segunda-feira, 18 de junho de 2018

O advento do Robô: História e Decisão

Por: Alexandr Dugin
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho








Mais ou menos recentemente, falei com Francis Fukuyama[1] e chegamos à conclusão de que a definição de democracia enquanto poder da maioria é obsoleta, antiga e nada funcional. A nova definição de democracia, de acordo com Fukuyama, é o poder das minorias direcionadas contra a maioria. A maioria pode ser populista - então, ela é perigosa.

Sobre a questão do Tempo, o grande filósofo alemão Edmund Husserl[2] disse que nós precisamos compreender o tempo como uma música. Na música, ouvimos a nota anterior, a nota atual e antecipamos a próxima. Sem isso, se ouvimos apenas uma única nota, então ouvimos um barulho, e não uma música. 

Música é quando mantemos em mente aquela nota que tocou antes e antecipamos aquela que virá a seguir.  Assim, a história e o futuro não são completamente notas novas, mas sim a continuação da melodia que estamos tocando agora. 

Esse é um ponto bastante importante dado numa observação feita pelo sr. Sloterdijk[3] sobre a urbanização - a melodia não começou agora - que está sendo colocada em movimento há certo tempo histórico. Essa é uma tendência grandemente inevitável - não podemos parar essa música mas, ao mesmo tempo, se não mudarmos o ritmo seremos obrigados a pará-la.

Assim, isso é um tipo de destino presente nessa transformação da sociedade do nível agrário e das condições rurais de vida para algo urbanístico. 

Considerando o significado filosófico desse processo histórico, percebemos que, a cada passo, o ser humano se torna mais e mais independente da natureza. Então, ele cria mais e mais ambientações artificiais, um mundo mais e mais virtual, porque a cidade, comparada à vila, é algo virtual - não há dependência em relação à primavera ou ao inverno, porque sempre temos luz.

E essa é a separação dos robôs, seres completamente virtuais - nós já somos meio robôs. A cultura urbana, a cultura técnica, já se faz presente - somos mais e mais independentes da natureza, e grande parte da população (não só na Europa) já é urbana.

O processo de urbanização não pode ser parado. Estamos nos transformando em robôs, nossa sociedade está mais e mais robotizada. Para fazer a mudança de humanos para robôs, precisamos infundir alguns aspectos robóticos em nossas vidas. 

No campo da filosofia, há a ontologia de Quentin Meillassoux[4], direcionada aos objetos, que critica qualquer tipo de dualismo. Meillassoux tenta salvar a filosofia contra o sujeito - contra o humano. Então, creio que Meillassoux é um tipo de cérebro de silicone, porque, do mesmo modo, um robô também seria capaz de filosofar, ou de não filosofar (François Laruelle[5]), ou uma ontologia baseada unicamente no objeto.

Estamos nos preparando para o futuro, estamos jogando esse jogo com a urbanização, e é hora de lembrar o que Heidegger[6] disse sobre o processo técnico e metafísico. Estamos envolvidos num processo técnico e, se formos substituídos pelo próximo estágio desse mundo tecnológico, ele trará em si mesmo um tipo de continuidade, não algo completamente novo - porque já estamos dançando essa música há certo tempo.

Estamos nos preparando passo a passo para uma grande substituição: estamos prontos para substituir a nós mesmos e para sermos substituídos.

A substituição não será algo completamente novo e horrível - porque algo horrível já está acontecendo. Não só no Ocidente, mas também na Rússia e na Ásia - em toda a humanidade, algo horrível está acontecendo agora mesmo, se desdobrando.

Creio que estamos nos aproximando de algum momento de Singularidade - o momento quando se permitirá que uma rede neural tome a responsabilidade sobre situações complicadas.  A morte recente de uma mulher atropelada por um carro robótico[7] baseado nas ideias de Tesla[8], sem nenhum motorista, é uma antecipação daquilo que está ocorrendo. Algum dia, vamos acordar para o fato de que já fomos substituídos.

Estamos dançando a mesma melodia, e se não estivermos felizes não podemos dizer "pare", porque isso é impossível. Devemos seguir essa estrada desde o início - desde a primeira nota da sinfonia. Devemos perguntar, agora, quem é o autor e quem começou o processo de urbanização, quem criou os trens, o liberalismo, a democracia, o progresso, os mísseis, o computador, a síntese nuclear.

Quem é o verdadeiro autor? E, o que é essencial: por que isso foi uma decisão humana, então não foi um tipo de "processo natural". Em determinado momento histórico, decidimos seguir esse caminho - e agora só podemos frear ou acelerar. Mas, por que não perguntamos a nós mesmos se tomamos a direção certa, desde o início? Essa decisão foi a escolha certa?

Deveríamos voltar a esse momento, ao começo da melodia - essa é minha ideia. Pode ser tarde demais para despertar em meio a contribuintes perfeitos, robóticos, tomando decisões democráticas, enviando mensagens de SMS entre si.

A conversação entre robôs já é possível; na rede neural, a linguagem especial já é possível: durante a conversação, dois computadores criaram, recentemente, uma linguagem sem o conhecimento do operador[9]. Então, eles vão nos substituir com facilidade.

Filosoficamente, quem é o robô? O robô, um Intelecto Artificial, é o das Man de Heidegger. É a existência inautêntica do Dasein. Mais do que isso: em determinado momento, a humanidade ocidental tomou a decisão de eliminar o Dasein para evitar a possibilidade de existência autêntica.  

Agora, estamos no fim da linha. O robô não possui Dasein. Assim, ele é a inautenticidade irrevogável do ser. E está aqui - agora, não amanhã.




Publicado originalmente em: 4pt.Su


Notas*:

[1] Yoshihiro Francis Fukuyama é um filósofo, analista e economista político estadunidense de origem japonesa. Ficou internacionalmente conhecido por conta de seu conceito de "Fim da História", no qual uma certa singularidade universal em formas político-econômicas tomaria lugar num futuro próximo, colocando um "fim à História". O próprio Fukuyama revisou vários pontos de sua ideia.

[2] Edmund Gustav Albrecht Husserl foi um importante filósofo e matemático alemão. É considerado como aquele que estabeleceu a escola de fenomenologia, rompendo com a orientação científica positivista.

[3] Peter Sloterdijk é um filósofo alemão considerado como um dos maiores renovadores da atual filosofia, reconhecido especialmente por suas três obras intituladas "Esferas" (Sphären).

[4] Quentin Meillassoux é um filósofo francês que leciona na École Normale Supérieure. Sua primeira obra foi "Après la Finitude" [Depois da Finitude], publicada em 2006, por meio da qual introduziu uma nova opção na filosofia moderna, diferenciando-se das alternativas de criticismo, ceticismo e dogmatismo, propostas por Kant.

[5] François Laruelle é um filósofo francês notadamente reconhecido por ter desenvolvido uma ciência da filosofia, chamada por ele de não-filosofia. Atualmente, ele dirige uma organização internacional dedicada à causa da chamada não-filosofia. a Organisation Non-Philosophique Internationale (Organização Internacional Não-Filosófica).

[6] Martin Heidegger foi um dos maiores nomes da filosofia alemã, tido como um elo de ligação entre o existencialismo de Kierkegaard e a fenomenologia de Husserl. Heidegger se dedicou principalmente à ontologia, ao sentido do Ser e seus aspectos mais importantes. É dele o conceito de Dasein. Provavelmente, sua obra mais importante é "Sein und Zeit" (Ser e Tempo), publicada em 1927, na qual ele aborda questões sobre o sentido do Ser.

[7] Thew Guardian: Self-driving Uber kills Arizona woman in first fatal crash involving pedestrian [Uber automático mata uma mulher no Arizona na primeira colisão fatal envonvendo pedestres].

[8] Nikola Tesla foi um proeminente inventor sérvio com amplos trabalhos nos campos de engenharia mecânica e eletrotécnica e eletromagnetismo. Seus trabalhos formam a base dos sistemas modernos de corrente alternada e potência elétrica, sistemas polifásicos de distribuição de energia e motor AC - os pilares da chamada Segunda Revolução Industrial. Seus trabalhos no campo da condutividade foram demonstrados numa transmissão de rádio sem a utilização de fios, realizada em 1894 (mostrando a possibilidade de condução sem a necessidade de fios). Apesar de suas imensas contribuições, Tesla foi considerado como um excêntrico que, infelizmente, caiu no ostracismo, morrendo empobrecido aos 86 anos, sem o devido reconhecimento de seu trabalho em vida.

[9] Independent UK: Facebook's artificial intelligence robots shut down after they start talking to each other in their own language [Robôs de inteligência artificial do Facebook são desligados após o início de um diálogo em sua própria linguagem]

* Inseridas pelo tradutor. Não constam no artigo original.
  
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sexta-feira, 15 de junho de 2018

A 66ª reunião do Clube Bildeberg: Globalismo Plutocrático

Por: Diego Pappalardo
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho

Foto do NH Torino Lingotto Congress, onde ocorreu a 66ª reunião do Clube Bildeberg em 2018, na Itália


Desde os anos 1950, para unificar as elites ocidentais com o claro propósito de não perder espaço e poder, os segmentos da Atlântida forjaram a criação do Grupo Bilderberg, unindo as elites anglo-americanas e seus pares da Alemanha, Itália e França, as quais possuíam grande influência no Vaticano. Desde então, o Clube Bilderberg realiza anualmente suas reuniões em lugares da Europa e da América do Norte.

O Comitê Diretivo do Clube é formado por 33 membros, sendo presididos pelo empresário globalista francês Henri de Castries, acompanhado pela banqueira espanhola Ana Patricia Botín, por Paul Achleitner - presidente do Deutsche Bank -, José M. Durão Barroso (presidente da Goldman Sachs International), Kenneth M. Jacobs (dono do Lazard Bank), Radosław Sikorski (ministro polonês), Zanny Minton Beddoes (editor-chefe do The Economist), John Elkann (sucessor do empório Agnelli) e Peter Thiel (dono da Shiel Capital), dentre outros.

Entre os antigos membros do Comitê Diretivo e da seção permanente do Clube estão figuras como o príncipe Bernardo, dos Países Baixos, David Rockefeller, o Barão Peter Carrington, Joseph H. Retinger, Umberto Agnelli, Henry Kissinger e Edmond de Rothschild, além de Sharon Percy Rockefeller, Romano Prodi, James A. Perkins, Robert Zoellick e os espanhóis Jaime Carvajal e Urquijo, Matías Rodríguez Inciarte, José Luis Cebrián e Ana Botín.

Em 2018, o exclusivo e elitista Clube Bilderberg realiza sua 66ª conferência na cidade italiana de Turim. O complexo que abrigou o encontro de banqueiros, estrategistas geopolíticos, executivos de empresas transnacionais, acadêmicos, políticos, militares, agentes de inteligência e jornalistas foi o hotel NH Torino Lingotto Congress. De quinta-feira a domingo (7 a 10 de junho), os membros do Comitê Diretivo, membros fixos e convidados de 23 países, compartilharam a agenda pública preestabelecida, mas também coordenaram uma agenda que contem relações de poder e procedimentos que devem ser colocados em prática; fraturas e/ou acordos foram estabelecidos, sem fundamento e depoimento e condenações fulminantes.

O acesso aos registros do evento é restrito, e suas discussões são mantidas em segredo, mas o Clube listou os tópicos genéricos que foram discutidos pelos participantes, a saber: o populismo na Europa, o desafio da desigualdade, o futuro do trabalho, a inteligência artificial, a computação quântica, a situação nos Estados Unidos, a liderança mundial, o livre comércio, a Rússia, a relação de tensão e de conflito entre a Arábia Saudita e o Irã, o mundo da pós-verdade e outros eventos vibrantes da política internacional também foram debatidos.

Entre aqueles que se dirigiram ao NH Torino Linotto Congress Hotel estão, além do Comitê de Gestão: Henry Kissinger, Cardeal Pietro Parolin, Albert Rivera Díaz, Williams J. Burns, Mark J. Carney, Vittorio Colao, Ana Brnabic, John Hickenlooper, Ursula von der Leyen, Bernard Émié, Charles Michel, Dambisa Moyo, François-Philippe Champagne, Jens Stoltenberg, Gerhard Zeiler, Matthew Turpin, Mehmet Simsek, Soraya Sáenz de Santa Maria, Niall Ferguson, Paula Amorim, Eamonn Brennan, Jared Cohen, Pascoal Luke Donohoe Vidar Helgesen, Wolfgang Ischinger, Jüri Ratas, Greg Hajdarowicz, Günther Oettinger, entre muitos outros.

A presença do cardeal Parolin, secretário de Estado do Vaticano, não nos causa estranheza, pois os componentes de certas esferas vaticanistas mantêm conexão com o fórum transnacional desde sua fundação. Não há russos entre os convidados deste ano, embora a posição da Rússia na ordem mundial continue sendo um tema quente para os Bilderberianos. 

Em outras edições, havia figuras russas como Grigory Yavlinsky, Anatoli Chubais e Sergei Guriev. Há muito dinheiro na associação internacionalista Bilderberg, mas também há muitos mitos em torno dela. Não há nela a natureza ou a função de um super-governo atuando nas sombras: o grupo funciona como uma plataforma que aglutina e dirige as elites capitalistas de acordo com uma agenda de hegemonia. O aroma aristocrático típico de seus tempos de fundação praticamente evaporou-se.

O Clube é uma estrutura de poder real, mas sua gravitação na gestão de processos globais está diminuindo progressivamente. Nem tudo o que é decidido em Bilderberg se torna realidade. Embora esse Clube supranacional pretenda sustentar e aprofundar a globalização com foco em finanças e implementar o esquema de Soros com a máxima eficácia, ele já não pode mais evitar o alargamento da divergência existente entre o Projeto de Trump e os componentes do sistema Bilderberg. O atual ocupante da Casa Branca está ligado a corporações capitalistas, mas não está ligado à agenda de Bilderberg.

Outro convidado, o governador do Colorado John Hickenlooper, está sendo confirmado como um candidato presidencial na eleição de 2020 para retirar Trump da 1600 Pennsylvania Avenue, em Washington. Da mesma forma, o conglomerado atlantista filiado ao Clube Bildeberg não será capaz de bloquear a ascensão da Rússia como um hegemon global e os populismos e a práxis dos antagonistas do globalismo não serão retardados pelo ataque combinado de inteligência artificial, informação quântica, controle de redes sociais e aprimoramento da mídia convencional.

A edição de 2018 de Bilderberg ocorre em uma situação mundial com terremotos tectônicos na geopolítica internacional e uma guerra manifesta entre clãs capitalistas em meio a mudanças na fase da história. 



Postado originalmente em: Geopolitica.Ru


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quinta-feira, 14 de junho de 2018

O futebol é culpado pelo atraso do Brasil?

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Talvez seja difícil calcular em números exatos quanto dinheiro "perdemos" durante um evento como a Copa do Mundo - embora pensar nesses termos reflita o quanto o mundo atual é regido por um tecnicismo frio, onde tudo se dá em termos de "ganho e perda". Mas um dos principais argumentos contra a Copa (e o futebol em geral) é que o Brasil "perde tempo": ao invés disso, deveríamos estar trabalhando e produzindo mais. Deixamos de ganhar dinheiro e o país fica "atrasado" por causa disso. A mesma "lógica" é usada contra o Carnaval e qualquer feriado.

Embora existam sim coisas muito mais importantes do que eventos de futebol, essa  não é uma lógica muito inteligente. Seria como censurar alguém que gosta de ler ficção e literatura porque, ao invés de "perder tempo" com esse tipo de leitura, seria melhor ler manuais técnicos. A vida humana não é feita só de necessidades básicas e utilitarismo. Também precisamos do "inútil", do lúdico, do lazer, do dispensável.

Será que o argumento de que a Copa do Mundo "atrasa" o Brasil é algo sustentável? Definitivamente, não. Primeiro, porque é um evento que ocorre apenas a cada quatro anos. Sem a Copa, continuamos um país atrasado. E esse atraso não é culpa do descanso por causa dos jogos da Seleção, nem dos feriados, nem do Carnaval - é algo sistêmico ocasionado pela falta generalizada de investimentos públicos em educação, tecnologia e pesquisa e aprimoramento de infraestrutura e processos produtivos.

O trabalhador brasileiro não produz menos porque é "preguiçoso" ou porque tem "feriados demais", nem por causa de jogos de futebol da Copa ou do Brasileirão. Ele produz pouco porque o sistema produtivo é defasado e porque ele mesmo não recebe instrução técnica adequada. Culpar o lazer por esse déficit é jogar nas costas do brasileiro comum a culpa pelo atraso do país, como se fosse mera questão de "trabalhar mais".

Se o brasileiro não parasse durante um único minuto, trabalhando de domingo a domingo, sem feriados, sem paradas para jogos e sem nenhuma "distração", ainda seríamos um país de Terceiro Mundo subdesenvolvido e com baixa produção e competitividade, com renda defasada e poder aquisitivo decrescente numa economia totalmente instável. A propósito, os franceses, com competitividade e taxa de produção por trabalhador maiores que as nossas, descansam mais do que os brasileiros - 1/4 do ano, pra ser mais exato.

Praticamente todos os países, incluindo as economias desenvolvidas, garantem folgas - mesmo que temporárias - durante jogos como os da Copa do Mundo. 

Esse "culto ao trabalho' perverte a noção de que precisamos trabalhar para garantir nosso sustento, transformando uma atividade necessária e natural em algo em torno do qual toda nossa existência deve girar. Não estamos fazendo um culto à preguiça ou rejeitando o valor do trabalho, mas viver para produzir não deve ser nossa razão existencial e há sim coisas muito mais importantes na vida do que trabalhar. 

Essa inversão mecanicista faz com que o homem funcione em função do trabalho e que todas as facetas de sua vida se reduzam a isso. Ao invés de enxergar a atividade laboral como um meio para sustentar outras faces da vida humana, são essas faces que devem se voltar e se reger pelo trabalho. Isso também é alienação - o condicionamento das pessoas em torno de um modelo produtivo que encerra, em si mesmo, todas as suas possibilidades de ação. 

Há países considerados como desenvolvidos com tanta paixão pelo futebol quanto aquilo que se observa no Brasil. E o desenvolvimento desses países não exclui a paixão por esse e outros esportes - e vice-versa.

Aqueles que criticam jogos de futebol, feriados e tempos ociosos ou coisas "fúteis" com argumentos baseados em "alienação" e "distração" parecem se esquecer de que até mesmo o trabalho, dependendo da dinâmica sócio-econômica na qual se insere, também pode servir como ferramenta de condicionamento, manipulação política e alienação. As atividades "úteis" e "práticas" também são alienantes quando inseridas numa estrutura defasada e permeada por ingerências.
 
O trabalho, hoje, serve mais à função de preenchimento do tempo das massas, que são reduzidas a se preocupar com sua sobrevivência, trabalhar e procurar por emprego quando estão desempregadas, do que realmente gerar riqueza e garantir o sustento. Aliás, hoje são poucas as pessoas que conseguem realmente viver do próprio trabalho (ao menos com um mínimo de dignidade).

Gastar todo o tempo em coisas "úteis" e colocar o trabalho acima de qualquer outra coisa é sinal de uma civilização totalmente materialista, decadente e crescentemente empobrecida.

Trabalhe - mas descanse. E descanse bem.


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segunda-feira, 11 de junho de 2018

"Quebrar tabus e regras" não é algo bom em si mesmo

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Fonte da imagem: TestMeat

O que permitiu a existência de todas as civilizações do mundo foi a presença de códigos, conjuntos de regras definidas. Embora essas regras variem de cultura para cultura, há pontos em comum em todas elas (punição de crimes, lida com a colheita, celebrações etc.). Da menor das tribos, passando pelos romanos até a civilização dos maias e o Império Chinês, nenhum grupo humano foi capaz de existir sem um conjunto formal ou informal, escrito ou oral, de regras definidas. Mas os pós-modernos, muitos deles nascidos no novo milênio, acreditam que é possível jogar na lata de lixo milhares de anos de desenvolvimento humano e substituir isso tudo por "lacração", numa ausência total (como eles imaginam, porque é algo impossível) de regras e limitações.

Vivenciamos aquilo que pode-se considerar como pós-filosofia, pós-política, pós-civilização, pós-sociedade. O triunfo da lógica liberal (que não está confinada às questões econômicas) é o hiper-individualismo e sua "evolução": o "divíduo" - ou seja, a pessoa que se identifica não só como um indivíduo acima de qualquer organização ou identidade coletiva, mas que também se identifica exclusivamente por parte de si (adepto de uma dieta, participante de alguma tribo urbana, membro de certo grupo sexual etc.).

O prolongamento natural do hiper-individualismo é a luta para "quebrar tabus", o que se torna o ápice de qualquer "militância política" (que, na verdade, significa a imposição das subjetividades individuais sobre absolutamente qualquer outra coisa). E nenhuma civilização se constrói com base em hiper-individualismo. É por isso que sempre uso o termo "pós-civilização" para designar aquilo que ocorre hoje, especialmente no Ocidente.

Antes de prosseguir, é preciso identificar o que é um tabu. Podemos considerar como tabu absolutamente tudo aquilo que é social, cultural e coletivamente tido como reprovável, seja por questões religiosas, éticas, morais, comportamentais, filosóficas etc. Alguns tabus são bastante regionais e restritos a certos nichos (como certas práticas tribais); outros são praticamente universais (como a repulsa pela prática sexual entre uma mãe e seus filhos e o sexo com cadáveres).

É bastante óbvio que um tabu não é bom em si mesmo. Até praticamente os anos 70, o Apartheid social nos EUA era a imposição de uma série de tabus que excluíam dos negros estadunidenses praticamente todas as oportunidades e direitos sociais básicos. A luta contra esses tabus foi justificada e bastante positiva.

É bastante óbvio que um tabu não é bom em si mesmo. Até praticamente os anos 70, o Apartheid social nos EUA era a imposição de uma série de tabus que excluíam dos negros estadunidenses praticamente todas as oportunidades e direitos sociais básicos. Entretanto, tabus também não são necessariamente ruins. A prática sexual com animais é considerada como tabu e isso é extremamente correto - já que animais não possuem capacidade para consentir com algo. O sexo com crianças também é um tabu. O próprio estupro é um tabu. A lista pode continuar - são proibições sociais ou rejeições coletivas moralmente positivas.

A militância pós-moderna hiper-individualista coloca no mesmo saco absolutamente todas as proibições sociais. Se algo é coletivamente rejeitado e se há alguma regra, ela deve ser quebrada. Não há o critério para observar se a proibição é boa ou ruim, ela deve ser desfeita e pronto. É exatamente por isso que, hoje mesmo, se discute cada vez mais a pedofilia como uma "orientação sexual" - o mesmo sendo colocado para o sexo com animais. O próprio conceito de incesto vem sendo atacado por essas militâncias. 

Qualquer regra coletiva é um impedimento ao hiper-individualismo e é exatamente por isso que, nessa lógica, se deve destruí-las. Os discursos sobre "tolerância", "luta contra o preconceito" e "apoio à diversidade" são apenas máscaras para esconder isso. No fim, o único objetivo claro é a supremacia irrestrita e incontestável do indivíduo: "eu posso", "eu quero", "eu devo", "isso me faz feliz" - são esses os pilares da nova civilização, e por isso mesmo está fadada a ruir. 

Nenhuma sociedade sobrevive sem regras. Embora essas regras possam (e devam) mudar de modo natural, a rejeição brusca de todos os pactos morais e a simples "desconstrução" de absolutamente todas as coisas e conceitos nunca produziu e nunca produzirá um contexto superior àquele que se pretendia atacar.

Aquilo que os pós-modernos negam (os códigos morais e comportamentais) num contexto amplo é aquilo que eles mesmos impõem entre si e aos demais, já que toda sua militância pode ser designada como a tentativa de suprimir códigos que eles rejeitam e instalar novos códigos com uma série de imposições linguísticas, comportamentais, políticas e sociais. Eles mesmos são criadores de tabus - só que todas as suas regras e noções são deformações, adulterações incompletas e horrendas das mesmas imposições que tentam quebrar.

Não há nada mais totalitário do que o pós-moderno. Ele não tolera outros códigos morais e, na sua pretensa "luta contra o preconceito e imposições", impõe uma série de restrições. É justo definir o pós-moderno típico como alguém mil vezes mais controlador e obsessivo do que o pior burocrata, o mais rígido tirano e o mais moralista dos líderes religiosos. Os pós-modernos são, em si mesmos, uma versão piorada de tudo aquilo que pretendem combater - só que com slogans macios de "igualdade", "tolerância" e "diversidade".

Antes de defender ou superar um tabu, é preciso verificar se ele impõe limites saudáveis e necessários para a própria preservação do grupo social. Se a resposta para isso for "sim", romper esse limite será catastrófico. Há limitações que foram feitas para se superar - outras devem ser mantidas exatamente onde estão. "Quebrar Tabus" não tem nenhum valor intrínseco e isso sequer deveria ser uma plataforma de orgulho militante-político.

O discurso contra absolutamente todos os códigos morais, proibições e tabus não significará apenas a possibilidade de você impor suas vontades sobre todos os outros - você também terá de aceitar que absolutamente qualquer outra pessoa poderá fazer essa imposição à você. É esse paradoxo que o pós-moderno não entende e não aceita: ele se espanta quando é esmagado pela própria retórica que defende e quando se vê imerso numa ausência total de ética. Não há ética individual - e nunca haverá.

O único resultado da rejeição completa de códigos morais e limitações é a transformação do organismo social em mera população, um conjunto de indivíduos atomizados sem nenhuma identidade real, sem personalidade e dados completamente ao subjetivismo próprio, sem nenhuma direção ética ou um pacto social sólido. E a imposição das vontades pessoais de absolutamente todos contra todos é uma tirania ainda pior porque, ao invés de ser feita por um único déspota, é realizada por toda a massa.


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sexta-feira, 8 de junho de 2018

O Momento Decisivo

Por: Alexandr Dugin
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho



Foto retirada do perfil oficial de Alexandr Dugin no Facebook

Entrevista de Alexandr Dugin concedida ao portal geopolítico grego Geopolitics & Daily News



Q1: Dr. Dugin, nos últimos anos temos testemunhado uma tensão crescente entre as relações entre EUA, UE e Rússia. Alguns dizem que isso lembra a "era da guerra fria". Você compartilha a mesma opinião ou há algo mais nisso?


A Guerra Fria foi o confronto entre dois campos ideológicos. Agora, não há mais uma distinção clara no campo ideológico, mas sim entre duas versões da mesma democracia liberal - avançadas (no caso dos EUA e da UE) e atrasadas (no caso da Rússia). Então, nós presumimos que isso deveria reduzir consideravelmente a tensão. Mas não é o caso. Portanto, temos que buscar a razão para o aumento das tensões em outro campo que não o da ideologia. As razões mais prováveis da "nova Guerra Fria" são, desta vez, geopolíticas.

Mas é legítimo propor o seguinte questionamento: esse confronto, na realidade, não foi uma guerra fria ideológica entre capitalismo e socialismo no momento de um contexto historicamente muito mais amplo no momento da Grande Guerra dos Continentes.

Este confronto é a base da compreensão geopolítica da história - o poder do mar contra o poder terrestre, a civilização da Eurásia contra a civilização Atlântica. Se pudermos concordar com isso, tudo se torna lógico e claro. Há a eterna batalha entre dois tipos de civilizações - civilização marítima dinâmica (progressista, mercante) e civilização terrestre estática (conservadora, heroica): Cartago contra Roma, Atenas contra Esparta.

Assim, a nova escalada é o resultado da recuperação da Rússia após o golpe fatal que sofreu em 1990. É o retorno do poder terrestre, a nova ascensão da Eurásia, que é o principal fato que explica essa nova Guerra Fria. É, de fato, a velha Guerra Fria, a Guerra Fria "Eterna". 

Nos anos 90, havia uma aparente vitória irrevogável do poder marítimo - daí a globalização e a unipolaridade. Mas, agora podemos ver que isso foi apenas um momento, uma chance que poderia acontecer. A recuperação de poder na Rússia, bem como a resistência da China, do mundo islâmico e a onda de populismo no Ocidente provam que essa chance está perdida. As elites globalistas estão na defensiva. O dragão está ferido, mas ainda está lá. Ele tenta reagir e essa é a principal causa das novas hostilidades.

Q2: Qual a sua opinião sobre os eventos recentes que ocorreram no Oriente Médio? Você vê alguma chance de as coisas se equilibrarem ou nós estamos experimentando um conflito “all out” entre todos os participantes lá?

Eu vejo a região do Oriente Médio como o principal campo onde a arquitetura do mundo futuro e o novo equilíbrio de poderes estão em jogo. Não é um jogo caótico de “todos contra todos”, mas um episódio decisivo da Grande Guerra dos Continentes. De um lado, há a Rússia, o Irã e, em parte, a Turquia (distanciando-se cada vez mais dos EUA) com apoio discreto da China. 

Esse é o acampamento multipolar - o bloco eurasiano. Do outro lado, há os EUA e seus representantes - os estados da OTAN, Israel e Arábia Saudita. Eles representam o pólo globalista, as forças da unipolaridade. Não foi exatamente o que Trump prometeu aos seus eleitores (ele prometeu parar as intervenções e retirar as tropas do Oriente Médio), mas sim a agenda neoconservadora clássica. Trump é tomado como refém pelos neocons. Pode ser que esse foi o preço pelo acordo político: Trump entregou a política externa aos neocons e ganhou algum apoio em suas reformas domésticas.

Mas o Oriente Médio é o espaço de maior importância. Se a Eurásia vencer, haverá uma ordem mundial multipolar e o momento unipolar será concluído de uma vez por todas (pelo menos durante muito tempo). Se os atlantistas conseguirem vencer, ganharão mais tempo, um certo atraso em sua inevitável queda. Este dragão ferido vai sobreviver por um pouco mais de tempo.

Mas, de qualquer maneira, o Oriente Médio é crucial. É onde o destino da humanidade é decidido.

Q3: Nestes últimos meses, assistimos a uma "mudança de posição" da Rússia em relação à Turquia, desde um confronto direto até um apoio total em todos os níveis. Quais, na sua opinião, são as características e especificidades desta nova situação entre os dois países?

Esse é o principal problema da multipolaridade. A Turquia é rejeitada pelo sistema unipolar e está condenada a ser dividida. Então, ela só pode sobreviver no campo da Eurásia.

A Turquia entrou na OTAN em circunstâncias históricas especiais quando foi um passo razoável em frente à eventual agressão de Stálin. A decisão foi baseada em cálculos legais. Nos anos 90, no século XX (e especialmente em 2000), a situação mudou radicalmente. A Rússia não representa mais uma ameaça existencial à Turquia, mas os EUA e a OTAN em geral se tornaram o desafio. Com a política dos EUA no Oriente Médio e sua estratégia em relação aos curdos, a Turquia como um estado nacional está condenada.

Assim, a Turquia e a Rússia têm argumentos racionais em favor de sua aliança.

É óbvio que, em ambos os países, o lobby atlantista é muito influente. Ele tenta sabotar esse processo - e o abate do avião russo, o assassinato do nosso embaixador e outras provocações foram preparados para destruir essa aliança. Quando os atlantistas entenderam que não podem impedir isso, tentaram derrubar Erdogan, como na tentativa de golpe de Estado em julho de 2016.

Nesse momento crucial, a Rússia deu à Turquia um apoio delicado - mas decisivo.

Q4: As relações entre a Grécia e a Rússia testemunharam muitos altos e baixos nos últimos anos. Onde está essa relação agora, com a sua opinião?

A Grécia é um país ortodoxo fraterno. Os russos são herdeiros da cultura bizantina e grega, somos descendentes civilizacionais dos gregos. O Monte Athos ainda é a Santa capital da nossa espiritualidade. Então, culturalmente, somos como melhores amigos.

Geopoliticamente, a Grécia não é um país soberano, pois agora é totalmente controlada pela UE e pelos globalistas. Os populistas de Esquerda do Syriza tentaram quebrar essa escravidão, mas, apesar do enorme apoio popular, falharam. Os populistas de Direita são marginalizados e reprimidos pela elite globalista, impedindo, assim, o seu crescimento natural. Desse modo, a Grécia, enquanto país, é tomada como refém pela UE. Não é livre. A Grécia, agora, não é um sujeito geopolítico, mas sim um objeto. A Rússia ajudaria a libertar a Grécia da ocupação atlantista, mas a tarefa principal deveria ser feita pelos próprios gregos.

Portanto, as relações entre os dois Estados são uma coisa e as relações entre seus cidadãos são outra coisa completamente diferente.

A primeira é condicionada pela lealdade da OTAN e pelo controle da UE. Então eles não podem ser bons, porque refletem não a vontade grega, mas sim a posição consolidada do Poder Marítimo. O outro elemento é, pelo contrário, algo muito bom, porque os gregos amam os russos , nós, russos, estamos em dívida para com a cultura grega, à qual devemos a nossa identidade ortodoxa cristã, nossa gramática, nossa linguagem e nosso estilo espiritual. Mas a Grécia real, para nós, é a Grécia das pessoas que não são das elites. É o Monte Athos, a Grécia - a nossa amada Santa Montanha - de São Cosme de Etólia, São Paisios do Monte Athos e Geronda Efraim de Vatopedi.

Q5: Há apenas algumas semanas,  Vladimir Putin foi reeleito como presidente da Rússia com uma porcentagem significativa de votos positivos. No entanto, há vozes, mesmo dentro da Rússia, que apontam para o fracasso dele em tirar a Rússia do isolamento e proporcionar aos cidadãos russos um melhor modo de vida. Qual é a sua opinião sobre a situação da Rússia dentro das fronteiras e o que você acha que os cidadãos russos esperam da liderança de seus países nos próximos anos?

Eu escrevi um livro especial sobre ele, intitulado "Putin  versus Putin". Ali, explico a dualidade essencial de Putin. Ele tem um duplo aspecto. Por um lado, ele salvou a Rússia da decadência que parecia inevitável e restaurou a soberania e a independência do Estado da Rússia. Então, ele é um herói e nosso povo entende bem que, por nossa grandeza, somos obrigados a pagar um preço alto. Portanto, não há críticas a Putin sobre a Crimeia ou as sanções. Tudo isso é, muito pelo contrário, motivo para apoiá-lo ainda mais. Então, ele é apoiado principalmente pelos russos exatamente pelas mesmas razões pelas quais o Ocidente (o Poder Marítimo, os globalistas) o odeia.

Por outro lado, ele é cercado por liberais (nós os chamamos de sexta coluna) que permanecem fiéis a ele pessoalmente, mas tentam impor à sociedade políticas suicidas. É a segunda face de Putin que é dupla como a bizantina e a águia imperial russa. O nível de justiça social na Rússia atual é em torno de zero, a corrupção selvagem está florescendo, a vida espiritual e a cultura estão em estado de depressão profunda. E essa é a preocupação com o outro lado de Putin.

Portanto, estamos fortes e unidos em torno de Putin diante de seus inimigos no exterior - eles o odeiam precisamente por aquilo que amamos nele, mas não estamos felizes com sua confiança nos liberais que estão no governo e em outros lugares.

Obrigado Dr. Dugin por esta entrevista.


Publicado em: 4pt.Su

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segunda-feira, 4 de junho de 2018

Irã, Israel e o equilíbrio regional

Por: Diego Pappalardo
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho

Geopoliticamente, o Irã tem sido um entrave tanto ao organismo sionista materializado em Israel quanto à petromonarquia saudita - um equilíbrio de poder no Oriente Médio


Se conseguir assegurar seus interesses, uma entidade estatal surge com aspirações de projeção geral e plasma essas aspirações insistentemente sobre a factualidade, tornando-se, de modo evidente, um contrapeso na disputa sobre o domínio da concorrência interestadual. 

Geralmente, no fundo desta competição, não são os valores de um sistema de governo ou as regras e hábitos de comportamento social que se fazem presentes, mas sim a biologia pura e a vontade que uma comunidade (minoria ou maioria) tem de registrar na história sua capacidade de Poder.

Essa luta ocorre de todas as formas possíveis, utilizando todos os meios disponíveis que não são separados principalmente em atos legais ou ilegais que foram ou ainda serão cometidos, porque o que importa são os resultados específicos que proporcionam o progresso e o destaque a seus expoentes.

A justaposição de interesses vitais e a sobrevivência no Oriente Médio impõem uma dinâmica acelerada na complexidade das relações de poder que se desenvolvem na região.

As facções do poder sionista que sustentam a liderança política do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não concebem um Estado de Israel geográfica e geopoliticamente limitado. Para esses grupos, a existência da entidade estatal israelense requer um aumento territorial e o exercício de um papel como eixo regional.

Seu ambiente geopolítico deve ser reconstituído de forma que o projeto de Grande Israel seja uma realidade consistente com fundações de convergência religiosas, políticas e econômicas que lhe forneçam sua razão de ser. 

É aí que reside o principal problema da estabilidade e da segurança de Israel, ou seja, em sua pretensão de ser e estar lá, o que se torna constante é o confronto com os seus concorrentes, que não são limitados por qualquer razão objetiva (seja de natureza religiosa, histórica, geopolítica, política etc.) para produzir, humilde e obedientemente, seus próprios projetos geopolíticos e, acima de tudo, o seu direito de não sofrer interferência por parte do agente sionista ou de qualquer outro pólo externo de poder.

Para os estrategistas de Israel, a criação de um Oriente Médio caracterizado pela instabilidade, pelo conflito e o caos é algo elementar para enfraquecer seus oponentes, neutralizar seus adversários perigosos e alcançar o domínio de sua estrutura.

Para as referidas decisões sionistas, é imperativo operar simultaneamente com diferentes manobras, mantendo o suporte espacial ativo, expandindo-o e absorvendo mais territórios, recursos e participando ativamente da construção de blocos geoestratégicos benéficos, como é o caso da aliança que sionista com a Arábia Saudita e outras petromonarquias e a associatividade mediterrânea com Chipre e Grécia. 

Ao mesmo tempo, os sionistas praticam uma série de atividades de sedução, pressão e injunção contra os líderes políticos supra-regionais, para que não pensem em diminuir a cooperação política, militar e econômica que têm em relação a Israel.

O Irã, com óbvia importância geoestratégica, tendo sido contido pelo sionismo durante décadas (e por certas facções governantes ocidentais), foi reconstituído em um centro de gravidade para retomar um papel histórico que inevitavelmente colide com a estratégia de Grande Israel. Teerã protege as entidades que Israel agride e ataca e, junto com elas, divide o corredor Teerã-Beirute, desafiando o conluio Israel-Arábia Saudita.

Por isso, proeminentes vozes israelenses afirmam que o Irã é seu maior inimigo.

A hegemonia israelense está sofrendo a contração como agente moral e o enfraquecimento como concorrente no sistema internacional, o que obriga o sionismo a acentuar ainda mais a situação regional por seus próprios interesses, posições e oportunidades.



Disponível originalmente em: Geopolitica.Ru



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sexta-feira, 1 de junho de 2018

Bolsonaro 2018?

Por: Jean A. G. S. Carvalho


A possibilidade da candidatura Bolsonaro é cada vez menos uma possibilidade


Um mantra é repetido à exaustão: "Bolsonaro 2018". Mas a mera repetição não é o bastante para a concretização da pauta.

Quando se tenta traçar um paralelismo político entre Trump e Bolsonaro, um elemento é inteiramente desconsiderado: apesar de bastante "fraturada", a Direita estadunidense conseguiu se reunir em torno da figura de Trump antes e durante as eleições (embora, hoje, vários setores da própria Direita estadunidense façam duras críticas ao governo). No Brasil, isso não está acontecendo. Ao contrário: às vésperas das eleições presidenciais, a Direita brasileira está se fraturando cada vez mais e não há uma reunião consensual em torno de Bolsonaro.

Num espectro mais aproximado (é bom frisar que não estamos dizendo que todos são a mesma coisa, mas sim que estão num espectro mais próximo), Bolsonaro tem três concorrentes mais diretos: Alckmin, Flávio Rocha e João Amoêdo. Desses três, Alckmin é o que tem mais capacidade de projeção eleitoral (embora dificilmente seja eleito). Flávio Rocha e Amoêdo, mesmo com pouca projeção eleitoral, conseguem retirar votos de Bolsonaro, atraindo principalmente liberais que, inicialmente, votariam nele. 

Esses liberais, vistos pelos conservadores como "aliados" (com a unificação forçada que fazem entre conservadorismo e liberalismo econômico), não fazem realmente parte do mesmo espectro e estão migrando para candidatos que refletem com mais radicalismo ou fidelidade seus ideais liberais (não só econômicos, mas também morais e culturais).

Se contarmos candidatos "nanicos" como Levy Fidélix, Bolsonaro perde ainda mais votos - cada voto aqui acaba sendo um peso, por menor que seja a expressividade eleitoral do candidato.

Quando migramos para um espectro mais distante, a elegibilidade de Bolsonaro se torna ainda mais difícil. Embora as chances dele aumentem se consideramos que a candidatura de Lula seja praticamente impossível (Lula seria eleito no primeiro turno, de acordo com pesquisas), Ciro Gomes vem cada vez mais preenchendo o vácuo deixado pela candidatura petista e, hoje, é o concorrente direto mais perigoso para Bolsonaro - basta perceber como o índice de rejeição a Jair é grande e o quanto ele estagnou nas pesquisas, ao passo que Ciro vem crescendo nas pesquisas de intenção de voto.

Se levarmos em conta que a candidatura de Marina Silva acaba "puxando" votos que seriam de Ciro Gomes, percebemos que ela exerce, nele, um efeito similar àquele observado nas candidaturas de Flávio e Amoêdo em relação a Bolsonaro - mesmo assim, Ciro poderia ter maior projeção já que, ao contrário de Bolsonaro, ele não conta com um índice tão significativo de rejeição.

Fazendo uma "limpa" no panorama de candidatos e imaginando um segundo turno entre Bolsonaro e Ciro, percebemos que o segundo conta com uma vantagem (mesmo que não tão certa): a possível aderência do eleitorado que votaria em Lula ou em Marina Silva - ou em Guilherme Boulos e Manuela Dávila (outros dois candidatos com pouca projeção eleitoral mas que também contam como acréscimo ou decréscimo de candidatos com mais projeção).

Se é quase possível afirmar que o eleitorado dessas figuras poderia transferir o voto em torno de Ciro, não é tão possível assim afirmar que o eleitorado de figuras mais liberais (como Amoêdo e Flávio) fizesse o mesmo em favor de Bolsonaro. A ruptura entre conservadores e liberais é cada vez maior (só os conservadores não admitem isso, já que os próprios liberais fazem cada vez mais questão de frisar o quanto se distinguem não só dos conservadores como pessoas, mas do conservadorismo enquanto ideia).

O alto índice de rejeição, a candidatura crescente de figuras mais compatíveis com o espectro liberal (e que, longe de serem combatidas pelos eleitores de Bolsonaro, são celebradas como "figuras da Direita" e "opções válidas") e a ascensão da candidatura de Ciro Gomes são alguns dos elementos que podem tornar muito difícil a concretização do mantra "Bolsonaro 2018".

O resultado das eleições presidenciais brasileiras é algo quase sempre incerto. É como jogar fichas num cassino. Mas o andamento dos fatos vem mostrando que Bolsonaro tem ficado cada vez com menos fichas para apostar.

Talvez a frase precise ser reajustada para "Bolsonaro 2022". 



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