quarta-feira, 20 de julho de 2016

Alexander Dugin: Quando não resta mais ninguém

Por Alexander Dugin
Tradução: Jean Augusto G. S. Carvalho





A situação histórica na qual nos encontramos passa por mudanças muito rápidas. Épocas inteiras se passam em poucos anos, atraindo, desse modo, um ritmo acelerado de transformações ideológicas. Esse é o caso da filosofia, da ideologia, da politologia e da história religiosa. Isso nos leva a uma situação paradoxal - quanto mais fundamentais são as mudanças, as explosões e as mutações, mais indiferentes são as reflexões sociais. Grandes impérios e ideologias de despedaçam, ciclos sociais e eras da história política chegam ao fim, mas isso não provoca entusiasmo algum entre os intelectuais - só bocejos.

As reflexões histórico-filosóficas da nossa época, seus axiomas e processos são simplesmente risíveis. O denominador comum da linha de pensamento atual é o vazio. Várias proibições e inibições desapareceram, áreas cinzentas ganharam coloração, elementos perdidos foram reconquistados, mas está faltando algo essencial: uma testemunha que pudesse tirar conclusões de toda essa ostentação que foi relevada. A parte mais interessante desse drama será encenada diante de um salão vazio. Enquanto isso, partindo da pluralidade histórica de ideias e de povos, de teorias e de religiões, blocos geopolíticos e escolhas técnicas, algo completamente novo está tomando forma bem diante de nossos olhos. Um mundo, uma humanidade, uma lógica histórica.

Há duas visões dominantes nessa realidade - o otimismo moderado e a indiferença. Essa é a essência de todo o pesadelo. Essas duas visões tem sido (ou se consideram) sujeitos históricos, encontrando seu próprio fim com um otimismo moderado e com a indiferença. A mecânica e a dinâmica desses dois modos de pensar, suas recombinações e sobreposições estão criando labirintos transparentes sobre a reflexão atual, sem atividade, ideais novas e sem dramatismo.

Parece que todos os lados do processo histórico - o conflito mundial - expuseram sua perda. O fato de que a perda, a desilusão e a "resignação" são coisas aparentes em toda a parte, desempenha a melodia escatológica obscura do fim eterno da humanidade. O intervalo, o coma, a pálida transparência da clara escuridão artificial. Não há vida, mas também não há morte. Um mundo é o paradigma do desmaio pré-mortal, fingindo que isso vai durar pra sempre.

A vitória sobre o medo da morte foi alcançada pela exaustão extrema da vida. A existência da inexistência. Doses compulsórias de tranquilizantes são distribuídas igual e generosamente. Apenas alguns loucos clamam por meios mais rigorosos. Há uma possibilidade transparente (quase uma impossibilidade) de uma terceira visão acerca do Fim da História que se tornou fato.

Os desobedientes adoentados são mantidos num silêncio de um hospício planetário por perversões criminosas. Há uns poucos selvagens com suas ideias sobre o fim do tempo, mas isso dificilmente invocará um interesse social mais amplo. As pessoas têm mantido suas ideias sobre um mundo ensolarado no império subterrâneo da escuridão. Sociedades fechadas de controle, onde toda a realidade é dissolvida na escuridão. A prisão de Sartre, sem muros: ela finalmente foi construída e dada ao uso público.

Porém... Nós todos estamos configurando nosso diagnóstico no momento presente. Nós estamos julgando isso por nós mesmos. Nós estamos transmitindo a nova estratégia. É difícil acreditar que, hoje, alguém possa depender seriamente da resistência interna contra o Sistema. Se tal possibilidade se erguesse, nós agarraríamos essa possibilidade sem hesitação. Mesmo que um esforço pareça evidente, será inútil e desesperado dar o tiro fatal. A rebelião tem um objetivo em si mesma. Mas o Sistema vai nos dar ao menos um espaço mínimo para fazer essa rebelião? Ele não precisa fazer isso, pois isso significaria acordar em meio a um cenário virtual de filme. 

O Sistema é tão passivo que ele não precisa infiltrar agentes ou provocadores dentro de movimentos inconformistas. Ele aprendeu a criar seus próprios "revolucionários" semi-sujeitos, sombras do inconformismo, falsos extremos. O resumo conceitual da teoria geral da "insurgência interna", um tópico extremo em si mesmo, é expresso na teoria do Nacional-Bolchevismo. É a essência da nossa estratégia. Tudo isso é real, desejável e atual. Não há circunstâncias novas que possam sacudir nossa convicção sobre a veracidade e a perfeição ideológica contida em nosso paradigma.

Mas o ponto central já foi exposto. Vamos, agora, voltar à realidade, onde a atividade externa e os conflitos face a face - mesmo no caso do partidário Schmidt - não existem mais. Em tal situação, nós precisamos de uma nova estratégia, uma nova ontologia, uma nova historiosofia sobre o tema da Revolução. O Nacional-Bolchevismo põe-se diante da perspectiva da metamorfose final. Seu ponto reside em solucionar o problema, em como atacar o inimigo partindo da perspectiva de que ele esteja vencendo, mas sim na probabilidade de que ele já tenha vencido. Quem estará lá para atacar quando ninguém mais estiver presente - nem do nosso lado, nem do lado deles? 

Afastando-se da indiferença e não mostrando nem mesmo o mínimo otimismo pela situação na qual nos encontramos, nós colocamos um julgamento acima desse mundo, sendo absolutamente seguros de que logo ele vai desmoronar. Esse processo apenas parece eterno, mas vai acontecer de uma só vez. O problema é se nós podemos acelerar esse processo. Não há certeza sobre isso. 

Mas isso vai acontecer, nem que seja por si mesmo. E a gangue de banqueiros, gerentes, homens do show-business, homens rápidos, diplomatas, jornalistas, analistas, programadores e estrelas de cinema serão varridos da face da Terra num piscar de olhos. Quão brutal, monolítico e drástico é esse final. O fim de um Mundo.

O Sistema aprendeu a trapacear as alternativas que são dadas em seu lugar, de modo muito astuto e eficaz. Ele criou hologramas de pseudo-revoluções. Ele confundiu os membros de todas as oposições, só para torturá-los depois. E tudo isso somente para propiciar sua diversão pervertida e agonizante. A nova estratégia reside na negação total. É a mensagem heráldica do fim. Seja como for, isso é só suposição. Sem qualquer dúvida. Realmente. Não suporta uma nova investigação. Mestres de ilusões, de pesadelos, uma Harak-Rachel cabalista afiada em meio a sonhos insanos. Tudo contado, mensurado e calculado.

O fim do tempo será final. Uma rocha caindo do penhasco sem qualquer ajuda vinda de mãos humanas, que colocará um fim ao colosso terrível de sua história. Nossa história é diferente. Não possui início ou fim. Em nome dela, nós devemos encarar a evidência final - você não vai escapar sem pagar o preço antes. Nuvens de chumbo cobertas de sangue cinzento. A fúria do Senhor tornou isso claro - você deve tomar os instrumentos materiais literalmente, com a aparência física deles. Um Mundo, o mundo da pós-modernidade, será esmagado pelas pedras de moinho gigantescas.

E nenhum músculo se moverá diante de um espectador interessado: você tomou essa parte por sua própria conta. Você votou, você venceu. Agora, culpe a si mesmo. Você não tem valor nem mesmo para seus inimigos - nós.


Texto original em Arctogaia
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