segunda-feira, 7 de março de 2016

Como a economia mainstream manipula nossas mentes

manipulate
Nós realmente decidimos o que queremos?

Por: John Komlos
Tradução: Jean Augusto G. S. Carvalho

O aspecto mais amplo da economia padrão é que ela começa sua análise com os adultos. Isso é conveniente, já que a essa estratégia habilita a disciplina a ignorar a influência perniciosa das poderosas megacorporações na formação da mentalidade das crianças e dos jovens durante os anos de sua formação. Por desconsiderar os primeiros 18 anos como cruciais para a vida, a economia mainstream pode simplesmente assumir que os gostos e preferências já são formados quando uma pessoa entra no mercado de trabalho e que conhece perfeitamente as coisas das quais gosta ou desgosta.  

Em outras palavras, as pessoas entram no sistema econômico como adultos, com seus gostos completamente formados, e, então, as empresas não as influenciam durante sua infância. O termo técnico para isso é que os gostos são exógenos. Então, os economistas não têm de se preocupar sobre os gostos e preferências, já que isso é determinado por fatores exógenos, ou seja, por fatores externos ao processo econômico.

Isso se encaixa bem com a ideia da soberania do consumidor - a doutrina de que os consumidores ditam aquilo que as empresas produzem, enquanto "votam" através de seus dólares para canalizar a produção para um determinado meio, satisfazendo, assim, seus desejos. Enquanto os gostos são pré-determinados, os consumidores os expressam através de seus desejos, supostamente induzindo as corporações a produzir determinada quantidade e qualidade de bens para satisfazer seus desejos. 

No fim das contas, o consumidor é visto como um rei ou rainha conforme ele ou ela determina aquilo que está sendo produzido.  Se nós não exigíssemos as coisas, as empresas não produziriam essas coisas. Então, nossos desejos são satisfeitos e todos são felizes (ao menos, é isso o que os economistas convencionais alegam). 

Contudo, esse modelo é completamente fora da realidade, por conta da alegação infundada de que os gostos são exógenos. É óbvio demais que o mundo corporativo influencia nossa cultura e nossos desejos de modos profundos. Consequentemente, a teoria da soberania do consumidor é perniciosa, pois habilita os economistas a dizerem que tudo está bem. Produtores só estão fazendo aquilo que os consumidores querem que eles façam. E, no fim das contas, os consumidores não precisam de proteção, já que estão no comando.

Então, os economistas negligenciam que os desejos que vão além das necessidades básicas são aprendidos gradualmente, e não aparecem espontaneamente dentro de nós mesmos. Através do processo de socialização, nós aprendemos os termos sob os quais nós nos tornamos membros respeitados da sociedade. A fundação de nosso sistema de valor é aprendida durante os anos formativos. 

De fato, a manipulação do inconsciente infantil pela mídia repousa na fundação de uma cultura de consumismo que não pode ser desfeita por processos racionais, até que a criança atinja a fase adulta. Contudo, seria importante criar um ambiente no qual o desenvolvimento do inconsciente das crianças fosse largamente protegido da influência das corporações. 

Outro importante princípio psicológico proeminente em influenciar crianças é o condicionamento pavloviano, que, por exemplo, reforça um determinado comportamento recompensando-o. O condicionamento começa nos primeiros anos: redes de fast-food dão brinquedos para crianças como um meio de condicioná-las a desejar comer frequentemente nessas lanchonetes, mesmo quando elas não recebem algum brinde; temos também a indústria de armas, que investe milhões de dólares em campanhas publicitárias para assegurar seu futuro, permitindo que crianças cada vez mais jovens utilizem armas.  

Fabricantes de cigarros oferecem amostras grátis. E nós temos programas para usuários constantes de viagens aéreas, pontos de bônus com cartões de crédito, presentes grátis e prêmios. Os pais não têm sido bem sucedidos em blindar seus filhos desse esforço multi-bilionário de condicionamento. 

Consequentemente, quando nós atingimos a vida adulta, passamos através de um rigoroso processo de inculcamento similar ao daquele com o qual a Madison Avenue inunda os transeuntes com símbolos de sexo, poder e ícones culturais para vender produtos a seus clientes. Através dessa socialização, nós assimilamos a cultura na qual aprendemos os nossos gostos, valores e hábitos de consumo de superstars e de diversos outros ídolos projetados pela mídia através de um processo mimético. Sob tal pressão intensa, as crianças crescem sendo preparadas para se tornar consumidores confiáveis e a escolha torna-se uma pretensão de individualismo.    

A economia neoclássica ignora o papel da mente inconsciente e o papel do condicionamento na formação de nossa personalidade, pois, de outra forma, a racionalidade do Homo economicus, que é objetivo em relação aos seus desejos, é super racional, e está em perfeito controle de seu gosto, de suas emoções, e os desejos não fariam sentido.

Contudo, é enganoso pensar que nós estamos no controle de nossos gostos e valores. Assistir TV por aproximadamente três horas diárias afetaria os padrões de pensamento de qualquer pessoa. Corporações investem somas extravagantes para promover esses aspectos de uma cultura na qual elas podem lucrar, balançar nossos gostos e nos fazer sentir como se nós precisássemos de seus produtos.  

Elas contratam formadores de opinião para admoestar-nos centenas de milhares de vezes a não pensar no futuro e comprar hoje, antes que a promoção acabe; para nos saciar com uma gratificação instantânea, e para nos tentar com os mais novos e reluzentes produtos, de modo descuidado, sem preocupação com o amanhã, colocando pequenas ressalvas para nos dar uma boa impressão.

Nós estivemos tão preocupados com a ameaça de grandes governos controlando nossas vidas, que nos tornamos quase cegos para a ameaça que outras instituições nos oferecem, instituições como a Madison Avenue, Wall Street, Hollywood, Vale do Silício e megacorporações que lentamente - mas crescentemente -, ano após ano, fazem exatamente aquilo que nós mais tememos: limitar muitas de nossas liberdades e manipular muito de nossa individualidade. 

Então, para retomar nossas liberdades, nós devemos começar por proteger a individualidade das crianças do condicionamento do mundo corporativo. Isso só pode ser alcançado se nós pudermos limitar o poder das corporações de descrever uma visão tentadora (mas irreal) do Sonho Americano.
Originalmente postado em: Evonomics
Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Visitas

Participe do nosso Fórum Online

Siga-nos no Facebook