segunda-feira, 25 de julho de 2016

8 filmes para ver antes de morrer

Texto por: Jean Augusto G. S. Carvalho
Há muitos filmes excelentes, muitos mesmo. É muito difícil (ou impossível) assistir todos eles, mas talvez se possa dar uma ajuda listando alguns filmes essenciais pra ver antes de morrer. Essa lista está longe de ser a eleição dos "melhores filmes" ou algo to gênero, sendo tão somente um guia de obras interessantes que, de alguma forma, transmitem mensagens interessantes.

Essa é, provavelmente, a primeira de muitas listas e análises sobre cinema que o Avante publicará. Então sente-se, prepare a pipoca e o filme e aproveite.

ATENÇÃO: contém spoilers (não intencionais)


1. Oblivion

Dirigido por Joseph Kosinski, Oblivion é uma das melhores produções da sétima arte. Num cenário "pós-apocalíptico", o protagonista Jack Harper (interpretado por Tom Cruise) e sua parceira Vika (Andrea Riseborough) vivem numa Terra devastada pela guerra, combatendo supostos "alienígenas" saqueadores. Sua missão consiste em drenar os últimos recursos vitais do planeta e garantir a sobrevivência da colônia humana em Titã, uma das luas de Júpiter, onde o suposto remanescente da espécie humana conseguiu abrigo. No decorrer da trama, o protagonista passa por eventos que alteram o curso natural de sua missão e uma série de fatos e questionamentos que desafiam sua própria identidade. Nem tudo é o que parece ser, e é difícil determinar o que é aparante e o que é real.

A síntese da luta da organicidade contra o mecânico-robótico, a busca pela própria identidade (e a descoberta dos verdadeiros inimigos e aliados) e a própria existência humana são temas centrais de Oblivion, uma obra prima do gênero de ficção científica. O homem precisa conhecer o desconhecido, questionar a si mesmo constantemente e, dessa forma, se tornará apto a construir aquilo ele é.

Oblivion é uma ferramenta de questionamento ao sistema vigente, à fusão entre homem e máquina e ao enfraquecimento da própria capacidade de percepção da realidade, além da busca incessante pelo próprio eu (missão onde a descoberta do nós é tão ou mais essencial). Lição máxima: não confie numa voz automática e num vídeo gravado controlados por uma inteligência artificial ultra-desenvolvida como condutores da sua vida.


2. Clube da Luta

Clube da Luta, dirigido por David Fincher e baseado no romance homônimo de Chuck Palahniuk, é uma das grandes obras anteriores à virada do milênio e, em todos os sentidos, um excelente filme. De fato, Clube da Luta pode ser interpretado como um "manifesto". O protagonista, Tyler Durden (interpretado por Brad Pitt, o "personagem em si", e por Edward Norton, o "narrador"). Tyler é um homem com distúrbios psicológicos e uma forte crise de identidade, consumido pro seu trabalho e pelo estilo de vida cosmopolitano (em essência, um retrato do homem médio urbano moderno).

Na busca pela afirmação da própria identidade, Tyler cria um "alter-ego", uma outra personalidade capaz de realizar aquilo que ele mesmo não "pode fazer": cria o "Clube da Luta" que logo atrai outros homens e se espalha como um movimento marginalista. O filme é uma crítica viva ao estilo de vida moderno e à própria modernidade, ao sistema capitalista e ao materialismo, à publicidade e à anulação do "animal interior" e da própria masculinidade. Os conflitos com a figura feminina são incorporados na personagem Marla (Helena Bonham), o elemento que, ao mesmo tempo, trás instabilidade ao grupo masculino e sanidade à Tyler.

O desapego, a revolução interna e a contestação direta ao sistema vigente são pautas importantes no filme, mas é impossível criar uma linha única de interpretação sobre Clube da Luta. Diante dessa impossibilidade há uma máxima: o filme é um chamado reflexivo. A maior lição do filme é que, muito provavelmente, você precisa levar uns socos pra cair na real.

3. O Lobo de Wall Street

Uma das maiores obras de Martin Scorsese, o filme é baseado nas memórias escritas por Jordan Belfort, figura na qual todo o personagem estrelado por Leonardo DiCaprio é baseado. Leonardo interpreta Belfort, um bem-sucedido corretor de títulos que experimenta todas as maravilhas proporcionadas por dinheiro, muito dinheiro e mais dinheiro ainda. Belfort é um homem inescrupuloso, um legítimo representante do setor terciário, e não se incomoda em usar fraudes e charlatanismo para conseguir mais grana (o fim último do liberalismo, o lucro pelo lucro).

Em meio à prostitutas, garrafas de champanhe e todo o tipo de regalias e excentricidades, Belfort e seus companheiros de trabalho são o retrato e a epítome do "american way of life", do homem moderno movido exclusivamente pelo lucro e desprovido de qualquer lastro moral. O filme mostra a vacuidade e o esvaziamento existencial do homem no mundo moderno. Não é possível saber se essa era a intenção de Scorsese ou se essa é a mensagem central e definitivamente do filme, mas uma das maiores lições é que ter muito dinheiro não te faz menos filho da mãe (só menos pobre) e nem soluciona todos os seus dramas.

Imerso no vício em todos os tipos de drogas (especialmente por influência de seu chefe Mark Hanna, interpretado por Matthew McConaughey), o protagonista encontra uma "fiel companheira", Naomi Lapaglia (interpretada por Margot Robbie), personagem que condensa o erotismo carregado e a "malícia inocente". O homem com muito dinheiro no bolso continua sendo apenas mais uma marionete.

4. À Procura da Felicidade 

Nessa obra dirigida por Gabriele Muccino, Will Smith interpreta Chris Gardner, um chefe de família falido, desempregado e abandonado pela própria esposa, Linda (interpretada por Thandie Newton). O filme é o retrato da diferença entre a promessa de uma vida próspera e a realidade: contas para pagar, salário insuficiente, humilhações e privações por conta do dinheiro (no caso, por conta da ausência dele). Chris é também o retrato do homem que não desiste, que luta e que supera as próprias fraquezas, para quem o bem estar da família e especialmente do próprio filho estão acima dos próprios desejos.

Enquanto que o filme é muitas vezes visto pela ótica liberal ("meritocracia") e a própria história na qual a obra é baseada possa ser contestada, À Procura da Felicidade contém uma mensagem simples que vai além da ideologia ou da leitura política: você precisa ser resistente, a vida não é fácil e vencer é uma possibilidade. Há pessoas que contam com você e que até mesmo dependem de você, então manter-se de pé não é uma escolha, é um dever.

O personagem é a antítese clara ao perfil padrão do homem moderno (irresponsável, individualista, covarde, egoísta e niilista), agregando em si mesmo os valores que hoje são escassos na sociedade. A principal moral do filme é: cuide bem do seu filho e seja um pai honrado. Sempre (ser solteiro ou não ter filhos não te exime da obrigação de ser um homem honrado).

5. O Último Samurai

Dirigido por Edward Zwick, O Último Samurai é o retrato do choque de civilizações: Ocidente e Oriente, modernização versus tradicionalismo, o globalismo contra a identidade local. Tom Cruise interpreta o capitão estadunidense Nathan Algren, o homem que materializa o espírito técnico do Ocidente. Com a missão de colaborar nos esforços da restauração Meiji no Japão, principalmente através da modernização das forças armadas japonesas. O filme se estende sobre o conflito entre o Japão antigo (uma nação agrária, tradicionalista, feudal e dominada pelos samurais) e o Japão novo (um país em franca urbanização, capitalista e cada vez mais ocidentalizado).

Depois de uma batalha contra os samurais, Algren tem sua própria identidade transformada radicalmente. Feito prisioneiro dos guerreiros samurais que o consideram um grande soldado em campo de batalha, ele entra em contato com outra realidade, um outro mundo e estilo de vida. Aprende muito com Moritsugu Katsumoto (Ken Watanabe) e se apaixona pela bela Taka (interpretada por Koyuki).

O Último Samurai é uma representação interessantíssima da luta entre o liberalismo e a modernização ocidental (ou o "Fim da História" desenhado por Fukuyama) e o tradicionalismo, a identidade dos povos. Algren é o homem que muda a si mesmo sem mudar seus próprios princípios, canalizando suas características ocidentais (ampliadas pelo encontro com o Oriente) em um propósito mais elevado. Enxergar o outro é uma das maiores lições dessa obra de arte (além, é claro, da importância da honra, da bravura, da irmandade e do espírito heroico). 

6. Forrest Gump: o contador de histórias

Interpretado por Tom Hanks, Forrest é um homem simples do Alabama com certa deficiência mental. Baseado no romance de mesmo nome escrito por Winston Groom, o filme, dirigido por Robert Zemeckis, representa o conflito entre a inocência da infância e a crueldade do mundo adulto. O protagonista passa por uma série de eventos político-sociais importantíssimos (chegando a lutar na Guerra do Vietnã e assistir o fim da Segregação nos Estados Unidos) com a ingenuidade típica de uma criança. Ele também nutre um amor sincero e puro por Jenny Curran (interpretada por Robin Wright Penn), sua amiga de infância e maior confidente - e que, a despeito de Forrest, sucumbe à vida desregrada e às drogas, principalmente por conta de abusos que sofria na infância por seu próprio pai.

Forrest é o homem que se mantém "puro" num mundo impuro, que encara a vida com incrível simplicidade e que, a despeito de suas limitações mentais, constrói um caráter forte e muito menos influenciável e corruptível do que aqueles que são "normais" são capazes de possuir. Ele é o pólo magnético de sanidade, bondade e amor que atrai Jenny (com quem, depois, tem um filho) e a tira, mesmo que momentaneamente, do desgosto do mundo real e da vida adulta. Forrest é o filho dedicado, o homem simples e o companheiro sincero, além de um incrível amigo leal.

Todo o filme se desenrola com o protagonista sentado num banco num ponto de ônibus, contando as próprias histórias para desconhecidos. É uma lição pura de que a vida é extremamente simples.

7. Um sonho de Liberdade

Dirigido por Frank Darabont, Um Sonho de Liberdade é uma das mais impressionantes obras cinematográficas, com um excelente enredo e atuações brilhantes. O protagonista, Andy Dufresne (Tim Robbins) é condenado à prisão perpétua por um crime que jura não ter cometido: o assassinato de sua própria esposa e do amante dela. Na cadeia ele encontra muitos outros "inocentes" e faz amizade com alguns deles, especialmente com Ellis Boyd (interpretado por Morgan Freeman). Na prisão, Dufresne enfrenta uma vida insuportável (abuso sexual, perseguição, brigas, risco de morte, abuso de poder dos guardas, chantagens do diretor do presídio, entre outras coisas), mas o mais detestável é a perda de sua própria liberdade.

O filme é uma síntese da busca pela própria libertação, a valorização de elementos simples que configuram uma liberdade genuína e a busca incessante pela recuperação da própria liberdade, sem jamais render-se à situação. É um exemplo claro de que é possível encontrar esperança mesmo nas situações mais desoladoras. Dufresne reproduz no ambiente da prisão os pequenos detalhes que não o permitem esquecer que há um mundo para além daqueles muros. O filme também é uma crítica às sentenças injustas e às falhas do sistema carcerário. Com certeza você vai valorizar mais a própria liberdade após assistir esse filme.

8. Tropa de Elite 2: o inimigo agora é outro


Dirigido por José Padilha, o segundo filme faz jus ao primeiro. Tropa de Elite 2, cujo protagonista é - o agora coronel - Nascimento (interpretado por Wagner Moura), é uma crítica ácida à violência social, ao caos no sistema carcerário, à corrupção policial, à degeneração da imprensa, ao processo eleitoral deturpado, ao tráfico de drogas e às milícias e, acima de tudo, o apodrecimento das autoridades do alto escalão (quem não se lembra da cena emblemática da Esplanada dos Ministérios e do Palácio do Planalto no fim do filme?).

Os dramas sociais acompanham a Odisseia do próprio protagonista: a fase de contestação do filho jovem, a influência radicalmente oposta do marido da ex-esposa, Fraga (Irandhir Santos), um ativista político e deputado federal engajado na causa dos direitos humanos, além de dificuldades diversas. Nascimento consegue promover o B.O.P.E (Batalhão de Operações Policiais Especiais) a um novo patamar, conseguindo mais material e mais soldados. Mas o crime convencional se mostra um inimigo menor do que políticos corruptos, membros de milícia e figurões do alto escalão.

Nascimento vê o próprio universo familiar diluído nas questões de segurança pública e corrupção, onde seu próprio filho é vítima de um grave atentado, e, para proteger a família, é capaz de enfrentar as mais altas figuras. O filme, uma produção nacional fantástica, mostra que mesmo um homem honrado e que procura fazer aquilo que é certo torna-se "impotente" diante de um sistema falho e totalmente corrupto, mas que, a despeito disso, pode se esforçar em manter a própria dignidade.

Até quando uma missão é nobre? A defesa da própria família e da própria honra se transforma numa bandeira mais louvável do que os slogans políticos e institucionais.
Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Visitas

Participe do nosso Fórum Online

Siga-nos no Facebook