segunda-feira, 13 de junho de 2016

Alexander Dugin: O Paradigma do Fim (parte 2)

Por Alexander Dugin
Tradução: Jean Augusto G. S. Carvalho






O Paradigma geopolítico da História


A redução geopolítica é muito menos conhecida do que a do modelo econômico, mas é convincente e clara, mais do que tudo, muito comparável ao paradigma do Trabalho-Capital. Há também um par de noções teológicas na geopolítica, que representam o sujeito da história, mas esse tempo não se apoia em seu aspecto econômico, mas sim em seu aspecto político e geográfico. 


A questão repousa sobre os dois sujeitos geopolíticos - o Mar (Talassocracia) e a Terra (Telurocracia). O outro par é sinônimo desses conceitos, o Ocidente-Oriente, onde o Ocidente e o Oriente são considerados não apenas como noções geográficas, mas como blocos de civilizações. O Ocidente é, de acordo com a doutrina geopolítica, equivalente ao Mar. O Oriente equivale à Terra.


No momento em que nós nos interessamos pelo resumo histórico, nós o convertemos em termos geopolíticos, o ponto escatológico, o qual é tão claramente visto no nível da economia. Há o problema que é formulado do seguinte modo: o Trabalho lutou contra o Capital e perdeu. Nós vivemos no período da derrota, que é considerada pela escola econômica liberal como o último período, exposto no tema de Fukuyama, o "Fim da História", ou do trabalho "Formação do Macaco", de Jaque Attali. Pode alguém enxergar na geopolítica algum tipo de analogia para tal situação? É algo admirável, mas tal analogia não apenas existe, como também é tão evidente e óbvia que nos leva para perto de uma conclusão muito interessante. 

A dialética da geopolítica consiste no esforço dinâmico do Mar e da Terra. O Mar, a civilização marítima, é a encarnação da mobilidade permanente, da agitação, da falta de centros fixos. As únicas fronteiras reais do Mar são as massas continentais ao longo de suas bordas, algo oposto ao Mar em si mesmo. A Terra, a civilização terrestre, ao contrário, é a encarnação da constância, da estabilidade, do conservadorismo. As fronteiras da Terra podem ser estritas  definidas, naturais, em vários lugares da Terra em si mesma. E somente a civilização da Terra oferece bons solos para sistemas fixos de valores sagrados, jurídicos e éticos.  

A Terra (o Oriente) é a hierarquia. O Mar (Ocidente) é o caos. A Terra (o Oriente) é ordem. O Mar (o Ocidente) é a dissolução. Terra é o princípio masculino. Mar é o princípio feminino. A Terra é a tradição. O Mar é a contemporaneidade. E assim por diante. Esses dois elementos da história geopolítica se dobraram ante a mais completa e distinta expressão, começando pelo complicado sistema multipolar de contradições (muito frequentemente conciliáveis e parciais) até o esquema global de blocos.

O Mar e a Terra atingiram a escala planetária no século XXI, especialmente em sua segunda metade, quando os contornos do modelo bipolar finalmente se formaram. O Mar encontrou sua expressão mais elevada na forma dos Estados Unidos e da OTAN, e a Terra se encarnou nos países do conglomerado socialista - o Pacto de Varsóvia (PV). A divisão tecnológica do planeta em dois campos, cada um com a mais pura representação civilizacional geopolítica, já ocorreu. A civilização do Mar mudou através da história dos EUA e do atlantismo. 

Apesar disso, esse caminho de mudanças não foi totalmente linear. A civilização da Terra foi encarnada em sua mais completa forma na União Soviética. O Atlântico e a Eurásia foram estrategicamente integrados, e as tendências geopolíticas ocultas, brilhantemente reconhecidas por Mackinder na base dos espaços históricos lógicos da terra, atingiram uma grande escala, a evidência superior da "Guerra Fria". Mas, com a culminação da história geopolítica no século XX, a mudança geopolítica aconteceu, o que, por algum tempo, acabou confundindo a lógica clara da ciência geopolítica.

O aparecimento dos blocos estratégicos separados nos anos 1920 e 1930 na Europa - os países do Eixo - se tornaram o maior dos obstáculos, que impediram a transformação orgânica da civilização da Terra como um sujeito geopolítico de valor, erigindo as fundações da futura derrota. Os países do Eixo tentaram conquistar sua independência geopolítica e sua autarquia, tendo rejeitado todos os fatos e recomendações das escolas científicas. O fascismo europeu foi, de um ponto de vista geopolítico, o obstáculo à expansão eurasiana natural dos sovietes rumo ao Ocidente, mas também rejeitaram o estabelecimento e a realização obediente da pura estratégia atlantista.

Tal ambiguidade prejudicou seriamente a cristalização do quadro mundial bipolar, calibrou as guerras e conflitos intercontinentais, o que desfavoreceu fortemente a tendência de a Terra Eurasiana continental desenvolvesse a si mesma e criasse sua própria estratégia geopolítica consistente. 

O fascismo europeu trouxe a irresponsabilidade e a falência no sentido geopolítico de ilusão dos interesses comuns entre Mar (Ocidente) e Terra (Oriente), diante de um terceiro sujeito, que, do ponto de vista da doutrina geopolítica, não poderia ser uma ficção, já que não possuía escala geopolítica, geográfica, histórica e civilizacional suficiente. A Europa (seja ela fascista ou não) só possui duas oportunidades geopolíticas - seja como entreposto aliado ao Oriente que se desdobra para o ocidente (como foi, por exemplo, o Império Ortodoxo em relação à Roma, antes do cisma dentro do Cristianismo), seja como uma zona costeira estratégia sob controle do Mar, oposta às massas continentais da Eurásia.

A estratégia dos países do Eixo não foi nenhuma dessas duas opções. A derrota da Alemanha era evidente desde o momento em que a guerra em dois fronts havia começado. Tal empreendimento sombrio foi não apenas suicida para a Alemanha (e, em larga escala, para a Europa), mas também cavou a base geopolítica indeterminada e inacabada para todo o continente eurasiano, o que, por fim, levou toda a civilização da Terra à destruição e à falência. 

Essa última sugestão é baseada na brilhante análise acerca da quebra da URSS e do Tratado de Varsóvia, feita por Jean Thiriart vinte anos antes de que isso se tornasse realidade. Thiriart mostrou que, dum ponto de vista geopolítico, o espaço estratégico, controlado por países da esfera socialista, não havia sido concluído e não poderia se manter diante de um confronto com o Ocidente. Conforme ele pensava, a principal razão era o problema da Europa dividida, que deu todas as vantagens aos poderes além-mar em detrimento da URSS. Thiriart pensou que, para resolver esse problema difícil, que havia deixado a Eurásia abandonada às políticas suicidas de Hitler, era necessário ou conquistar a Europa Ocidental e incluir seus países no campo socialista, ou, ao contrário, insistir na retirada de bases estratégicas e de tropas da URSS com a paralela dissolução da OTAN e a remoção de todas as bases estratégicas norte-americanas.

Isso permitiria a criação de um espaço neutro na Europa, que poderia assegurar a possibilidade de Moscou se concentrar plenamente em direção ao sul e lutar decisivamente contra os EUA no Afeganistão, no Oriente Médio. Mas a civilização do Mar estudada pelas teorias geopolíticas de Mackinder e de Mahan, do modo mais atento possível, não apenas comparando sua estratégia com eles, mas também compreendendo toda a seriedade dessa ameaça, indo da integração progressiva do continente eurasiático sob a proteção dos sovietes à tomada de todas as medidas possíveis para não permitir essa integração.

E, mais uma vez, assim como no caso da luta entre Trabalho e Capital, não apenas as forças históricas objetivas atuaram, mas também pode-se observar as  intervenções ativas e diretas de um fator subjetivo - agentes de influência do Ocidente fizeram seu melhor para não permitir a criação do "Bloco Continental", o pacto entre Berlim, Tóquio e Moscou, o projeto que havia sido aprimorado pelo proeminente geopolítico alemão Karl Haushofer.

Juntamente com o desenvolvimento das pesquisas, o Mar obteve o aparato conceitual efetivo lógico e intelectual, para agir através da história não apenas de modo inerte, mas consciente. O fim do bloco soviético, a quebra e a desintegração da URSS significou, em termos geopolíticos, a vitória do Mar sobre a Terra, a vitória da Talassocracia sobre a Telurocracia, do Ocidente sobre o Oriente. E, novamente, assim como no caso de pareamento do Trabalho e do Capital, nós vemos na história do século XX a distinção teológica de dois sujeitos geopolíticos muito importantes, não manifestos anteriormente, mas que, nesse tempo, se incorporam em Mar e Terra, onde nós vemos o duelo planetário e a vitória final do Mar, do Ocidente.

Se compararmos o caso da redução econômica com o modelo de explicação histórico e geopolítico, o paralelismo óbvio imediatamente tomará nossa atenção, paralelismo este que detectou todos os estágios de ambos aspectos históricos. Parece que uma só e a mesma trajetória é repetida em níveis diferentes, em paralelos diferentes, não associados diretamente uns com os outros. Contudo, a analogia seguinte é autossugestiva:

Destino do Trabalho = Destino da Terra, do Oriente
Destino do Capital = Destino do Mar, do Ocidente   

O Trabalho é fixo, o Capital é líquido. No Oriente, Trabalho é a criação de valores, aquilo que se eleva ("o Oriente" literalmente significa, em russo antigo, "nascimento"), o Capital, no Ocidente, é exploração, alienação e Queda das coisas ("Ocidente" literalmente significa, em russo, "queda"). A civilização do Mar é a civilização do liberalismo. A civilização da Terra é a civilização do socialismo. A Eurásia, a Terra, o Oriente, o socialismo, são uma sequencia de sinônimos. Atlantismo, Mar, Ocidente, Capital, liberalismo e mercado são uma sequência de sinônimos, de igual modo. 

A comparação da economia política e de dois polos geopolíticos nos mostra um quadro harmonioso conceitual incomum. O "Fim da História" em termos geopolíticos significa o "fim da Terra", o "fim do Oriente". Esse quadro não nos faz lembrar do simbolismo bíblico da inundação, do Dilúvio?



Texto original em: Arctogaia
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