sexta-feira, 29 de julho de 2016

William Berkson: Porque os países não podem prosperar sem investimentos ativos do governo

A História nos mostra que as economias nunca cresceram através da diminuição do envolvimento estatal na economia


Por William Berkson
Tradução: Jean Augusto G. S. Carvalho



Se há um objetivo nacional com o qual todos os americanos podem concordar, esse objetivo é a "oportunidade para todos". Contudo, partidos políticos têm sido bruscamente divididos naquilo que se refere ao papel do governo na criação de oportunidades econômicas. Desde o presidente Ronald Reagan, os republicanos têm defendido uma teoria simples e bonita para o crescimento da economia: quanto mais se reduz o envolvimento governamental na economia, mais eficiente serão os mercados, e mais a economia poderá crescer. 

Contudo, uma teoria bonita pode, como T. H. Huxley disse, "ser morta por um fato feio". A bela teoria do "livre mercado" ou da economia de "laissez faire" tem sido, nos últimos 35 anos, morta não apenas por um fato, mas por uma torrente de fatos contrários. 

Além disso, a "maré crescente" não "elevou todos os barcos". Os salários dos pobres (os 10% mais baixos) foram reduzidos em 5% em termos reais durante o governo Reagan, enquanto que os salários da classe média aumentaram apenas 6%. Contudo, os 5% mais ricos tiveram seus rendimentos ampliados em 40%. Outro indicador da crescente desigualdade salarial é que os CEO's recebiam 30 vezes mais do que um trabalhador típico em 1979, e hoje recebem 300 vezes mais. Desde 1980, os únicos períodos nos quais a tendência da desigualdade salarial foi de algum modo revertida foram as administrações democráticas.

Seria razoável pensar que após décadas de evidências contrárias, culminando na crise financeira de 2008, colocariam um fim à política de governo mínimo ou de "laissez faire". Contudo, na realidade, os candidatos republicanos não só continuaram a apoiar essas políticas, mas também fizeram campanha com essas políticas para ganhar a maioria na Casa dos Representantes em 2010 e o Senado em 2014. Finalmente, em 2016, podemos estar experimentando uma mudança no sentimento público. 

Felizmente, alguns historiadores econômicos, desde 2008, têm escrito livros com novas documentações inestimáveis sobre aquilo que as economias crescentes realmente são. Esses livros não apenas mostram que as políticas de laissez faire sempre falharam em promover o crescimento econômico, mas também contêm uma visão claramente alternativa em relação ao crescimento econômico - uma visão que é completamente baseada e validada pela história econômica.  

A sobrevivência dos desajustados

Há duas razões pelas quais as políticas de laissez faire sobreviveram contra o peso da evidência contrária. Primeiro, além da falha da simples redução de impostos em promover o aumento de oportunidades para todos, muitos outros fatores também são envolvidos no crescimento econômico e na igualdade salarial.  

A contribuição distintiva de reduções de impostos ou de aumento de impostos não é algo fácil de distinguir. Além disso, a relação entre modelos econômicos e realidades econômicas nunca foi tão clara e decisiva quanto entre a teoria e a realidade nas ciências naturais. Essa fragmentação na teoria econômica significa que as evidências perderam muito de seu poder de atingir as mentiras liberais. e também deixaram a porta aberta para os argumentos de economistas que são, pelo menos para o público geral, arcanos e inconclusivos.

A segunda e mais importante razão para a sobrevivência as políticas de "livre mercado" e cortes de impostos é o fato de que os progressistas não têm uma teoria ou visão alternativas para a promoção do crescimento econômico. Ao invés disso, eles focaram na oportunidade "para todos", apoiando programas que simplesmente contrariam as desigualdades que se levantam nas economias de mercado. Estes programas incluem a seguridade social, a educação pública, o sistema de saúde, o seguro contra o desemprego e um salário mínimo adequado.

Em razão de nossa economia ter, de fato, fortes tendências para a desigualdade econômica, e que essas mesmas tendências diminuíram as oportunidades para a classe média e os pobres, esses esforços foram tornam-se muito necessários. Contudo, os programas de promoção da igualdade não são rivais direitos em relação à teoria conservadora daquilo que faz a economia crescer. E, como dizem, "você não pode atingir alguma coisa com nada". 

Misturando-se à falta de uma teoria alternativa clara, os presidentes democratas tentaram cooptar partes das políticas de laissez faire para promover o crescimento econômico. Em nome do crescimento, o então presidente Carter fez a desregulamentação dos bancos - levando à crise de poupança e empréstimos nos anos 1980 - e o presidente Clinton se recusou a regulamentar o mercado de derivativos financeiros - levando ao colapso econômico de 2008.   

Nas eleições de 2012, rejeitando o papel do governo no crescimento econômico, Obama disse que "o maior engano" sobre ele é que ele não acredita que o governo em si crie empregos. "Não é nisso que eu acredito. Eu acredito que o sistema de livre empreendedorismo é a maior estrutura de prosperidade que o mundo jamais teve" - foram declarações feitas por ele. Ambas razões para um poder de persuasão das políticas conservadoras de livre mercado mostram que essa doutrina tem sido destruída por uma série de novos livros sobre a história do crescimento econômico. 

Primeiro, em lugar de uma economia baseada "nessa mão ou naquela mão", agora temos uma economia baseada no "sempre" e no "nunca". Essas histórias mostram que as economias nunca cresceram por meio da minimização do envolvimento governamental na economia. Ao invés disso, elas sempre cresceram através da liderança do governo por meio do investimento público - investimento que, sim, gera empregos em todos os níveis de renda.

Crescimento econômico: a verdadeira história

Os novos livros de história do crescimento das economias possuem focos diferentes. Mas eles possuem a mesma implicação política criticamente importante: enquanto que os impactos de curto-prazo dos investimentos governamentais é algo difícil de separar de outros fatores, e o investimento do governo na economia é aquilo que tem feito com que as economias cresçam a longo-prazo. O crescimento econômico de longo-prazo jamais foi o resultado da saída da atuação do governo em relação ao mercado privado. O crescimento econômico sempre veio da liderança do governo que nivela o crescimento do setor privado.

O investimento governamental no setor de bens e serviços públicos, visado e sustentado durante décadas, de fato sempre foi necessário para o crescimento sustentável da economia privada e do aumento de oportunidades para todos. Livros recentes documentam o papel crucial do investimento público. Essas obras incluem "Terra da Promessa", de Michael Lind (2013); "Sucesso na Transformação Agrícola", de Isabelle Tsakok (2011); "Estado da Inovação", de Fred Block e Matthew Keller (2011) e "O Estado Empreendedor", de Mariana Mazzucato (2013).

Há uma nova obra, lançada em março de 2016: "Economia Concreta", de Stephen Cohen e Bradford DeLong, além do livro "Amnésia Americana", de Jacob S. Hacker e Paul Pierson. (Aviso: Tsakok é a esposa do autor). O centro da história americana é a luta entre as visões de Alexander Hamilton e Thomas Jefferson. Hamilton acreditava que, como Lind demonstrou, "o governo não é inimigo da economia privada, mas sim seu patrocinador e sócio". Ele acreditava na grande dívida do governo no financiamento do crescimento econômico, incluindo o crescimento das indústrias e das cidades. Jefferson, em contraste, odiou o grande governo, a grande dívida, as cidades e a indústria - ele idealizava pequenos agricultores e pequenos homens de negócio.

A primeira luta entre as duas visões é um indicativo de toda a história. DeWitt Clinton, um seguidor de Hamilton e prefeito de Nova York, desejava que o governo federal financiasse a construção do Canal Erie. O canal de 400 milhas deveria fornecer uma alternativa à rota longa, difícil e terrestre para os grãos de Midwestern, levando a produção à populosa Costa Leste e também para a rota do Atlântico.

Jefferson chamou o grande governo e o débito massivo da proposta do canal de "uma pequena loucura". Quando Clinton se tornou governador de Nova York, ele contornou o governo federal ao conseguir que o estado de Nova York lançasse um programa para custear o projeto. No ano seguinte à abertura do canal, em 1825, o preço dos grãos produzidos em Midwestern na baía de Nova York caíram em 90%. O porto de Nova York tornou-se muito mais movimentado. A cidade de Nova York se transformou na maior cidade dos Estados Unidos, e, durante algum tempo, a maior cidade do mundo.

O dinheiro fluiu e também criou um centro financeiro e industrial, contribuindo para a fundação da Revolução Industrial nos Estados Unidos. Então, Jefferson não estava só um pouco errado. Ele estava completamente errado, já que o canal de Erie foi a chave para o crescimento econômico e a criação dos EUA como um poder econômico mundial. Subsequentemente, os EUA oscilou entre períodos de crescimento promovido pelo investimento "Hamiltoniano" - sob presidentes como Lincoln, FDR e Eisenhower - e períodos de deriva e estagnação, liderados por aqueles que, como Jefferson, idealizavam um passado fictício, idílico e pequeno - líderes históricos como Andrew Jackson, William Jennings Bryan, e alguns recentes, como Ronald Reagan e George W. Bush, sob os quais os salários ficaram estagnados. 

A criação e o crescimento da sociedade das oportunidades nos EUA é, então, não a história de um pequeno governo deixando o setor privado totalmente livre, mas sim a história de um governo ativo que impulsiona o setor privado com investimentos. O livro de Mazzucato continua a história no período pós Segunda Guerra Mundial, onde o crescimento foi liderado pela inovação de alta tecnologia. Num contundente estudo de caso, ela documenta que todas as tecnologias que permitiram a diminuição do tamanho do iPhone foram desenvolvidas e sustentadas por investimentos massivos do governo.

Isso inclui as grandes TV's de LCD, telas de touch screen, baterias de lítio e íon, GPS, satélites de comunicação, a própria internet, a tecnologia de celulares, o sistema de reconhecimento de vozes SIRI e muitas outras tecnologias. Foi necessário que uma grande companhia privada e visionária, como a Apple, para reunir tudo isso num grande produto de consumo. Contudo, o fato importante (porém muito negligenciado) é que a Apple estava "surfando", como Mazzucato expõe, numa onda de investimentos governamentais e de pesquisas e aprimoramentos conduzidos pelo governo.

"O Estado... é um parceiro-chave do setor privado - e um parceiro muitas vezes mais ousado, tomando riscos que os negócios particulares não querem correr... Um Estado empreendedor [...] opera audaciosa e efetivamente em fazer com que as coisas aconteçam. De igual modo, quando não confiante, a maior probabilidade é de que o Estado seja 'capturado' e que se curve aos interesses privados, tornando-se um pobre imitador dos comportamentos do setor privado, mais do que uma alternativa real a esses comportamentos".       

O livro de Tsakok dá uma visão ampla - a história do desenvolvimento econômico mundial. O livro documenta todos os casos bem-sucedidos de transformação nacional de economias tradicionalmente agrárias para economias modernas, e muitos esforços fracassados também. As sociedades de "antes" consistiam de fazendeiros independentes que consumiam a própria produção o fazendeiros que eram pobres. As sociedades do "depois", transformadas, são sociedades com agricultura comercial, plantações cultivadas para a venda. As sociedades transformadas possuem grande especialização e redes complexas de indivíduos interdependentes, escolas, negócios, indústrias, instituições de pesquisa e agências de governo. Nessas sociedades, fazendeiros são muito mais dependentes de financiamentos, negócios e do governo - e muito mais prósperos.

Então, qual a chance de muitos dos sucessos históricos na transformação econômica terem sido dirigidos por políticas de Estado mínimo e baixo envolvimento estatal na economia? Chance zero, nada. Em cada um dos casos, os governos fizeram investimentos produtivos em bens e serviços públicos, sempre incluindo a educação, a infraestrutura, a pesquisa e a transferência de tecnologia para o setor privado. Porém, o investimento público não é algo fácil de se fazer; enquanto que ele se prova necessário, ele pode também falhar. De fato, todos os países tiveram falhas e e retrocessos na liderança através do investimento. 

O que diferencia os sucessos de longo-prazo das falhas constantes é, como o livro "Economia Concreta" enfatiza, a liderança governamental ativa e pragmática. Quando o programa falha, governos efetivos finalizam esses programas e tentam outra ciosa. Países diferentes, mas todos bem-sucedidos, de fato se sucedem numa larga variação de estruturas institucionais e políticas. Mas todos eles tiveram "a direção governamental", como Tsakok mostra. Todos os governos bem-sucedidos lideraram investimentos focados e sustentáveis para criar redes modernas e complexas de interdependências que autorizam a alta produtividade e o aumento de renda.    

Em resumo, a história dos Estados Unidos e a história do mundo mostram que, se você quer um governo mínimo, você pode até ter isso - mas só se você quiser que quase todos na sua sociedade sejam pobres, agricultores de subsistência. Se você quer uma economia moderna, próspera e crescente, você vai precisar de uma grande especialização e uma rede grande, complexa e interdependente de indivíduos, negócios, centros de pesquisa e educação. E só o governo possui autoridade e dinheiro para regular a rede e bombear regularmente os fundos focados e necessários para sustentar seu crescimento. 

O laissez faire advoga a crença falsa de que o dinheiro, nas mãos dos ricos, é sempre melhor para economia do que se esse mesmo dinheiro for taxado e gasto com bens e serviços públicos. Na realidade, o gasto sábio em bens e serviços públicos não evita o investimento privado; ao invés disso, ele "incentiva" o investimento privado, levando-o para um nível maior e mais efetivo - como foi o caso do smart phone. O ponto de partida é que alguma parte do dinheiro que o indivíduo rico gastaria numa casa maior seria mais bem gasto ao ser taxado e investido pelo governo na educação pública, para, assim, promover a oportunidade para todos. 

E parte do dinheiro que um fabricante de carros gastaria num salário ainda maior para seus CEO's seria melhor gasto na reparação de estradas e pontes - algo que seria melhor tanto para a companhia de carros quanto para a sociedade como um todo. A liderança através do investimento público é a visão que vai além do mero crescimento. É também um poderoso argumento para apoiar a seguridade social e outros programas de "redes seguras" para promover a oportunidade para todos. Governos podem estimular o crescimento econômico geral, mas também podem falhar em oferecer oportunidades pra todo mundo. 

De fato, isso é o que tem acontecido desde Reagan. As atuais políticas republicanas tem sido aquilo que o republicano Barney Frank chamou de "Keynesianismo armado": grandes investimentos em armas e cortes em outros investimentos domésticos. O resultado foram benefícios esmagadores para os ricos. Para alcançar um crescimento amplo nos trabalhos e na renda, e também na oportunidade para todos, o governo precisa investir diretamente na educação, na pesquisa, no sistema de saúde e na infraestrutura, e também precisa investir na seguridade social  e em outros programas do tipo.  

Investimento custa dinheiro, mas, como nação, nós temos esse dinheiro. Os EUA é o país mais rico em toda a história do mundo. Nos anos 1960, quando os índices mais elevados chegavam em 70%, nós estávamos tanto crescendo mais quando mais igualmente. Com os atuais índices mais elevados atingindo cerca de 50%, a evidência histórica é de que nós temos muito espaço livre para taxar mais os ricos e investir publicamente esses fundos para o benefício coletivo - incluindo dos próprios ricos, que, de fato, se tornam mais ricos mais rapidamente durante anos de grande taxação.

As reclamações de que nós estamos quebrados demais para investir no campo social não são plausíveis quando os ricos estão acumulando bilhões em bancos além-mar, e corporações que não estão fazendo investimentos vigorosos. Além do mais, quando o governo possui um propósito e um papel bem claros, ele pode fazer o oposto daquilo que aconteceu nas recentes administrações republicanas, com a captura do governo por forças e interesses privados numa orgia de prosperidade corporativa e benefícios legais para os super-ricos.

Com o foco em investimento, e com uma fiscalização ampla e um retorno amplo, o governo pode, como Mazzucato apontou, ser mais eficiente e efetivo, então há um ciclo virtuoso de taxação, investimentos sensatos e crescimento econômico. A política de fortalecimento dos investimentos resolve um problema atual e urgente de criar uma mensagem política para os candidatos progressistas.

O bem-estar da próxima geração é uma responsabilidade que o governo com o apoio das famílias - pode assumir. Corporações não podem preencher esse papel, já que elas são pressionadas a beneficiar seus investidores em curto-prazo. Só o governo, representando as preocupações de seus cidadãos pelo bem-estar da próxima geração, pode ter o apoio e o dinheiro para fazer esses investimentos e tomar os riscos que prometem retornos só em longo-prazo.

O texto teve partes suprimidas por mostrar defesas e posicionamentos da política estadunidense atual que não refletem nossas próprias opiniões. Para conferir o texto na íntegra, clique aqui.

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