terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A pobreza como fetiche

Por Jean Carvalho

Famílias pobres em Belo Horizonte, esperando pela distribuição de peixe (fonte da imagem: UOL)

Existe uma fetichização da pobreza, uma idealização do pobre como figura angelical e uma visão extremamente tutelar desses dois elementos. Na televisão, há o ritual dominical da aparição de artistas elogiando a pobreza ou lembrando suas origens humildes. Na distância de seus condomínios fechados, fazendas e sacadas de apartamentos de luxo, essas figuras que, da arte do entretenimento, têm assumido cada vez mais o protagonismo de formar opiniões, elogiam as maravilhas de uma vida pobre que eles mesmos não parecem querer seguir ou sentir saudade.

Sim. A favela é o lugar mais feliz do mundo, e o favelado é uma espécie de bem-aventurado, um sujeito sortudo por ter uma vida de festa, bailes e alegria. O pobre é mais feliz, é mais "humilde" e até mais criativo. Essa figura artificial de um pobre portador de valores gigantescos é acompanhada da visão irônica de que pobreza é fonte originária de criminosos ou de desajustados sociais. Grande parte disso está na romantização que a Esquerda brasileira fez e ainda faz desses elementos, considerando o proletariado como a mais elevada das classes sociais (quando grande parte desses intelectuais nunca trabalhou, de fato). 

E é interessante notar como os ideólogos e "intelectuais" brasileiros gostam de justificar todas as mazelas sociais pela pobreza. A periferia, para esses senhores, é o ápice da boa vida, mas ao mesmo tempo é a fábrica de marginais, batedores de carteira e estupradores. É a sacralização e a demonização da favela e da periferia, fenômeno simultâneo.

Se alguém cometeu um crime, certamente há uma explicação econômica para o fato. Sim, por que crime é coisa de pobre. Os jovens que queimaram vivo o índio em Brasília eram de classe média alta. Políticos e empresários corruptos, engravatados e endinheirados, são responsáveis por crimes que, com toda a etiqueta, chamam-se de "desvios". Afinal, rico não rouba, rico apenas "desvia". Mas isso não passa na contabilidade desses intelectuais, e mesmo estes ricaços, segundo eles, certamente têm algum elemento de pobreza na infância que possa justificar sua conduta.

Mendigos no centro de São Paulo, SP (fonte da imagem: Renato Nalini)

Toda essa "glamourização" do pobre e da pobreza só servem para ocultar um elemento bem óbvio: o nojo que eles têm e seu desdém por essa condição puramente sócio-econômica. Eles não falam, mas pensam que lugar de pobre é na cadeia ou na periferia, de preferência bem longe (e bem contentes). Qual a razão de se importar em melhorar as condições dessa gente e desses lugares, se eles já vivem no Céu?


Para todos os efeitos, podemos levar um número razoável deles para algum estúdio de algum grande canal de telecomunicação, distribuir alguns brinquedos e, claro, tomá-los depois que as câmeras forem desligadas. O pobre deve ser bem tratado em frente às câmeras e em períodos eleitorais, e só. Essa falsa valorização da pobreza serve de trampolim para destacar como a vida dos ricos é uma opção possível e viável para qualquer favelado: basta ter talento, "alegria" (palavra subjetiva sem significado real) e uma pitada de sorte, e qualquer morador do Capão Redondo pode comprar seu próprio triplex nos Jardins. Daí que a vida ideal do pobre é exclusivamente onde ele possa "ostentar".

Pobreza não é situação de vergonha. É tão somente uma condição econômica. Ser pobre não é vergonha. Mas a pobreza não é desejável a ninguém. A menos que o sujeito leve uma vida modesta (o que é tão bom quanto louvável) e não adote um estilo de existência consumista, a falta de bens materiais por simples impedimento não é uma virtude, é um crime. Uma coisa é o sujeito andar de bicicleta com uma qualidade de vida que lhe dê dignidade, ou usar transporte público por que têm consciência de que tirar o carro da garagem para ir sozinho à padaria da esquina não faz sentido nem para si, nem para o planeta.

Outra coisa completamente diferente é que esse cidadão seja condenado a andar de bicicleta ou a pé, ou espremido em algum ônibus ou metrô, com tantos outros infelizes tratados como gado, por simplesmente não ter outra perspectiva ou alternativa. É bem diferente um pai que não cerca o filho de mimos por que deseja criar nele um caráter saudável, daquele que não dá um presente à criança por que precisa do dinheiro para a refeição do dia seguinte.

Nossa gente não escolhe a pobreza como um caminho de ascetismo, purificação espiritual ou "virtude". Nosso povo simplesmente é condenado a essa condição, tanto por setores privados exploradores quanto por um governo que é composto de gente que disse ter passado fome, trabalhado em fábricas e feito greve, morado em bairros pobres oriundos do sertão, mas hoje bebem champanhe e andam de jatinho particular (às expensas do contribuinte miserável, é claro) e não parecem fazer nada consistente para mudar a situação daqueles seus "iguais", seus irmãos.

É uma "missão" ajudar os pobres. Mas, de preferência, deixando-os em filas imensas, esperando por horas a fio a entrega de comida ou qualquer outro presente. E não se deve esquecer de usar da humilhação máxima de deixar bem nítido, para o pobre, que mesmo o pouco que ele tem é graças à sua ajuda, graças ao seu bom-mocismo. Se puder levá-lo para programas de auditório de domingo, expondo suas trajetórias sofridas e vidas miseráveis em troca de um prêmio que receberão através de algum tipo de gincana, melhor ainda. Nunca uma ajuda consciente, nunca um ato de nobreza: sempre a exposição midiática. Afinal, nossos pobres precisam só de comida e dinheiro, e não de dignidade.

Família de Alto Alegre, Maranhão (fonte da imagem: http://goo.gl/2f1o4U)

Pobreza é uma condição a ser vencida. E que não se confundam minhas palavras com uma alusão à vida de luxo e de consumo: uma vida ascética e humilde é louvável. Não precisamos de muito para levar uma existência honrada. Mas não há nada de sublime em ver os próprios filhos passarem fome, com o desemprego sempre batendo à porta.
Share:

Um comentário:

  1. Infelizmente, vivemos num país de poucos milionários, e de muitos miseráveis... Parabéns pelo texto!

    ResponderExcluir

Visitas

Participe do nosso Fórum Online

Siga-nos no Facebook