quarta-feira, 30 de março de 2016

Uriel Irigaray: A maioria das pessoas vivas já estão mortas




A maior parte dos homens que caminham pelas ruas em verdade já morreu; não são mais que cadáveres ambulantes. Sua essência pereceu há muito, mas as suas funções orgânicas continuam operando (inclusive as mentais) - a máquina, em suma, segue funcionando, de forma caricata e estereotipada, previsível, embora sujeita a colapsos ocasionais. Não há mais alma alguma ali, só a mecânica de impulsos, ideias cristalizadas, como uma cobra que continua se contorcendo mesmo após ter a cabeça esmagada ou um frango decapitado correndo

Esses homens mortos sentam-se à mesa e comem, conversam sobre o tempo e sobre política e vão trabalhar. Alguns deles sentam-se à cabeceira de grandes mesas e outros governam nações e decidem sobre o destino de milhões de pessoas (vivas - ou mortas como eles próprios). O mundo é um grande cemitério e boa parte da sociologia e psicologia não é senão a autópsia dessa massa zumbi putrefata e seca. 

O homem vivo com certeza enlouqueceria se pudesse, num lampejo, ver quanto dos seus conterrâneos em verdade já morreram, tanto conterrâneos de seu convívio que se sentam à mesa com ele e deitam-se com ele quanto multidões que vagam pelas cidades grandes. Esse é um segredo que poucos podem suportar - ninguém o pode impunemente. Mas é um segredo que liberta. É inútil dialogar ou buscar tocar o coração desses cadáveres. Deixe-se os mortos descansar em paz - e deixe-se os mortos enterrarem seus mortos.


I see dead people.
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