conta dele. Eu aceitei, é claro! (estávamos desesperados por dinheiro).

Ele me disse que nos financiaria regularmente - se, tão somente, apoiássemos o capitalismo corporativo e se apoiássemos uma política externa estadunidense militarista. O que ele não disse é que esse tipo era um neocon judeu sem interesse no Cristianismo e no catolicismo, e suspeito que ele estava interessado em nos levar a promover os interesses neocons judeus (o qual ele tinha todo o direito de fazer).

Como dissemos no editorial de setembro, nossa resposta foi "não", e isso foi o ponto final. Mas as fundações neocons não nos abandonaram. Michael Novak (bastante pró-Israel) fundou o "Crisis" - então chamado de "Catolicismo em Crise" - e P. Neuhaus (também bastante pró-Israel) fundou o "First Things", ambos com amplo apoio financeiro de fundações neocons.

Assim, os neocons encontraram seu caminho para conseguir que revistas católicas e cristãs se juntassem a seus interesses neocons, principalmente judeus (o que, de novo, é direito deles). Exageramos? Não. Quando a Igreja Católica denunciou a guerra no Iraque - chamando-a de guerra injusta, guerra de agressão - tanto o Crisis quanto o First Things apoiaram essa guerra. Um caso claro de apoio aos interesses neocons judeus acima da doutrina católica sobre a guerra justa.

Para uma sinopse sobre o apoio de P. Neuhaus à guerra no Iraque, com base em seu apoio à Israel, veja nossa nota no "New Oxford Review", intitulada "O que o Papa sabe sobre assuntos mundiais?" (páginas 14-14 e 16-17). Se você continuar achando que isso é antissemitismo, estará novamente equivocado. Num editorial do "The Forward", o diário jesuíta mais antigo dos EUA, disseram que: "Até pouco tempo, pessoas razoáveis podia desprezar como propaganda conspiradora antissemita, a denúncia de que a segurança de Israel foi o motivo real por trás da invasão ao Iraque. No mais, seus defensores podem ser simplesmente silenciados e considerados como limitados. Aqueles que não estão de acordo, agora devem argumentar seu caso com base em provas".

Mais além da política, podem os católicos ortodoxos fazer causa comum com os neocons nas guerras culturais? Talvez sim. Talvez não. Como Irving Kristol, um judeu ex-trotskista e padrinho do neoconservadorismo escreveu no "Wall Street Journal": "Aquelas guerras [culturais] terminaram e a Esquerda ganhou".

Sim, pode até ser bastante lucrativo se juntar ao trem festivo do neoconservadorismo, mas isso não é algo que queríamos fazer. "A liberdade não é gratuita". Você paga um preço por sua liberdade, e a "New Oxford Review" é verdadeiramente livre, ainda que relativamente pobre.

Periódicos de pensamento de liderança, como o "New Oxford Review", o "First Things" e o "Crisis", nunca vão lucrar. Ou se apoiam em fundações neoconservadoras (e não negamos que o "First Things" e o "Crisis" frequentemente ajudam a causa ortodoxa), ou o fazem por sua própria conta, apoiando-se em seus escritores para se manter. Preferimos não ter nenhum fio anexo.
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