segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O que Acontece quando você acredita em Ayn Rand e na Teoria Econômica Moderna

A realidade do individualismo irrestrito

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Por Denise Cummins


- Tradução: Jean Augusto G. S. Carvalho


"Ayn Rand é minha heroína", outro estudante me diz, durante as horas de aula. "Seus escritos me libertaram. Eles me ensinaram a me apoiar unicamente em mim mesmo".   

Conforme vejo os rostos muito jovens através de minha mesa, eu me encontro preocupada em porque a popularidade de Rand entre os jovens continua a crescer. Trinta anos depois de sua morte, seu livro ainda vende um número de exemplares na casa das centenas de milhares anualmente - tendo triplicado desde a crise econômica de 2008. Entre seus devotos estão celebridades altamente influentes, como Brad Pitt e Eva Mendes, e alguns políticos, como o atual Porta-Voz da Casa Branca Paul Ryan, e o candidato presidencial republicano Ted Cruz. 
O centro da filosofia de Rand - que também constitui o tema principal de suas novelas - é que o interesse pessoal irrestrito é um bem e o altruísmo é destrutivo. Isso, acreditava ela, é a mais elevada expressão da natureza humana, o princípio norteador pelo qual o senso de dever é a vida particular. Em "Capitalismo: o ideal desconhecido", Rand colocou dessa forma: 
"O coletivismo é a premissa tribal de selvagens primordiais que, incapazes de conceber os direitos individuais, acreditavam que a tribo era um governante supremo, onipotente, ao qual os membros da comunidade deviam suas vidas e poderiam realizar-lhe sacrifícios quando lhe aprouvesse."
Por essa lógica, controles religiosos e políticos que impedem os indivíduos de perseguir seu interesse próprio devem ser removidos (talvez seja por isso que a cena inicial de sexo entre os protagonistas do livro de Rand, "The Fountainhead", é um estupro no qual "ela lutou como um animal"). A mosca na sopa do "objetivismo" filosófico de Rand é o fato inegável de que os humanos possuem tendência em cooperar e cuidar uns dos outros, como notado por muitos antropólogos que estudaram tribos de caçadores-coletores. 

Essas "tendências pró-sociais" eram problemáticas para Rand, porque tal comportamento obviamente mitigava contra o interesse próprio "natural" e, contudo, não deveria existir. Ela resolveu essa contradição alegando que os humanos nascem como uma tabula rasa, um quadro branco (como muitos de seu tempo acreditavam) e tendências pró-sociais, particularmente o altruísmo, são "doenças" impostas a nós pela sociedade, mentiras insidiosas que causam em nós a traição de nossa realidade biológica. Por exemplo, em seu jornal datado de 9 de maio de 1934, Rand escreveu:

"Por exemplo, quando discutimos o instinto social - importa se isso existiu nos selvagens primitivos? Isso é, supondo que o homem seja nascido social (e até mesmo isso é uma questão) - isso significa que ele tenha de assim permanecer? Se o homem começou como um animal social - não são todo o progresso e toda a civilização direcionados para tornar o homem um indivíduo?  Não é este o único tipo de progresso possível? Se os homens como grupo são os mais elevados animais, não é o homem como indivíduo o próximo passo?

O herói de sua novela mais popular, "A Revolta de Atlas", personifica esse "mais elevado dos animais": John Galt é um cruel capitão da indústria que se esforça contra as regulamentações governamentais sufocantes, que permanecem no caminho do comércio e do lucro. Numa revolta, ele e outros capitães da indústria fecham a produção de suas fábricas, levando a economia mundial a seus joelhos. Sua mensagem era: "vocês precisam de nós mais do que nós precisamos de vocês".



Para muitos leitores de Rand, a filosofia suprema da autoconfiança é devotada a perseguir o supremo interesse próprio, e aparece numa versão idealizada do núcleo dos ideais americanos: libertação da tirania, trabalho duro e individualismo. Ela promete um mundo melhor se as pessoas simplesmente forem livres para escolher seu interesse próprio sem preocupação com o impacto de suas ações nos outros. Afinal de contas, outros estão simplesmente perseguindo seu próprio interesse também.


Então, o que aconteceria se as pessoas se comportassem de acordo com o "objetivismo" da filosofia de Rand? E se nós também nos permitíssemos cegar tudo, exceto nosso interesse próprio?     

A teoria econômica moderna é baseada exatamente nesses princípios. Um agente racional é definido como um indivíduo que possui interesse próprio. O mercado é uma coleção de agentes racionais, cada um dos quais possui seu próprio interesse. Justiça não entra na equação. Em um recente episódio de Planet Money, David Blanchflower, um professor de economia de Dartmouth e um ex-membro do Banco Central da Inglaterra, deu gargalhadas quando um dos convidados lhe perguntou: "isso é justo?". Ele respondeu: - "Economia não é sobre justiça. Eu não vou entrar nesse assunto". 

Economistas encontram, alternadamente, um grande, alarmante e divertido conjunto de resultados obtidos de seus estudos experimentais, mostrando que as pessoas não se comportam de acordo com os princípios de teorias de escolhas racionais. Nós somos muito mais cooperativos e propensos à confiança do que é apregoado pela teoria, e nós retaliamos veementemente quando outros se comportam de maneira egoísta. De fato, nós somos propensos a dar uma penalidade por uma oportunidade de punir pessoas que parecem quebrar regras implícitas de justiça em transações econômicas. 
Então, o que aconteceria se as pessoas se comportassem de acordo com a filosofia do "objetivismo" de Rand? E se nós nos fechássemos para tudo, deixando apenas nosso interesse próprio? 
Um exemplo da indústria
Em 2008, o CEO da empresa Sears, Eddie Lampert, decidiu reestruturar a companhia de acordo com os princípios de Rand. Lambert quebrou a companhia em mais de 30 unidades individuais, cada uma com seu próprio gerenciamento e cada uma com suas medidas separadas de lucro e perda. A ideia era promover a competitividade entre as unidades, o que Lampert assumiu como um modo de atingir lucros mais elevados. Ao invés disso, o que aconteceu foi o que Mina Kimes, uma repórter da Bloomberg Business, descreveu:

"Um arauto franco, um advogado da economia de mercado livre e um fã da novelista Ayn Rand, ele criou o modelo porque esperava que a mão invisível do mercado traria melhores resultados. Se fosse dito aos líderes da companhia que eles deveriam agir de modo egoísta, ele argumentou, então eles coordenariam suas divisões de um modo racional, ultrapassando os resultados gerais. Ao invés disso, as divisões voltaram-se umas contra as outras - e as empresas Sears e Kmart, as marcas abrangentes, sofreram com isso. Entrevistas com mais de 40 ex-executivos, muitos dos quais chegaram a ocupar os mais altos cargos da companhia, descrevem o quadro de um negócio que foi devastado por lutas internas, conforme suas divisões batalhavam por recursos cada vez mais escassos.".    
Um olhar mais aprofundado no desastre foi descrito por Lynn Stuart Parramore num artigo publicado em Salon, datado de 2013:

"Foi uma loucura. Executivos começaram a minar outras unidades porque sabiam que seus bônus eram oriundos da performance individual da unidade. Eles começaram a focar unicamente na performance econômica de suas unidades, às custas da reputação de toda a marca Sears. Uma unidade, a de Kenmore, começou a vender produtos de outras companhias e colocou-os em posições mais proeminentes do que os próprios produtos da Sears. As unidades competiram por espaços de publicidade nos informativos da Sears. As unidades não eram mais incentivadas a fazer sacrifícios, como oferecer descontos aos clientes para conseguir captá-los para as lojas. A empresa Sears tornou-se um lugar miserável para trabalhar, onde as lutas internas eram frequentes e tudo era resolvido na base da gritaria. Os empregados, focados exclusivamente em fazer dinheiro para suas próprias unidades, deixaram de ter qualquer lealdade à companhia ou solidez para com sua sobrevivência.".  
Todos nós sabemos o fim da história: o preço das ações da Sears caiu, e a companhia chegou á beira da falência.  A moral da história, nas palavras de Parramore:

"O que Lampert falhou em enxergar é que os humanos atualmente possuem uma inclinação natural para trabalhar em busca do benefício mútuo de uma organização. Eles gostam de cooperar e colaborar, e eles trabalham mais produtivamente quando possuem objetivos compartilhados. Tire tudo isso e você vai criar uma companhia fadada à autodestruição.".

Em 2009, Honduras experimentou um golpe de Estado quando o Exército hondurenho derrubou o presidente Manuel Zelaya, com ordens da Suprema Corte de Honduras. O que se seguiu foi sucintamente sumarizado pelo advogado hondurenho Oscar Cruz:

"O golpe de 2009 desencadeou a voracidade de grupos com poder real nesse país. Ele deu a eles rédeas livres para tomar tudo. Eles começaram a reformar a Constituição e alterar muitas leis - a ZEDE veio nesse contexto - e fizeram da Constituição uma ferramenta para se tornarem ricos.".

Como parte desse processo, o governo hondurenho aprovou uma lei, em 2013, que criou zonas autônomas de livre comércio governadas por corporações, ao invés da administração de estados nos quais essas zonas passaram a existir. Então, o que aconteceu? O escritor Edwin Lyngar descreveu suas férias em Honduras no ano de 2015, uma experiência que o transformou de apoiador da filosofia de Rand para seu opositor. Em suas palavras:

"O maior exemplo de libertarianismo em ação são as centenas de homens, mulheres e crianças que ficam paradas ao longo das estradas, por toda Honduras. O governo não conserta as estradas, então, esses 'empresários' desesperados preenchem os buracos com sujeira e detritos. Eles ficam próximos aos buracos que taparam, solicitando esmolas de motoristas agradecidos. Esse é o sonho molhado de inovação do setor privado libertário.".    

Ele descreveu as condições de vida do seguinte modo:

"Na área continental, há dois tipos de bairros: favelas que parecem não ter fim e bairros de classe-média onde cada casa é sua própria cidadela. Em San Pedro Sula, a maioria das casas é cercada por muros altos, com arames ou cercas elétricas no topo. Conforme eu passava por essas fortificações que pareciam castelos, tudo o que eu podia pensar era sobre como essa cidade seria ótima durante um apocalipse zumbi.".   

Sem o esforço coletivo, grandes projetos de infraestrutura como a construção de estradas e o reparo delas acabam definhando. Um morador apontou "um lugar onde um novo aeroporto, o maior da América Central, poderia existir, se apenas quisessem construí-lo, mas não havia interesse de setores privados na região". A ida até uma pizzaria local foi descrita desse modo:   
"Nós andamos através dos portões e passamos por um homem vestido com calças casuais, com um cinto com coldre de pistola, envolto em sua cintura. Bem vindo ao paraíso libertário de Ayn Rand, onde sua pizza de pepperoni extra-grande precisa ter um guarda armado.".
Esse é o resultado inevitável do individualismo desenfreado solto em mercados não regulados.

Devotos de Ayn Rand ainda argumentam que o interesse próprio desregulado é o "modo de vida americano", que a interferência do governo sufoca o individualismo e o livre comércio. Questiona-se se essas mesmas pessoas defenderiam a ideia de remover todas as regras e árbitros de eventos esportivos. Como seriam as artes marciais mistas, o futebol ou o rugby, sem esses juízes enfadonhos constantemente se metendo no caminho da competição e do interesse próprio? 

Talvez outro modo de olhar pra isso seja perguntar o por quê de nossa espécie de hominídios ser a única ainda em existência no planeta, apesar de terem existido muitas outras espécies de hominídios durante o curso de nossa própria evolução. Uma explicação é a de que nós somos mais espertos, mais cruéis e mais competitivos do que aqueles que foram extintos. Mas a arqueologia antropológica conta uma história diferente. Nossa sobrevivência como espécie dependeu da cooperação, e os humanos se sobressaem no esforço cooperativo. Em vez de manter o conhecimento, as habilidades e os bens para si mesmos, os primeiros humanos compartilharam tudo isso livremente, através de seus grupos culturais. 

Quando as pessoas se comportam de maneiras que violam os axiomas da escolha racional ,eles não se comportam tolamente. Elas dão aos pesquisadores uma visão das tendências pró-sociais que tornaram possível à nossa espécie sobreviver e prosperar ... no passado e no presente. 



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