segunda-feira, 27 de junho de 2016

Morte ao turismo moderno

Por Jean Augusto G. S. Carvalho



Você fica suficientemente entediado do lugar onde vive e precisa desesperadamente conhecer outros ambientes. Não se preocupe: o mundo inteiro é transformado num pacote de viagens dividido no cartão de crédito, disponível num panfleto de alguma agência de turismo. E isso serve pra consolar jovens sem identidade, pessoas de meia-idade que sofrem de crises existenciais e velhinhos que precisam mostrar algum vigor e juventude para não serem considerados como lixo descartável.

Viajar sempre fez parte da história humana. O fluxo de pessoas é um fenômeno social natural, e todos os grandes impérios e civilizações precisaram lidar com isso (de um modo ou de outro). A grandeza e a ruína de reinos inteiros foram determinadas pelo influxo e afluxo de massas humanas. Essas pessoas se deslocavam por várias questões (procura por alimentos, deslocamento de rebanhos, catástrofes naturais - secas, geadas, enchentes -, guerras, escravidão ou por simples nomadismo) que não incluem as motivações típicas do "turismo moderno".

O turista moderno não está em busca de comida, nem foge de catástrofes. Ele é a própria catástrofe, o sintoma de um mundo decadente que consegue comercializar culturas inteiras. O turista moderno quer apenas colecionar selfies diante de monumentos diferentes, em lugares onde ele não possui qualquer vínculo efetivo e com pessoas que ele considera figuras exóticas, espécimes disponíveis pra catalogação (nem mesmo animais escapam disso). 

Ele despreza a cultura dos lugares onde visita, despreza o modo de pensar dos povos que diz conhecer e só leva essas coisas em consideração quando elas se encaixam em suas necessidades de se mostrar "cosmopolita", "diverso", "tolerante" e "cult". Turismo moderno é masturbação, egocentrismo, exibicionismo, lascívia e fetiche. Você pode condensar tudo isso num bastão de selfie e numa camisa florida.

Em essência, a busca por novos lugares é o conhecimento daquilo que não existe no lugar de onde você veio. Mas todo esse fetichismo faz com que o típico turista moderno viaje meio mundo para fazer essencialmente as mesmas coisas que faz onde vive: comprar. Visitar algum shopping center na China, um centro de compras em Miami, uma franquia da Mc Donalds no Japão. Você pode tomar um café Starbucks na Irlanda, na Inglaterra ou tomar Coca-Cola na Índia (ou Pepsi na Tailândia, para os mais "rebeldes").

Não há problema algum em viajar. Não é crime conhecer outras culturas e lugares. Mas a postura do turista moderno não é a do conhecer, e sim a do exibir. Você pode comer comida japonesa no Japão com a mesma postura que tem na lanchonete de fast-food na esquina da sua casa. Não há necessidade de demonstrar respeito pelos ritos e tradições de outros povos quando tudo o que você precisa é de um souvenir para exibir na estante de casa.

Outros lugares servem para que você compre uma camisa Lacoste, um tênis Nike, um lanche no Burger King, um perfume Dolce & Gabbana. Todas as cidades modernas são incrivelmente iguais: prédios imensos, muitos carros, lojas e mais lojas - e essencialmente as mesmas marcas e produtos. Se você visita um lugar desses, já visitou todos os outros. Todas as diferenças culturais, todas as sutilezas e peculiaridades se dissolvem no emaranhado de aço, concreto, asfalto e vidro.

Diante do Taj Mahal, o turista médio pode se comportar do mesmo modo como age em casa num domingo à tarde. Lugares sagrados, túmulos de heróis e monumentos de eras passadas se transformam em acessórios no cenário, prontos para a experiência da "interatividade". Você pode viajar pra Índia e participar do festival Holi como se estivesse numa festa rave qualquer (o uso de ecstase ou metanfetamina contribui pra "experiência").

O mundo é um playground imenso, um campo de testes. Povos, culturas e histórias diferentes são diluídos na homogeneidade do espírito cosmopolita, do "multiculturalismo" - um multiculturalismo esmagador e acessível em cada terminal de aeroporto. Todas as línguas são condensadas no "hello!". 


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Um comentário:

  1. Isto se resume a insegurança.
    O indivíduo não tem autossuficiência de estima, logo precisa do meio externo para imaginar-se tendo um amor próprio. Veja, a pessoa começa a usar redes sociais, FaceBook, Twitter, Instagram e tantos outros sites, tem tantas informações, todas elas influenciadas ideologicamente pelo escola de Frankfurt, marxismo e gramscismo cultural. Acaba a prezar a quebra de valores e desprezar a família e a tradição.
    De maneira alguma estou querendo me posicionar contrário ao turismo, conhecimento de novas culturas, mas sim expor minha opinião perante à supérflua ação de, em vez de viver, postar que "vive".
    Continuando, a pessoa acaba por destruir as suas bases, e construir sua lápide. Desconsidera sua família, destrói seus valores. Assim, segue o fluxo de exibir-se acreditando que isto irá "suprir" sua insuficiência de estima, sendo que isto é um vício, que destrói sua vida e escraviza-te.
    A pessoa não se interessa por aprender novas culturas, mas sim exibir-se para concretizar sua insuficiência, planejando isto por meio de conjecturas.
    Então, por fim, devido sua insegurança e falta de estima oriundas da maldita desconstrução de valores feita pela escola de Frankfut, o indivíduo deixa de viver, deixa de amar-se, e passa a ser um escravo do meio externo.

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