segunda-feira, 11 de abril de 2016

José Primo de Rivera: As vantagens de ser pistoleiro


_ Dom José...

     Fui agarrado pelo braço. Não tive outra opção além de me deter. E encontrei, frente a mim, fechando-me o passo, aquilo que era uma estranha figura. Tratava-se de um homem mais alto, musculoso, sem pescoço nem gravata, mal aparentado, cuja cara se contraía, debaixo da viseira do gorro, em um sorriso ladino e feroz.

_ O senhor não se lembra de mim, dom José?
_ Sim, sim... Você me parece...
_ Quem eu sou?
     Meu interlocutor não era amável. Não há nada pior do que dizer “quem sou?” a alguém que, no rosto, se nota não nos ter reconhecido. Titubeei. E, então, o facínora que tinha diante de mim deu-se a conhecer, com uma gargalhada sardônica:
_ Sou Emerenciano Bizco, “O Clandestino”. Não te lembras? Você teve como trabalho me defender diante do tribunal, há cinco anos, numa causa por roubo.
_ É verdade! Por certo que minha defesa, segundo pareço me lembrar, valeu de pouco: condenaram-te.
_ Sim; mais do que tudo por ser quatro vezes reincidente. Mas saí pronto da cadeia. Tive tantos indultos...
_ Me alegro.
     Aqui eu poderia ter dado por terminada a conversa. Mas não soube resistir a uma coceira catequista recompensadora.
_ Estou certo, Emerenciano – disse – de que o senhor irá pelo bom caminho. Assim deve ser. Não há nada como viver dentro da moral para levar uma existência feliz e tranquila. A moral e a lei devem presidir nossos atos. Repare em mim – me aventurei a aludir, sem a menor modéstia -: sabe aonde vou? Vou entregar às autoridades a única arma que possuo: um antigo revólver, grande como um trabuco, que foi do meu avô. Veja bem: esse revólver não é, para mim, apenas uma forma de defesa; é, também, uma lembrança de família. Sem dúvida, basta que um Decreto seja ditado, ordenando-me entregá-lo, para que imediatamente eu o entregue.
     Esperava os efeitos edificantes do meu discurso no espírito de Emerenciano. Este, não obstante, limitou-se a me favorecer outra vez com seu sorriso horrível, e me disse:
_ Vá o senhor fazer isso primeiro, dom José.
_ Como?
_ Eu tenho cinco pistolas.
_ Cinco pistolas?
_ Sim. E mais, te direi... Mas – requereu, baixando a voz -, a partir desse momento te exijo segredo profissional.
_ Conte com ele.
_ Tenho cinco pistolas, e já as usei!
_ O que você me disse?
_ Sim, dom José; por sorte ou por desgraça, eu não entrei pelo bom caminho, como você acreditava. Desde que saí da prisão, tomei parte no assalto de dois bancos. Em um deles, tive até que matar o caixa do banco. Má sorte!
_ Isso não o envergonha, Emerenciano?
_ O que o senhor quer? A essa altura, não se poder ter vergonha. O que faz falta é ter pistolas. Se as recolhem, dom José, perdoe-me por dizer isso, o senhor não faz ideia do que acontece. Mas como alguém pode saber que eu tenho cinco pistolas? Aos senhorezinhos, descobririam, pois, como eles mostram suas guias e licenças, a polícia sabe a todo o momento que eles têm armas. Mas eu, como o senhor já percebeu, não tenho licença alguma.
_ Ou seja, Emerenciano: o senhor trata de me convencer que é melhor ter armas sem autorização, do que procurar ajustar-se à lei. O senhor quer, nem mais nem menos, aconselhar que se viva fora da lei.
_ Não, eu não me meto em filosofias – contestou Emerenciano -. Só digo o que acontece.
_ E se eu, por exemplo, quisesse ter armas na minha casa, sem autorização, o que aconteceria comigo caso eu fosse descoberto?
_ Iriam te cansar: poderiam te cobrar uma multa de dez mil pesetas, ou te confinar num povoado e até te meter na cadeia por vários meses.
_ A você também, "Clandestino”.
_ O senhor se engana. Dez mil pesetas de multa, pra mim?
_ Mas, e a cadeia?
_ Ui, a cadeia! Eu devo à Justiça vinte e tantos anos de prisão por aqueles assaltos. Estou declarado em situação de rebeldia por duas Audiências. Se me pegam, então meu cabelo cai. Mas, nesse caso, o que me importa que, por ter as pistolas, me prendam por uns meses mais? De perdidos, ao rio. Para o senhor, seis meses de cadeia seriam um transtorno; para mim, esses meses são um tempinho sem importância, perto dos vinte e tantos anos que devo.
_ Então, o senhor não pensa em entregar as pistolas?
_ Nem em sonho.
_ Pois eu sim vou entregar meu revólver.
_ Faz bem. Mas... Ouça o senhor – disse-me Emerenciano, prontamente, novamente olhando para mim -: tens a guia desse revólver?
_ Não... Creio que não; está em casa há tantos anos! Desde antes de existirem as guias.
_ Então – aconselhou o “Clandestino” com gravidade -, não entregue. O senhor vai se expor ao desgosto.
_ Por quê?
_ Porque, ao ter esse revólver sem guia, o senhor já está cometendo o delito de posse ilícita de armas. Pode ser que até o processem.
_ É verdade! O senhor conhece as leis melhor do que eu.
_ Um pouco de prática, nada mais – aludiu meu interlocutor, com modéstia.
_ O que eu posso fazer, então? – perguntei, chateado – Se entrego o revólver, descobrem que o tenho ilicitamente, e se não entrego, e o encontram, caio debaixo da Lei de Defesa da República. Aconselhe-me o senhor, Emerenciano Bizco.
_ Quer que eu te aconselhe? Pois, então olhe: dê-me o revólver.
_ O que o senhor disse?
_ Que me dê o revólver; é o melhor. O senhor sai de seu compromisso, e eu já não temo arriscar nada.
     Olhei-o, comovido. Aquele homem abria as portas da salvação para mim.
_ Aproxime-se – eu lhe disse.
     Colocou-se do meu lado; seu bolso junto do meu bolso, com a exatidão de um expert. Saquei o enorme revólver antigo, e o deslizei entre as roupas do “Clandestino”. Logo olhei com sobressalto ao nosso redor. Creio que ninguém nos viu. Murmurei:
_ Obrigado, Emerenciano; nunca me esquecerei desse favor.
_ De nada, Dom José. Até a próxima.

     Apertamos nossas mãos, e cada um seguiu por seu caminho. Eu já não tenho armas. Estou dentro da lei. Os pistoleiros sim as têm, e as conservarão. Talvez, inclusive, um dia tratem de usá-las contra os bons cidadãos, como eu. Mas irão se equivocar se esperam que nos defendamos pelo mesmo procedimento. O que faremos será depreciá-los com toda nossa alma, como sujeitos desprovidos da mais rudimentar sensibilidade jurídica. E, se eles podem mais do que nós, se nos assaltam, se nos roubam e se nos matam, nós morreremos como morrem aqueles que fizeram um culto à lei.


(José Antonio Primo de Rivera; La Nación, 17 de novembro de 1931)


Tradução: Jean Augusto G. S. Carvalho
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