terça-feira, 27 de setembro de 2016

A verdadeira causa e propósito do MBL

Por: Jean A. G. S. Carvalho






O MBL (Movimento Brasil Livre) é um dos instrumentos de articulação de massas mais atuantes no país, com picos de atividade durante as manifestações anti-PT e pró-impeachment realizadas nos últimos três anos. O movimento se define como "apartidário", uma simples "articulação" independente e totalmente autônoma. Esse movimento, de fato, se coloca como o instrumento neutro de mobilização da Direita conservadora (e essencialmente liberal) contra a Esquerda e as políticas "estatistas", num projeto de melhoria político-econômica para o Brasil dentro dos parâmetros do liberalismo.


A liderança, essencialmente jovem, se coloca como símbolo da "novidade" e da "renovação" para os quadros políticos nacionais. Num cenário obscuro e numa política dominada essencialmente pelos mesmos barões de décadas atrás, algo como o MBL parece uma alternativa interessante e uma novidade no panteão político nacional. Mas a realidade é bem diferente.

Afora juízos de valor sobre seus fundadores e suas figuras principais (um deles, Marcel van Hattem, deputado estadual no Rio Grande do Sul que atropelou e matou um trabalhador) -, a análise deve ser bem direta, objetiva e realista: os discurso de apartidarismo e a retórica de distanciamento da máquina política foram produtos criados num momento de grande descontentamento geral para com a política e seus representantes; ou seja, todo o discurso de autonomia do MBL não era uma característica real desse movimento, mas sim um discurso bem acertado em um momento de convulsão social e radicalismos.

Kim Kataguiri, lideranças políticas e lideranças do MBL reunidos: demagogia de falastrões

O próprio MBL é um produto para uma demanda: um organismo liberal num momento histórico de derrocada da Esquerda. Concretizado o Impeachment de Dilma e a derrubada de Eduardo Cunha (figura com a qual Kim Kataguri apertou as mãos e se reuniu, junto com outros líderes do MBL e figurões políticos, alegremente em várias ocasiões - e o mesmo Kim, posteriormente, capitalizando o mesmo sentimento anti-Cunha, ironizou a postura do então presidente da Câmara), o MBL pôde então abandonar essa retórica e adotar seu posicionamento verdadeiro: a instrumentalização dos discursos proferidos em carros de som nas manifestações anti-PT e a reunião de massas desejosas de mudanças como meios efetivos de participação direta na estrutura política.

O próprio líder do MBL, Renan Antônio, tem seu nome envolvido em 27 processos relativos à ele, empresas dele ou das quais ele é sócio.

O MBL, em seu site oficial, lista seus candidatos por estado. Sim, seus candidatos: o MBL se assume como instrumento para a disputa eletiva e a participação do poder. Como o movimento não é um partido, seus filiados se candidatam por uma miríade de partidos (especialmente DEM, PSC, PTB, PP, PSDB e PMDB) que representam a própria estrutura antiga, arcaica e oligárquica do Brasil.

A intenção é "derramar vinho novo em odres velhos" - mas, se o poder está efetivamente nas mãos dos velhos coronéis políticos, o MBL participa não como uma força de renovação e substituição, mas sim de aliança a esses mesmos segmentos e continuidade deles. Grande parte da elite política atual é composta por homens e mulheres que, na juventude, participaram de movimentos de mobilização de massas, com slogans e bandeiras convenientes à época. O MBL e suas figuras não representam uma mudança estrutural para a política brasileira: são a nova geração dos velhos oligarcas.

Os protestos efetivados nos últimos anos, com grande participação do MBL e de outros grupos de mesmo estilo, foram as oportunidades que esses movimentos precisavam para demonstrar seu poder de mobilização e de influência da opinião pública para os donos do maquinário político. Depois dessa demonstração, os garotos "inovadores" do MBL foram em vistos por grandes dinossauros políticos que perceberam neles instrumentos úteis de um imenso capital político.

É momento, agora, de eleger candidatos, de instalar adeptos nos meios políticos e, obviamente, se beneficiar da máquina pública (algo que os liberais parecem odiar extremamente, mas que enxergam com bons olhos em períodos eleitorais). É momento de o MBL dar as mãos à elite política que sempre defendeu, e isso será coroado com discursos de renovação e reinvenção da política nacional.


A marcha malfadada até Brasília significa o destino real almejado pelos integrantes do MBL: excelentes cargos estatais, muto bem pagos, a oportunidade de capitalizar potencial político e financeiro e, claro, criar palanques eleitorais para estrear e apresentar novos candidatos - para um velho sistema que não será alterado por eles.

Assim, aqueles que prometem um novo vigor no cenário político e a quebra de paradigmas dão as mãos àquilo que há de mais arcaico (no sentido negativo) e imóvel na política nacional: as oligarquias políticas, os grandes coronéis e as figuras que dominam as instituições republicanas.

A praxe política e o modus operandi de um movimento como o MBL é a consonância com discurso que têm potencial de atração de um grande número de pessoas, a utilização dessa captação e seu uso para a promoção política do movimento, que continua mantendo seu caráter "apartidário" e "isento".

O MBL tem um lado, e não é o lado do trabalhador. Por trás de toda a retórica liberal de diminuição do Estado, privatizações e flexibilização das leis trabalhistas, há a aliança com setores que historicamente mantêm seus privilégios ilegais em detrimento da estabilidade econômica e da valorização do trabalhador. Os grandes "jovens engajados" não tocam em assuntos como auditoria da dívida pública e combate às medidas de arrocho e desvalorização do trabalhador (em nome de uma "renovação econômica" que não leva em conta a necessidade de rever os lucros dos rentistas e especuladores, mas que coloca como solução a deterioração das condições do trabalhador).

Não falam, também, nos imensos cortes em educação, cultura e pesquisa. Em suma, os garotos do MBL levantam todas as bandeiras da redução do aparelho estatal - menos aquelas que lhes podem ser úteis enquanto participantes diretos e ativos da estrutura de poder (os líderes do movimento foram convidados por Temer, recentemente, para discutir medidas e reformas econômicas e sociais).

Nada mais útil para um procedimento demagógico e parcial do que a afirmativa constante da neutralidade e da imparcialidade.

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