quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A luta pela sobrevivência dos Mundurukus



Por Jean Augusto Guimarães Sampaio Carvalho e Léia Guimarães Sampaio Carvalho


A região amazônica é a região dos contrastes, lugar de paradoxos. Historicamente abandonada pelos governos que insistem em negligenciar o aspecto estratégico da Amazônia, essa vastidão geográfica é também palco de grandes obras - que, entretanto, nunca surtiram efeitos positivos para os povos locais, sejam eles urbanos, ribeirinhos, agricultores e indígenas.

O Complexo Hidrelétrico do Tapajós é um desses empreendimentos: gigantesco, exibicionista e, acima de tudo, improdutivo (ao menos para a população da região). No total, está prevista a construção de sete barragens: UHE Cachoeira do Caí, UHE Chacorão 1, UHE Chacorão 2, UHE Jatobá, UHE Jamanxim, UHE Cachoeira dos Patos e UHE Jadim de Ouro. A maior delas é a de São Luiz do Tapajós, que será instalada na cidade de Itaituba.

Os municípios da região Oeste do Pará, em geral abandonados e extremamente carentes, sofrem com a crise dos garimpos, a crise econômica nacional e as inúmeras consequências da crise econômica nacional. Desemprego, altos índices de criminalidade, prostituição, tráfico de drogas e conflitos de terra. As hidrelétricas só irão piorar o problema.

Aproveitando a situação econômica estagnada, as empresas e o governo fazem uma propaganda positiva desses empreendimentos. A promessa é de melhoria para a infraestrutura das cidades, mais empregos, mais dinheiro, mais renda para os municípios e seus habitantes. Basta verificar os processos de instalação desses empreendimentos e constatar que os municípios da região não obtiveram nenhuma melhoria com os mesmos.

Ao contrário: a maioria dos empregos será temporária e o grande fluxo de migrantes apenas afetará de modo negativo as estruturas públicas já precárias de municípios que não têm condições suficientes de receber essa massa humana (sem contar os milhares que serão deslocados de suas áreas por conta das inundações).

As contradições do projeto Hidrelétrico no Tapajós


Dentre os maiores afetados, estão os índios Munduruku que vivem na região. A comunidade de Karapanatuba será atingida por uma das barragens do complexo hidrelétrico. Toda a região será inundada, e a comunidade Munduruku na região (bem como todos os demais que nela vivem) simplesmente não existirá mais. Os indígenas, e todos os outros que dependem do rio para viver (ribeirinhos, por exemplo) serão forçosamente deslocados de suas terras, sem nenhuma garantia de realocação por parte do governo ou das empresas - ao menos até o momento.

O Avante nasceu no Pará, portanto, compartilha dessa luta com os índios Munduruku. O fundador do Avante, Jean Augusto Guimarães Sampaio Carvalho, realizou uma entrevista com o indígena Alcivan Saw Munduruku, acadêmico do curso de Letras, na Faculdade de Itaituba. A entrevista, na íntegra, se encontra transcrita abaixo.


Jean: Qual é a etnia da tribo?
Alcivan: Nossa etnia é Munduruku. Todos nós, na aldeia, somos índios Munduruku.

J: Onde fica localizada a reserva? 
A: Fica no Alto Tapajós, comunidade de Karapanatuba (a cinco horas de viagem de Itaituba).

J: Quantas pessoas vivem na aldeia?
A: Em torno de 400 indígenas. Mas existem 12.00 moradores em toda comunidade ao redor, contando com ribeirinhos e gente que vive na cidade. Todo mundo vai ser afetado.   

J: Alguém do governo ou das empresas entrou em contato com a comunidade e apresentou o projeto do complexo hidrelétrico? 
A: Nenhum representante do governo ou de empresas estabeleceu qualquer contato com a comunidade indígena. Eles não tomaram a iniciativa. Nem sequer nos apresentaram o projeto. Nós tivemos de ir atrás.

J: Como a comunidade indígena se organizou em torno da questão?
A: Através do movimento criado pelos indígenas, chamado Sawe, nós conseguimos conversar com representantes do governo para estabelecer contato sobre o que está acontecendo no projeto e nos informar sobre a questão.

J: Quais os efeitos dessa organização?
A: Através dessa mobilização, conseguimos junto ao governo o embargo do início da obra até o ano de 2020, pois o juiz verificou que não haviam estudos adequados sobre os impactos ambientais causados pela obra. E quando esse limite for atingido, iremos procurar novamente o embargo da obra.

J: Se a barragem estivesse funcionando, o que aconteceria?
A: Toda a área da comunidade indígena e dos ribeirinhos seria inundada, e nós não teríamos como nos manter com a caça, pesca ou agricultura. Não disseram para onde vamos. Não haveria como manter nossa cultura. 



J: Há esperança de vencer essa causa e manter a sobrevivência do grupo em seu território?
A: Nós nos sentimos pequenos diante de grupos tão grandes, empresas e governos (e o governo na maioria das vezes fica ao lado das empresas), mas ao mesmo tempo temos ânimo para lutar, precisamos lutar. Os grupos que enfrentamos são muito fortes, mas a vontade de manter nossa cultura é maior.

J: Como os estudos podem lhe ajudar nesse processo de luta, e na causa de sua tribo?
A: Vejo a oportunidade de adquirir conhecimento como uma ferramenta para ajudar minha tribo, meu povo. Pretendo atuar um dia como advogado e, dessa forma, auxiliar melhor o meu próprio povo nessa luta e em todas as outras.

O drama dos Mundurukus e a perda sistemática de suas terras


J: O que vocês esperam em relação ao governo e aos outros grupos?
A: Nós só queremos manter nossa própria cultura, sem depender dos outros. Queremos nossa própria dignidade e o direito de cuidar de nós mesmos, viver do nosso modo e manter nosso território. 

J: Que mensagem deve ser levada aos demais, inclusive aos que não vivem na região? 
A: É importante que nós tenhamos apoio, que as pessoas saibam do que está acontecendo. Queremos exercer nosso direito de sobreviver, de manter nossa cultura e seguir nossa vida. Sem apoio, vai ser difícil vencer.

No vídeo, informações essenciais sobre o projeto do Complexo do Tapajós

Conclamamos a todos para se unirem ao Avante na luta em favor dos Mundurukus, dos ribeirinhos, de todo o povo da cidade de Itaituba e pela Amazônia!

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