sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Uriel Irigaray: Cultura Uber



Cultura Uber: nas lamúrias acerca de taxistas, eu vejo uma multidão de pequenos Louis XV empertigados com cara de nojo. Isso tudo é muito estranho para mim.

Eu entenderia melhor esse fenômeno - juro! - se quem lamuria fossem só mulheres (perdão): dondocas, peruas maquiadas, patricinhas enjoadas, esse perfil sócio psicológico, esse arquétipo de gênero. Mas não. Homens também se juntam ao coro de mimimi - e até homens que não são gays! (perdão).

No meu tempo fazia parte da vida adulta e era coisa de homem tolerar a conversa besta do barbeiro e, por educação, fazer algum comentário polido em resposta, sem concordar nem discordar, seja mudando de assunto ou como for. Não era puro incômodo, mas havia algo de agradável, de normal. É todo um universo masculino de mínima convivência social entre classes diferentes no espaço público que é a rua: garçons, engraxates, taxistas, porteiros, entregadores de pizza.


Antigamente as pessoas escolarizadas de classe média e os bacharéis (homens, principalmente) tinham algum espírito de cortesia, civilismo e uma tolerância benevolente e desenvoltura com os tipos populares, os trabalhadores, o garçom que os servia, o taxista que os levava aonde for, o porteiro. É a mesma paciência e respeito que um jovem bacharel tinha com um parente mais velho, com o tiozão bronco comentando as notícias de jornal ou a previsão do tempo. Faz parte de ser um ser humano que vive em sociedade. Essa dedinho de prosa (small talk) além de ser um ritual social, vez em quando acarretava alguma simpatia humana e, por incrível que pareça, até algum tipo de sabedoria.
É um mundo em extinção, senhores: o mundo dos garçons, barbeiros e taxistas, esses rudes anjos prestativos que davam informações e conselhos variados. Ergueu-se um muro intransponível entre esses trabalhadores e os jovens de classe média - jovens, em espírito, inclusive, diga-se, pois falo daqueles de 14 a 35 anos.

Hoje são todos astros de Hollywood intocáveis por trás das lentes do óculo escuro e com os olhos fixos na telinha do dispositivo eletrônico da moda que carregam. Quereriam esses senhoritos que o taxista abrisse a porta do carro para eles, trajando luvas brancas, e NÃO dirigisse a palavra a eles JAMAIS em momento algum durante toda a corrida, a não ser para oferecer balinha, chocolate, água mineral francesa ou um boquetinho.


É uma geração inteira de pessoas de classe média, até homens! (perdão), que não sabem falar com seu porteiro. Que se escandalizam horrorizados com o taxista, trabalhador solitário, falando mal do PT. Ou com o radinho do taxista ligado durante uma viagem de 5 minutos até sua casa, saindo duma balada na Avenida Paulista, com a roupa manchada de glitter e ecstasy. Geração que caminha de salto alto, sonhando vagamente entediada com um mundo higienizado de Uber, food trucks, aplicativozinhos. Uma geração que não sabe pegar o telefone e ligar pra pedir uma pizza, porque tem horror a FALAR com o atendente pobre do outro lado da linha (só podem pizza pela merda do WhatsApp ou outro aplicativo imbecil novo). Geração minha mesmo que eu não mais reconheço.

Eu tenho nojo, pena e medo de vocês, malditos.
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Um comentário:

  1. Há um què de histeria conservadora boboca nesse texto do Uriel. A dinâmica das relações humanas muda cada vez mais rápido, desde a Revolução Industrial. Os jovens desta geração apresentam comportamentos diferentes assim como as gerações que tiveram acesso ao rádio e à televisão também o fizeram. Algumas qualidades se perdem, sim, mas elas são certamente substituídas por outras. Esta geração, embora mimizenta, é mais pluralista que as gerações precedentes. Daí que citar seus defeitos sem mencionar suas qualidades é, no mínimo, injusto. No geral, essa geração é igual a todas as outras: um bando de antropóides heterocondiciandos, implorando por alguma forma de servilismo e submissão, incapazes de carregar com alguma maturidade o fardo da existência.

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