sexta-feira, 22 de abril de 2016

Rômulo Cézar: Marx como crítico da Esquerda de seu tempo


“Semeei dragões, mas colhi pulgas”
(Karl Marx)



A esquerda hegeliana distorceu Hegel (o filósofo do Idealismo Absoluto), tanto por separar a dialética do Sistema (os jovens hegelianos identificavam a dialética como o aspecto progressista da filosofia de Hegel, e o Sistema seria o aspecto reacionário, conservador), quanto por trocar o conceito de Espírito (Geist), ou a Ideia Infinita, pelo de matéria. O que os hegelianos de esquerda fizeram não foi outra coisa a não ser uma fragmentação, motivada ideologicamente ou por comodismo, da filosofia de Hegel, vez que a apreensão do todo de sua filosofia é trabalho de uma vida de estudo, e não somente do hegelianismo, é preciso conhecer razoavelmente bem os filósofos que embasaram o idealista alemão.

Karl Marx tem destaque entre os estudiosos de Hegel, por ter empreendido uma leitura forte do Sistema e uma revisão crítica [1]. Marx se mantém fiel a Hegel no quesito de priorizar o todo sistêmico: assim como em Hegel, as coisas, entende Marx, têm sentido apenas na totalidade. Afirmava: “Porque é mais fácil estudar o organismo, como um todo, do que suas células” (Marx, O Capital, livro 1). A crítica de Marx e Engels, por sinal, à juventude hegeliana – movimento da esquerda hegeliana –, em A Ideologia Alemã (expõe a filosofia mais desenvolvida de Marx), é principalmente no sentido de que os jovens hegelianos, que estariam presos a ilusões ideológicas, fragmentaram a filosofia de Hegel, tomaram uma parte pelo todo de sua filosofia, assim, desejando concluir a Realidade a partir dessas ideias fragmentárias e parciais. Nesse sentido, Marx, do mesmo modo que Engels, defendeu a filosofia hegeliana, ainda que o revolucionário socialista comunista tenha sido um dos maiores críticos de Hegel. 

A critica marxista aos jovens hegelianos é ainda com relação à atitude crítica deles, uma “crítica roedora de ratos”. Os jovens hegelianos não realizariam a verdadeira crítica, científica, apreciação dialética, mas uma mera negativa, queriam, por exemplo, eliminar algo sem realização deste algo. É por isso que Marx compreendia, e isso desde a sua juventude em que já trabalhava com a ideia da “realização-abolição”, que somente o filósofo realizado poderia suprimir a filosofia (a busca teórica do sentido universal). Realizar a filosofia é superá-la. Não chegar a uma filosofia crítica, como ainda uma crítica da filosofia. Portanto, a “crítica” em Marx é, de fato, uma análise crítica, o que significa, uma abstração racional e depuração dialética dos acontecimentos conhecidos. Não é uma negação pela negação.

Além disso, os jovens hegelianos são criticados por se esforçarem em demolir teoricamente a religião. Por exemplo, Feuerbach, materialista e coletivista ateu, pensava que a religião revela a essência do homem, ainda que de forma alienada. Cabe ao sujeito, portanto, empenhar-se na crítica demolidora da religião, fugindo assim do modo alienante e buscar pensar o homem concreto e real (projeto da “filosofia do futuro” que tem início com a sua crítica do idealismo de Hegel). Feuerbach pretende a dissolução da teologia em antropologia. Já outro jovem hegeliano que se colocou na luta contra a religião foi Bruno Bauer, combatido por Marx em A Ideologia Alemã. Bauer chegou a ter a sua licença de professor cassada pelo Estado prussiano dado o seu ateísmo militante. O seu objetivo era, como ele mesmo diz, “arrebentar” com todas as faculdades de teologia.


É claro que a crítica de Marx à esquerda de seu tempo não se fixa na juventude hegeliana. Marx era crítico impiedoso dos liberais (vistos como de “direita” nos dias de hoje, mas originalmente de “esquerda”), anarquistas vários, e mesmo socialistas [2].

Hoje, Marx e Engels realizariam a crítica dos autodenominados “marxistas”. Marx, em realidade, já havia feito a crítica desse tipo de “seguidor”. Os marxistas, sobretudo os atuais, têm mais da esquerda hegeliana, se bem que esta tinha maior erudição filosófica, do que da “filosofia” socialista e comunista de fato [3]. Marxistas atuais, de porta de universidade pública, não compreendem o ideal revolucionário e a questão dialético-histórica, pensam em aniquilar o passado e fundar o completamente “novo”, quando a superação dialética (suprassunção) também significa a manutenção da coisa anterior superada.

Tomar textos e fragmentos soltos de livros de Marx, como fazem esquerdistas típicos, não vai trazer esclarecimento sobre as questões levantadas por ele; nenhum filósofo é compreendido por partes. Com isso, você obterá uma visão supérflua ou, na melhor das hipóteses, intuições básicas, que têm sua importância, inegável, de sua teoria revolucionária, que para ele é a única verdadeiramente “científica”, já que as ciências de sua época partiam de uma consciência determinada historicamente, no caso, a burguesa. No entanto, Marx & Cia. não rompeu com a mentalidade burguesa e liberal [4]. A filosofia marxista, ou o socialismo científico como Marx gostava de chamar, é burguesa em vários sentidos, entre eles: por dividir burgueses e não-burgueses, dualismo inventado pela denominada classe burguesa após o seu levante por meio das revoluções monumentais, pelo internacionalismo dos povos, negação das identidades locais, por conta do materialismo e ateísmo, pela contrariedade à família tradicional etc. etc. etc.

O marxismo (termo rejeitado por Marx, com toda razão) se edificou com a crítica não somente da classe burguesa e doutrina política e econômica do liberalismo, como ainda de todas as demais teorias vigentes na época; é inegável que o marxismo tem um humor do combatente do mesmo modo que aqueles cristãos que criticam tudo e todos e são acusados, hipocritamente, de chatos (e o são) por esses mesmos sujeitos de “esquerda” que se arrogam críticos (são tão críticos quanto ofendidos, e não se verifica pensar dialético).  Ao contrário do que ocorre em uma filosofia de crítica bem realizada, o marxismo cometeu o erro dos excessos críticos, sem quase nenhuma apreciação do positivo, do valor, em teorias filosóficas distintas.

_________________________

[1] Críticos, como Eric Voegelin, apontam que Marx não compreendeu Hegel, que há erros interpretativos por parte do primeiro em relação ao último.

[2] A título de curiosidade, Karl Marx começou como um crítico do socialismo e do comunismo, que entendia como sendo “abstrações doutrinárias”. Só depois de estudar mais a fundo e participar de movimento social operário, clandestino, na França que a sua concepção de comunismo muda.

[3] Marx não via o comunismo como uma filosofia.

[4] O comunismo é entendido pela Igreja Romana como um liberalismo no fim das contas. Não há oposição fundamental de liberalismo e comunismo, é somente estudar a base principiológica do liberalismo, de como o comunismo é continuação teórica do liberalismo, uma teoria econômico-social erigida em cima de pressupostos básicos da doutrina liberal.

Se formos partir de filósofos como Martin Heidegger, observaremos que a metafísica, a grosso modo e ligeiramente, uma filosofia do Fundamento, de liberalismo e comunismo, e ainda de outras ideologias, é a mesma, a metafísica da subjetividade (que designa a "metafísica" moderna), uma metafísica que tem como "absoluto" o "sujeito".
Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Visitas

Participe do nosso Fórum Online

Siga-nos no Facebook