sexta-feira, 5 de outubro de 2018

O Brasil precisa respirar, o Brasil precisa de Ciro Gomes

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Há mais de quatro anos, o Brasil enfrenta um processo de grave recessão econômica e uma regressão social agravada desde 2016. Aumento da mortalidade infantil, agravamento dos índices de violência, informalidade extrema no mercado de trabalho, precarização, retorno de doenças que haviam sido praticamente erradicadas, radicalização do debate político, desvalorização salarial e perda de poder de compra e inúmeros outros problemas demonstram que nosso país está não numa situação de estagnação, mas de regressão explícita.

Nosso país precisa retomar o fôlego, respirar. É preciso oxigenar as instituições políticas e a sociedade como um todo. Dos três cenários possíveis, Haddad, Bolsonaro e Ciro, só essa terceira alternativa permitirá essa retomada de um rumo há muito perdido.

Com um contexto imensamente favorável, amplo apoio e recursos disponíveis para realizar as profundas transformações tão necessárias ao país, Lula não foi capaz (ou simplesmente não quis, ou foi impedido) de realizar esses processos. Hoje, sem um contexto favorável, sem apoio e, mais importante, sem capital moral para fazê-lo, com um profundo desgaste da imagem do partido, é praticamente impossível acreditar que Haddad será capaz de concretizar essas transformações.

Bolsonaro, o líder das pesquisas, é o exemplo prático do político demagogo, do velho que se veste de novo. Vendendo-se como um outsider, um político diferente (um "antipolítico") e possuidor de uma excelente moral que o diferencia do "resto", a verdade é que o candidato do PSC possui uma prática histórica dissociada de seu discurso: votos em favor do aumento dos próprios salários, rejeição de pautas benéficas ao trabalhador e gozo de benesses injustificáveis enquanto ele mesmo adota um discurso radicalmente austero - para os mais pobres, é claro -, sumarizado em sua máxima de que "ou as pessoas abrem mão de seus direitos e conseguem trabalho, ou mantém seus direitos e ficam sem trabalho". É mais do mesmo, definitivamente.

Nem Bolsonaro nem Haddad teriam estabilidade no poder. O primeiro, por ser escorado por um militar que claramente não respeita a figura do próprio candidato, um "vice" que já assume protagonismo e incita uma nova Constituição (forjada por um clube a ele relacionado e imposta à população) e mesmo uma tomada de poder por parte dos militares (sem falar na completa desestruturação entre Mourão, Guedes e Bolsonaro); o segundo, por enfrentar um radicalismo antipetista fortíssimo, o que provavelmente se transfiguraria em uma câmara completamente travada e hostil.

O altíssimo nível de rejeição aos dois candidatos é também um grave problema:nenhum dos dois, caso vitoriosos, contaria com ampla aceitação popular. Seriam governos das metades, dos polos - ambos se intensificando.

A única opção para um revigoramento político, dentre as três alternativas disponíveis, é Ciro. Ele não dispõe da rejeição notada em Haddad e Bolsonaro e, mais provavelmente, teria um ambiente menos arenoso para governar. Além disso, não possui uma figura politicamente fraca (como Manoela D'Ávila) nem traiçoeira (como Mourão), tendo muito mais estabilidade para governar, tanto por parte do grupo que o cerca quanto de forças externas. E, como já disse anteriormente, ele é o único que pode distensionar a polarização entre petismo e antipetismo.

Ciro une o discurso à prática concreta. Diferentemente de Bolsonaro, cuja moralidade política reside só na retórica, Ciro se desfez de vários benefícios políticos que, mesmo sendo legais, ele mesmo considera como inadmissíveis - diferente do candidato do PSC que, repetindo discurso de moralismo político, justifica receber auxílios moradias milionários porque "isso está na lei". E, diferente de Haddad, possui condições morais de repassar para o campo da prática aquilo que vem falando, principalmente porque já colocou em prática algumas de suas propostas antes mesmo de ser eleito (ele retardou o desmantelamento da Embraer).

Em qualquer um dos dois cenários, Haddad e Bolsonaro, a situação socioeconômica do país se agravará (com Bolsonaro, há um elemento ainda pior: o esfacelamento completo a democracia, que é uma possibilidade real com ele e Mourão em suas costas) - no caso e Bolsonaro, as bolsas de valores podem inicialmente responder com alta, o que não será traduzido numa melhora real para o país e que se desintegrará em poucas semanas ou meses. Com Haddad, o terrorismo financeiro será forte e a impraticabilidade da governança será visível.

É preciso eleger Ciro porque é preciso reverter ou ao menos redirecionar os rumos políticos do país. Isso não será feito com o Partido dos Trabalhadores, que não realizou a tarefa mesmo dispondo de mais de uma década de governos contínuos, e não será efetivado por Bolsonaro, que não tem nem interesse nem capacidade para operar isso.

Qualquer cenário diferente da vitória de Ciro será um cenário de continuação e prolongamento da crise. E o Brasil não suportará mais quatro anos de recessão. Em termos temporais gerais, oito anos é uma faixa insignificante de tempo, principalmente dentro da história humana; mas, em termos de uma economia cada vez mais globalizada e competitiva, oito anos de crise e recessão equivalem a décadas de retrocesso e agravo. E tempo é algo que jamais pode ser recuperado.

Em termos eleitorais, é preciso olhar mais para o que as figuras políticas representam do que para seus gestos isolados. Bolsonaro representa um projeto de retrocesso e continuísmo disfarçado de novidade, graças a uma boa dose de demagogia e moralismo - ele é, em termos práticos, a continuidade e o aprofundamento do governo Temer. Haddad significa um saudosismo dos "anos dourados" que não voltam mais, e a eterna projeção da "mudança petista" (uma mudança que não se traduz na realidade). Ciro personifica a junção entre experiência política, dinamismo e capacidade real para vislumbrar mudanças significativas - ele não vive do futurismo demagógico do bolsonarismo, nem do saudosismo haddadiano, mas a projeção racional e realista do quadro atual para a permissão de um projeto de Brasil. 

Neste domingo, a decisão mais prudente é optar por Ciro Gomes, que pode tanto derrotar Bolsonaro quanto Haddad num eventual segundo turno. Na hipótese contrária, minhas descrições aqui serão reais, mesmo que extremamente pessimistas.

 
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quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Por que Ciro é a única alternativa para controlar a radicalização?

Por: Jean A. G. S. Carvalho





Na reta final desse que é o processo eleitoral mais importante desde a Redemocratização do país e numa polarização cada vez mais acirrada e frenética, é preciso ser bastante claro e direto: Ciro Gomes é o único nome com capacidade real para retirar a tensão do debate e reequilibrar o ambiente sócio-político no Brasil atual.

Dentre Bolsonaro, Haddad e Ciro (os três nomes com chances reais para a presidência), a terceira opção é a única com consistência, força suficiente e ferramentas adequadas para trazer um pouco de sanidade ao debate político e à institucionalidade da República.

Basta fazer algumas projeções simples: tanto com Haddad quanto com Bolsonaro, a polarização será intensificada e a chance distensionar o ambiente político será praticamente nula. Isso significa uma atmosfera impraticável tanto para a proposta quanto para o debate - e a própria governabilidade.

É possível inclusive caracterizar essa polarização não mais como Esquerda versus Direita, mas como Petismo versus Antipetismo. E a eleição ou manutenção de qualquer um desses pólos significa um reforço de seus respectivos antônimos. 

A eleição de Bolsonaro acabaria por reforçar a retórica petista (basta lembrar que, ao invés de ser soterrado, o PT teve um novo vigor após o Impeachment) assim como a eleição de Haddad intensificaria a retórica antipetista, já que o bolsonarismo só tem vigor pela rejeição ao PT - assim como o que ocorreu em torno de Aécio Neves). 

Não são os "valores morais", o "conservadorismo" ou a "família tradicional" os motores, o leitmotiv em torno de Bolsonaro, mas sim o simples espírito de oposição ao Partido dos Trabalhadores (e a Lula, em especial).

Em relação a um futuro cenário com Haddad, vale a pena fazer o seguinte questionamento: se, com grande capital moral (apoio popular + uma imagem diferente dos partidos convencionais), apoio político e contexto economicamente favorável o Partido dos Trabalhadores não foi capaz de plasmar para a realidade concreta suas principais pautas, Haddad vai conseguir fazer isso sem dispor de nenhuma dessas ferramentas?

É preciso levar em conta que a rejeição dessas duas figuras é altíssima e, ambos, governariam com uma oposição de praticamente metade da população brasileira, além de inúmeros entraves dentro das próprias instituições - aos dois, falta a tão aclamada "governabilidade". Seriam governos imensamente conturbados, entravados, disfuncionais.

Nem Haddad nem Bolsonaro representam alternativas de enfrentamento sério ao Establishment. Foi no apogeu do PT que as instituições financeiras e as elites político-econômicas dominantes mais se reforçaram, inclusive as mesmas elites que, após esse reforço de poderio, promoveram o Impeachment e às quais o PT já se alia novamente, demonstrando uma quase que total incapacidade de aprendizado e autocrítica. 

Bolsonaro tem em si mesmo um repetir o do neoliberalismo mais radical e superficial possível (Paulo Guedes), além de não fazer nenhuma menção ao mínimo de mudança na lógica econômica atual. Segundo ele mesmo, a profissão de banqueiro é uma dentre muitas, "uma profissão que tá aí". Tanto com ele quanto com Haddad é certo que o direcionamento da economia e da produção nacionais continuará sendo o do favorecimento da dívida e da especulação, ou seja, crise e recessão como um pano de fundo contínuo.

O único que consegue uma retórica mais positivamente agressiva contra essas elites e esses interesses é Ciro. É nele que essa retórica encontra alguma projeção para a realidade. Com Haddad e o PT, sabemos que essa fraseologia é mera retórica e não será aplicada; com Bolsonaro, isso sequer entra na pauta.

Ciro conta com a menor rejeição dentre os três e, visivelmente, não se alimenta nem depende do petismo nem do antipetismo. Ele teria, de modo claro, condições mais saudáveis para governar, tanto em relação à população quanto em relação às instituições. 

Sua eleição significaria um respiro, um fôlego à atmosfera sociopolítica no Brasil. Sendo eleito, ele enfraquece tanto o bolsonarismo (que depende da "hegemonia" do PT para sobreviver) quanto a ânsia de protagonismo do Partido dos Trabalhadores que, hoje, é um dos maiores entraves às outras alternativas ao neoliberalismo.

Eleger Ciro Gomes é um imperativo para a sobrevivência do país e para um mínimo de expectativa de restauração política e retorno a um mínimo de funcionalidade institucional num ambiente no qual as funções e os processos mais simples têm se tornado cada vez mais impraticáveis.

A carreira política de Ciro Gomes não é e nunca foi pautada na polarização, muito menos no radicalismo antipetista, ao qual ele não recorreu quando a simples hostilização ao PT já garantiria enorme eleitorado, nem ao discurso petista, ao qual ele também não aderiu mesmo quando seria pessoalmente conveniente (ele rejeitou participar do segundo governo Lula, rejeitou participar do governo Dilma e rejeitou participar da chapa com Lula como vice). 

A maturidade política dele o permite, ao mesmo tempo, criticar o Impeachment e criticar os erros estratégicos dos governos petistas; seu capital moral o torna apto tanto a mostrar os perigos do bolsonarismo político quanto do senso de protagonismo petista, sem deixar de agir como um republicano democrata e, principalmente, sem ser um demagogo sem posicionamentos. E esse é um ponto importante: a capacidade de diálogo que ele demonstra, diferentemente de Marina, não se dilui em arenosidade, já que ele mantém ideais claros e fidelidade às propostas que defende.
 
A vitória de Ciro é uma vitória pelo Brasil e contra a polarização insustentável e suicida que já está levando toda nossa sociedade ao colapso.



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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Alckmin: o pai que rejeita o filho

Por: Jean A. G. S. Carvalho


Fonte da foto: Revista Forum


A campanha presidencial de Geraldo Alckmin tem girado em torno de uma retórica simples: a luta contra a polarização entre Bolsonaro e o Partido dos Trabalhadores. Alckmin não é o único a usar essa retórica, mas é o que o faz com  maior cinismo e, definitivamente, é o que possui menos moral para usar esse recurso.

Antes de qualquer coisa, é possível salientar que a polarização não é mais, necessariamente, entre Esquerda e Direita, mas sim entre Petismo e antipetismo. Nesse segundo grupo, o PSDB materializava a hegemonia no campo antipetista e reforçou esse antipetismo ao grau mais elevado. 

Quando Geraldo Alckmin concorreu contra a reeleição de Lula, essa polarização já estava evoluída. Não é uma invenção de Bolsonaro que, obviamente, não possui condições intelectuais para criar algo do tipo, sendo um mero repetidor ou reagente de tendências, e não um criador delas.

O próprio Bolsonaro votou em consonância com o PT. Na eleição em que Enéas Carneiro concorreu contra Lula, este grande "antipetista" votou em Lula. O antipetismo de Bolsonaro é um fenômeno observado majoritariamente a partir do segundo mandato de Dilma, reforçado na preparação do Impeachment e aprofundado após o início do governo Temer. Já a oposição do PSDB é histórica e muito mais antiga do que isso.

Se a polarização entre o PT (hoje representado por Haddad)  Bolsonaro é uma bomba relógio, Alckmin definitivamente não é o desativador desse explosivo. Sua moral para convocar a "pacificação" do Brasil é zero. Aliás, Bolsonaro pode ser considerado como uma "cria do PSBD", que fomentou a retórica ideal para promover o crescimento deste e de outros políticos medíocres, cuja única plataforma é a retórica contra Dilma e Lula e, de modo mais genérico, o "marxismo cultural", o "esquerdismo".

Alckmin e o PSDB perderam o protagonismo no antipetismo. Primeiro, o PSDB foi incapaz de vencer o PT por meio de eleições presidenciais; depois, com o fracasso de Aécio em vencer as eleições, o partido foi incapaz de fazer uma oposição real ao PT (Aécio estava ocupado com seus próprios esquemas de corrupção); assim, a nova estratégia foi estimular o Impeachment de Dilma, que ajudou a aprofundar essa polarização. E, agora, sem manter o controle do processo, Alckmin e o PSDB veem Bolsonaro e outras figuras da mesma estirpe tomando para si o protagonismo.

Alckmin não se frustra com a polarização. Ele se frustra por não mais deter controle sobre ela. Se as instituições e as garantias republicanas estão correndo perigo (principalmente por conta de declarações antidemocráticas de figuras como Bolsonaro e Mourão), a responsabilidade recai, em grande parte, nele e no PSDB, que alimentaram as crias que hoje se recusam a reconhecer como deles.

 
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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Daciolo e a política do Brasil Profundo

Jean A. G. S. Carvalho



Para o bem e para o mal, o Brasil é o país do misticismo político (a política movida por medos do desconhecido, a luta contra o imaginário, as emoções e reações instintivas, as paixões). E, dentro dessa realidade,  a figura com a maior mística é, definitivamente, a de Daciolo.

Num ambiente extremamente polarizado, talvez, hoje, pautado mais no petismo versus o anti-petismo do que necessariamente entre Esquerda e Direita, ou a análise política se alia ao bloco quase monolítico do anticapitalismo de um esquerdismo que rompe com todas as noções morais, ou de um setor quase que totalmente heterogêneo, onde o discurso (sempre superficial) em nome dessas noções morais vem acompanhado da tônica mais radicalmente capitalista possível, Daciolo consegue romper com esse paradigma.

Vindo de um ativismo profundamente grevista e de defesa de setores do serviço público como policiais e militares do corpo de bombeiros do Rio de Janeiro e com projetos de base para prevenção de criminalidade voltados aos jovens de favelas cariocas, Daciolo é uma das melhores representações do Brasil Profundo, o Brasil real. Ele é, de fato, um conservador, não um direitista moralista; e é, definitivamente, um proletário, não um intelectual do Leblon que só se interessa pela pobreza em rodas de sarau. 

Ele é, ao mesmo tempo, incrivelmente conservador e fundamentalista, sem se tornar reacionário. Entre suas falas de denúncia à maçonaria mundial e aos Illuminati, ele faz declarações críticas contra a elite bancária, a casta política e as profundas desigualdades sociais; enquanto condena o aborto, defende as cotas sociais e raciais e a maior participação e valorização da mulher em todos os segmentos sociais, inclusive o da política.

Crítica o luxo da classe política e dos mais ricos sem defender, ao mesmo tempo, uma austeridade genocida contra os mais pobres - e que nunca atinge esses ricos. Alia, ainda, uma profunda síntese trabalhista e afeita aos programas sociais mais básicos.

Daciolo conseguiu capturar a retórica que, antes, era propriedade exclusiva da Direita antipetista e, ao mesmo tempo, as pautas sociais que pertenciam quase que totalmente à Esquerda. Ele percebeu o que nenhum dos "grandes intelectuais" do conservadorismo, do anti-petismo e da Direita jamais perceberam: é possível combater o "esquerdismo" sem condenar o povo e sem negar-lhe direitos básicos.

Ele percebeu que é possível defender pautas moralmente conservadoras sem precisar se prostituir ao capitalismo.

Diferente da plataforma do candidato do PSL, Daciolo não fomenta a radicalização dentro da população. Ele tem um discurso profundamente contrário ao "esquerdismo" (no campo moral), mas não faz insinuações sobre fuzilar essas pessoas, mandá-las para outros países ou incitar o ódio contra elas. Ele é profundamente religioso, cristão (neopentecostal), mas não se refere de modo depreciativo, ao menos na campanha, às demais religiões.

Daciolo consegue manter um discurso profundamente radical sem ser, ele mesmo, um radicalista. Além disso, o partido PATRIOTA foi extremamente inteligente em insistir numa eleição presidencial: independente do resultado, para Daciolo as eleições já são uma conquista, porque a propaganda está sendo feita e o partido tem a oportunidade de criar uma plataforma independente da retórica superficial e suicida da Direita liberal. Talvez seja o ponto de observarmos uma estrutura partidária conservadora e trabalhista, ao mesmo tempo.

Ele, em si mesmo, conseguiu romper todos os paradigmas ideológicos e fronteiras retóricas, e essa ruptura pode ser resumida na seguinte soma: moral + trabalho.


 
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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Ciro e o algoritmo Luiz Nicolas

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Fonte da imagem: G1/Globo


 "Luiz Nicolas M. P. lpetri: Ciro, o que o senhor reafirma sobre o que o senhor disse sobre os brasileiros que fizeram aquela manifestação lá na fronteira [com a Venezuela], que chamou os brasileiros de canalhas, desumanos e grosseiros?
 Ciro Gomes: Vai pra casa do Romero Jucá, seu filho da p*** [...] Esse aqui é do Romero Jucá. Tira ele, tira ele, prende ele aí"



Trecho de transcrição do vídeo no qual Ciro se confronta com um "aríete jornalístico" chamado Luiz N. M. P. Ipetri.

Em  termos de debate político, há uma migração da Grande Política (as questões de Estado, a geopolítica, a economia, as relações internacionais, a resolução dos paradigmas nacionais/domésticos, etc.) para a Pequena Política (intrigas, discussões, provocações). Ou seja, é o condicionamento da Política à contingência - os tiros, a facada, o empurrão, o palavrão.

Cada um dos candidatos enfrenta, na corrida presidencial, uma série de obstáculos. É claro que esses obstáculos variam para cada um deles. Alguns, como Alckmin, não enfrentam grande oposição do establishment - no caso dele, é sua própria imagem, sua persona, seu maior entrave eleitoral.

Outros, como Marina, enfrentam a ondulação constante (ela inicia os processos eleitorais com boa porcentagem de votos para, depois, vê-los vaporizados no tempo); há ainda aqueles que funcionam como undeads políticos - nem mortos, nem vivos, indiferentes no processo eleitoral (como Meireles e Amoedo).

Há aqueles cuja tônica os torna objetos caricaturais, como Daciolo (que, quando comparado a Bolsonaro, se transforma num patriota infinitamente superior - e, pasme, com muito mais noção da Política Real, por incrível que possa parecer), tornando-os folclore eleitoral. 

Já para Haddad, o maior obstáculo é também seu melhor elemento facilitador: a associação ao nome de Lula, o que lhe dá tanto uma popularidade instantânea quanto uma imensa rejeição - sem falar na pressão em ser comparado ao ex-presidente que, se ainda estivesse no páreo, seria o ganhador inconteste.

No caso de Bolsonaro e Ciro, as maiores dificuldades estão no campo das provocações.  Os dois são atacados por setores do establishment - mas devo deixar bem explícito aqui que as duas figuras não estão no mesmo nível, já que o primeiro não é um elemento de mudança estrutural ou desafio real ao establishment, mas um simples emissor de frases de efeito sem efeito prático para as estruturas de poder (quando questionado sobre os bancos e os banqueiros, ele se limitou a dizer que "banqueiro é uma profissão que tá aí"), enquanto que o segundo, Ciro, é de fato um ponto de entrave a essa estrutura - ao menos em parte.

Quando eu afirmo que Bolsonaro é um hospedeiro para Paulo Guedes, cuja missão é efetivar a desestruturação e a venda do Brasil ao erário estrangeiro, fazendo-o por meios "legais" (uma figura presidencial manipulável), estou constando fatos observáveis. A [lamentável] facada em Bolsonaro é a contingência política aplicada como "efeito colateral" inesperado, ausente no script; ele não é realmente odiado pelas elites econômicas.

Há outros meios de esfaquear alguém, inclusive em sentido metafórico. Luiz Nicolas M. P. lpetri é um desses meios. Ele foi a faca usada por Romero Jucá, pelo DEM e por Chico Rodrigues (que concorre, pelo DEM, ao Senado pelo estado de Roraima) para atingir Ciro. O "repórter" Luiz Nicolas é, ele mesmo, um agente político da campanha de Chico, um aliado de Romero Jucá, um dos fósseis mais simbólicos da corrupção endêmica do Brasil e da feudização de Roraima.

Petri é dono da Saldo Positivo Comunicação e Marketing. De acordo com registros do Tribunal Superior Eleitoral, a agência recebeu R$70000 para produzir conteúdos (como jingles) para a propaganda de Chico Rodrigues. Ele trabalha pela TV Tropical, uma afiliada do SBT que opera em Roraima e que é propriedade de Luciano Castro, do PR.  

O clã Jucá tem duas transmissoras filiadas à Record e à Bandeirantes, operantes em Boa Vista - A TV Imperial, que retransmite o sinal da Bandeirantes, em nome de Marina de H. Menezes Jucá, e a TV Caburaí, que retransmite a Record, em nome do ex-deputado estadual Rodrigo Jucá.

O DEM e o PR fazem parte da coligação pró-Alckmin, também composta por PP, PTB, SD, PSD, PRB, PPS e, claro, PSDB. Somados, os partidos deram ao "hiper carismático" candidato tempo suficiente pra transformar toda propaganda eleitoral em quadros de curtas-metragens que, talvez, possam competir nos festivais de Cannes. 

Alckmin e Jucá, aliás, repetidores dos mantras de Temer, agora se colocam convenientemente "contra" sua figura. Jucá foi o testa de ferro usado para empurrar as "reformas"; ele foi a ponta de lança de Michel para os processos da base do governo na câmara. 

O MDB (o novo acrônimo para a velha hoste política do PMDB), pelo qual Henrique Meirelles concorre à presidência, é o partido de Jucá. É óbvio que o projeto econômico de Ciro é um antônimo do projeto de Meirelles/Temer e que, por conseguinte, é o projeto de Jucá. 

Mas a chapa de Meirelles, formada também pelo PHS, deve ser vista como um anexo, uma extensão da chapa do PSDB para Alckmin. Meirelles não está concorrendo a sério - ele precisa ocupar uma vaga como representação do neoliberalismo porque, ocupando-a, tira o posto para um possível opositor desse projeto. 

Tome as "fantásticas ideias econômicas" de Meireles, Guedes (que é o verdadeiro candidato, e não Bolsonaro), Alckmin e do próprio Amoedo e você perceberá que elas são a mesma coisa em essência.

Quando o "jornalista" fez a pergunta a Ciro no evento em Roraima, ele beneficiou - ou intencionou beneficiar - ou Jucá, ou Alckmin. E, em extensão, os eleitores de Jair que, abandonando toda a retórica de pulso firme e "sinceridade", passaram a incorporar a etiqueta típica de lordes ingleses no chá da tarde e, agora, mostram a "agressividade" de Ciro.

No vídeo da suposta "agressão", é possível perceber que ela não existiu. Ela foi verbal, é óbvio, mas não física. É uma clara tentativa de arremeter um aríete contra Ciro. Mas o ato não parece ter surtido grande efeito, já que o eleitorado do candidato permanece mesmo decidido e os indecisos não parecem afetados pelo episódio. Só os inimigos da casa, os inimigos de sempre, é que arrotam a "vitória" inexistente.

É bastante claro que, tanto Ciro quanto Bolsonaro (ressalvando as devidas proporções) precisam controlar mais as próprias reações: Ciro deve fazer isso para conseguir concretizar seu projeto de desenvolvimento para o país, e Bolsonaro deve conseguir manter a pose caso Guedes queira ter chances reais de vender o Brasil. 

Há hipóteses de que o "jornalista" Luiz tenha recebido mais de R$120000 diretamente de Jucá para fazer a pergunta. 

Em tempo: o androide Ricardo Lewandowski, atualmente ocupando o lugar de algoritmo, quer dizer, ministro do Supremo Tribunal Federal, arquivou, no dia 14 desse mês, arquivou o inquérito contra Renan Calheiros e Jucá (os dois são do PMDB/MDB e figuras próximas). 

A blindagem contra as facadas políticas já foi feita para a casta.


 
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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Quem é Paulo Guedes?

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Foto: ElPaís Brasil

É preciso "ignorar" Jair. Quando falamos em termos de Política Real (Realpolitik), ele é irrelevante e representa o vazio. A verdadeira figura em sua campanha é Paulo Guedes. Esse deve ser o projeto de análise, o foco, o ponto central das observações em relação a essa candidatura.

Essa figura, na qual Jair confia cegamente - e cuja relação entre os dois ele chega a comparar a um "namoro" ou a um "casamento" (uma relação homoeróticopolítica - algo estranho para quem tenta forçar uma imagem radicalmente conservadora), é o verdadeiro nexo e o real responsável pela guinada em Bolsonaro, saindo do ultranacionalismo dos anos 80-90 e migrando para o neoliberalismo mais radical - uma proposta liberal que faria FHC parecer um comunista inveterado.

Guedes, elogiado pelos seguidores do capitão da reserva como o "maior economista do Brasil" ou "um gênio econômico" que "dá aulas" (repetindo mantras que seriam mais típicos de memes de páginas liberais), é algo mais profundo - e perigoso - do que isso. É essa a análise que farei aqui, uma "dissecação" do corpo chamado Paulo Guedes e seus órgãos, funcionalidades e efeitos reais. 

Formação e linhas teóricas

Para analisar Guedes, é preciso analisar elementos anteriores a ele, dos quais ele é mero repetidor e funcionário.

Paulo Roberto Nunes Guedes é um dos vários economistas que seguem a cartilha da ortodoxia pregada tanto pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) quando pelos Acordos de Bretton Woods - a cartilha para as regras de economia global criada em julho de 1944, onde gurus da economia se reuniram no Hotel Mount Washington, em New Hampshire, EUA.

Basicamente, o acordo definiu que as nações deveriam adotar políticas monetárias mantendo a taxa de câmbio das moedas num valor indexado ao dólar (na prática, foi a adoção do dólar como moeda global, fator crucial para o protagonismo e a hegemonia dos EUA, principalmente no pós-guerra). 

No governo de Richard Nixon, houve uma suspensão unilateral do acordo e o cancelamento da conversibilidade direta do dólar para valores em ouro - mas, na prática, isso reforçou a dependência em relação ao dólar e a predominância econômica dos EUA.

O grande objetivo do acordo de Bretton Woods era instrumentalizar e institucionalizar um sistema econômico mundial pautado em premissas liberais, o que era visto como um mecanismo para aumentar as possibilidades de paz depois da Segunda Guerra Mundial (na prática, o efeito foi o inverso e é possível listar inúmeros conflitos geopolíticos movidos pela lógica econômica estabelecida em Bretton).

Cordel Hull foi um dos maiores entusiastas do plano. Ele enxergava a Segunda Guerra Mundial como um "conflito comercial" - e, se o conflito foi de ordem comercial, a pacificação também deveria sê-lo. Hull define a situação nos seguintes termos:

"[...]Comércio sem entraves, associado à paz; tarifas altas, barreiras alfandegárias e competição econômica injusta, com guerra... se conseguíssemos fazer com que o comércio fosse mais livre [...]  no sentido de haver menos discriminações e obstáculos [...] de tal modo que um país não tivesse inveja mortal em relação a outro e os padrões de vida de todos os países pudessem crescer, eliminando, com isso, a insatisfação econômica que alimenta a guerra, teríamos uma chance razoável de paz duradoura.[1]"


Setenta anos depois da declaração de Hull, é plenamente possível dizer que a "paz pelo comércio" se mostrou uma utopia.

Mas, aí mesmo, é possível detectar todos os mantras de absolutamente todos os liberais, fraseologias repetidas à exaustão e transformadas na ortodoxia econômica vendida especialmente para países de Terceiro Mundo, como o Brasil. Estou pegando emprestada uma análise do próprio economista sul-coreano Ha-Joon Chang[2], que afirma haver um discurso montado em torno dessa retórica liberal, usado para desacreditar absolutamente todas as outras linhas e abordagens econômicas e que, inclusive, não condiz com a prática real das nações desenvolvidas (que, curiosamente, são as que mais promovem esse discurso).

Diminuição do Estado, retirada de restrições alfandegárias, redução (ou eliminação) de taxas de importação, desnacionalização da economia - o receituário pregado por Bretton Woods e continuado pelo FMI (basta observar as diretrizes econômicas pregadas pelo Fundo Monetário Internacional e suas condicionantes para conceder empréstimos aos governos: privatizações, medidas de austeridade, abertura econômica, etc. - as "maravilhas" dessa prescrição estão sendo vistas ao nosso lado, na Argentina de Macri, e foram sentidas aqui nos anos 80-90).

Vamos para o próximo estágio: a formação acadêmica de Guedes. Quando afirmo Guedes como um neoliberal, faço uso de um termo criado pelos próprios liberais (ele foi forjado no Colóquio Walter Lippman, inventado por Alexander Rüstow - reforço, mais uma vez: o evento era uma organização de economistas liberais e Alexander era um economista liberal). Não se trata de um termo criado por "comunistas malvados", mas sim pelos próprios liberais para realizar uma ruptura entre o Liberalismo Clássico de Adam Smith e um novo conceito liberal. Ponto.

Guedes não é um liberal smithiano. Ele é num neoliberal, um seguidor da cartilha da Escola de Chicago. Guedes se formou em Economia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), passou pela Fundação Getúlio Vargas em sua pós e fez mestrado na University of Chicago, em 1979. Um excelente currículo, certo? Bem, eu chamaria isso de instrução - instrução no sentido mais tacanho do termo.

Guedes, como toda a geração de economistas que migram de países do Terceiro Mundo para "aprender o segredo do sucesso" em centros de economia localizados nos EUA, aprendeu um receituário simplório, uma "receita de bolo" que gera riqueza "instantânea" - abertura econômica irrestrita, privatizações indiscriminadas, retirada de direitos trabalhistas, anulação de todas as medidas protecionistas, "livre concorrência", etc. 

A Universidade de Chicago é um polo de formação e irradiação de economistas neoliberais. Ela recebe economistas dos países periféricos e prolonga nesses economistas todo o script neoliberal. Eles retornam aos seus países e influenciam seus governos, não sem a ajuda de fortes grupos (Guedes está associado à Open Society, por exemplo), a adotar essa profilaxia milagreira. 

Essa é a missão da Universidade de Chicago e Guedes é um androide fabricado naquela linha de montagem, executando os códigos de programação e os comandos que foram inseridos nele.


A Escola de Chicago

A chamada Escola de Economia de Chicago é uma linha de pensamento vinculada ao liberalismo, iniciada e irradiada na University of Chicago. Apesar de um de seus slogans ser o "debate acadêmico aberto", esse núcleo é radicalmente liberal e vorazmente oposto a quaisquer medidas ou pautas que fujam minimamente desse escopo.

A Escola de Chicago nasceu como uma reação ao modelo econômico Keynesiano. Em termos simples, ela se opõe radicalmente a qualquer ação governamental na economia, a qualquer papel estratégico por parte do Estado e a tudo aquilo que se possa considerar como dificultação ao processo de liberação da economia.

Aliás, essa liberação econômica, nos próprios termos da Escola de Chicago (o que também já era reforçado desde o Liberalismo Clássico), exige a liquefação das fronteiras entre as nações - a convulsão dos apoiadores de Jair com a situação das fronteiras nacionais e a "entrada irrestrita de imigrantes" deveria deixar de existir, já que a linha econômica de Guedes está inteiramente harmonizada com o enfraquecimento das fronteiras e o livre trânsito de pessoas.

Dentre os principais nomes da Escola de Chicago, destacam-se os teóricos Frank Knight, Richard Posner, Gary Becker, Ronald Coase, Milton Friedman, Friedrich Hayek, Robert E. Lucas, Eugene Fama, Lars Peter Hansen, Robert Fogel, George Stigler, D. Gale Johnson e Theodore Schultz, dentre outros mais.

Alguns dos elementos de Guedes se encontram num radicalismo ainda maior que o da Escola de Chicago, a chamada Escola Austríaca, da qual Ludwig von Mises, uma divindade para os liberais, é o maior símbolo. Mas, aqui, os elementos austríacos são muito menos catalisados do que os de Chicago, já que a linha de Guedes e a de grande parte de economistas, mesmo os liberais, não aceita totalmente a leitura austríaca.


Críticas à Escola de Chicago e algumas aplicações práticas da teoria

As críticas à Escola de Chicago e à linha ortodoxa liberal dominante nos centros econômicos não parte exclusivamente de marxistas, mas de economistas do próprio meio acadêmico e do ambiente político que cercam esse núcleo.

Paul Douglas, senador estadunidense do Illinois, chegou a criticar o próprio ambiente acadêmico e o "nível de discussões" na Universidade de Chicago, declarando estar:

"[...] incomodado ao descobrir que os economistas e políticos  conservadores haviam adquirido um domínio quase total sobre o departamento e aprendido que as decisões de mercado são sempre corretas e que os valores dos lucros são os valores supremos [...]. As opiniões dos meus colegas teriam confinado o governo às funções típicas do século XVIII (justiça, polícia e forças armadas), as quais eu via como tendo sido insuficientes mesmo naquela época e que, certamente, continuavam a sê-lo para nós. Esses homens não usavam dados estatísticos para desenvolver a teoria econômica nem aceitavam análises críticas ao sistema econômico [... ] Knight passou a ser abertamente hostil e seus discípulos pareciam estar por toda parte. Se eu ficasse ali, estaria num ambiente hostil "[3].

Não se trata, como podemos ver, de um centro de debate acadêmico e proposição de ideias multifacetadas, mas de orientação, repetição, aprofundamento e doutrinação da ideologia neoliberal em essência. Ponto. Guedes não foi um aluno de Economia, foi um aprendiz da cartilha neoliberal de Chicago. Simples assim. 

Aliás, o já citado Ha-Joon Chang também afirma que esses núcleos acadêmicos de Economia não debatem a Economia num sentido amplo, mas sim repetem os discursos condicionados e aceitos pela cúpula de economistas liberais. É um processo contínuo de autoafirmação de um pensamento.

O grande jogo é afirmar que absolutamente todas as outras linhas são ideologias, e que somente o liberalismo não é uma ideologia, mas sim o reflexo natural e inquestionável do mundo real, dos fenômenos observáveis, enquanto que todas as outras ideias são adulterações da realidade. Mas o próprio Chang já explicitou com inúmeros fatos que a visão e a retórica liberais são, em grande parte, adulterações históricas e negações dos efeitos e fenômenos reais.

É preciso entender o liberalismo não como a economia ou a realidade, mas como uma linha de análise que, como todas as outras, também contém elementos falhos e não reflete nem abarca toda a realidade econômica, muito menos toda a realidade humana.

O que ele pretende aplicar não são proposições condizentes com necessidades mutáveis de mercado, mas sim com um receituário pronto, inflexível e irredutível. Se há um manual dizendo que você vai apagar fogo com gasolina, você o ignora. Paulo não fez isso: sua ideia mirabolante é usar a gasolina no incêndio. E isso será explicado adiante.

O economista Brad DeLong, formado pela University of California, afirma que a Escola de Chicago é um "colapso intelectual" - Paul Krugman, ganhador de um prêmio Nobel e formado pela Princeton University, também diz que os comentários dos economistas de Chicago são "produtos da Idade das Trevas da macroeconomia, na qual o conhecimento duramente adquirido foi rejeitado". Krugman chega a demonstrar que muitas das pesquisas feitas pelos economistas de Chicago em meados dos anos 1960 foram feitas com dados adulterados.

Apesar de ostentar algumas "vitórias" como o dito Milagre Econômico do Chile (que, com boa análise histórica e factual, se mostra não ser tão milagroso assim), grande parte das políticas de Chicago se mostraram negativas em governos como o de Reagan e Thatcher, ambos com forte agravamento do desemprego e da desvalorização do trabalho em preferência ao capital, ao rentismo.

O que vemos agora com o colapso previdenciário do Chile, a crise na Argentina, a ruína da economia grega, as reformas na Espanha, em Portugal e na França - e em outras políticas semelhantes - é, em grande parte, o resultado da aplicação prática das teorias de Chicago.

O México, o quintal estadunidense na Latinoamérica, é um dos exemplos perfeitos dessa metodologia: uma economia extremamente aberta aos EUA, desnacionalizada e com aprofundamento das desigualdades sociais, do narcotráfico e da falência governamental - além de, é claro, não ser nenhuma potência econômica. Grande parte dos países da América Central, em grande parte, também são exemplos disso. 


O reforço do Brasil como país periférico

Paulo Guedes não é o único economista latino formado em Chicago. Aníbal Quijano, importante intelectual peruano, desenha a ideia de Colonialidade do Saber, na qual argumenta que o verdadeiro imperialismo não está exclusivamente no campo da economia ou da força militar direta, mas sim das ideias, da formação das mentalidades.

Para ele, os países desenvolvidos mantêm a predominância intelectual e servem como polos dessa formação, submetendo as nações pobres a uma "dependência mental" em relação a esses polos de saber. Assim, essas nações são obrigadas a "aprender", repetir e adotar ideias que são criadas não por elas, mas por esses polos.

A formação de Guedes numa escola econômica estadunidense e a adoção de uma visão econômica que não foi pensada no Brasil e para o Brasil é uma ilustração perfeita da análise de Aníbal. Somos colonizados na formação econômica e toda nossa história nacional é pautada na dependência de projetos econômicos externos.

No período Colonial, toda nossa matriz econômica foi determinada por Portugal; com a Independência, iniciamos uma fase de submissão econômica à Inglaterra (com um espasmo iniciado por D. Pedro II que, com o Barão de Mauá, iniciou alguma industrialização nacional, devidamente morta na fonte com o início da República, que foi marcadamente um período de re-agrarização do Brasil). 

Com a exceção de pequenos lapsos em determinados momentos, como em D. Pedro II, Vargas e Lula, em projetos sem consistência e continuidade e precocemente interrompidos, toda nossa trajetória econômica é a trajetória da imposição de projetos econômicos que nos são alheios.

É a dependência política, econômica e intelectual.


Breve histórico

O que Paulo Guedes propõe é, quer ele tenha ciência disso ou não, o condicionamento do Brasil como uma nação periférica, marginalista, que, dentro da ideia de Sistema Mundo desenhada por Immanuel Wallerstein, cumpre seu papel de fornecedora de matérias primas baratas numa economia essencialmente agroexportadora. 

As propostas econômicas de Guedes são uma continuidade do governo Temer. O próprio Guedes afirmou que vai manter parte da equipe econômica de Michel Temer

Uma das mirabolantes ideias dele é capitalizar, rapidamente, cerca de R$2 trilhões com a venda de absolutamente todas as empresas estatais do país. Com esse montante, o governo pagaria a dívida e equilibraria as contas fiscais. 

Essa afirmação é falsa, um recurso retórico desonesto de Guedes. Em primeiro lugar, mesmo que todo esse montante da venda das estatais fosse direcionado para o pagamento da dívida, isso seria insuficiente, já que a dívida, hoje, passa os R$3.5 trilhões. E o valor só cresce.

Numa economia desmantelada, o valor das empresas decresce. É impossível assegurar que o valor calculado hoje para um montante de R$2 trilhões será o mesmo na época dessas vendas. A dívida não seria totalmente paga e, descaptalizados e sem condições de captar investimentos externos, nosso governo seria obrigado a adotar medidas suicidas e se submeter ao FMI, adquirindo uma nova e monstruosa dívida.

Essa "ideia genial" do Guedes já foi colocada em prática por FHC com o mesmíssimo discurso e com o mesmo objetivo: pagar a dívida. Mas, estranhamente, ela nunca é paga. E nenhum economista dessa linha terá objetivo real de quitar isso, porque a manutenção dessa dívida é um imperativo geopolítico para anular o Brasil.

Ele pretende aprofundar as medidas de austeridade e de teto de "gastos" - leia-se diminuição do retorno justo dos impostos cobrados e desmantelamento de serviços públicos essenciais. Aliás, austeridade e "limite de gastos" que não inclui a elite política, já que Guedes nunca fala sobre os privilégios políticos e o próprio Bolsonaro afirma que não vai cortar os privilégios salariais da classe.

Guedes foi cogitado para assumir a Fazenda durante o governo Lula (ele chegou a elogiar as medidas econômicas do ex-presidente). Aliás, ele tem profundas ligações com George Soros -  o nome que invoca medo e terror na Direita brasileira, que o associa a absolutamente todos os elementos da Esquerda, mas que está convenientemente ignorando essa ligação com o "Posto Ipiranga" de Bolsonaro. 

Há fortes indícios de irregularidades fiscais envolvendo Paulo Guedes. Ele é sócio do Grupo Bozano, uma empresa do ramo financeiro que é uma sociedade de doleiros ligada a inúmeras operações irregulares e suspeitas de fraudes, com vários nomes envolvidos na Lava Jato pela operação "Câmbio, Desligo".
Guedes se associou a Julio Bozano após este ter vendido seu banco, o Bozano Simonsen, para o Santander, em 2000. Guedes chegou a incorporar a BR Investimentos, que era dele, ao grupo de Bozano, formando a Bozano Partners. Sanchez participou da Assembleia Geral para formar a Partners. Guedes é sócio e membro dos comitês executivo e estratégico.

No período de 29 de janeiro de 2008 a 19 de maio de 2016, o Ministério Público Federal aponta que Sanchez e outros membros do grupo movimentaram U$29,847 milhões em ações no exterior. O grupo Bozano tenta comprovar que não estava envolvido diretamente nas transações ilegais dos doleiros invstigados na Lava Jato.

É muito improvável que Guedes, cuja empresa BR Investimentos foi crucial para a fusão e a criação da Bozano Partners, assumindo cargos de chefia no grupo, não tivesse conhecimento das operações - inclusive por ser um economista tão "fantástico". Se as investigações realmente prosseguirem, não é improvável que o nome dele seja envolvido em algum desses esquemas. 
Aliás, a mídia em geral tem se mantido em silêncio em relação a isso - principalmente porque os grupos de especuladores são quase intocáveis, especialmente no Brasil.
 Além das operações pelo Grupo Bozano/Bozano Partners, Guedes está envolvido em transações na Bolsa de Valores no montante de R$600 mil - operações que, segundo a Justiça Federal do Rio de Janeiro, foram ilegais.

Toda a proposta econômica definida por Guedes depende de um fator: capital externo (ou seja, investimentos estrangeiros). Entretanto, a tentativa de executar um "saldão do Brasil", uma liquidação patrimonial, vem sendo feita desde 2016, com Temer. 
O fracasso se deve a um fator: a economia nacional perdeu confiabilidade no cenário global e os investidores estrangeiros não querem investir num país politicamente instável, economicamente quebrado e sem massa apta a consumir (quase 1/3 dos brasileiros se encontram endividados).

Não adianta transformar o país num brechó instantâneo se não há condições mínimas de atrair investimentos externos. E não adianta atrair investimentos externos sem transformar esses investimentos em conquistas sólidas para o país. Basta observar o papel que o governo de Singapura tem na captação de recursos do exterior e o gerenciamento desses recursos para a população local (o "paraíso liberal" aplica uma receita diametralmente oposta ao receituário de Chicago adotado por Guedes).
Conclusões finais
O plano de Guedes é mais do mesmo. É a mesma fraseologia neoliberal para a Latinoamérica, é a mesma prescrição para manter o Brasil como país de Terceiro Mundo, jamais desenvolvido, com 0% de competitividade global, agroexportador, importador de produtos de alto valor agregado e exportador de commodities baratas.
É possível fazer uma lista das possíveis (e lógicas) consequências do prosseguimento de um plano como esse proposto por Guedes:

- Medidas de austeridade (só pros pobres) 
- Favorecimento do rentismo, da especulação e dos bancos (Guedes nunca fala em cobrar as dívidas dos bancos e do agronegócio - mas os admiradores dele debocham das propostas de Ciro sobre renegociação de dívidas de pobres e da classe média junto ao SPC)
- Aprofundamento da desindustrialização (Guedes não fala absolutamente nada sobre reverter isso)
- Dependência total de capital externo (nenhuma intensificação das capacidades nacionais para promover a recuperação econômica numa eventual ausência desse capital)

- Aprofundamento das desigualdades sociais

- Desvalorização completa do trabalho e do trabalhador (regredindo e anulando uma série de conquistas trabalhistas em nome da "modernização das relações trabalhistas"[4])

- Intensificação dos déficits sociais (continuidade e aprimoramento dos "tetos de gastos", ou seja, diminuição dos investimentos em saúde, educação, segurança - setor tão alardeado por Bolsonaro -, infraestrutura, pesquisa, etc.)

- Intensificação da dívida 

- Destruição da capacidade produtiva do país


Mas o importante é repetir mantras vazios de "Estado Mínimo" sem se dar conta do que isso realmente significa. Ao que parece, o "patriotismo" brasileiro exige uma grande medida de subserviência, entreguismo e destruição das estruturas nacionais. E Gudes consegue fornecer esse conteúdo de profundo niilismo, ausência total de valorização ou de construção do Brasil enquanto potência geopolítica.
Mais do mesmo.



Referências bibliográficas:

[1] Cordell Hull, ''The Memoirs of Cordell Hull" ("As Memórias de Cordell Hull"), vol. 1 (New York: Macmillan, 1948), p. 81.

[2] Ha-Joon Chang, ''Kicking Away the Ladder: Development Strategy in Historical Perspective'' ("Chutando a Escada ‑ A Estratégia do Desenvolvimento numa Perspectiva Histórica"), Anthem Press (1 de julho de 2002).

[3] Paul H. Douglas, "In the Fullness of Time" (Na Plenitude do Tempo"), 1972, pgs. 127–128.

[4] É ilógico falar em "modernização trabalhista" sem antes efetivar uma modernização da capacidade produtiva do país, da ampliação de sua competitividade global e da reformulação de elementos tão graves para o Brasil, como a falta de reorganização da terra (o fim dos latifúndios), reforma política e fim de privilégios das castas altas do país. O que existe é o sucateamento de relações trabalhistas num país já defasado

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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Bolsonaro é um personagem seguindo um script

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Foto: HuffPost Brasil

Quando o neoliberalismo não consegue triunfar na "periferia do mundo" (África, Latinoamérica e algumas "bordas" da Ásia - já entrando em protagonismo juntamente com a China e por conta dela) por meio de golpes militares e patrocínio de ditaduras, ele precisa fazê-lo por meio de "ações democráticas". No panorama político brasileiro, é preciso fazer a leitura de Bolsonaro naquilo que ele realmente significa: essa saída "democrática" para o colonialismo.

É plenamente correto categorizar Jair Bolsonaro como um personagem, uma caricatura de si mesmo. Um personagem seguindo um script que não foi escrito por ele. Esse roteiro, fabricado pelos agentes da especulação, do rentismo e da submissão do Brasil, não tinha Jair como a primeira escolha. Na verdade, o "candidato do mercado" era Alckmin, originalmente. 

Mas falta a Alckmin um elemento que Bolsonaro possui: "carisma", no sentido mais negativo do termo. Bolsonaro consegue uma imagem popular, populista no sentido de condicionamento de um público. Ele consegue entrar nas camadas do "povão" porque sua superficialidade consegue casar perfeitamente com uma massa condicionada à limitação intelectual; a ignorância dele se encontra com a ignorância de uma aglomeração de pessoas que, por interesses muito claros, é mantida nesse nível.

Bolsonaro é o candidato das correntes e boatos de WhatsApp, de páginas de memes e simplificações grosseiras. É um algoritmo, mas um algoritmo bastante simples - ou talvez seja comparável a algumas linhas de HTML ou CSS. O desdém que ele expressou pela catástrofe do Museu Nacional no estado que o elegeu por três décadas é um dos sinais mais significativos disso.

Mas ele precisa ser vazio, justamente porque os roteiristas desse script querem o vácuo - um vácuo que pode ser preenchido com qualquer coisa, preferencialmente o projeto de arquitetura neoliberal. Há muito medo de que o Brasil "se torne uma Venezuela", mas quase ninguém teme que nosso país se transforme uma versão 2.0 da Argentina de Macri. Bolsonaro é o Macri brasileiro (só que com um nível cognitivo piorado).

Há roteiros de ficção e de história real. O de Jair se enquadra na primeira categoria. Todo o discurso em torno dele construindo um arquétipo de honestidade, como se ele mesmo fosse um Avatar messiânico para "moralizar a política nacional" se defronta com a prática, as ações reais dele.

Ele é visto como o paladino da moralidade, mas empregou funcionários fantasmas, fez triangulação de propina da JBS pelo PSC, vota historicamente pelo aumento dos próprios salários da classe política e contra medidas benéficas aos trabalhadores - o que faz dele, em essência, um mantenedor do establishment político. Ele precisa repetir constantemente para o próprio séquito que fará uma transformação radical na política nacional quando, na verdade, representa o silogismo marcadamente histórico dessa casta.

Todo o conteúdo de Bolsonaro são suas frases anotadas à caneta na mão, moralismo superficial e repetição mecânica de pautas econômicas neoliberais - entrega de patrimônio, desvalorização do trabalhador, privatizações irrestritas, etc.

Ele é a reformulação de velhas propostas continuístas, só que com a roupagem do moralismo tacanho apreciado pela Direita mais a agenda neoliberal - e, de quebra, um misticismo de "novidade".

Quando ele fala, o som é a repetição daquilo que outros pensaram antes dele e estabeleceram para ele. É o ator lendo o roteiro - e repetindo-o decorado para seu público. E há duas figuras que realmente exercem o poder de facto e que se estendem por detrás dele: Mourão e Guedes. Falarei sobre eles (que num caso de sucesso da candidatura Bolsonaro seriam as verdadeiras lideranças) no próximo texto.

O voto no candidato do PSL é um voto numa interpretação de um personagem - e um personagem fictício que foi incorporado e aceito pelo próprio Bolsonaro.


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