segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Por nós e por nossos filhos



Por Léia Guimarães Sampaio

Há 30 anos atrás, no dia 3 de dezembro de 1984, o vazamento de cerca de 40 toneladas de gases tóxicos utilizados na fabricação de pesticidas resultou na morte de mais de 30 mil pessoas na cidade de Bophal, na Índia. Estima-se que cerca de 150 mil outros habitantes foram afetados por doenças degenerativas em decorrência do acidente, ocorrido nas dependências da corporação Union Carbide, posteriormente adquirida pela Dow Química.
O local nunca foi completamente descontaminado e até hoje apresenta riscos à população. A Dow se recusa a fornecer informações mais detalhadas sobre os componentes propagados, e segue hoje como uma das 6 gigantes que dominam o mercado de venenos e sementes transgênicas, tendo faturado U$ 60 bilhões em 2012.
Por isso esta data foi escolhida para marcar uma série de mobilizações pelo mundo contra o uso de
agrotóxicos e por uma agricultura que esteja em sintonia com a natureza.
Na maioria das vezes, compramos alimentos dos quais ignoramos a procedência, e os agrotóxicos podem estar presentes desde as mais baixas escalas de produção até a de grandes latifúndios. O seu uso em todo o mundo tem gerado inúmeros impactos negativos, tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana, pois como se sabe e o próprio nome já diz, são tóxicos, e substâncias presentes neles foram usadas como arma química durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã.
As estimativas feitas pelas agências internacionais de saúde são extremamente preocupantes, tanto para os problemas de contato direto com consequências imediatas (inclusive a morte), como para os problemas crônicos determinados pelo contato direto e indireto com produtos muitas vezes de baixa toxicidade aguda e por tempo prolongado.
Em 2013, o mercado de agrotóxicos movimentou aproximadamente US$11,5 bilhões. O Brasil é o campeão mundial no uso de agrotóxicos no cultivo de alimentos, e o Estado de São Paulo é o maior fabricante e consumidor no país. Cerca de 20% dos pesticidas fabricados no mundo são despejados em nosso país. Um bilhão de litros ao ano: 5,2 litros por brasileiro! O governo brasileiro estimula o setor através de isenção fiscal – os agrotóxicos têm 60% de isenção do ICMS, e muitos ainda possuem 100% de isenção do IPI, PIS/PASEP e COFINS. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o uso dessas substâncias é da ordem de 3 milhões de toneladas/ano, expondo, só no meio agrícola, mais de 500 milhões de pessoas.
O mais intrigante é que aqui no Brasil é autorizado o uso das substâncias mais perigosas, já proibidas na maior parte do mundo por causa dos danos que provocam. O poder das transnacionais que produzem agrotóxicos permite que o setor garanta a autorização desses produtos danosos nos países menos desenvolvidos, mesmo já tendo sido proibidos em seus países de origem.
Os pesticidas causam sérios riscos ao meio ambiente e à saúde do ser humano. Aplicações de pesticidas em lavouras podem contaminar lençóis freáticos e rios, levando à morte de seres que vivem nesses locais. Quando utilizado excessivamente provocam na praga uma resistência cada vez maior a esses compostos, o que leva à necessidade de usar doses maiores e produtos mais fortes. Contribuem com o empobrecimento do solo, já que a utilização de pesticidas reduz a eficiência da fixação de nitrogênio realizada por micro-organismos, o que faz com que o uso de fertilizantes seja cada vez mais necessário. A planta também sofre impactos com o uso de pesticidas, já que isso afeta sua estrutura física, bem como seu metabolismo. O ser humano, evidentemente, é também é muito prejudicado pelo uso de agrotóxicos, tanto para os que manipulam, quanto para os que consomem alimentos cultivados com essas substâncias.
Muitos agrotóxicos apresentam em suas composições substâncias chamadas “xenoestrogênios”, causando um impacto negativo muito grande na saúde humana*. (Para saber mais sobre este assunto, acesse: http://www.nossofuturoroubado.com.br/old/ciclo.htm)
Os agrotóxicos podem causar mutações genéticas que afetam a terceira geração daqueles que tiveram contato com o tóxico, mesmo que os descendentes não tenham tido nenhum contato. Várias pesquisas científicas comprovam os muitos impactos nas vidas de trabalhadores rurais, consumidores e demais seres vivos, revelando como desencadeiam doenças como cânceres diversos, problemas durante a gestação, como a morte de fetos, defeitos de nascença, problemas de desenvolvimento neurológico, diminuição do tempo de gestação, pouco peso do bebê, má-formação fetal, problemas hormonais, estresse, ansiedade, disfunções neurológicas, como autismo, transtorno bipolar, convulsões, mal de Alzheimer,transtorno do déficit de atenção com hiperatividade em crianças.
Os casos anuais de intoxicações agudas não intencionais nos países mais pobres são estimados em 1 milhão, com 20 mil mortes. As intoxicações crônicas, embora de mais difícil avaliação, são estimadas em 700 mil casos/ano, com 37 mil casos/ano de câncer em países em desenvolvimento e 25 mil casos/ano de sequelas persistentes. Em muitos países desenvolvidos, as informações sobre mortes e intoxicações agudas por pesticidas já são controladas.
A intoxicação pode ocorrer por várias vias:
Via dérmica – penetração pela pele. É a mais frequente e ocorre: pelo contato direto com os produtos; pelo uso de roupas contaminadas; pela exposição à névoa do produto, formada na aplicação.
Via digestiva – é a penetração do produto pela boca, agregado há alimentos ou água;
Via respiratória – o produto penetra pela respiração e atinge os pulmões.
A afirmação de que a produção de alimentos com agrotóxicos é mais barata não se sustenta, pois os custos sociais e ambientais são incalculáveis. Somente em tratamentos de saúde estima-se que para cada real gasto com a aquisição de pesticidas, o poder público desembolsa R$ 1,28 para os cuidados médicos necessários. Essa conta, todos nós pagamos sem perceber.
É preciso solucionar este mal através de uma gradual e crescente mudança do sistema atual para um novo modelo baseado no cultivo orgânico, mantendo o equilíbrio do solo e a biodiversidade. Existem muitas experiências bem-sucedidas em nosso país e em todo o mundo, que comprovam a viabilidade desse novo modelo.
A opção (ainda restrita aos que podem pagar por ela, infelizmente) são os alimentos orgânicos. Outro procedimento que pode ser adotado é o de sempre lavar frutas, legumes e verduras, independentemente da sua procedência. Uma solução, indicada pelo Dr. Lair Ribeiro, que garante que ela elimina os agrotóxicos dos alimentos, é comprar tintura de iodo 2% em farmácia, e misturar com água para os vegetais de molho por uma hora – proporção: 5ml de iodo para cada 1 litro de água. Após o tempo de molho, descarte a água, lave os vegetais e consuma-os normalmente.

Por um Brasil e um mundo livre de agrotóxicos, abrace essa causa pelo bem da sua saúde e da saúde das nossas futuras gerações.
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