terça-feira, 18 de setembro de 2018

Ciro e o algoritmo Luiz Nicolas

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Fonte da imagem: G1/Globo


 "Luiz Nicolas M. P. lpetri: Ciro, o que o senhor reafirma sobre o que o senhor disse sobre os brasileiros que fizeram aquela manifestação lá na fronteira [com a Venezuela], que chamou os brasileiros de canalhas, desumanos e grosseiros?
 Ciro Gomes: Vai pra casa do Romero Jucá, seu filho da p*** [...] Esse aqui é do Romero Jucá. Tira ele, tira ele, prende ele aí"



Trecho de transcrição do vídeo no qual Ciro se confronta com um "aríete jornalístico" chamado Luiz N. M. P. Ipetri.

Em  termos de debate político, há uma migração da Grande Política (as questões de Estado, a geopolítica, a economia, as relações internacionais, a resolução dos paradigmas nacionais/domésticos, etc.) para a Pequena Política (intrigas, discussões, provocações). Ou seja, é o condicionamento da Política à contingência - os tiros, a facada, o empurrão, o palavrão.

Cada um dos candidatos enfrenta, na corrida presidencial, uma série de obstáculos. É claro que esses obstáculos variam para cada um deles. Alguns, como Alckmin, não enfrentam grande oposição do establishment - no caso dele, é sua própria imagem, sua persona, seu maior entrave eleitoral.

Outros, como Marina, enfrentam a ondulação constante (ela inicia os processos eleitorais com boa porcentagem de votos para, depois, vê-los vaporizados no tempo); há ainda aqueles que funcionam como undeads políticos - nem mortos, nem vivos, indiferentes no processo eleitoral (como Meireles e Amoedo).

Há aqueles cuja tônica os torna objetos caricaturais, como Daciolo (que, quando comparado a Bolsonaro, se transforma num patriota infinitamente superior - e, pasme, com muito mais noção da Política Real, por incrível que possa parecer), tornando-os folclore eleitoral. 

Já para Haddad, o maior obstáculo é também seu melhor elemento facilitador: a associação ao nome de Lula, o que lhe dá tanto uma popularidade instantânea quanto uma imensa rejeição - sem falar na pressão em ser comparado ao ex-presidente que, se ainda estivesse no páreo, seria o ganhador inconteste.

No caso de Bolsonaro e Ciro, as maiores dificuldades estão no campo das provocações.  Os dois são atacados por setores do establishment - mas devo deixar bem explícito aqui que as duas figuras não estão no mesmo nível, já que o primeiro não é um elemento de mudança estrutural ou desafio real ao establishment, mas um simples emissor de frases de efeito sem efeito prático para as estruturas de poder (quando questionado sobre os bancos e os banqueiros, ele se limitou a dizer que "banqueiro é uma profissão que tá aí"), enquanto que o segundo, Ciro, é de fato um ponto de entrave a essa estrutura - ao menos em parte.

Quando eu afirmo que Bolsonaro é um hospedeiro para Paulo Guedes, cuja missão é efetivar a desestruturação e a venda do Brasil ao erário estrangeiro, fazendo-o por meios "legais" (uma figura presidencial manipulável), estou constando fatos observáveis. A [lamentável] facada em Bolsonaro é a contingência política aplicada como "efeito colateral" inesperado, ausente no script; ele não é realmente odiado pelas elites econômicas.

Há outros meios de esfaquear alguém, inclusive em sentido metafórico. Luiz Nicolas M. P. lpetri é um desses meios. Ele foi a faca usada por Romero Jucá, pelo DEM e por Chico Rodrigues (que concorre, pelo DEM, ao Senado pelo estado de Roraima) para atingir Ciro. O "repórter" Luiz Nicolas é, ele mesmo, um agente político da campanha de Chico, um aliado de Romero Jucá, um dos fósseis mais simbólicos da corrupção endêmica do Brasil e da feudização de Roraima.

Petri é dono da Saldo Positivo Comunicação e Marketing. De acordo com registros do Tribunal Superior Eleitoral, a agência recebeu R$70000 para produzir conteúdos (como jingles) para a propaganda de Chico Rodrigues. Ele trabalha pela TV Tropical, uma afiliada do SBT que opera em Roraima e que é propriedade de Luciano Castro, do PR.  

O clã Jucá tem duas transmissoras filiadas à Record e à Bandeirantes, operantes em Boa Vista - A TV Imperial, que retransmite o sinal da Bandeirantes, em nome de Marina de H. Menezes Jucá, e a TV Caburaí, que retransmite a Record, em nome do ex-deputado estadual Rodrigo Jucá.

O DEM e o PR fazem parte da coligação pró-Alckmin, também composta por PP, PTB, SD, PSD, PRB, PPS e, claro, PSDB. Somados, os partidos deram ao "hiper carismático" candidato tempo suficiente pra transformar toda propaganda eleitoral em quadros de curtas-metragens que, talvez, possam competir nos festivais de Cannes. 

Alckmin e Jucá, aliás, repetidores dos mantras de Temer, agora se colocam convenientemente "contra" sua figura. Jucá foi o testa de ferro usado para empurrar as "reformas"; ele foi a ponta de lança de Michel para os processos da base do governo na câmara. 

O MDB (o novo acrônimo para a velha hoste política do PMDB), pelo qual Henrique Meirelles concorre à presidência, é o partido de Jucá. É óbvio que o projeto econômico de Ciro é um antônimo do projeto de Meirelles/Temer e que, por conseguinte, é o projeto de Jucá. 

Mas a chapa de Meirelles, formada também pelo PHS, deve ser vista como um anexo, uma extensão da chapa do PSDB para Alckmin. Meirelles não está concorrendo a sério - ele precisa ocupar uma vaga como representação do neoliberalismo porque, ocupando-a, tira o posto para um possível opositor desse projeto. 

Tome as "fantásticas ideias econômicas" de Meireles, Guedes (que é o verdadeiro candidato, e não Bolsonaro), Alckmin e do próprio Amoedo e você perceberá que elas são a mesma coisa em essência.

Quando o "jornalista" fez a pergunta a Ciro no evento em Roraima, ele beneficiou - ou intencionou beneficiar - ou Jucá, ou Alckmin. E, em extensão, os eleitores de Jair que, abandonando toda a retórica de pulso firme e "sinceridade", passaram a incorporar a etiqueta típica de lordes ingleses no chá da tarde e, agora, mostram a "agressividade" de Ciro.

No vídeo da suposta "agressão", é possível perceber que ela não existiu. Ela foi verbal, é óbvio, mas não física. É uma clara tentativa de arremeter um aríete contra Ciro. Mas o ato não parece ter surtido grande efeito, já que o eleitorado do candidato permanece mesmo decidido e os indecisos não parecem afetados pelo episódio. Só os inimigos da casa, os inimigos de sempre, é que arrotam a "vitória" inexistente.

É bastante claro que, tanto Ciro quanto Bolsonaro (ressalvando as devidas proporções) precisam controlar mais as próprias reações: Ciro deve fazer isso para conseguir concretizar seu projeto de desenvolvimento para o país, e Bolsonaro deve conseguir manter a pose caso Guedes queira ter chances reais de vender o Brasil. 

Há hipóteses de que o "jornalista" Luiz tenha recebido mais de R$120000 diretamente de Jucá para fazer a pergunta. 

Em tempo: o androide Ricardo Lewandowski, atualmente ocupando o lugar de algoritmo, quer dizer, ministro do Supremo Tribunal Federal, arquivou, no dia 14 desse mês, arquivou o inquérito contra Renan Calheiros e Jucá (os dois são do PMDB/MDB e figuras próximas). 

A blindagem contra as facadas políticas já foi feita para a casta.


 
Share:

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Quem é Paulo Guedes?

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Foto: ElPaís Brasil

É preciso "ignorar" Jair. Quando falamos em termos de Política Real (Realpolitik), ele é irrelevante e representa o vazio. A verdadeira figura em sua campanha é Paulo Guedes. Esse deve ser o projeto de análise, o foco, o ponto central das observações em relação a essa candidatura.

Essa figura, na qual Jair confia cegamente - e cuja relação entre os dois ele chega a comparar a um "namoro" ou a um "casamento" (uma relação homoeróticopolítica - algo estranho para quem tenta forçar uma imagem radicalmente conservadora), é o verdadeiro nexo e o real responsável pela guinada em Bolsonaro, saindo do ultranacionalismo dos anos 80-90 e migrando para o neoliberalismo mais radical - uma proposta liberal que faria FHC parecer um comunista inveterado.

Guedes, elogiado pelos seguidores do capitão da reserva como o "maior economista do Brasil" ou "um gênio econômico" que "dá aulas" (repetindo mantras que seriam mais típicos de memes de páginas liberais), é algo mais profundo - e perigoso - do que isso. É essa a análise que farei aqui, uma "dissecação" do corpo chamado Paulo Guedes e seus órgãos, funcionalidades e efeitos reais. 

Formação e linhas teóricas

Para analisar Guedes, é preciso analisar elementos anteriores a ele, dos quais ele é mero repetidor e funcionário.

Paulo Roberto Nunes Guedes é um dos vários economistas que seguem a cartilha da ortodoxia pregada tanto pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) quando pelos Acordos de Bretton Woods - a cartilha para as regras de economia global criada em julho de 1944, onde gurus da economia se reuniram no Hotel Mount Washington, em New Hampshire, EUA.

Basicamente, o acordo definiu que as nações deveriam adotar políticas monetárias mantendo a taxa de câmbio das moedas num valor indexado ao dólar (na prática, foi a adoção do dólar como moeda global, fator crucial para o protagonismo e a hegemonia dos EUA, principalmente no pós-guerra). 

No governo de Richard Nixon, houve uma suspensão unilateral do acordo e o cancelamento da conversibilidade direta do dólar para valores em ouro - mas, na prática, isso reforçou a dependência em relação ao dólar e a predominância econômica dos EUA.

O grande objetivo do acordo de Bretton Woods era instrumentalizar e institucionalizar um sistema econômico mundial pautado em premissas liberais, o que era visto como um mecanismo para aumentar as possibilidades de paz depois da Segunda Guerra Mundial (na prática, o efeito foi o inverso e é possível listar inúmeros conflitos geopolíticos movidos pela lógica econômica estabelecida em Bretton).

Cordel Hull foi um dos maiores entusiastas do plano. Ele enxergava a Segunda Guerra Mundial como um "conflito comercial" - e, se o conflito foi de ordem comercial, a pacificação também deveria sê-lo. Hull define a situação nos seguintes termos:

"[...]Comércio sem entraves, associado à paz; tarifas altas, barreiras alfandegárias e competição econômica injusta, com guerra... se conseguíssemos fazer com que o comércio fosse mais livre [...]  no sentido de haver menos discriminações e obstáculos [...] de tal modo que um país não tivesse inveja mortal em relação a outro e os padrões de vida de todos os países pudessem crescer, eliminando, com isso, a insatisfação econômica que alimenta a guerra, teríamos uma chance razoável de paz duradoura.[1]"


Setenta anos depois da declaração de Hull, é plenamente possível dizer que a "paz pelo comércio" se mostrou uma utopia.

Mas, aí mesmo, é possível detectar todos os mantras de absolutamente todos os liberais, fraseologias repetidas à exaustão e transformadas na ortodoxia econômica vendida especialmente para países de Terceiro Mundo, como o Brasil. Estou pegando emprestada uma análise do próprio economista sul-coreano Ha-Joon Chang[2], que afirma haver um discurso montado em torno dessa retórica liberal, usado para desacreditar absolutamente todas as outras linhas e abordagens econômicas e que, inclusive, não condiz com a prática real das nações desenvolvidas (que, curiosamente, são as que mais promovem esse discurso).

Diminuição do Estado, retirada de restrições alfandegárias, redução (ou eliminação) de taxas de importação, desnacionalização da economia - o receituário pregado por Bretton Woods e continuado pelo FMI (basta observar as diretrizes econômicas pregadas pelo Fundo Monetário Internacional e suas condicionantes para conceder empréstimos aos governos: privatizações, medidas de austeridade, abertura econômica, etc. - as "maravilhas" dessa prescrição estão sendo vistas ao nosso lado, na Argentina de Macri, e foram sentidas aqui nos anos 80-90).

Vamos para o próximo estágio: a formação acadêmica de Guedes. Quando afirmo Guedes como um neoliberal, faço uso de um termo criado pelos próprios liberais (ele foi forjado no Colóquio Walter Lippman, inventado por Alexander Rüstow - reforço, mais uma vez: o evento era uma organização de economistas liberais e Alexander era um economista liberal). Não se trata de um termo criado por "comunistas malvados", mas sim pelos próprios liberais para realizar uma ruptura entre o Liberalismo Clássico de Adam Smith e um novo conceito liberal. Ponto.

Guedes não é um liberal smithiano. Ele é num neoliberal, um seguidor da cartilha da Escola de Chicago. Guedes se formou em Economia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), passou pela Fundação Getúlio Vargas em sua pós e fez mestrado na University of Chicago, em 1979. Um excelente currículo, certo? Bem, eu chamaria isso de instrução - instrução no sentido mais tacanho do termo.

Guedes, como toda a geração de economistas que migram de países do Terceiro Mundo para "aprender o segredo do sucesso" em centros de economia localizados nos EUA, aprendeu um receituário simplório, uma "receita de bolo" que gera riqueza "instantânea" - abertura econômica irrestrita, privatizações indiscriminadas, retirada de direitos trabalhistas, anulação de todas as medidas protecionistas, "livre concorrência", etc. 

A Universidade de Chicago é um polo de formação e irradiação de economistas neoliberais. Ela recebe economistas dos países periféricos e prolonga nesses economistas todo o script neoliberal. Eles retornam aos seus países e influenciam seus governos, não sem a ajuda de fortes grupos (Guedes está associado à Open Society, por exemplo), a adotar essa profilaxia milagreira. 

Essa é a missão da Universidade de Chicago e Guedes é um androide fabricado naquela linha de montagem, executando os códigos de programação e os comandos que foram inseridos nele.


A Escola de Chicago

A chamada Escola de Economia de Chicago é uma linha de pensamento vinculada ao liberalismo, iniciada e irradiada na University of Chicago. Apesar de um de seus slogans ser o "debate acadêmico aberto", esse núcleo é radicalmente liberal e vorazmente oposto a quaisquer medidas ou pautas que fujam minimamente desse escopo.

A Escola de Chicago nasceu como uma reação ao modelo econômico Keynesiano. Em termos simples, ela se opõe radicalmente a qualquer ação governamental na economia, a qualquer papel estratégico por parte do Estado e a tudo aquilo que se possa considerar como dificultação ao processo de liberação da economia.

Aliás, essa liberação econômica, nos próprios termos da Escola de Chicago (o que também já era reforçado desde o Liberalismo Clássico), exige a liquefação das fronteiras entre as nações - a convulsão dos apoiadores de Jair com a situação das fronteiras nacionais e a "entrada irrestrita de imigrantes" deveria deixar de existir, já que a linha econômica de Guedes está inteiramente harmonizada com o enfraquecimento das fronteiras e o livre trânsito de pessoas.

Dentre os principais nomes da Escola de Chicago, destacam-se os teóricos Frank Knight, Richard Posner, Gary Becker, Ronald Coase, Milton Friedman, Friedrich Hayek, Robert E. Lucas, Eugene Fama, Lars Peter Hansen, Robert Fogel, George Stigler, D. Gale Johnson e Theodore Schultz, dentre outros mais.

Alguns dos elementos de Guedes se encontram num radicalismo ainda maior que o da Escola de Chicago, a chamada Escola Austríaca, da qual Ludwig von Mises, uma divindade para os liberais, é o maior símbolo. Mas, aqui, os elementos austríacos são muito menos catalisados do que os de Chicago, já que a linha de Guedes e a de grande parte de economistas, mesmo os liberais, não aceita totalmente a leitura austríaca.


Críticas à Escola de Chicago e algumas aplicações práticas da teoria

As críticas à Escola de Chicago e à linha ortodoxa liberal dominante nos centros econômicos não parte exclusivamente de marxistas, mas de economistas do próprio meio acadêmico e do ambiente político que cercam esse núcleo.

Paul Douglas, senador estadunidense do Illinois, chegou a criticar o próprio ambiente acadêmico e o "nível de discussões" na Universidade de Chicago, declarando estar:

"[...] incomodado ao descobrir que os economistas e políticos  conservadores haviam adquirido um domínio quase total sobre o departamento e aprendido que as decisões de mercado são sempre corretas e que os valores dos lucros são os valores supremos [...]. As opiniões dos meus colegas teriam confinado o governo às funções típicas do século XVIII (justiça, polícia e forças armadas), as quais eu via como tendo sido insuficientes mesmo naquela época e que, certamente, continuavam a sê-lo para nós. Esses homens não usavam dados estatísticos para desenvolver a teoria econômica nem aceitavam análises críticas ao sistema econômico [... ] Knight passou a ser abertamente hostil e seus discípulos pareciam estar por toda parte. Se eu ficasse ali, estaria num ambiente hostil "[3].

Não se trata, como podemos ver, de um centro de debate acadêmico e proposição de ideias multifacetadas, mas de orientação, repetição, aprofundamento e doutrinação da ideologia neoliberal em essência. Ponto. Guedes não foi um aluno de Economia, foi um aprendiz da cartilha neoliberal de Chicago. Simples assim. 

Aliás, o já citado Ha-Joon Chang também afirma que esses núcleos acadêmicos de Economia não debatem a Economia num sentido amplo, mas sim repetem os discursos condicionados e aceitos pela cúpula de economistas liberais. É um processo contínuo de autoafirmação de um pensamento.

O grande jogo é afirmar que absolutamente todas as outras linhas são ideologias, e que somente o liberalismo não é uma ideologia, mas sim o reflexo natural e inquestionável do mundo real, dos fenômenos observáveis, enquanto que todas as outras ideias são adulterações da realidade. Mas o próprio Chang já explicitou com inúmeros fatos que a visão e a retórica liberais são, em grande parte, adulterações históricas e negações dos efeitos e fenômenos reais.

É preciso entender o liberalismo não como a economia ou a realidade, mas como uma linha de análise que, como todas as outras, também contém elementos falhos e não reflete nem abarca toda a realidade econômica, muito menos toda a realidade humana.

O que ele pretende aplicar não são proposições condizentes com necessidades mutáveis de mercado, mas sim com um receituário pronto, inflexível e irredutível. Se há um manual dizendo que você vai apagar fogo com gasolina, você o ignora. Paulo não fez isso: sua ideia mirabolante é usar a gasolina no incêndio. E isso será explicado adiante.

O economista Brad DeLong, formado pela University of California, afirma que a Escola de Chicago é um "colapso intelectual" - Paul Krugman, ganhador de um prêmio Nobel e formado pela Princeton University, também diz que os comentários dos economistas de Chicago são "produtos da Idade das Trevas da macroeconomia, na qual o conhecimento duramente adquirido foi rejeitado". Krugman chega a demonstrar que muitas das pesquisas feitas pelos economistas de Chicago em meados dos anos 1960 foram feitas com dados adulterados.

Apesar de ostentar algumas "vitórias" como o dito Milagre Econômico do Chile (que, com boa análise histórica e factual, se mostra não ser tão milagroso assim), grande parte das políticas de Chicago se mostraram negativas em governos como o de Reagan e Thatcher, ambos com forte agravamento do desemprego e da desvalorização do trabalho em preferência ao capital, ao rentismo.

O que vemos agora com o colapso previdenciário do Chile, a crise na Argentina, a ruína da economia grega, as reformas na Espanha, em Portugal e na França - e em outras políticas semelhantes - é, em grande parte, o resultado da aplicação prática das teorias de Chicago.

O México, o quintal estadunidense na Latinoamérica, é um dos exemplos perfeitos dessa metodologia: uma economia extremamente aberta aos EUA, desnacionalizada e com aprofundamento das desigualdades sociais, do narcotráfico e da falência governamental - além de, é claro, não ser nenhuma potência econômica. Grande parte dos países da América Central, em grande parte, também são exemplos disso. 


O reforço do Brasil como país periférico

Paulo Guedes não é o único economista latino formado em Chicago. Aníbal Quijano, importante intelectual peruano, desenha a ideia de Colonialidade do Saber, na qual argumenta que o verdadeiro imperialismo não está exclusivamente no campo da economia ou da força militar direta, mas sim das ideias, da formação das mentalidades.

Para ele, os países desenvolvidos mantêm a predominância intelectual e servem como polos dessa formação, submetendo as nações pobres a uma "dependência mental" em relação a esses polos de saber. Assim, essas nações são obrigadas a "aprender", repetir e adotar ideias que são criadas não por elas, mas por esses polos.

A formação de Guedes numa escola econômica estadunidense e a adoção de uma visão econômica que não foi pensada no Brasil e para o Brasil é uma ilustração perfeita da análise de Aníbal. Somos colonizados na formação econômica e toda nossa história nacional é pautada na dependência de projetos econômicos externos.

No período Colonial, toda nossa matriz econômica foi determinada por Portugal; com a Independência, iniciamos uma fase de submissão econômica à Inglaterra (com um espasmo iniciado por D. Pedro II que, com o Barão de Mauá, iniciou alguma industrialização nacional, devidamente morta na fonte com o início da República, que foi marcadamente um período de re-agrarização do Brasil). 

Com a exceção de pequenos lapsos em determinados momentos, como em D. Pedro II, Vargas e Lula, em projetos sem consistência e continuidade e precocemente interrompidos, toda nossa trajetória econômica é a trajetória da imposição de projetos econômicos que nos são alheios.

É a dependência política, econômica e intelectual.


Breve histórico

O que Paulo Guedes propõe é, quer ele tenha ciência disso ou não, o condicionamento do Brasil como uma nação periférica, marginalista, que, dentro da ideia de Sistema Mundo desenhada por Immanuel Wallerstein, cumpre seu papel de fornecedora de matérias primas baratas numa economia essencialmente agroexportadora. 

As propostas econômicas de Guedes são uma continuidade do governo Temer. O próprio Guedes afirmou que vai manter parte da equipe econômica de Michel Temer

Uma das mirabolantes ideias dele é capitalizar, rapidamente, cerca de R$2 trilhões com a venda de absolutamente todas as empresas estatais do país. Com esse montante, o governo pagaria a dívida e equilibraria as contas fiscais. 

Essa afirmação é falsa, um recurso retórico desonesto de Guedes. Em primeiro lugar, mesmo que todo esse montante da venda das estatais fosse direcionado para o pagamento da dívida, isso seria insuficiente, já que a dívida, hoje, passa os R$3.5 trilhões. E o valor só cresce.

Numa economia desmantelada, o valor das empresas decresce. É impossível assegurar que o valor calculado hoje para um montante de R$2 trilhões será o mesmo na época dessas vendas. A dívida não seria totalmente paga e, descaptalizados e sem condições de captar investimentos externos, nosso governo seria obrigado a adotar medidas suicidas e se submeter ao FMI, adquirindo uma nova e monstruosa dívida.

Essa "ideia genial" do Guedes já foi colocada em prática por FHC com o mesmíssimo discurso e com o mesmo objetivo: pagar a dívida. Mas, estranhamente, ela nunca é paga. E nenhum economista dessa linha terá objetivo real de quitar isso, porque a manutenção dessa dívida é um imperativo geopolítico para anular o Brasil.

Ele pretende aprofundar as medidas de austeridade e de teto de "gastos" - leia-se diminuição do retorno justo dos impostos cobrados e desmantelamento de serviços públicos essenciais. Aliás, austeridade e "limite de gastos" que não inclui a elite política, já que Guedes nunca fala sobre os privilégios políticos e o próprio Bolsonaro afirma que não vai cortar os privilégios salariais da classe.

Guedes foi cogitado para assumir a Fazenda durante o governo Lula (ele chegou a elogiar as medidas econômicas do ex-presidente). Aliás, ele tem profundas ligações com George Soros -  o nome que invoca medo e terror na Direita brasileira, que o associa a absolutamente todos os elementos da Esquerda, mas que está convenientemente ignorando essa ligação com o "Posto Ipiranga" de Bolsonaro. 

Há fortes indícios de irregularidades fiscais envolvendo Paulo Guedes. Ele é sócio do Grupo Bozano, uma empresa do ramo financeiro que é uma sociedade de doleiros ligada a inúmeras operações irregulares e suspeitas de fraudes, com vários nomes envolvidos na Lava Jato pela operação "Câmbio, Desligo".
Guedes se associou a Julio Bozano após este ter vendido seu banco, o Bozano Simonsen, para o Santander, em 2000. Guedes chegou a incorporar a BR Investimentos, que era dele, ao grupo de Bozano, formando a Bozano Partners. Sanchez participou da Assembleia Geral para formar a Partners. Guedes é sócio e membro dos comitês executivo e estratégico.

No período de 29 de janeiro de 2008 a 19 de maio de 2016, o Ministério Público Federal aponta que Sanchez e outros membros do grupo movimentaram U$29,847 milhões em ações no exterior. O grupo Bozano tenta comprovar que não estava envolvido diretamente nas transações ilegais dos doleiros invstigados na Lava Jato.

É muito improvável que Guedes, cuja empresa BR Investimentos foi crucial para a fusão e a criação da Bozano Partners, assumindo cargos de chefia no grupo, não tivesse conhecimento das operações - inclusive por ser um economista tão "fantástico". Se as investigações realmente prosseguirem, não é improvável que o nome dele seja envolvido em algum desses esquemas. 
Aliás, a mídia em geral tem se mantido em silêncio em relação a isso - principalmente porque os grupos de especuladores são quase intocáveis, especialmente no Brasil.
 Além das operações pelo Grupo Bozano/Bozano Partners, Guedes está envolvido em transações na Bolsa de Valores no montante de R$600 mil - operações que, segundo a Justiça Federal do Rio de Janeiro, foram ilegais.

Toda a proposta econômica definida por Guedes depende de um fator: capital externo (ou seja, investimentos estrangeiros). Entretanto, a tentativa de executar um "saldão do Brasil", uma liquidação patrimonial, vem sendo feita desde 2016, com Temer. 
O fracasso se deve a um fator: a economia nacional perdeu confiabilidade no cenário global e os investidores estrangeiros não querem investir num país politicamente instável, economicamente quebrado e sem massa apta a consumir (quase 1/3 dos brasileiros se encontram endividados).

Não adianta transformar o país num brechó instantâneo se não há condições mínimas de atrair investimentos externos. E não adianta atrair investimentos externos sem transformar esses investimentos em conquistas sólidas para o país. Basta observar o papel que o governo de Singapura tem na captação de recursos do exterior e o gerenciamento desses recursos para a população local (o "paraíso liberal" aplica uma receita diametralmente oposta ao receituário de Chicago adotado por Guedes).
Conclusões finais
O plano de Guedes é mais do mesmo. É a mesma fraseologia neoliberal para a Latinoamérica, é a mesma prescrição para manter o Brasil como país de Terceiro Mundo, jamais desenvolvido, com 0% de competitividade global, agroexportador, importador de produtos de alto valor agregado e exportador de commodities baratas.
É possível fazer uma lista das possíveis (e lógicas) consequências do prosseguimento de um plano como esse proposto por Guedes:

- Medidas de austeridade (só pros pobres) 
- Favorecimento do rentismo, da especulação e dos bancos (Guedes nunca fala em cobrar as dívidas dos bancos e do agronegócio - mas os admiradores dele debocham das propostas de Ciro sobre renegociação de dívidas de pobres e da classe média junto ao SPC)
- Aprofundamento da desindustrialização (Guedes não fala absolutamente nada sobre reverter isso)
- Dependência total de capital externo (nenhuma intensificação das capacidades nacionais para promover a recuperação econômica numa eventual ausência desse capital)

- Aprofundamento das desigualdades sociais

- Desvalorização completa do trabalho e do trabalhador (regredindo e anulando uma série de conquistas trabalhistas em nome da "modernização das relações trabalhistas"[4])

- Intensificação dos déficits sociais (continuidade e aprimoramento dos "tetos de gastos", ou seja, diminuição dos investimentos em saúde, educação, segurança - setor tão alardeado por Bolsonaro -, infraestrutura, pesquisa, etc.)

- Intensificação da dívida 

- Destruição da capacidade produtiva do país


Mas o importante é repetir mantras vazios de "Estado Mínimo" sem se dar conta do que isso realmente significa. Ao que parece, o "patriotismo" brasileiro exige uma grande medida de subserviência, entreguismo e destruição das estruturas nacionais. E Gudes consegue fornecer esse conteúdo de profundo niilismo, ausência total de valorização ou de construção do Brasil enquanto potência geopolítica.
Mais do mesmo.



Referências bibliográficas:

[1] Cordell Hull, ''The Memoirs of Cordell Hull" ("As Memórias de Cordell Hull"), vol. 1 (New York: Macmillan, 1948), p. 81.

[2] Ha-Joon Chang, ''Kicking Away the Ladder: Development Strategy in Historical Perspective'' ("Chutando a Escada ‑ A Estratégia do Desenvolvimento numa Perspectiva Histórica"), Anthem Press (1 de julho de 2002).

[3] Paul H. Douglas, "In the Fullness of Time" (Na Plenitude do Tempo"), 1972, pgs. 127–128.

[4] É ilógico falar em "modernização trabalhista" sem antes efetivar uma modernização da capacidade produtiva do país, da ampliação de sua competitividade global e da reformulação de elementos tão graves para o Brasil, como a falta de reorganização da terra (o fim dos latifúndios), reforma política e fim de privilégios das castas altas do país. O que existe é o sucateamento de relações trabalhistas num país já defasado

Share:

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Bolsonaro é um personagem seguindo um script

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Foto: HuffPost Brasil

Quando o neoliberalismo não consegue triunfar na "periferia do mundo" (África, Latinoamérica e algumas "bordas" da Ásia - já entrando em protagonismo juntamente com a China e por conta dela) por meio de golpes militares e patrocínio de ditaduras, ele precisa fazê-lo por meio de "ações democráticas". No panorama político brasileiro, é preciso fazer a leitura de Bolsonaro naquilo que ele realmente significa: essa saída "democrática" para o colonialismo.

É plenamente correto categorizar Jair Bolsonaro como um personagem, uma caricatura de si mesmo. Um personagem seguindo um script que não foi escrito por ele. Esse roteiro, fabricado pelos agentes da especulação, do rentismo e da submissão do Brasil, não tinha Jair como a primeira escolha. Na verdade, o "candidato do mercado" era Alckmin, originalmente. 

Mas falta a Alckmin um elemento que Bolsonaro possui: "carisma", no sentido mais negativo do termo. Bolsonaro consegue uma imagem popular, populista no sentido de condicionamento de um público. Ele consegue entrar nas camadas do "povão" porque sua superficialidade consegue casar perfeitamente com uma massa condicionada à limitação intelectual; a ignorância dele se encontra com a ignorância de uma aglomeração de pessoas que, por interesses muito claros, é mantida nesse nível.

Bolsonaro é o candidato das correntes e boatos de WhatsApp, de páginas de memes e simplificações grosseiras. É um algoritmo, mas um algoritmo bastante simples - ou talvez seja comparável a algumas linhas de HTML ou CSS. O desdém que ele expressou pela catástrofe do Museu Nacional no estado que o elegeu por três décadas é um dos sinais mais significativos disso.

Mas ele precisa ser vazio, justamente porque os roteiristas desse script querem o vácuo - um vácuo que pode ser preenchido com qualquer coisa, preferencialmente o projeto de arquitetura neoliberal. Há muito medo de que o Brasil "se torne uma Venezuela", mas quase ninguém teme que nosso país se transforme uma versão 2.0 da Argentina de Macri. Bolsonaro é o Macri brasileiro (só que com um nível cognitivo piorado).

Há roteiros de ficção e de história real. O de Jair se enquadra na primeira categoria. Todo o discurso em torno dele construindo um arquétipo de honestidade, como se ele mesmo fosse um Avatar messiânico para "moralizar a política nacional" se defronta com a prática, as ações reais dele.

Ele é visto como o paladino da moralidade, mas empregou funcionários fantasmas, fez triangulação de propina da JBS pelo PSC, vota historicamente pelo aumento dos próprios salários da classe política e contra medidas benéficas aos trabalhadores - o que faz dele, em essência, um mantenedor do establishment político. Ele precisa repetir constantemente para o próprio séquito que fará uma transformação radical na política nacional quando, na verdade, representa o silogismo marcadamente histórico dessa casta.

Todo o conteúdo de Bolsonaro são suas frases anotadas à caneta na mão, moralismo superficial e repetição mecânica de pautas econômicas neoliberais - entrega de patrimônio, desvalorização do trabalhador, privatizações irrestritas, etc.

Ele é a reformulação de velhas propostas continuístas, só que com a roupagem do moralismo tacanho apreciado pela Direita mais a agenda neoliberal - e, de quebra, um misticismo de "novidade".

Quando ele fala, o som é a repetição daquilo que outros pensaram antes dele e estabeleceram para ele. É o ator lendo o roteiro - e repetindo-o decorado para seu público. E há duas figuras que realmente exercem o poder de facto e que se estendem por detrás dele: Mourão e Guedes. Falarei sobre eles (que num caso de sucesso da candidatura Bolsonaro seriam as verdadeiras lideranças) no próximo texto.

O voto no candidato do PSL é um voto numa interpretação de um personagem - e um personagem fictício que foi incorporado e aceito pelo próprio Bolsonaro.


Share:

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A equação eleitoral e o elemento Haddad

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Foto: Farol News

As flutuações constantes estão transformando esse período eleitoral no mais imprevisível. Lula, o candidato com maior popularidade dentre os concorrentes e que chegou a ter chances reais de vencer no primeiro turno, foi eliminado da disputa. Bolsonaro, o segundo na fila,possui cerca de metade das intenções de voto que Lula, quando ainda cogitado, tinha.

Na esteira, há duas figuras: Ciro Gomes e Haddad. O primeiro, considerado como um "candidato nanico" de início, já ultrapassou Marina Silva (que, até então, era a segunda colocada depois de Jair) e vem crescendo a cada pesquisa; o segundo, que era vice de Lula, é, até então, seu substituto - e há grandes vantagens nisso.

De acordo com a pesquisa divulgada pelo Ibope ontem, dia 11, Ciro Gomes registra 11% (13% na variação para mais e 9% na variação para menos) das intenções de voto, contra 26% de Bolsonaro (28% na variação para mais e 24% na variação para menos). Até então, estava praticamente definida uma projeção de um segundo turno entre esses dois candidatos.

Haddad, agora, é o nome do Partido dos Trabalhadores. A imensa popularidade de Lula demonstra que nem todo o aparato de mídia convencional nem a insistente campanha anti-PT, culminando com as manifestações pró-Impeachment intensificadas em 2016, foram suficientes para destruir nem a imagem do partido em si, nem a da pessoa de Luís Inácio. Ao contrário: a capacidade agregadora é imensa, e Haddad pode ser o maior beneficiado com uma "transferência" de votos de Lula, já que, obviamente, ele é o apoiado.

Assim sendo, é possível fazer algumas projeções. A primeira dela é a de que Haddad, mantendo esse ritmo, ultrapasse Ciro e concorra contra Bolsonaro no segundo turno. Nas projeções atuais para o segundo turno, Bolsonaro ganharia de Haddad por 40% a 36%. Ou seja, um segundo turno contra Haddad é, ao menos por agora, uma vantagem para o candidato do PSL.

Mas Haddad encontra uma rejeição considerável: 23%. A rejeição a Ciro Gomes é de 17% - a de Bolsonaro, 41%. Aliás, nas simulações para o segundo turno, Bolsonaro perderia para Ciro por 37% a 40% (ele também perderia para Alckmin por 1% de diferença e empataria com Marina).

O elemento da rejeição é crucial para qualquer uma dessas projeções. Tudo depende de alguns fatores, dentre eles a capacidade de Haddad de realmente absorver os votos de Lula (que, pela atual taxa de rejeição e pela projeção para o 2º turno contra Bolsonaro, ainda não se mostra tão forte), a continuidade do crescimento de Ciro e a estagnação de Bolsonaro.

Até o momento, não é incorreto afirmar que o único beneficiado pela candidatura de Fernando Haddad é Bolsonaro, que teria nele a única chance real de vencer um segundo turno. E prejudica Ciro, que é o candidato que venceria com maior folga a figura de Jair. Não é incorreto também afirmar que outras oscilações podem ocorrer, já que, até pouco tempo, Ciro sequer seria cogitado como um candidato de peso e com chances reais de vencer.

O Partido dos Trabalhadores corre um sério risco de prejudicar, mesmo que indiretamente, uma candidatura de rompimento com a lógica neoliberal vigente e facilitar a eleição de um candidato que, não sendo nada mais do que um apêndice de Paulo Guedes (a verdadeira mente por trás dessa candidatura), representa a continuidade do projeto de desmantelamento de Michel Temer. Caso eu esteja errado, Ciro pode se manter em ascensão - ou Haddad realmente absorve os votos de Lula e desbanca Jair.

Mesmo assim, é improvável que um novo governo petista consiga efetivar uma estabilização política. E a instabilidade governamental seria, em si mesma, um prolongamento do evento de 2016.

Na mística popular, o PT é Lula. E essa mística ainda impede a adesão total à figura de Haddad. A "transferência de votos" pode não ser tão direta e tão imediata e, dada a menor taxa de rejeição, não seria errado supor que parte desse eleitorado optasse pelo próprio Ciro.

E, se houver uma estagnação real e a taxa de rejeição de Bolsonaro continuar aumentando, também não é impossível cogitar um segundo turno entre Haddad e Ciro. 

Haddad é, essencialmente, o símbolo do estrelismo e da necessidade de poder que o Partido dos Trabalhadores incorpora como seu signo mais forte de "hegemonia" e protagonismo - justamente no momento em que a própria organização deveria priorizar uma autocrítica e fazer uma pausa mais do que necessária. Mas não farão.

 
Share:

terça-feira, 11 de setembro de 2018

16 motivos para votar em Ciro Gomes

Por: Jean A. G. S. Carvalho



As eleições de 2018 são, provavelmente, o momento eleitoral mais importante desde o processo de redemocratização. Por isso, é crucial analisar cada candidato e as plataformas apresentadas por todos eles. 

Pessoalmente, interpreto Ciro Gomes como uma figura a representar um projeto de retomada do Brasil enquanto potência e da proposição de uma reconfiguração em vários sentidos, rompendo com certas lógicas que vêm, historicamente, mantendo nosso país num espectro marginalista no Sistema Mundo.

Aqui, estão listadas 16 razões para votar em Ciro Gomes e os motivos de ele ser o melhor candidato no quadro atual.


1. Mudança da lógica econômica

Ciro Gomes propõe uma ruptura radical com a lógica econômica reforçada pelo governo Temer - desmantelamento da infraestrutura nacional, paralisação de projetos importantíssimos, desvalorização do trabalho, perda de poder aquisitivo e prolongamento da recessão. As propostas econômicas de Ciro são um giro de 180º num percurso que só tem promovido a deterioração da nossa economia e o entrave no crescimento do país.


2. Valorização do patrimônio nacional

Ciro foi crucial para evitar a aquisição da EMBRAER pela Boeing, defendendo que uma transação tão importante deveria esperar pelos os resultados eleitorais. Ciro já coloca em prática sua plataforma de valorizar o patrimônio nacional e permitir que nossos potenciais técnicos e intelectuais sejam aproveitados nacionalmente, evitando a evasão de talentos e favorecendo a geração de emprego e riquezas para o Brasil.


3. Equidade tributária

A proposta de reforma tributária de Ciro, bastante lógica, é cobrar mais de quem tem mais e desonerar quem tem menos (os pobres e a classe média), dinamizando a receita e estimulando a entrada adequada de recursos para os projetos tão importantes para o país.


4. Modernização das Forças Armadas

Modernizar as Forças Armadas é uma das principais pautas de Ciro: retomar e intensificar projetos como o avião KC-390 e o submarino SN-10. É um passo importante para investir em expertise e desenvolvimento tecnológico.


5. Competitividade global

Ampliando o ponto 1, outro importante aspecto das propostas de Ciro é dar competitividade econômica para o Brasil, atualizando o país para uma realidade global. É retirar nosso país de um papel periférico e marginalista e colocá-lo em concorrência real com as nações desenvolvidas. É algo indispensável para promover o desenvolvimento do país.


6. Retomada das indústrias 

O Brasil passa por um dos processos mais graves de desindustrialização da história mundial. Isso significa intensificar a própria crise. Com menos empresas e indústrias, há menos oportunidades de trabalho. Ciro defende expressamente a retomada do estímulo às indústrias, gerando mais empregos e capacidade de dinamização econômica para nossa nação. Superar a crise exige superar a desindustrialização - e Ciro propõe isso.


7. Investimento em tecnologia

O Brasil vive uma verdadeira "fuga de cérebros": infelizmente, quem quer investir em tecnologia sai do país, e há um desmantelamento total da pesquisa por aqui (a tragédia do Museu Nacional é uma ilustração triste disso). Retomar investimentos em ciência e tecnologia é um dos melhores pontos do projeto de governo de Ciro Gomes.


8. Reestruturação educacional

Um ponto essencial para todos os outros, a reformulação da educação proposta por Ciro (mantendo programas interessantes e adotando ideias novas) é o carro-chefe de sua plataforma: incluindo ensino técnico em tempo integral. Isso garante diminuição da evasão escolar e aproveitamento das capacidades dos jovens no cenário econômico.


9. Valorização da multipolaridade

A proposta mais concreta em termos geopolíticos é a de Ciro: dinamizar a política externa do Brasil, aprimorar seus projetos diplomáticos e ampliar as parcerias entre o Brasil e outras nações, especialmente em nosso continente - o que é muito importante para consolidar nossa nação como uma potência regional. É a valorização de uma abordagem de multipolaridade (vários núcleos de poder) em contraste com a unipolaridade (um único polo de poder, centrado nos EUA).


10. Atualização da infraestrutura

Ciro também propõe dinamizar a infraestrutura nacional, retomando e concluindo obras paralisadas e iniciando outros projetos importantes para o país, incluindo portos, aeroportos, estradas, hidrovias e ferrovias. Esse ponto está diretamente ligado à renovação da construção civil, um dos setores mais importantes para a geração de empregos no Brasil e que, agora, está em plena crise. É uma forma interessante de gerar postos de trabalho com efetiva rapidez, ajudando a reaquecer a economia.


11. Reaquecimento da economia

O ponto mais polêmico nas propostas de Ciro Gomes é o da questão do SPC. Há muita desinformação sobre isso, mas a proposta de renegociação de dívidas e de favorecimento em relação às dívidas que esmagam grande parte da população é uma forma viável e concreta para reaquecer rapidamente a economia. Com renda, poder de compra e acesso ao crédito, o consumo aumenta; se o consumo aumenta, a demanda cresce; se a demanda cresce, a produtividade aumenta e, com ela, a geração de empregos para atender a demanda ampliada. É uma relação bastante lógica.


12. Estímulo à poupança

Estimular o consumo é um caminho importante para reativar a economia - afinal, a economia é essencialmente movida por consumo. Entretanto, outro ponto importante é favorecer a construção de uma poupança sólida - ou seja, a capacidade de armazenar recursos. Isso favorece a manutenção da economia em momentos de crise. Incrementar a capacidade de poupança por parte do governo e dos brasileiros como um todo significa favorecer o equilíbrio econômico e a composição de reservas para estimular o crescimento das pessoas e do país.


13. Reabilitação das instituições

A atual crise econômica é uma extensão da crise política e da crise nas instituições do Brasil. Os três Poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário e suas respectivas representações estão muito desmoralizados e há uma dificuldade de esclarecer e determinar suas áreas de atuação. Quando Ciro fala em colocar cada instituição em sua "caixinha", isso significa retomar as atribuições de cada instituição e respeitar os limites constitucionais delas, garantindo seu bom funcionamento e o respeito entre elas e o cidadão.


14. Ampliação da participação popular na política

A proposta de submeter importantes questões ao debate público e à escolha popular por meio de referendos e plebiscitos é uma forma de aproximar mais as pessoas da política, retirando seu caráter de distanciamento da realidade dos brasileiros e ampliando sua participação democrática na construção de soluções para o país.


15. Investimento em inteligência no combate ao crime

A questão da violência é um dos problemas mais urgentes do nosso povo. Aprimorar as forças policiais e investir em inteligência é um dos principais pontos de Ciro para a segurança pública, com foco no combate ao crime organizado em suas origens. Uma ótima proposta é transferir os integrantes da Polícia Federal atualmente alocados em trabalhos burocráticos para atividades de campo, substituindo-os por funcionários em regime de concurso (uma ótima forma de aumentar o efetivo da PF).


16. Rompimento com a PEC do "teto dos gastos"

A PEC 241, chamada de "PEC do teto dos gastos", impõe ao país uma restrição nos investimentos básicos durante 20 anos com o falso discurso de "equilíbrio fiscal". Ciro propõe romper com essa barreira, reavaliar a dívida do país e promover os investimentos de que o Brasil tanto precisa em áreas já tão deficitárias.

 -

Esses são 16 breves pontos que eu, pessoalmente, listo como positivos para decidir o voto por Ciro Gomes. São propostas que atendem às demandas do país e se direcionam aos principais paradigmas que estamos vivenciando. Até o momento, é a plataforma mais coesa, consistente e realista em relação aos dilemas do país.
Share:

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Um breve diagnóstico político sobre o atentado contra Bolsonaro

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Foto: Estadão.
 O atentado contra Bolsonaro possui vários paralelismos e muitos significados (e um deles é o discurso pró-democracia superficial, de acordo com as conveniências)
 

Em 22 de novembro de 1963, John Fitzgerald Kennedy (então presidente dos EUA) foi assassinado durante uma comitiva no estado do Texas, na icônica cidade de Dallas - talvez a eliminação mais emblemática de um chefe de Estado. 

No dia 14 de março de 2018, Marielle Franco, política e ativista pelos Direitos Humanos, foi executada a sangue frio no Rio de Janeiro; 13 dias depois, quatro disparos de arma de fogo foram dados contra uma caravana política com a participação do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. 

No domingo passado, dia 9, o candidato do PT a deputado estadual pelo Paraná, Renato Almeida Freitas Jr., foi baleado (com projéteis de borracha) e preso pela guarda municipal de Curitiba durante ato político de panfletagem. Dois dias antes, Edna Dantas, outra candidata a deputada estadual pelo mesmo partido, foi agredida e detida pela polícia com outros ativistas durante uma manifestação em prol da soltura de Lula.

No dia 6 de setembro de 2018, Jair M. Bolsonaro sofreu uma tentativa de homicídio com um golpe de faca durante ato de campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais. O agressor foi preso em flagrante e confessou o crime.

O assassinato de John F. Kennedy, a execução de Marielle, o atentado contra a caravana de Lula, as agressões contra Renato e Edna e a tentativa de homicídio contra Bolsonaro possuem um elemento comum: crimes nitidamente políticos. As narrativas construídas em cada um desses casos se alteram de acordo com os grupos e as motivações ao redor desses eventos.

E muitas dessas narrativas são marcadas por uma indignação seletiva, ou seja, uma reação adversa que não se faz presente em outros eventos de caráter igual ou semelhante.

A chamada "indignação seletiva" é uma reação não muito admirável, mas, de certa forma, compreensível em se tratando do homem, um animal social em essência. A formação de grupos e a noção do "nós versus eles", da oposição e da polarização, são elementos fortes no gênero humano. 

Contra todo o discurso tecnicista, não somos seres movidos essencialmente pela razão, pela análise, pela reflexão e pela lógica, mas organismos essencialmente impulsionados por emoções, reações e instintos. Esses são nossos impulsos primários, e a racionalização é, numa hipótese plausível, um elemento que ocorre a despeito e, muitas vezes, a posteriori a esses elementos mais "primitivos".

O mesmo Bolsonaro vitimado pela facada e agora martirizado é o sujeito que presta culto explícito a torturadores da pior espécie e satiriza vítimas de crimes bárbaros. Seu séquito mais fiel, que agora aponta para a incoerência da Esquerda ao não se solidarizar nessa situação, é exatamente o mesmo que também não se solidariza com as vítimas e parentes de um regime militar que fazem questão de exaltar.

Eles não enxergam nenhuma incoerência nessa postura porque, pra eles, isso não existe. O que importa, como para praticamente qualquer outro grupo, não é a coerência dos fatos e ações, mas a capacidade de criar uma coerência interna, uma coesão da narrativa.

Os militantes mais radicais da Esquerda que agora se alegram com o atentado também se indignam seletivamente contra agressões feitas a seus pares ideológicos. Estão eles e os seguidores fanáticos do "mito" no mesmo nível? Dificilmente, mas o comportamento é essencialmente o mesmo, mesmo que os significados ideológicos, históricos e narrativos sofram variações.

É preciso relembrar a reação típica dos agora chocados seguidores de Jair diante de alguns eventos semelhantes. Quando Marielle Franco foi assassinada, as reações mais comuns desse segmento foram de satirizar ou ironizar a morte, tratando-a como uma mera "defensora de bandidos". Inúmeras notícias falsas foram associadas ao nome da então militante do PSOL - aliás, a mera filiação partidária foi motivo para a comemoração (ou desdém) pelo assassinato.

Quando a comitiva de Lula foi atacada, não só os seguidores de Bolsonaro, como o próprio candidato do PSL, ironizaram o evento e, inclusive, colocaram em dúvida a veracidade do ataque. Bolsonaro chegou mesmo a afirmar que o atentado fora orquestrado pelo próprio PT (agora, a própria Polícia Federal aponta para a veracidade do atentado). 

As agressões contra os militantes petistas Edna e Renato, noticiadas em um grau muito menor, ainda não provocaram reações suficientes no segmento fiel a Bolsonaro - mas dificilmente a reação seria de empatia ou comoção.

Digo isso porque é perceptível que toda a carreira política do candidato do PSL foi construída em torno do discurso inflamado. Pouco antes do atentado, em campanha pelo Acre, Jair afirmou que iria "metralhar a petralhada" (sic) e "mandá-los para a Venezuela", inclusive satirizando a situação de miséria de milhões de venezuelanos. É bastante óbvio que todo seu séquito atribui a essas declarações um caráter meramente metafórico, cômico - mas eles mesmos se empenham num discurso visivelmente violento.

Algumas figuras que vêm apoiando Bolsonaro e outras que participam diretamente de seu grupo de governo vêm tentando refrear a tônica de radicalismo e violência adotada pelo candidato - dentre eles, o próprio vice, o general Mourão, que afirmou que os apoiadores de Bolsonaro precisam frear o radicalismo contra absolutamente todos os elementos de Esquerda.

Entretanto, essa não é uma postura homogênea, nem uma atitude observada em todos os apoiadores dele e nem no próprio Bolsonaro, que, ao longo do ano, vem oscilando entre uma postura mais conciliadora (apelando para a "união entre negros e  brancos, pobres e ricos, patrões e empregados gays e héteros, nortistas e sulistas, homens e mulheres", etc.) e uma postura mais radical e beligerante (como nas insinuações sobre eliminação de opositores, reduzidos a adjetivos como "petralhas" ou "mortadelas").

Gustavo Bebianno, braço direito de Bolsonaro e presidente nacional do Partido Social Liberal (PSL), declarou, logo após o atentado contra o presidenciável, que "agora é guerra". A retórica da continuidade do belicismo dá lugar ao discurso de Mourão (e do próprio Bolsonaro) sobre "conciliação", sobre o "fim das rivalidades e divisões". Ao que parece, a cúpula do candidato ainda não se decidiu se a tônica deve ser a da guerra ou a da paz, da radicalização ou da conciliação.

A lógica do radicalismo é praxe da própria Direita, apesar de não ser exclusividade dela. A tônica comum dos apoiadores de Bolsonaro é o reducionismo simplista de que ou você está ao lado dele, ou a favor de absolutamente todos os elementos mais baixos e degenerados possíveis. 

Ou você está ao lado dos "bons costumes", da "civilização judaico-cristã", da família tradicional, da ética, da honestidade e da moral, ou você está contra. O que são essas coisas? Bolsonaro. E ser contra o que há de bom é ser, obviamente, ruim. É ser um inimigo, um opositor. A personalização e a personificação dos bons valores na figura de Bolsonaro é parte da ritualística em torno dele, parte da retórica criada em torno de sua pessoa. 

Não há meio termo: ou se está com ele ou se está contra ele. Nesse sentido, o petralha serve como adjetivo que não se restringe aos militantes, filiados e apoiadores do PT, mas a qualquer um que não esteja ativamente ao lado de Bolsonaro (o mesmo serve para adjetivos esvaziados como comunista, bolivariano, socialista, mortadela, etc.). Essa novilíngua (a reinterpretação e a ressignificação das palavras), tão vista como objeto sinônimo da Esquerda, é igualmente presente na Direita.

As pesquisas eleitorais, tão odiadas pelo séquito pró-Bolsonaro como apenas uma das várias facetas de um sistema falso, apontam que ele subiu de 22% para 30% após o atentado (no cenário sem Lula). É bastante óbvio que essas mesmas pessoas usarão essas mesmas pesquisas "fraudulentas" para propagar uma vitória já alardeada como garantida.

Mas Bolsonaro continua sendo o elemento dos extremos: se seu eleitorado oscila entre números expressivos que variam de 20% a 30% num verdadeiro efeito "montanha russa" (ele perde e ganha esses 10% numa alternância rápida demais para construir qualquer consistência), sua rejeição ainda é a mais alta: ela se mantém superior a 50%.

Francischini, delegado e membro do PSL, afirma com quase completa convicção que o crime tem motivação política. Essa linha de raciocínio está presente em conteúdos do tipo "corrente de WhatsApp", que chegam a afirmar que o autor do crime, Adélio Bispo de Oliveira, faz parte de uma "grande conspiração petista" para eliminar Bolsonaro.

Em vários comunicados espalhados pelo WhatsApp e pelo Facebook, diz-se que Adélio teria recebido a quantia de R$350000 do Partido dos Trabalhadores mil para matar Jair. Essas informações, obviamente, são compartilhadas sem nenhum embasamento ou fontes confiáveis, tendo sido amplamente descartadas e desmentidas.  

O amadorismo da tentativa de assassinato é prova factível contra maiores teorias da conspiração em torno do atentado. É mais provável que a atitude tenha sido uma ação isolada, sem maiores conexões - o que não anula a necessidade de maiores investigações.

Significativamente, a aura em torno de Bolsonaro migrou do messianismo para o martírio - sem que o segundo elemento tenha anulado o primeiro (ao contrário, apenas o reforça, já que a ideia de um "perseguido político", um "herói-mártir" apenas reforça a tônica messiânica em torno dele).

O atentado, que vem sendo interpretado por seus apoiadores como um "crime contra a Democracia", tenta legitimar o discurso de um político visivelmente antidemocrático com aspirações e posturas totalitárias. Aliás, a própria legitimidade da Democracia e das eleições vem sendo condicionada por seus entusiastas diretamente à eleição de Bolsonaro. Se ele for eleito, o sistema é válido e funciona; se ele não for, o discurso de uma "fraude eleitoral" e um radicalismo são efeitos colaterais mais que previsíveis. 

A visão de Bolsonaro como uma espécie de messias político, a "única opção" e a "única salvação" para o Brasil e sua vitória tida como garantida por seus seguidores - principalmente num cenário sem Lula - são elementos que darão fôlego a um discurso ainda mais inflamado e radical, principalmente após o atentado. 

A altíssima rejeição a ele e as chances quase nulas de ele vencer um segundo turno em todas as perspectivas são coisas que não diminuem isso. Aliás, uma derrota viável dele na segunda fase das eleições será um argumento a mais no discurso sobre as "fraudes nas urnas eletrônicas" e o "complô no processo político", com direito a menções sobre a emblemática URSAL ou o Foro de São Paulo (ou sobre médicos-guerrilheiros cubanos e um exército venezuelano pronto para libertar Lula, ou quaisquer esquizofrenias políticas o gênero). 

As reações serão imprevisíveis e é praticamente impossível que os apoiadores de Bolsonaro, que agora usam convenientemente a retórica pró-democracia, aceitem um resultado diferente da eleição de seu candidato. Qualquer outro resultado que não seja a vitória dessa plataforma será interpretado como "fraude", "adulteração" ou qualquer outra tônica alarmista, de inconformismo e de radicalização.

Sempre que for conveniente, os apoiadores dele farão menções e glorificações a regimes ditatoriais (organizados por militares, preferencialmente) com a nobre intenção de "salvar-nos do comunismo", do mesmo modo que exaltarão os "princípios da Democracia". Não há necessidade de haver coerência, só de operar a formatação do discurso, formatação retórica.

A querosene já está sendo lançada ao fogo,e a facada é uma gota a mais nas chamas que já estão acesas.


Share:

Visitas

Marcadores