quarta-feira, 15 de junho de 2016

Alexander Dugin: O Paradigma do Fim (parte 3)

Alexander Dugin
Tradução: Jean Augusto G. S. Carvalho




O Confronto das Religiões

O nível de redução histórica em larga escala conduz à simples fórmula encontrada na história das religiões e dos problemas inter-confessionais. Pela trajetória geral do processo histórico, que nós detectamos desde seus primórdios no paradigma econômico, essa redução se tornou aplicável a todos os outros níveis analisados, que nós, confiantemente, procuramos para a analogia também dentro da esfera religiosa.

Um dos polos - o do Capital, o Ocidente, o Mar, os anglo-saxões - é traçado, como nós  vimos, dentro dos escopos do Império Romano do Ocidente, fonte e ponto de partida de todas essas tendências, que gradativamente se cristalizaram na forma desse polo. O Império Romano do Ocidente, num sentido religioso, é associado ao Vaticano, a versão católica do Cristianismo. Consequentemente, é um tanto quanto lógico apelar para o catolicismo como a matriz religiosa desse polo. 

O polo oposto, o "Eurasiano", é diretamente associado ao "Bizantismo" e ao Cristianismo  Ortodoxo, já que os russos são tanto uma nação de cristãos ortodoxos quando de autores da primeira revolução socialista, eles também são aqueles que têm por morada o coração continental, que, de acordo com Mackinder, é o eixo categórico de todas as forças da Terra. Do mesmo modo, o Ocidente liberal é um resultado secularizado, generalizado, modernizado e universalizado do catolicismo, e o modelo soviético representa o mais avançado -  e também secularizado, generalizado e modernizado - desenvolvimento do Império Cristão Ortodoxo. Acerca do caráter secundário de todas as religiões do mundo, sobre a questão do drama escatológico, podemos aplicar o mesmo tipo de abordagem que usamos nas conversas sobre a escatologia étnica.

As tradições do Oriente não são focadas na escatologia, e não colocam os temas como "o fim dos tempos" ou a "última batalha" como o centro de seus temas. Não é que eles não saibam nada sobre essa realidade, mas eles não conferem a esses temas uma posição central, o que seria comparável à escatologia clara e primária do Cristianismo (ou do Judaísmo). Essa observação também explica a falta de uma forma escatológica de nacionalismo no Oriente (o que foi mencionado acima), já que as ideologias étnicas e religiosas são conectadas muito de perto umas com as outras, e acabam por definir umas às outras.

Esse esquema é muito evidente e se encaixa bem com os modelos prévios. O único ponto que precisa de esclarecimentos adicionais é a questão do Protestantismo. A Reforma foi o momento mais significativo da história do Ocidente. Não foi apenas um fenômeno multinível, mas também consistiu de duas tendências opostas, que, em última análise, deram origem às formas polares. Nós não podemos arrancar os cabelos aqui por conta de teologia e referir ao leitor toda nossa monografia detalhada acerca disso, intitulada "Metafísica da Anunciação". Vamos apenas desenhar um esquema.

O Catolicismo é um fragmento do Cristianismo Ortodoxo, já que, antes da dissidência, o Ocidente era Cristão Ortodoxo assim como o Oriente; em adição a esse fragmento à a distorção e a reivindicação de prioridade e completude. O Catolicismo é anti-Bizantismo e o Bizantismo é um tipo de Cristianismo completo e autêntico, contendo não apenas a pureza dogmática, mas também a fidelidade à doutrina social, política e de Estado do Cristianismo. Num esboço muito genérico, podemos dizer que a concepção do Cristianismo Ortodoxo acerca da sinfonia de poderes (vulgarmente chamada de "papismo de César") é associada à compreensão da significância escatológica não apenas do Império Cristão. Daí a função teológica e soteriológica do Imperador, baseada na segunda mensagem do apóstolo Paulo aos tessalônios, na qual a questão sobre aquele "que retém", o "Katechon" é abordada.

Aquele "que retém" é identificado pelos exegetas ortodoxos como a figura do Imperador Cristão Ortodoxo e o próprio Império Cristão Ortodoxo. A defecção da Igreja do Ocidente é baseada na negação da sinfonia de poderes, na rejeição do social e do político, mas, ao mesmo tempo, à rejeição da doutrina escatológica do Cristianismo Ortodoxo. É algo escatológico pois o Cristianismo Ortodoxo conecta a presença "daquele que retém", aquele que dificulta o "advento do filho da perdição" (ou seja, do Anticristo), com a existência política de um estado ortodoxo cristão independente, no qual o poder temporal (o Basileu) e o poder espiritual (o patriarca) são definidos numa correlação estrita, determinados pelos princípios da Sinfonia. Consequentemente, o desvio do paradigma sinfônico bizantino, a "apostasia", a defecção, o Catolicismo desde o início - logo após a defecção da Igreja unificada - tomou outro modelo em lugar do sinfônico (césaro-papista), onde a autoridade do Papa de Roma se espalha para outras esferas, as quais eram estritamente referidas às competências do Basileu dentro do esquema sinfônico.

O Catolicismo quebrou a harmonia providencial entre os domínios temporal e espiritual e, de acordo com a doutrina cristã, caiu em heresia. A crise espiritual do catolicismo se tornou especialmente evidente no século XVI, e a Reforma foi o ápice desse processo. Contudo, nos devemos notar que, no decorrer da Idade Média na Europa, já existiam essas tendências, que tiveram mais ou menos propensão para a restauração do modelo adequado no Ocidente. O partido dos guibelinos na Alemanha, formado pelos príncipes da casa Hohenstaufen foi um exemplo brilhante de "Cristianismo Ortodoxo inconsciente", uma resistência quase bizantina à heresia latina.

E, já naquele tempo, no centro do movimento anti-papista, estavam os representantes das casas alemãs. Durante muitos séculos, forças similares - como os príncipes alemães, novamente - apoiaram Lutero em seu protesto anti-romano. Isso é interessante, já que a crítica de Lutero contra Roma foi muito similar àquela feita tradicionalmente pelos cristãos ortodoxos.

Cultos nas linguagens nacionais (especialmente o aspecto Cristão Ortodoxo, associado com o significado místico da compreensão da glossolalia, que foi incorporada à variedade linguistica local, às igrejas nacionais), a negação da determinação da Cúria Romana, a defesa do significado do "Katechon", a negação do celibato dos "padres" - estas teses centrais todas tipicamente luteranas poderiam muito bem ser chamadas de "teses cristãs ortodoxas". Outra questão é a reverência aos ícones e a negação dos rituais divinos, a liberdade de interpretações individuais sobre as Sagradas Escrituras, a rejeição do caráter sagrado do "Velho Testamento". Esses aspectos não podem ser considerados como cristãos ortodoxos, já que são os aspectos negativos do anti-papismo, que foi mais baseado na intuição espiritual, no protesto, do que nas grandes verdades da Tradição do puro Cristianismo Ortodoxo. 

A rejeição de Roma em nome da Reforma do puro Cristianismo foi inteiramente justificada. Mas o que foi proposto em troca disso? Exatamente aqui encontramos o ponto mais importante. Ao invés de apelar para a completa e autêntica doutrina ortodoxa, os protestantes tomaram o caminho duvidoso das intuições e das interpretações individuais. Em suas manifestações superiores, essa foi a plêiade dos brilhantes visionários místicos. Mas, menos nesse caso, não houve qualquer aproximação com as eminências da Metafísica Cristã Ortodoxa. Em suas piores manifestações estava o Calvinismo e a variedade de sectos protestantes extremos, que não mantiveram nada do Cristianismo, exceto o nome.

Existe o dualismo entre Lutero e Calvino, entre o Protestantismo prussiano (e francês, o huguenote) e o Protestantismo suíço, o "Velho Testamento", o farisaísmo, a nomocracia do catolicismo, o componente judaico-cristão do papismo. Essa é a razão de a Bíblia luterana conter apenas o Novo Testamento e os Salmos, rejeitando os livros do Velho Testamento, que, para eles, são incompatíveis com a ética cristã e a orientação da tradição cristã em geral. Para o Calvinismo, ao contrário, há o historicismo do Velho Testamento (método histórico) com a negação virtual do caráter divino de Cristo, que se transforma numa espécie de "herói cultural ou moral". 

Então, o Calvinismo desenvolveu as tendências mais não-ortodoxas, inerentes até mesmo ao catolicismo primitivo, tendências que Lutero, em seu criticismo, ampliou contra o catolicismo. Assim, existiram duas tendências opostas na Reforma. Uma, relativamente anticatólica do lado do Cristianismo Ortodoxo (o Luteranismo). Outra, anticatólica do lado anti-ortodoxo. O Catolicismo - especialmente difundido e expedido através dos países romanos - passou a existir entre duas versões do Protestantismo, cujos maiores portadores eram as nações germânicas.             

A maioria dos germano-prussianos orientais que, no início, eram as tribos eslavas germanizadas e que adotaram o Luteranismo, também conduziram o Calvinismo e as tendências judaico-cristãs ao seu estado absoluto. Logo, uma versão do Protestantismo (o Calvinismo, o fundamentalismo protestante) se torna a vanguarda do Ocidente - o Mar, o polo capitalista - e outra, ao contrário, aparece mais próxima do Cristianismo Ortodoxo (mas ainda longe de ser uma versão cristã ortodoxa) e o ramo do Cristianismo do Ocidente. A conexão entre o Protestantismo e o capitalismo foi agradável e, em detalhe, exposta por Max Weber em seu livro "A Ética Protestante", onde você pode encontrar explicações acerca das diferenças entre o Calvinismo e o Luteranismo. 

O exemplo é significante - o Protestantismo, na Inglaterra, leva às reformas capitalistas. Na Prússia, o Protestantismo apenas fortalece o sistema feudal. Consequentemente, Weber conclui que a questão se debruça sobre tendências diferentes. Numa análise análoga, o discípulo de Weber, Zombart, vai ainda mais além: ele traça a fonte do Capitalismo não apenas no Protestantismo, mas também na própria doutrina escolástica básica. Oswald Spengler apresenta observações interessantes acerca desse tema em seu trabalho "O Socialismo e os Prussianos".

O paradigma da oposição religiosa é definido como o Cristianismo Ortodoxo contra o Catolicismo e, mais tarde, contra o fundamentalismo Protestante extremo. Nessa antítese, a grande importância é anexada à proporção entre aquilo que pertence a este mundo e aquilo que pertence ao outro mundo, de acordo com a ética religiosa. A ética ideal do Cristianismo Ortodoxo consiste em insistir na reversão da proporção entre o mundo humano e o divino. O terreno para tal aproximação é o próprio Evangelho ("Eu não vim para os justos, mas sim para os pecadores", "é mais fácil para um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino dos Céus", e assim por diante), nas lendas do Cristianismo Ortodoxo e também na ética social da Igreja Oriental. 

O bem-estar mundo é considerado como algo efêmero, insignificante, e a melhoria da vida nesse mundo é considerada como algo secundário e, em essência, sem importância diante da principal tarefa do cristão - a tarefa de obter o Espírito Santo, a salvação, a transformação. A pobreza e a modéstia, em tal visão, parecem não como uma espécie de lacuna, mas, ao contrário, um pano de fundo útil para a procura espiritual, para o ascetismo, o monasticismo, a distração para a matéria desse mundo, considerada como uma missão superior. 

O sofrimento nesse mundo se torna não uma simples punição, mas uma repetição do glorioso e abençoado caminho de Cristo. Algo do outro mundo se manifesta através disso nesse nossomundo, fazendo deste último um mundo relativo, insignificante, transparente, transitório. Daí segue a tradicional (apesar de relativa também, é claro) negação da organização da vida, uma característica do Cristianismo Oriental. Alguém pode não concordar que tal aproximação do Cristianismo Ortodoxo traga sempre resultados positivos. Em sua manifestação superior, sua santidade, a não avareza para com o dinheiro, submete a consciência espiritual à ação, à contemplação. Em sua manifestação interior está a paródia, a preguiça e o descuido.

A Igreja do Ocidente, deste o início, foi notável por seu pesado interesse em assuntos mundanos, intrigas políticas, acumulação e distribuição de bem-estar mundano (ou secular). O fundamentalismo Protestante exagerou ainda mais esse aspecto, voltando toda sua atenção exclusivamente para esse mundo. A ética protestante frima que a pobreza em si mesma é um vício, e que a riqueza é uma virtude. Os outros elementos são completamente mudados para esse mundo, onde tanto a recompensa quanto a punição são transferidas do outro mundo para esse.

Isso foi condutivo para um surto sem testemunhas na esfera da organização da vida, mas diminuiu ou negou todo o aspecto contemplativo, meramente espiritual da religião. Nesses extremos não há somente a ausência do espírito, mas também a ausência de qualquer coisa da doutrina cristã. Daí seguem as tentativas de censurar o "Novo Testamento", o que produz contradições evidentes em relação às teses extremas do espírito Protestante. Esses dois tipos tão opostos de ética, tendo sido secularizados, por um lado deram origem ao socialismo, e, por outro, ao capitalismo liberal.

Em tal quadro, onde dois sujeitos históricos principais são definidos - a Igreja do Oriente (Cristianismo Ortodoxo) e a Igreja do Ocidente, ou, para ser mais preciso, o mosaico de confissões ocidentais, onde, na vanguarda, há o "fundamentalismo Protestante", torna-se claro que já passamos por através dele. A dialética de sua oposição desvenda a trajetória secreta do conteúdo histórico religioso. Agora, examinemos algumas outras confissões religiosas, nas quais está manifesto um fator escatológico suficientemente grande para alegar um papel de liderança no drama final da história. Apenas o Islã e o Judaísmo reivindicam esse papel.

O Judaísmo é o paradigma da religião escatologicamente orientada, e o Cristianismo em si mesmo é rigorosamente associado à escatologia judaica. A religião judaica desenha o que há de mais completo no quadro do fim dos tempos e da participação das nações e igrejas nele. Aqui está o esboço mais genérico acerca do senso de escatologia judaica. Os judeus não são apenas uma nação, mas, simultaneamente, um acesso religioso e comunitário, acesso esse que é negado aos representantes de outras nações. Tal identificação do elemento étnico com o religioso produz as características únicas apresentadas pelo Judaísmo. Nesse sentido, tudo o que foi dito na parte prévia acerca dos judeus como nação é plenamente aplicável ao Judaísmo como religião.

O Judaísmo é um sujeito da história religiosa, seu pivô. Por um longo tempo, a religião judaica esteve sob ataque das confissões dos "goyim", mas, no fim dos tempos, com o advento do Messias, que reunirá todos os judeus na t erra prometida e fará a restauração do Templo, o Judaísmo florescerá e se colocará como a liderança da Terra. O sionismo moderno tornou-se a expressão secular dessa escatologia religiosa. O fato de os judeus não terem se dissolvido como nação, e de que isso também não ocorreu com sua religião em meio ao mar de outras nações por longos séculos de dispersão, o fato de terem mantido sua fé em seu futuro triunfo, de que, tendo passado por tantos testes, tornaram-se hábeis a preencher o sonho longamente aguardado e recriar seu próprio Estado, causa uma grande impressão em qualquer observador imparcial. 

Tal preenchimento literal das expectativas religiosas dos judeus que obviamente testemunha essa tradição é, realmente, intimamente associado com o mistério da história do mundo, e nem mesmo os céticos, negativistas ou anti-semitas podem descartar o assunto com um movimento de suas mãos. Além disso, durante os últimos séculos, o status do Judaísmo como religião se elevou da condição de heresia periférica não franqueada aos olhos das nações cristãs para uma confissão que recebeu voto e permissão para discutir e decidir as mais importantes questões mundiais. Contudo, devemos perceber que a unidade confessional dos israelenses não é tão sólida como pode parecer.

Existem - num esboço mais generalista - duas versões do Judaísmo: o espiritualista (místico) e o materialista (aquele que tem na organização da vida seu maior objetivo). As várias tendências da mística tradicional do Judaísmo - a Cabala, o Hassidismo e algumas seitas heréticas do tipo "Sabataísmo" - correspondem à primeira versão. A segunda versão se correlaciona com o Talmudismo, a interpretação literal e nomocrática , determinante para as questões cotidianas, a interpretação dos princípios da Torah. Nesse dualismo vemos o dualismo análogo correspondendo à tradição cristã em si mesma - a organização da vida no Cristianismo ocidental (do Catolicismo ao fundamentalismo Protestante) e àquela contemplativa e mística do Oriente (Cristianismo Ortodoxo).

Esse tema é um detalhe observado nos trabalhos do proeminente pensador judeu moderno, Gershom Sholem. O setor espiritual do Judaísmo - e isso não deveria mais surpreender ninguém - em primeiro lugar, é característica dos judeus da Europa oriental, em adição ao Hassidismo em si mesmo e do Baal-shem Tov, emergido e desenvolvido no território do império russo. E foi exatamente desses círculos extremamente espiritualistas que vieram a maioria dos revolucionários marxistas, bolcheviques e socialistas-revolucionários. A ética ascética do Cristianismo ortodoxo eurasiano e o ideal messiânico de irmandade correspondem precisamente à variação espiritual e mística da tradição judaica. Em sua forma secular, ela deu origem ao "Sionismo de Esquerda".

O ramo oposto, a ortodoxia Talmúdica, continua a política do racionalismo de Maimônides, do mesmo modo como os antigos saduceus gravitaram para a diminuição do fator dou outro mundo para a negação implícita da "ressurreição dos mortos", para a ética imanente da organização da vida. No caminho escatológico, o Talmudismo considerou o triunfo futuro dos judeus como uma vitória exclusivamente imanente, social e política, uma realização do enorme poder material. 

Ao invés da transformação do mundo no fim dos tempos, pregam a "restauração" (tikkun) que foi antecipada pelos místicos judeus, talmudistas que identificaram a época messiânica como um tipo de reorganização dos elementos fornecidos, que iriam transferir os níveis de poder e controle às possessões dos representantes do Judaísmo e ao Estado de Israel restaurado. Tal imanentismo geral como tendência e ética, focado em solucionar as questões diárias desse mundo, questões práticas, une tanto os rabinos ortodoxos quanto os "Sionistas de Direita". Em outras palavra,s do mesmo modo como no caso da escatologia étnica, o campo religioso do Judaísmo é expandido entre dois polos - o oriental (expressado no Cristianismo ortodoxo) e o ocidental (expresso no Catolicismo e no extremismo Judaico/Protestante). 

A tradição islâmica, conectada com a herança das religiões semíticas, no entanto, é incomparavelmente menor em termos escatológicos do que o Cristianismo ou o Judaísmo. Apesar de também existirem doutrinas escatológicas desenvolvidas no Islã, isso se torna algo evidentemente secundário diante da lógica massiva da assertiva monoteísta que não depende de razões cíclicas. As versões mais escatológicas do Islã não se espalham dentre os puros árabes do Norte da África, mas sim no Irã, na Síria, no Líbano e especialmente entre os xiitas. O ramo xiita do Islã é o mais próximo da ética cristã e da orientação escatológica. Há vários paralelos aqui que podem ser comparados à marca espiritual do Judaísmo.

Os sectos xiitas extremos - os Ismaelitas, os Alavitas e assim por diante - baseiam suas tradições no tema escatológico, esperando pelo advento do "Ímã oculto" ou do "Kaiim" (o "ressurreto"), que restaurará a tradição genuína, deteriorada por séculos de compromissos e desvios, e reconduzirá a humanidade para o reinado da justiça e da irmandade. Essa marca escatológica do Islã - tanto no contexto xiita quanto além dele - e esses sectos podem ser considerados como uma variedade do "eurasianismo" numa interpretação mais geral. Isso corresponde exatamente à perspectiva escatológica do Cristianismo ortodoxo, ainda que opere, é claro, com outra terminologia confessional e dogmática. A outra versão não-escatológica do Islã, brilhantemente expressa no Wahhabismo Saudita, a despeito dos poderosos mecanismos da mobilização fanática, é bastante neutro no sentido da conceitualização do papel do Islã no fim dos tempos ou considera o problema sob uma perspectiva técnica e material.

A população islâmica cresce firmemente, e o fator de significância islâmica está crescendo por um caminho natural. Tanto o pragmatismo Wahhabita quanto as formas não-escatológicas do fundamentalismo islâmico podem revelar seus aspectos, que são tipologicamente similares ao fundamentalismo da organização de vida dos judeus ortodoxos e dos protestantes. 

Na atualidade, alguém dificilmente poderia falar seriamente acerca do "fator islâmico" como algo unificado, suficientemente grande para supor sua própria versão independente e religiosa de "fim dos tempos". Nós só podemos notar que o anti-Judaísmo ou, falando de modo exato, o anti-Sionismo, é um fator comum para o mundo islâmico. E, nesse sentido, expor o problema étnico e religioso em detrimento da acentuação da principal oposição entre o Cristianismo ortodoxo e o Cristianismo ocidental, nos faz lembrar da situação pela qual passamos, analisando a significância do racismo alemão.

A gravitação de muitos ideólogos islâmicos para fazer de 'Israel" e dos "judeus" a questão central da história moderna, tendo exagerado a contradição islamo-judaica, novamente nos leva ao impasse e à situação insolúvel, que entrava tanto a clarificação das funções e a identificação de muitos dos sujeitos da história humana, cuja conclusão está inevitavelmente se aproximando.

Nós devemos notar que o Islã, em si mesmo, também começa a ser considerado como um tipo de "espanto" em face do qual as forças "progressivas" ou até mesmo os "países cristãos" devem se unir. Em outras palavras,m o Islã, ou o tão chamado "fundamentalismo islâmico" começa a desempenhar, hoje, a função do fascismo não-existente. Nós vimos o quão dúbio foi o papel do fascismo em todos os níveis da luta real. Seria extremamente perigoso reproduzir a situação análoga, agora em relação ao Islã.



Texto original em: Arctogaia   
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