segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Capitalismo: a ilusão conservadora


Tradução: Jean Augusto G. S. Carvalho



Quando a Guerra Fria terminou, em 1991, os conservadores estadunidenses regozijaram-se com o triunfo do capitalismo democrático, que lutou durante meio século, primeiro contra o erguimento do fascismo, e depois contra o bloco soviético e o espectro do comunismo global. O colapso do Estado Soviético pareceu uma prova irrefutável de que as economias de laissez-faire estavam destinadas, pela “mão invisível” que guia a história humana, a tornarem-se uma máquina de liberdade e prosperidade que envolveria todo o globo e geraria uma nova era de paz e estabilidade – uma realização, se assim desejar, do otimismo histórico de Adam Smith e ao infindável esquema de seus discípulos (na América do Norte, ao menos), cujo entusiasmo em relação à teoria smithiana algumas vezes se assemelhou aos loucos rodopios de encantadores pentecostais de serpentes.

O surgimento dos Tigres Asiáticos e a estupenda produtividade do capitalismo chinês pareceram uma realização ainda maior, apesar de que os animadores de torcida do capital global eram notavelmente relutantes em admitir que estes “milagres econômicos” pouco tinham a ver com as doutrinas de laissez-faire e tinham um grande negócio com o fato de que os trabalhadores estadunidenses estavam carregando os déficits comerciais, e que mesmo os consumidores estadunidenses (aqueles que ainda tinham empregos decentes) excedendo, eles mesmos, em produtos asiáticos baratos.

Enquanto isso, com sua confiança vertiginosa na “excepcionalidade estadunidense”, grandes setores da Direita e da Esquerda neoliberal suportaram esforços para o “crescimento” de regimes democrático-capitalistas em cantos distantes do globo – esforços que foram quase que uniformemente desastrosos, mas que foram enormemente lucrativos para companhias como a Lockheed Martin, a Boeing e a Raytheon.

Hoje, mais de cinco anos após o fim da Grande Recessão, nossa “recuperação” não é encorajadora. Declínios acentuados nos ganhos domésticos achataram a classe média, que está afundando ano após ano. Os aspectos oficiais do desemprego são insignificantes, já que, de acordo com as mais recentes estimativas, aproximadamente 94 milhões de americanos em idade ativa foram desalojados da força de trabalho. Quando nossos atuais republicanos prometem-nos que o “crescimento” resolverá o problema, eles falham em perceber que, desde algum tempo, a maioria dos novos postos de trabalho abertos (cerca de 70%) são do tipo de baixos pagamentos, na área de prestação de serviços ou de empregos de meio período.

Eles – e seus apoiadores das corporações – cantam as orações do livre mercado, mas falham em explicar como o fato de abaixar os impostos sobre corporações trará de volta os milhões de bons trabalhos do setor de manufatura, agora estabelecidos do outro lado dos mares. De acordo com o Working America (afiliado ao AFL-CIO), só entre 1998 e 2008, mais de 51.000 fábricas foram transferidas para o além-mar, uma prática que só acelerou. Em 1979, a manufatura estadunidense empregou cerca de 20 milhões de trabalhadores; hoje, esse número foi reduzido pela metade. Nas indústrias que ainda restam, uma onda de trabalho imigrante barato, seja ele legal ou ilegal, fez com que os níveis de salário caíssem e eliminou os benefícios de saúde.

Adicionalmente, a aceleração de setores de robótica e informatização significa a perda não só de empregos repetitivos, do tipo de linhas de montagem, mas também de empregos de colarinho-branco, de escritório. Os defensores da mecanização do ambiente de trabalho argumentam que a perda de empregos desse tipo é “compensada” por um número de efeitos positivos. Alguns anos atrás, dirigindo-se ao Conselho de Relações Externas, o CEO da AT&T, Randall Stephenson, disse que a revolução tecnológica é “a melhor coisa desde a eletrificação e os sistemas de combustão interna”. Questionado sobre a resultante perda de empregos, o s.r. Stephenson disse que isso não deve ser uma preocupação. Os empregos não são realmente perdidos, já que isso é apenas “uma realocação daquelas... Oportunidades”.

Amparado por tal jargão militarista, está um cenário que se tem tornado demasiadamente comum para os trabalhadores estadunidenses. A automatização corta empregos, mas cria alguns novos que requerem um conjunto maior, ou ao menos diferente, de habilidades. Tudo isso é apenas parte do processo de “destruição criativa”. Se você mostrar um pouco de iniciativa, tomar a dianteira do seu colégio comunitário subsidiado por alguma loteria, e adquirir as novas habilidades necessárias, você terá uma chance razoável de ser “realocado” para um desses novos empregos – o que provavelmente irá requerer que você e sua família se mudem, deslocando-se meio caminho através do país.

Se você tiver sorte no novo emprego, então levarão aproximadamente outros dez anos antes que outros avanços em robótica eliminem sua posição também, ou para você simplesmente ser substituído por um trabalhador estrangeiro, com um visto tipo L1B, e forçado a treiná-lo antes de você mesmo se ver lá atrás na fila do desemprego. 

Os conservadores americanos incessantemente falam sobre a importância de preservar a família. Contudo, famílias saudáveis não exigem alguma coisa além de cheques regulares de pagamento e moradias baratas? Famílias não exigem casas enraizadas em comunidades locais, presentes durante gerações? Famílias não exigem redes locais de familiares e tradições estabelecidas, além de instituições, nas quais possam repousar? Ah, mas não é pra isso que o Facebook serve? Todos nós podemos manter contato hoje em dia, não importa a distância.

Nós temos iPhones, Twitter, Tumblr, Flickr, Instagram e Snapchat. Por acaso, nós já estivemos mais “conectados” do que agora? Essa é a lógica do capitalismo: mais tecnologia resolverá o problema criado pela tecnologia. Ou, mais precisamente, a nova tecnologia eletrônica não “resolve” o problema: ela dissolve o problema ao nos oferecer um simulacro que substitui a realidade. Estritamente falando, nós não somos mais consumidores: nós somos os consumidos.

O problema é muito mais profundo do que o deslocamento ou a privação econômica. A família natural, mesmo quando se mantêm intacta, foi, com efeito, colonizada por forças de mercado. A antiga complementaridade entre marido e esposa é destruída ou atenuada quando homem e mulher são levados para fora de casa e colocados no mercado de trabalho por conta da necessidade econômica, ou pelo casamento capitalista de fantasias igualitárias de autonomia individual, que nos persuade a acreditar que cada um encontra seu verdadeiro “valor” apenas na esfera econômica.

O grande feminista Friedrich Engels argumentou, lá no século XIX, que a completa emancipação da mulher nunca ocorreria até que a mulher fosse inteiramente integrada ao “lugar público de trabalho”. Esforços para aplicar esse conselho na União Soviética produziram resultados mistos. Hoje, o capitalismo está cumprindo esse objetivo de modo mais impressivo. Mais ou menos, a fecundidade do casamento é jogada fora quando os pais começam a notar que, conforme a ideia tradicional do lar (oikos) como centro da produção econômica fica cada vez mais distante, as crianças começam a se tornar um obstáculo ao consumismo ilimitado de bens de luxo.

Mas, mesmo aqueles casais que encontra algum “valor de uso” nas crianças, se deparam com uma batalha morro acima: o laço primordial entre os pais e sua prole é subvertido quando as crianças são encorajadas, desde a infância, por inúmeras propagandas que mostram a autoridade dos pais como uma imposição sobre sua procura pela “identidade autêntica”.

Assim, crescer na América se tornou pouco mais do que uma “crise de identidade” estendida, uma condição que gera bilhões para as manufaturas da fantasia e do desejo – especialmente para as indústrias de moda, filmes e games. Poucos se preocupam que, na idade de ir ao colégio, os jovens são presas fáceis para organizadores políticos ávidos em persuadi-los de que qualquer demonstração de desaprovação ou de julgamento é uma forma de “micro agressão”.

O aspecto mais surpreendente sobre a versão ideológica do conservadorismo desses dias é a quase completa cegueira para a natureza revolucionária do capitalismo. Conservadores sociais, a maioria dos quais é presumivelmente simpática à nossa herança moral cristã, deveriam lançar olhares mais desencantados sobre os clamores daqueles que defendem regimes de corporações transnacionais que mantém todos nós como reféns da lei de destruição criativa. 

Esse termo, primeiramente introduzido na economia americana pelo discurso feito em 1940 pelo economista austro-americano Joseph Schumpeter, ganhou um grande negócio de tração no auge econômico da década de 1990, e continua a subscrever a teoria do “empreendedor”, outra noção schumpteriana. Apropriadamente compreendida, a lei da destruição criativa revela o núcleo essencialmente neo-pagão do capitalismo moderno tardio (e, talvez, aquilo que sempre foi seu embrião).

Em seu último significado maligno, destruição criativa refere-se simplesmente à incessante mudança estrutural e tecnológica que guia o dínamo capitalista e sua universalmente conhecida capacidade de inovação e produção. Ainda assim, esse “fato essencial” sobre o capitalismo também se estende à procura por novos mercados, que, na economia de consumo, requer a simulação de novos desejos que podem emergir apenas através da destruição de antigas identidades, diferenças, lealdades, morais, tradições e territórios – em resumo, a morte de tudo aquilo que os conservadores alegam manter.

Conforme Schumpeter reconheceu com alguma apreensão (não como aquela de seus dias), o “processo capitalista, do mesmo modo através do qual destruiu o padrão de sociedade feudal, agora mina a si mesmo”. Esse é o niilismo nietzschiano que se põe atrás do véu do otimismo providencialista smithiano.

Conforme Hugo e Erik Renert recentemente argumentaram, o conceito da destruição criativa chegou até Schumpeter por meio do economista alemão Werner Sombart, que se inspirou tanto em Marz quanto em Nietzsche. No trabalho de Nietzsche, a destruição criativa não é uma ideia econômica, mas sim filosófica, que é expressa em textos como “A Genealogia da Moral”, contendo metáforas econômicas. Essa ideia abrange diversos preceitos e é profundamente anticristã. Ela assume uma visão neo-pagã da História, ao mesmo tempo cíclica e progressiva, na qual novos paradigmas morais e culturais emergem da destruição daquilo que é velho.

A criação é sempre o produto da destruição. Mas o papel humano nesse processo, segundo o trabalho de Nietzsche, não é passivo. Ele imaginou, em seu livro “Assim falou Zaratustra”, uma nova ordem mundial, na qual a direção da História não é mais confiada à vontade de Deus, mas sim, cativa do desejo do “homem nobre”, predecessor do Übermensch. O homem nobre é um homem autocriado, um que, como Renerts observa, “deve tomar responsabilidade por quem ele é, criando a si mesmo e suas próprias leis”. Ou, como o próprio Nietzsche afirmou: “Tu deves desejar consumir a ti mesmo em tua chama; como poderias tu desejar tornar-te novo, a menos que primeiramente tenhas te tornado em cinzas!”. Essa destruição do antigo eu não possui nada em comum com a autonegação cristã; é, em vez disso, um ato de autodivinização.

Além disso, é uma afirmação do desejo de poder, um desejo de transgredir, de modo “criativo”, a ordem moral herdada, especialmente a ordem cristã fraca e “decadente”. Os defensores pós-modernos de Nietzsche argumentam que ele não era fundamentalmente niilista, já que ele se esforçou em criar o caminho para um novo mundo e uma nova moralidade, um caminho no qual milhares de flores da “diferença cultural” pudessem desabrochar, um que exaltaria o desejo criativo do indivíduo, liberto de normas universais e repressivas.

E isso é, de fato, o que o capitalismo, o grande facilitador e parteiro do homem autocriado rapidamente está dando à luz. Não é esta a razão subjacente pela qual as feministas e um exército de – outrora – esquerdistas terem feito as pazes com o capitalismo? Não é de se surpreender que nossos “organizadores comunitários” e os CEOs esclarecidos das principais corporações transnacionais como Apple, Hewlett-Packard, Starbucks e milhares de outros mais deram as mãos para endossar uniões homossexuais e direitos de transgêneros? Os pós-modernistas estão certos e errados.

Uma nova ordem está sobre nós, mas seu ímpeto criativo é tanto faustino quanto estéril. Por meio da alquimia banal do mercado, o Übermensch se parece mais com alguém como Mark Zuckeberg do que com qualquer coisa imaginada por Nietzsche em Zarathustra. Olhe ao redor. Os Estados Unidos, no século XXI, está repleto de homens e mulheres autocriados, cada qual criando leis para si mesmos, e cada qual sendo um pequeno deus, não reconhecendo nenhum outro deus além deles mesmos. 

De acordo com os apóstolos da liberdade econômica desimpedida, esse processo de destruição criativa em curso deve resultar em uma convergência harmônica, um reino social no qual a perseguição dos “vícios privados” produz um bem público transcendental. Isso é mais do que questionável. Para qualquer observador são, hoje, na América, a “ordem social” pode ser melhor descrita como um estado de anarquia mal contida. O espetáculo obsceno da Black Friday é certamente uma metáfora para nossa atual trajetória. Se isso não é niilismo, o que mais pode ser?

Nenhuma dessas reflexões deveria ser construída como um ataque à liberdade econômica. Contudo, se o objeto do conservadorismo é defender a ordem natural e uma profunda tradição moralmente enraizada, então nunca se deve permitir ao mercado tornar-se a força dominante na sociedade, como manifestadamente se tornou na América, no decorrer das décadas recentes. É claro, a “incorporação” da América data dos anos 1860, e, conforme numerosos historiadores documentaram, o processo foi incitado pelo Estado central; de fato, a incorporação do negócio americano foi parte e parcela da centralização de poder na América – uma lição aprendida pelos sulistas desde cedo.

Para ter certeza, conservadores que têm princípios são justificados em seus ataques no Leviatã de Beltway. Conforme o grande pensador conservador Robert Nisbet argumentou em seu livro The Quest for Community (A Busca pela Comunidade), o Estado central foi a mais potente das forças revolucionárias na História moderna. Não foi o capitalismo que deu origem ao “indivíduo” (compreendido como uma entidade legal e um “sujeito” abstrato de poder), mas sim o Estado que o liberou das penetrantes (e, algumas vezes, opressivas) instituições intermediárias da ordem medieval.

Ainda uma vez que o Estado tenha reduzido ou contido essas instituições (considere, por exemplo, o poder da Igreja, subjugado), o capitalismo desempenhou um papel cada vez mais importante na contenção e disciplina dos perigosos desejos do indivíduo agora ilimitado. O que Nisbet fez não prevê completamente o quão rapidamente a “disciplina” do regime capitalista seria desfeita por suas próprias contradições inerentes, ou o quão invasivo o poder do Estado se tornaria, uma vez que seus “cidadãos” fossem transformados em consumidores passivos e taciturnos, cujo senso de direito é, até agora, desenfreado e voraz.

Hoje, nós atingimos o ponto de inflexão. Nossos mestres em Washington, cada vez mais descaradamente ostentam seu desprezo pelas lealdades atávicas que ainda persistem na Pátria. A ameaça de uma revolta populista incoerente vinda da Direita meramente cai em suas mãos, proporcionando-lhes até mesmo um escopo mais largo de vigilância e controle – uma estratégia na qual a América corporativa está feliz demais para assistir.

Nossa única esperança reside não em um nacionalismo iludido, mas sim na descentralização radical – não um retorno aos “direitos estaduais”, mas sim à secessão econômica e cultural das comunidades locais, cidades e regiões contra o poder parasita das elites corporativas e burocráticas. Quando a Liga Lombarda foi formada no Norte da Itália, no século XII, as comunas italianas (cidades-estados autogovernadas) afirmaram seu “direito sagrado” de autodeterminação contra a presunçosa extensão de poder do império germânico. Aquelas cidades-estados (Milão, Gênova, Pádua, Veneza, e tantas outras mais) floresceram por dois gloriosos e frequentemente turbulentos séculos. Nós faríamos bem em aprender com o exemplo delas.  



Originalmente postado no site Chronicles Magazine
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