quinta-feira, 30 de junho de 2016

Léia Carvalho: Mais água no feijão

Por Léia G. S. Carvalho

Imagem - Panela cheia com feijão carioca cozido. Na imagem a frase: "A nova ostentação do brasileiro!". E marca d'água do Avante: Mão empunhando um martelo envolta por uma corrente.


O feijão é um item de consumo básico do brasileiro. O aumento de seu preço nas prateleiras dos mercados tem causado preocupação. A notícia do aumento bombardeou a população - em alguns locais o preço chega a R$15,00 o kg, sendo que o pacote de 1kg de feijão era encontrado por até R$4,10, até o final de maioA saca de 60kg era vendida a R$262,00, em abril deste ano. No começo de junho a saca já estava valendo entre R$400,00 a R$550,00 em alguns estados. Espera-se que a próxima safra, em 2017, atenue um pouco esse aumento de preço. Mas não trará a solução para o problema. 

As explicações que vêm sendo dadas à população para o aumento do preço são várias. Segundo especialistas, talvez registremos a pior safra da história. 

A inflação tem culpa. Sabe-se que ela é um dos principais fatores pelos aumentos dos preços. No entanto, este aumento de agora não foi causado pela inflação, pois ela já havia afetado anteriormente os preços do feijão e de todos os demais produtos da cesta básica. A inflação em maio subiu 0,78%, já o feijão mulatinho subiu 9,85%, e o carioca, 7,61%. Em 2016 de janeiro até agora, a taxa de inflação já acumula 4,05%, o IPCA subiu 9,32% no mesmo período, segundo o IBGE, já o feijão mulatinho ficou 37,44% mais caro, e o carioca subiu de preço em 33,49%.

O feijão é uma commodity, sendo assim, o preço do feijão é definido de acordo com a quantidade de produtos no mercado. Ou seja, quanto menor a oferta, maior o preço, ou vice-versa. O aumento assustador de agora, foi causada pela diminuição da oferta de feijão devido a baixa quantidade colhida: geralmente se colhe 50 sacas de feijão por hectare. Na colheita mais recente foram apenas 12 sacas de feijão por hectare.

Outro fator apontado como "culpado" foi a doação de 625 toneladas de feijão para Cuba. Porém, isto, não é nem de longe razão para o aumento do preço do feijão. 625 toneladas de feijão não é quase nada da quantidade de toneladas do nosso estoque e muito menos de nossa produção. Segundo o Conab a doação faz parte do Programa de Doação Humanitária de alimentos do Brasil à países da América Central. Na época em que a doação foi feita, o estoque de feijão no Brasil era de 303 mil toneladas, ou seja, a doação foi de apenas 0,19% do estoque. Agora em 2016, o estoque diminuiu para 103,2 mil toneladas. 625 toneladas a mais nesse estoque não ajudaria a diminuir o preço do feijão. Logo, não foi a doação a culpada pelo aumento.

Nosso país produz em média 3,3 a 3,5 milhões de toneladas de feijão anualmente. E desta produção, consumimos entre 3 a 3,3 milhões de toneladas (a média considerada pelo Ibraf é de 3,5 milhões de toneladas consumidas). Ou seja, consumimos quase todo o feijão que produzimos. Em anos de safras normais, o Brasil abastece toda sua demanda interna de feijão. E isso faz com que não possamos exportar de forma significativa esta commodity. No entanto, o fato de não podermos exportar maiores quantidades de feijão não deveria nos preocupar, pois o mais importante deveria ser abastecer o mercado interno.

Fenômenos climáticos, de fato, contribuíram para a safra ruim do feijão, bem como custos de produção com energia, insumos e mão de obra (que encareceram). El Niño, seca em alguns estados, chuva em excesso e frio em outros estados - principais produtores de feijão do país (Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso e Bahia) - tiveram culpa. Mas lembremos que questões climáticas desse tipo ocorrem com certa frequência, e não houveram aumentos de preços tão absurdos em safras anteriores com condições climáticas ruins.

Entretanto, problemas com a produção de feijão não são tão novos assim. Segundo a CNA, nas safras de 2012 e 2013 já havíamos registrado uma produtividade menor que a habitual, dando os primeiros sinais de preocupação.



O governo anunciou, no dia 22/06, que vai liberar a importação de feijão de alguns países. Isto é, a "solução" apresentada pelo atual Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi (o rei da soja), é zerar a taxa de importação para facilitar a entrada do feijão estrangeiro. A medida valerá para o feijão vindo da Argentina, do Paraguai e da Bolívia. Também estão estudando a possibilidade de importar feijão do México e da China (esses países não vendem feijão carioca, só feijão preto). Mas esta atitude é insuficiente para resolver o problema.

Algo que não se falou foi que o agronegócio no Brasil não se preocupa em produzir para o Brasil, e sim em lucrar. Se observarmos a mudança na utilização das terras no país, veremos que nos últimos 25 anos houve uma diminuição profunda na área destinada à plantação dos alimentos básicos de nosso cardápio. A área plantada com feijão reduziu 36% desde 1990, enquanto isso, a população aumentou 41%. Mesmo a produtividade tendo aumentado nos anos anteriores a 2012, a diminuição da área deixou as colheitas mais suscetíveis e vulneráveis a variações como esta de agora.

Aqueles que compõem o agronegócio: a bancada ruralista, os grandes latifundiários brasileiros e as multinacionais de sementes transgênicas e de agrotóxicos como Monsanto, Bayer e Basf, não estão preocupados com a alimentação do povo brasileiro. Eles veem o campo apenas como uma forma de aumentar seus lucros e riquezas.

Enquanto a área plantada de feijão caiu, a área de soja aumentou 161% e a área plantada do milho aumentou 31%. Além disso a área plantada de cana também aumentou 142%. Somando o valor destes três produtos são 72% da área de agricultura,  isto é, 57 milhões de hectares, do Brasil apenas para 3 tipos de monocultura - que funcionam somente a base de muito fertilizante químico, agrotóxicos (veneno), e sementes transgênicas.

Com o preço do dólar americano em alta vale mais a pena vender para o mercado externo do que atender a demanda interna e abastecer o nosso mercado. Ou seja, produzir mais soja e milho para a Europa e China é mais importante do que produzir em quantidade suficiente aquilo que consumimos aqui.

Apesar de produzirmos boa quantidade de arroz e feijão, a área plantada destes diminuiu para dar mais espaço à plantação de soja  e milho, e por isso precisamos importar arroz, feijão e até mesmo milho (para as festas de juninas) para atender a demanda.  E as importações pressionam os preços, o que faz com que as produções possam enfraquecer ainda mais. Além disso o valor mínimo do feijão não foi reajustado no ano passado, enquanto os valores da soja e do milho ficaram mais competitivos. 

Como alternativa para a população temos as outras espécies de feijão (preto e branco) que ainda estão com preços mais em conta. O fato de o feijão preto estar mais em conta do que o carioca é por causa da importação já existente. O feijão fradinho não será exportado (apresenta boa produtividade e qualidade).

O que deve de fato ser feito é dar mais incentivos à agroecologia (produzindo alimentos saudáveis), investimento e controle na produção para abastecer o mercado interno (porque a demanda existe) primeiro e depois o mercado externo e diminuir a concentração latifundiária.

A realidade é que o agronegócio prefere nos deixar dependentes do mercado externo e vulneráveis às mudanças climáticas e não se importa em abastecer nosso mercado interno, o que ameaça a soberania alimentar de nosso país. Este é o Golpe do Agronegócio!


Referências:
EBC
Brasil de Fato
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